Para muitos a palavra “profano” simplesmente define o âmbito daquilo que não é “sagrado”. Outros definem esta palavra com matizes negativos. Profanar, sem dúvida é algo ruim. Mas de onde viria esta palavra? Alguém pode levar uma vida profana e ser santo?

Na Idade Média tornou-se muito popular representar as cenas do Evangelho por meio do teatro. Grande parte da população, principalmente de origem bárbara, eram analfabetos. As pinturas nas catedrais e as encenações bíblicas tinham esta função didático-catequética. O teatro era a catequese dos pobres. Este teatro, não raro, era representado dentro do templo. Enquanto isso, na praça, aconteciam outras apresentações que divertiam o povo. Imagine uma praça na frente da igreja, como grande local de aglomeração popular. Pois bem, isso aí é o pro-fano… ou seja, aquilo que acontece na frente (PRO) do FANUM, ou seja, do TEMPLO, em latim! Assim, o sagrado é aquilo que pertence ao âmbito do culto e o profano é aquilo que acontece fora do culto. Infelizmente a polissemia do termo “profano” se presta aos mais diversos tipos de eqüívoco.

Até o século IV o cristianismo era uma religião bem separada da vida política. Eram até perseguidos pelo Império Romano. Mas com a conversão do imperador Constantino, provavelmente em 312, todo o Império Romano tornou-se cristão da noite para o dia. Isto representou o fim das perseguições. Os cristãos poderiam finalmente sair das catacumbas e praticar livremente sua religião. De certa forma poderíamos dizer que a religião de Cristo também se converteu aos padrões do Império ao receber o título de “religião oficial”. Os efeitos deste fato duraram nada mais nada menos do que até o final do século 19. Em Portugal, Espanha e Brasil esta união entre Igreja e Estado era denominada de “padroado”. O Imperador tinha o poder até de nomear bispos. Os religiosos, por sua vez, tinham assento cativo na corte. Isto confundia os âmbitos do sagrado e do profano.

Hoje, vemos o papa Bento 16 reafirmar categoricamente que é preciso respeitar a dimensão laica. A moeda tem duas faces. Devemos dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César; ou seja, a vida tem uma dimensão que deve ser vivida no tempo, no culto, na prece, no sagrado. Mas existem coisas santas que estão na praça, no quotidiano. Sacralizar a o profano pode ser tão ruim quanto profanar o sagrado. É preciso viver a santidade na igreja e no ponto de ônibus. A Encarnação do Verbo tocou todas as dimensões da nossa existência. O profano, portanto, não é ruim, nem pecaminoso. Este tipo de equívoco semântico leva algumas pessoas a pensarem que o fato de terem se convertido exige que deixem de ouvir “música profana”. Conheci um garoto que tocava em barzinhos. Um dia ele me pediu que “consagrasse” seu violão, pois daquele dia em diante aquele intrumento sagrado somente poderia tocar na igreja. Dei a bênção e esperei para ver no que daria aquilo. Algum tempo perguntei como ele estava. A resposta foi inusitada. Disse que estava sendo fiel. Aquele violão só tocava na igreja. Teve que compra outro instrumento para tocar no barzinho… Cômico!

Existem outras palavras que definem com maior ou menor exatidão o significado do “profano”: laico (leigo), mundo, século. A palavra “mundo” é outra que se presta aos mais diferentes eqüívocos. No Evangelho de João, mundo é o paganismo; aqueles que ainda não crêem em Jesus. Já nos documentos recentes do Magistério da Igreja, “mundo” pode significar simplesmente um âmbito da vida laica, por exemplo, mundo do trabalho, mundo da política, mundo da cultura; ainda pode ser geograficamente o “orbe terreste”. Quando alguém diz que deixou as coisas do mundo pode significar que deixou o seu trabalho “mundano”, foi para a a lua, ou simplesmente abandonou práticas pagãs. Mas podemos dizer que trabalhar vendendo carros é prática pagã? Pois bem! Um jovem senhor me disse que agora que se converteu, deixou as coisas do mundo. Parou de vender carros e começou a vender tercinhos de madeira. Ele achava que o seu trabalho era uma prática mundana. Ledo engano!

É claro que existe hoje o fenômeno da “secularização”. Isto é mais comum na Europa, mas já chega por aqui. Existem jovens que não têm nenhum conhecimento e vivência do âmbito sagrado. Sua vida é somente profana. Outro fenômeno é o “laicismo”. Aproveitando o movimento de laicização dos Estados modernos, no final do século 19, muitos teimam em aprisionar a religião dentro das igrejas e impedir que seus representantes emitam qualquer tipo de opinião na vida pública. Por exemplo, um padre nunca deveria se pronunciar a respeito do aborto. Isto é coisa para ser discutida entre deputados e senadores. Nada disso. O Igreja tem uma dimensão profana. Não se assuste com esta afirmação. Pro-fano aqui significa “fora da igreja”, “para além das paredes do templo”. Ser cristão exige ir para as praças e proclamar o Evangelho ao mundo, ao século, ao “povão” (leigo – laós – povo). Sem missionário é isso. Quando Jesus mandou descer do Monte Tabor era mais ou menos isso. Não podemos ficar apenas no louvor e na prece. É preciso transformar a missa em missão. Quer um exemplo de governante que preferiria uma Igreja presa na sacristia? Veja o que faz o atual ditador da Venezuela:

24 Nov 2007 (AFP) – O presidente venezuelano, Hugo Chávez, insultou e ameaçou na sexta-feira à noite enviar para a prisão os principais religiosos do país, caso se envolvam em ações que desestabilizem seu governo, em mais uma polêmica de seu governo.

“Reitor (Luis) Ugalde, uma vez o perdoei, mas se o fizer outra vez vai parar em (na prisão) Yare, com batina e tudo (…) E você também cardeal”, disse Chávez, a respeito de declarações do reitor da Universidade Católica Andrés Bello e do cardeal Jorge Urosa Sabino contra a reforma constitucional.

O presidente venezuelano chamou de “vagabundos”, “meliantes”, “aduladores”, “estúpidos” e “retardados mentais”, entre outras coisas, a hierarquia da Igreja, que criticou em um documento público a proposta de mudança da Constituição, que será submetida a um referendo no dia 2 de dezembro.

“São o demônio, defensores dos mais podres interesses, são uns verdadeiros vagabundos, do cardeal para baixo”, disse Chávez em um polêmico programa noturno da televisão estatal.

A Igreja venezuelana divulgou em 19 de outubro um documento no qual critica a proposta constitucional porque “limita a liberdade dos venezuelanos, incrementa excessivamente o poder do Estado, elimina a descentralização e o governo controla muitos espaços da vida cidadã”.

“Que rezem 100 pais-nossos e 100 ave-marias de joelhos”, completou um irado Chávez.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2007/11/24/ult34u193624.jhtm

6 Comentários

  1. Maria Inês

    Belíssimo texto!

    É preciso levar Jesus em todos os lugares….e que Jesus esteja na Igreja… que a presença de Jesus no meio das pessoas seja uma realidade, porque os cristãos vivem de acordo, que merecem a Sua presença.

    E ai.. bem ai é Ele, Jesus no meio de nós a transformar o mundo!!!!

  2. Simone Teixeira

    Pe. Joãozinho,

    Se a Igreja como instituição não puder defender os intesses dos povos, quem poderá? Por que quando ela estava do lado do governo, dos poderosos, ninguem a criticava? Esse Hugo Chavéz é louco! Suas atitudes estão escandalizando muita gente e o povo da Venezuela está passando por um período crítico, mesmo sendo um país rico por causa do petróleo…
    Defender a vida é dever não só da Igreja instituição, como de cada Cristão que é Templo vivo de Deus! O que faz parte de nossas vidas, não é profano, porque nós somos templos também.
    Grande abraço,

    Simone.

  3. Maria Inês

    Pe Joãozinho,

    Será que foi possível entender meu comentário? Quando disse que se os cristãos viverem o Evangelho, “como”
    ensinou Jesus, nada menos que estar pronto a dar a vida pelo irmão…ai Jesus esta presente na Comunidade, como estava naquela dos primeiros cristãos.E Ele no meio de uma Comunidade faz milagres…Se devo estar pronta a dar vida…, o que é então partilhar dons espirituais e materiais????
    Deus não precisa de nós, mas Ele quer o amor uns pelos outros, para estar no meio…

    Eu morava numa chácara, com um campinho de futebol, ali além de meus filhos, reunia os garotos da mesma idade, filhos das família da Comunidade que moravam próximo…O jogo ia animado,, todas as tardes depois da escola, até que…pode imaginar garotos de 8 a uns 15 anos…
    Então eu ia lá, o jogo parava e dizia a eles, o que aconteceu pode imaginar…todos falando ao mesmo tempo, eu só ouvindo, até que se acalmavam eu lhes dizia, mas vcs estão mesmo querendo ter partida de futebol sem Jesus…porue a essa hora Ele já dobrou a esquina..como eles já sabiam o que queria dizer, RECOMEÇAVAM, perdoavam…as vezes algum com aquele bico, mas que ia dissipando e continuavam o jogo, é só isso que nós adultos temos que fazer TER JESUS NO NOSSO MEIO! e como? abraçar as cruzes….

    Inês

  4. Para ser cristão não precisa rezar o dia todo, viver dentro da igreja.

    “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se. Tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz” (Ecl 3,1-8); tempo para o sagrado e tempo para o profano.

  5. Pe Joãozinho

    Devemos nos preocupar e muito com as atitudes autoritárias do “ditador” Hugo Chávez.(amigo do Lula).
    O PT também tem demonstrado igualmente atitudes semelhantes,apesar de “dissimuladas.”
    O retrocesso político é deveras preocupante e a
    entrada da Venezuela no Mercosul muito mais.
    Temos que rezar muito.
    Abraço
    Marília

  6. Os dois últimos posts, sobre o conceito de profano e sobre ser cristão em todo lugar lembra muito uma descoberta minha dos últimos vezes, que de tão óbvia, é até vergonhoso que tenha demorado tanto para perceber. Li numa revista cristã que Cristo tinha a ver com tudo. Aí me perguntei: como assim, com tudo? Meu trabalho, minha vida pessoal, meus estudos, isso tudo tem a ver com Cristo? Aí percebi que vinha caindo na idéia de que a religião era algo reservado ao espaço privado(em Roma, havia, salvo engano, os deuses cultuados em casa), a uma dimensão individual. Era um cristianismo no quarto, sozinha, ou dentro da Igreja, mas não um cristianismo pronto a alcançar todos os lugares.Foi só então que percebi que não dá para ser cristão em casa somente. Quando se é cristão, se é cristão em qualquer lugar. Em casa, na praça, no trabalho, na praia, no bar, no show. Isso significa que a Igreja tem de cuidar da política, do trabalho e de tudo o mais ? Não, significa que, como cristã, tenho de ter determinado comportamento político, no trabalho, no show, nas festas e na Igreja. Ser cristã passa à esfera da essência, buscando o reino que não é deste mundo, os bens espirituais, porque estes são os principais, mas sem precisar dar as costas para o mundo, porque ainda somos carne.

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