A nona das doze invocações de Maria como “Rainha” saúda a Mãe de Deus como “Rainha concebida sem pecado original”, em latim Regina Sine Labe Originali Concepta. O final da ladainha acena para um dos principais dogmas marianos: ela foi preservada do pecado original. Mas qual o sentido deste dogma?

Antes é preciso recordar quais são os quatro dogmas que se referem a Maria: 1. Virgindade Perpétua; 2. Maternidade Divina; 3. Imaculada Conceição; 4. Assunção ao céu. Os dois primeiros dogmas foram definidos na Bíblia e reconhecidos pela Igreja ao longo do primeiro milênio. Os dois últimos são definições recentes da Igreja. Nenhum deles está preocupado em definir a identidade ou os méritos de Maria. Todos os dogmas marianos, na verdade são cristológicos, ou seja, defendem a natureza de Jesus Cristo como Verbo Encarnado, verdadeiramente humano e divino. Isto é importante, pois, como dizia Santo Irineu já no século 2, “o que não foi assumido, não foi redimido”. Se a encarnação foi uma farsa, então não fomos salvos pelo sacrifício de Cristo na cruz.

          No início do cristianismo algumas pessoas achavam que Jesus era simplesmente homem com aparência de Deus. Outros achavam que era Deus com aparência de homem. Era difícil acreditar que Deus infinito e onipotente pudesse se encarnar… assumir os limites de um Galileu de Nazaré! Por isso, a Igreja no Concílio de Calcedônia teve que afirmar que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem confusão nem separação.

          Ao dizer que Maria concebeu do Espírito Santo, ou seja, na virgindade, os evangelistas defendiam que Jesus não era somente humano; era Filho de Deus pela ação direta do Espírito Santo. Portanto, o dogma da “virgindade de Maria”, na verdade afirma a divindade de Jesus!

          Ao dizer que Maria é Mãe de Deus (Theotokos) a liturgia dos primeiros séculos queria afirmar que entre a natureza humana e divina de Cristo não poderia haver separação. Maria é mãe do Cristo inteiro; ou seja, a natureza divina realmente assumiu (e salvou) a natureza humana. Portanto, o dogma da “maternidade divina” de Maria, na verdade afirma a humanidade de Jesus enquanto Deus!

             Mas e o dogma da Imaculada Conceição? Esta verdade de fé demorou muito para ser aceita pelos teólogos. Mesmo Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino tiveram dificuldades de entender a Imaculada Conceição. Se Maria tivesse nascido sem o pecado original, do que então teria sido salva? Ela teria sido a única criatura que não precisou do sacrifício redentor de seu filho? É claro que não.

             Na verdade o povo e a devoção popular acreditavam neste dogma bem antes da sua definição oficial por parte da Igreja. Veja que a imagem que veneramos em Aparecida é a da Imaculada Conceição. Lembre que foi encontrada no Rio Paraíba no século 18 e o dogma da Imaculada Conceição foi definido pela Igreja somente no século 19.

             A solução para este enigma é simples. Aos poucos os teólogos foram entendendo que a salvação oferecida em Cristo é mais do que simplesmente redimir dos pecados. Maria não pecou, mas teve que ser recriada em Cristo; nele todos somos regenerados… gerados novamente para uma vida nova. O dogma da Imaculada Conceição mostra que antes do pecado original existia a graça original. Fomos criados sem defeito de fabricação. Um dia seremos novamente imaculados. Não teremos mancha. Maria nos precede na ordem da graça. Na que foi “cheia de graça” não haveria espaço para a desgraça.

             Devemos caminhar para esta meta. O céu também é conquista. A graça vai nos tornando plenos até ficarmos imaculados.

             Rainha concebida sem pecado original, rogai por nós!

 

 

7 Comentários

  1. Pingback: RCC Brasil

  2. Maria Inês

    Padre,

    Belo texto!
    Paro na última frase:Devemos caminhar para esta meta. O céu também é conquista. A graça vai nos tornando plenos até ficarmos imaculados.

    …é a Palavra de vida do mês de maio que pode nos ajudar:“Como bons administradores da multiforme graça de Deus, cada um coloque à disposição dos outros o dom que recebeu”(1 Pd 4,10)

    É imensa a variedade dos dons. Cada um de nós possui o seu e, portanto, tem a sua função específica na comunidade.

    … também a oração é um dom formidável a ser utilizado, uma vez que em cada momento você pode dirigir-se a Deus, presente em toda parte?

    Vc pode ver o comentário de Chiara Lubich da Palavra de Vida no site http://www.focolare.org.

    Maria Inês

  3. Sua benção..Querido..
    Bem , em sua boca nossa Madre Igreja, e seus dogmas, e tudo que pouco de nós católicos sabemos, apenas cremos, fica com cheiro e gosto de Céu…Obrigada por me ajudar a entender no que eu Creio.
    Sou um pouco mais Fiel e Feliz e Católica ao visitar seu blog..
    É a catequese para os que só tem a Fé….
    Bjus e que Deus lhe abençoe sempre..

  4. Simone Teixeira

    Mãe, roga por nós todos que somos pecadores, agora e no momento de nossa morte… Intercede por nós junto a Jesus em todos os momentos de nossa vida! Amém

  5. Auxiliadora Ribeiro

    Oração
    Virgem Maria Mãe do Salvador sabes, como é difícil ver um filho sofrer injustamente, sabes como é maravilhosa a maternidade, sabes o que nós mães sentimos e desejamos a nossos filhos amados, e diante deste afeto redentor e profundo abençoa-nos Senhora Intercessora da humanidade, nos Ilumina para que nossos filhos não paguem por nossas falhas de mãe, nos guarda do mau, nos amparar nos momento dos quais só a Misericórdia de Teu Filho é capaz de alcançar, Nosso Senhor quando te elegeu para ser mãe do Redentor viu em Ti a pureza, a santidade, a pedagogia materna e plena e te pedimos nos ensina a amarmos nossos Filhos como Amas-te o Teu até o fim de um começo Glorioso onde Te Consagras-te Mãe Soberana da Humanidade. Amém
    “Que Maria guarde teus dias Padre Jãoazinho e lhe admiro da todo meu coração”.
    A todas as Mães Evangelizadoras.

  6. 43. Rainha concebida sem pecado original « Padre Joãozinho, scj http://t.co/8oAP4EI vía @ shr.lc

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  8. O que diz a Tradição:
    “Desde o primeiro instante de sua concepção, foi totalmente
    preservada da mancha do pecado original e permaneceu pura
    de todo pecado pessoal ao longo de toda a sua vida” (C.I.C.
    p. 143, # 508). “Pela graça de Deus, Maria permaneceu pura
    de todo pecado pessoal ao longo de toda a sua vida” (C.I.C.
    p. 139, # 493).
    Contestação – As expressões “concebida sem pecado” e “imaculada” são comuns nas rezas
    e escritos romanos. O dogma da Imaculada Conceição de Maria foi definido no ano de 1854.
    A única forma de Maria ter sido gerada sem pecado seria mediante a intervenção direta do
    Espírito Santo no ventre de sua mãe, tal como aconteceu com Jesus. E essa exceção teria
    registro prioritário na Bíblia.
    Contrariando a Tradição, a Palavra de Deus declara de modo enfático, sem rodeios: “POIS
    TODOS PECARAM E DESTITUÍDOS ESTÃO DA GLÓRIA DE DEUS, E SÃO JUSTIFICADOS
    GRATUITAMENTE PELA SUA GRAÇA, PELA REDENÇÃO QUE HÁ EM CRISTO JESUS”
    (Romanos 3.23). Como resultado da desobediência de Adão e Eva, TODOS somos
    pecadores; todos herdamos a natureza pecaminosa do primeiro casal; todos fomos atingidos
    pelo “pecado original”. A Bíblia fala em TODOS. Todos, sem exceção. Dos santos do Antigo
    Testamento (Noé, Abraão, Moisés, Josué, Davi, Elias, Isaías, dentre outros) aos do Novo
    Testamento (Mateus, João, João Batista, Paulo, Pedro, José, Maria e outros), todos pecaram
    e necessitaram da graça de Deus para serem justificados. No Salmo 51.5, Davi reconhece a
    sua propensão natural para o pecado: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me
    concebeu minha mãe”. Maria venceu essa natureza pecaminosa porque confiava e cria em
    Deus, seu Salvador (Lucas 1.46-47).
    E ainda: “PELO QUE, COMO POR UM HOMEM ENTROU O PECADO NO MUNDO, E PELO
    PECADO A MORTE, ASSIM TAMBÉM A MORTE PASSOU A TODOS OS HOMENS,
    PORQUE TODOS PECARAM” (Rm 5.12). Ora, “semente gera semente da mesma espécie”.
    Uma semente de manga vai gerar manga. Assim acontece com a laranja, com o abacate e
    com as demais frutas. Assim aconteceu com os homens. Somos da semente de Adão. Jesus
    foi o único que não herdou a maldição do pecado porque Ele foi gerado pelo Espírito Santo.
    “Todos estão debaixo do pecado. Não há um justo. Nem um sequer” (Rm 3.9c, 10). Em lugar
    nenhum da Bíblia está escrito que a santa Maria foi uma exceção. Maria está incluída no
    “TODOS PECARAM”. A própria Maria, mãe de Jesus, reconheceu ser pecadora, quando
    disse: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu
    Salvador” (Lc 1.46-47). Ora, uma pessoa sem mácula, sem mancha, sem pecado não precisa
    de Salvador. Ela declarou que sua alma necessitava ser salva. Ela clamou pela graça
    salvadora de Deus, pois “pela graça somos salvos, mediante a nossa fé” (Efésios 2.8).
    De Jesus, porém, a Bíblia diz que “Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se achou
    engano” (1 Pedro 2.22). Jesus era humano, contudo sem pecado (2 Co 5.21; Hb 4.15; 1 Pe
    3.18; 1 Jo 3.3). A Bíblia não faz semelhante afirmação com respeito a Maria, porquanto ela
    está inclusa no “Todos pecaram”. Assim diz a Palavra de Deus.
    Em oposição a essa verdade, dizem os romanistas que para gerar um ser puro – Jesus – Maria
    teria que ser de igual modo pura, porque um ser impuro não poderia acolher um ser puro. Ora,
    se admitido como verdadeiro e correto tal raciocínio, teríamos de admitir que a mãe de Maria
    deveria ser também pura para carregar no seu ventre uma pessoa imaculada. A avó de Maria,
    por sua vez, teria que ser pura. E, nesse passo, chegaríamos ao primeiro casal Adão e Eva. E
    estaríamos dizendo que a Palavra de Deus é mentirosa, quando afirma: Todos pecaram e
    destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3.23; 5.12).
    Vejamos mais alguns versículos que confirmam a extensão do pecado de Adão e Eva a todos:
    “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós;
    para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios
    5.21). “Não há justo, nem sequer um” (Romanos 3.10). “Mas a
    Escritura encerrou tudo sob o pecado.” (Gálatas 3.22). “Não
    há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não
    peque” (Eclesiastes 7.20).

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