12. agosto 2009 · 3 comments · Categories: A - DIÁRIO · Tags:

Os “tradicionalistas” (expressão denotativa mas que sinceramente não me agrada) ultimamente têm frequentado diariamente meu BLOG. Podem ter muitos defeitos e suscitarem alguns debates um pouco repetitivos, porém em geral têm uma qualidade  bonita: estudam bastante e nos estimulam a estudar ainda mais. Por isso sou grato a eles apesar de reconhecer que sem sempre partilhamos os mesmos pontos de vista. Um dos mais educados é o CRUZADOS DE MARIA. Posto um longo e elaborado comentário que reage a minha afirmação de que os santos Tomás de Aquino e Agostinho se apoiaram na reflexão de pagãos como Platão e Aristóteles. Pena que no final o “cruzado” confessa não aceitar o Concílio Varicano II. Eu já desconfiava. Não me surpreenderei quando vierem as críticas ao Papa Bento XVI.

Padre Joãozinho,
Salve Maria!

Platão diretamente, e Aristóteles indiretamente, são discípulos de Sócrates, que morreu acusado de ateísmo, pelos gregos pagãos. Não eram homens comuns e nem eram dados a religiosidade popular grega, não podem simplesmente serem taxados de pagãos. Ainda mais quando provam a Lutero que a razão, não esta totalmente corrompida pelo pecado original, e ainda prepararam o terreno para o Cristianismo. O altar da razão natural, aquele que São Paulo encontrou no areópago em Atenas, é fruto do trabalho dos filósofos gregos, veja:

Percorrendo a cidade e considerando os monumentos do vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio!At 17

Cumpre lembrar que os pagãos não possuíam nenhuma filosofia (não eram afeitos a razão; cultuavam o instinto e os sentidos, não a inteligência), quem a possuía, eram os gentios, por isso São Paulo diz:

“Com efeito, não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força vinda de Deus para a salvação de todo o que crê, ao judeu em primeiro lugar e depois ao grego.” Rm 1,16

Dizer pura e simplesmente que Santo Tomás utilizou-se de uma filosofia pagã, é primeiramente um erro (os pagãos não tinham filosofia), e em segundo lugar, algo desproporcional a obra do Aquinate, que batizou e ultrapassou Aristóteles. Além disso, Cardeal Caetano (Um dos príncipes da filosofia tomista, e um dos seus melhores comentadores), testemunha que o Doutor Angélico, não é redutível a Aristóteles, como pode se ler:

“Doctores sacros, quia summe veneratus est, ideo intellectum omnium quodammodo sortitus est” [Porque teve a mais profunda veneração pelos santos doutores da Antiguidade, adquiriu, de certa forma, a inteligência de todos eles] (Tomás de Vio Cayetano, superior geral da Ordem dos Pregadores, Cardeal [1469–1534]).

A história da relação entre a filosofia grega e a Igreja, pode ser lida na Carta Encíclica Aeternis Patris de Leão XIII (Disponível na internet). Não se converteu o platonismo e o aristotelismo do dia para noite. Muito menos, os Santos Padres permitiram que estas filosofias adentrassem a Igreja, sem antes serem purificadas de suas vicitudes. Um processo completamente diferente do que foi feito no Concílio Vaticano II.

Como o Sr. disse, Aristóteles não conheceu e nem teve oportunidade de conhecer Jesus Cristo. Deste modo, a filosofia deste, não pode ser considerada fora dos jardins do mesmo modo que consideramos fora dos jardins da Igreja, a filosofia moderna. Enquanto Aristóteles não teve a oportunidade de ser orientado pela Igreja, todos os filósofos modernos, a tiveram, e a rejeitaram. No fim das contas, o que sobra no homem moderno (adepto da filosofia moderna) de imagem e semelhança de Deus, é apenas o atributo de Deus criador. Nada além disso.

As razões desta afirmação podem ser observadas nos efeitos produzidos pelo criacionismo do homem que se julga Deus. Cresci ouvindo que o mundo acabaria com uma guerra mundial, mas com o progresso da iniqüidade que esfria o amor nos corações, ameaça a vida no planeta, e não é necessária, uma terceira guerra mundial.

Desde que a Igreja assumiu o método moderno, com o Concílio Vaticano II (a começar por este), seus ensinamentos tornaram-se incognoscíveis. Isto sem contar que o espírito da economia de mercado (liberal) e o espírito do Concílio (Condenado por Bento XVI), são irmãos gêmeos, na aversão a regras e dogmas. Passou-se a não falar mais nos dons do Espírito Santo, virtudes, vícios, pecado, inferno, etc que foram preenchidos pela ciência.

Qual a verdade contida na filosofia moderna?

O que me transmite a filosofia moderna, é que ela tem por logus, a matéria, que não sabemos efetivamente o que é, mas tão somente que ocupa lugar no espaço. Se não sabemos o que é a matéria, e ela é elevada ao logus, as coisas tornam-se incognoscíveis, pois não existe um SER que define aquilo que as coisas são. Logo, as coisas receberam apenas nomes, e o que temos não é algo moderno, mas o nominalismo medieval de Guilherme de Ockham, desenvolvido ao máximo.

A Igreja não reconheceu nenhuma verdade no nominalismo. Não sei se o Sr. sabe, mas, o protestantismo, é o nominalismo religioso. Sobre este São Pio X na Pascendi, diz que “deu o primeiro passo para o ateísmo.” Não é um fato que as nações reformadas foram as primeiras a aprovarem leis anti-cristãs?

Quando vejo a cruz, vejo o nome de Cristo escrito em grego, latim e aramaico. Nisto vejo, também a verdadeira filosofia, o verdadeiro direito e a verdadeira religião. Tudo isto foi negado pelos povos de origem anglo-germânica, que tem em sua natureza uma postura anti-filosófica, anti-direito (acreditar que a justiça moderna, aplica o direito, é algo difícil) e anti-religiosa. Poderá se encontrar alguma verdade filosófica, naqueles que negam a Igreja, Cristo e Deus?

Fique com Deus!

Abraço

3 Comentários

  1. Pingback: RCC Brasil

  2. Para quem não aceita o Concílio Vaticano II, vale conferir São João da Cruz, o “Doutor mistico”:
    “O que Deus pretende é fazer-nos deuses por participação sendo Ele por natureza, como o fogo que transforma tudo em fogo, o que Deus pretende é fazer-nos deuses”

  3. Instruir-se da palavra de Deus e do Magistério da Igreja é realmente salutar. É dever dos sacerdotes e de todo católico buscar sua formação. Todavia, peço cuidado com a vanglória e a soberba, já enganou a muitos homens versados.
    Tenhamos a inteligência da fé aliada à humildade socrática do “So sei que nada sei”. Lembremo-nos também que muitos publicanos e meretrizes nos precedem no Reino dos Céus (Mt.21, 31).

  4. Prezado Pe Joãozinho,
    Salve Maria!

    Agradeço as considerações, muito obrigado. O termo “tradicionalistas”, é utilizado por São Pio X, na Carta Encíclica “Notre Charge Apostolique”, veja:

    “Os verdadeiros amigos do povo não são nem revolucionários, nem inovadores, mas tradicionalistas” (“Notre Charge Apostolique”, 25/8/1910)

    Quanto à questão do Concílio Vaticano II, ela é bastante complexa, e não pode se dizer, pura e simplesmente, que não o aceito.

    Não faz parte da tradição da Igreja, chegar a doutrina católica, através da leitura, mas como sempre foi crido em todos os tempos e lugares, a fé vem pelo ouvir (por isto Cristo mandou os apóstolos pregarem, não copiarem bíblias e alfabetizarem os povos). Desta maneira, recoloco a questão da seguinte maneira:

    Os fiéis do período tridentino, ao aceitarem o Magistério Tridentino, não aceitavam o Concílio Tridentino ?

    A inversão desta ordem pressupõe uma aceitação do Concílio, prescindindo do Magistério que o produz, tal como na doutrina luterana da Sola Scriptura. Um Concílio Ecumênico, é propriedade do Magistério que o produz (ele sabe o que ele significa), não do povo de Deus (que não pode receber o Concílio, no lugar do Magistério da Igreja). Tal recepção é, a recebida pela constituição, nos Estados modernos, onde o soberano é, o próprio povo. E as coisas não podem ser deste modo, nem no Estado, e nem na Igreja.

    Pio XII, ensina na Humani Generis:

    “E o divino Redentor não confiou a interpretação autêntica desse depósito a cada um dos fiéis, nem mesmo aos teólogos, mas exclusivamente ao magistério da Igreja. Se a Igreja exerce esse múnus (como o tem feito com freqüência no decurso dos séculos pelo exercício, quer ordinário, quer extraordinário desse mesmo ofício), é evidentemente falso o método que pretende explicar o claro pelo obscuro; antes, pelo contrário, faz-se mister que todos sigam a ordem inversa.” Humani Generis – Pio XII

    A postura que tenho diante do Concílio, é de apreensão, pois o Magistério que deveria me dizer o que devo obedecer, me diz que devo interpretar o Concílio, a luz da Tradição. Contudo, como ensina Pio XII, a interpretação de um Concílio, é de responsabilidade do Magistério da Igreja, não minha, ou de qualquer outro leigo. De forma que, os ensinamentos de um Concílio, não podem estar exclusivamente em seus textos, mas no Magistério que o produz. Como também ensina o mesmo Papa, o método que pretende me conferir jurisdição na interpretação do Concílio (pela tradição), é o mesmo que pretende explicar o claro, pelo obscuro, pois pela tradição católica, apenas ao Magistério compete tal função.

    Pio XII, ainda continua:

    Esse modo de falar pode parecer eloqüente, mas não carece de falácia. Pois é verdade que os romanos pontífices em geral concedem liberdade aos teólogos nas questões controvertidas entre os mais acreditados doutores; porém, a história ensina que muitas questões que antes eram objeto de livre discussão já não podem ser discutidas. Humani Generis – Pio XII

    Em todos os outros Concílios Ecumênicos, não se observa a liberdade de interpretação, que temos no Concílio Vaticano II. Repare que a liberdade concedida aos mais eminentes doutores por Pio XII é, concedida a partir do Concílio, a todos. Isto nos remete diretamente a São Clemente de Roma, que dizia em sua Carta aos Coríntios:

    ”Cada qual seja submisso a seu próximo, segundo o Dom que Deus lhe deu.”

    O ensinamento de São Clemente, por sua vez, remete nos ao capítulo inteiro de 1Cor 12, onde destaco:

    A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. 1Cor 12,7-11

    Ora, a cada um é dada à manifestação do Espírito para proveito comum. Razão pela qual, cabe somente ao Magistério, a interpretação de um Concílio Ecumênico, como também o julgamento nas questões mais controversas. Contudo, se todos podem interpretar um Concílio Ecumênico, então já não se tem mais o proveito comum, mas o individual, porque:

    São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? 1Cor 12, 29-30

    Em um contexto igualitário como o nosso, todos podem ser apóstolos, profetas e serem doutores, pois tanto a desigualdade natural (como a sobrenatural), são tidas como males pela sociedade moderna. Contudo, as Sagradas Escrituras não nos fala de igualdade, mas de semelhança: Deus e não os homens, é o dono dos dons. Repete-se aqui o mesmo comportamento de Lutero em face do povo, para ele, já não existiam mais lobos, cães e porcos, mas tão somente, o homem. O que fora ordenado para não dar o que é Santo aos Cães, na Reforma Protestante, não faz nenhum sentido, como também não o faz na Igreja, a partir do Concílio Vaticano II.

    Voltando a Pio XII, entendo que toda confusão em torno das interpretações deve-se ao fato do Concílio ter, em si mesmo, a perspectiva da Evolução do dogma (condenada por São Pio X, na Pascendi). Onde a liberdade interpretativa, corresponde a própia natureza do Concílio, ou seja, ele não proclamou dogmas, e ao tratar pastoralmente (sem especificar o que significa o termo pastoral), inseriu questões controversas no seio da Igreja. Onde a liberdade de se questioná-lo pelos mais eminentes doutores (Pio XII – Humani Generis), é plenamente válida.

    Por fim, a teoria da evolução, foi condenada por Bento XVI, nos seguintes termos:

    Sobre a origem das coisas, Joseph Ratzinger disse que existem apenas duas respostas: ou a “Razão criadora, o Espírito que faz tudo e fomenta o desenvolvimento” ou a “irracionalidade, que sem razão alguma, produz um cosmos ordenado de maneira matemática, ao homem e à razão”.
    Observo claramente que: Se por um lado, o dogma produz no homem um ordenamento para Deus e para a nova Jerusalém, a evolução do dogma, produz um ordenamento para o homem, e para o mundo tradicionalmente, inimigo de Deus. Acrescento que esta visão de mundo, é possível “somente pela fé”, como também é fruto daquela crença na razão totalmente e irremediavelmente, corrompida pelo pecado Original (a negação luterana do remédio: Eucaristia). Bem disse Karl Poppers que o racionalismo, é uma fé irracional na razão. E ainda citando Bento XVI, termino com a citação dele, a respeito da cultura iluminista:

    “Desde o Iluminismo, pelo menos uma parte da ciência se empenha com tenacidade em buscar uma explicação do mundo na qual Deus seja algo supérfluo. Assim, seria algo inútil para nossa vida. Mas a cada vez que chegam a essa conclusão, a realidade se mostra evidente. Sem Deus, as contas não fecham para o homem, para o mundo e o universo”,

    Reformulando esta última citação, e aplicando na Igreja, temos o seguinte:

    “Desde o Concílio, pelo menos uma parte da Igreja se empenha com tenacidade em buscar uma explicação dos dogmas na qual o Magistério, seja algo supérfluo. Assim, seria algo inútil para nossa vida. Mas a cada vez que chegam a essa conclusão, a realidade se mostra evidente. Sem a Igreja, as contas não fecham para o católico, para a Igreja e a tradição”

    Fique com Deus.

    Abraço

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