Pedro nos deu uma oportunidade para refletir sobre a maneira certa de interpretar a Bíblia. Segundo ele a frase do livro da Sabedoria leva a acreditar que Deus odeia com ódio relativo: “Deus odeia igualmente o ímpio e a impiedade” (Sab. XIV, 9). Vejamos o que diz a Dei Verbum sobre  intepretação da Sagrada Escritura:

“Interpretação da Sagrada Escritura

12. Como, porém, Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana (6), o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras.

Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem ser tidos também em conta, entre outras coisas, os «géneros literários». Com efeito, a verdade é proposta e expressa de modos diversos, segundo se trata de géneros histéricos, proféticos, poéticos ou outros. Importa, além disso, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, pretendeu exprimir e de facto exprimiu servindo se os géneros literários então usados (7). Com efeito, para entender rectamente o que autor sagrado quis afirmar, deve atender-se convenientemente, quer aos modos nativos de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer àqueles que costumavam empregar-se frequentemente nas relações entre os homens de então (8).

Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita (9), não menos atenção se deve dar, na investigação do recto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de toda a Igreja e a analogia da fé. Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a palavra de Deus (10).”

É claro que, considerados os gêneros literários, a cultura do redator e a unidade da Sagrada Escritura, jamais poderíamos tomar ao pé-da-letra a afirmação de que DEUS ODEIA o ímpio.

Vejamos a tradução oficial da Igreja Católica (Neo-vulgata) em sua tradução para o português brasileiro, aprovada pela CNBB:

Bendito é, pois, o lenho que se emprega corretamente,
8. maldito, porém, aquilo que é feito por mãos humanas e aquele que o fez: este, porque o fabricou, e aquele, porque, sendo corruptível, foi chamado deus!
9. Dessa forma são odiosos para Deus tanto o ímpio como a sua impiedade:
10. por isso, tanto aquilo que foi feito, como aquele que o fez, serão atormentados.
11. Assim, também para os ídolos das nações haverá julgamento porque, entre as criaturas de Deus, transformaram-se em abominação e em tentação para as pessoas, em armadilha para os pés dos insensatos.
12. Pois o princípio da prostituição é a invenção dos ídolos e a sua descoberta foi a corrupção da vida:
13. eles não existiam desde o princípio e não existirão para sempre.

 

 

Você percebe que o esforço de tradução contextualizada oferece oportunidades hermenênticas mais coerentes com o sentido inspirado do texto. Aqui não se fala que “Deus odeia”, mas que “são odiosos para Deus”. Genial. É isso mesmo. Não é Deus quem odia. É o ímpio, o pecador, que se torna odioso para Deus. O mal, desta forma, não tem origem em Deus, mas naquele que pratica a impiedade. Deus o ama, apesar de ele ser odioso. É odioso, mas não é odiado.

Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça!

5 Comentários

  1. Pois o Sr. tem a neo vulgata, eu tenho a vulgata… eis o que diz:

    8. mas o idolo, obras das maos humanas, é maldito, ELE E O SEU AUTOR; este porque de fato o fabricou, e aquele porque, sendo uma coisa frágil, foi chamado deus.

    9.porque Deus aborrece IGUALMENTE o impio e sua impiedade.

    10. e a obra será castigada juntamente com seu autor.

    11. Por esta causa nao serao poupados os idolos das nações, porque as criaturas de Deus tornaram-se um objeto de abominação, e um motivo de tentação para a alma dos homens, e um LAÇO PARA OS PÉS DOS INSENSATOS.

    12. PORQUE A IDEIA DE FAZER IDOLOS FOI O PRINCIPIO DA FORNICAÇÃO, E A SUA INVENÇÃO FOI A CORRUPÇÃO DA VIDA.

    13. porque eles nao existiam no principio, nem durarão sempre.

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  3. Antonio Carlos

    Tens razão padre.
    Esta é a forma correta de ler.
    Porém, creio que sejas exatamente este o sentido que Pedro “tentou” escrever.

    Isto comprova que, de fato, Deus ama a todos os homens. Porém Deus é Infinitamente Justo e por isso, no que se segue, lemos:

    “por isso, tanto aquilo que foi feito, como aquele que o fez, serão atormentados.”

    Continue, sempre que lhe houver tempo, esclarecendo esses pontos sinuosos. Devemos ler e interpretar sempre as escrituras de acordo com o Magistério da Igreja e louvamos a Deus quando o padres agem nesse sentido.

    Deus o abençoe

  4. Ora, eis o que foi dito por mim numa postagem abaixo:

    Se seu filho usa drogas, você é obrigado a odiar com odio relativo ao que seu filho faz, visando o Bem absoluto dele… Mas o que seu filho se torna pelas drogas, obriga-o a odiar a pessoa que ele se tornou por causa das drogas… ainda assim não é um odio absoluto, pois se dirige a pessoa, mas não ao que a pessoa era antes da droga…

    e o que o Sr. diz:

    “Aqui não se fala que “Deus odeia”, mas que “são odiosos para Deus””

    Ora, o texto faz uma distinção bem clara… que é odioso para Deus tanto a impiedade, como que a comete…

    De forma nenhum, eu NUNCA disse que o ódio tem origem em Deus… e o texto da vulgata, utiliza o verbo aborrecer, que significa sentir repugnancia pelo ato do outro…

    Ora, se odiamos uma pessoa por aquilo que ela se torna devido a uma ação, imagina um Ser de uma pureza perfeitissima, quanta repugnancia nao sentirá por uma alma desfalecida pelo pecado mortal??

    Mathias Scheeben, em seu livro, as maravilhas da graça divina, diz que uma alma morta pelo pecado mortal, é mais pestilenta e (perdoe-me a palavra) fedorenta que todos os cadaveres junto da face da terra, de todos os tempos…

    Mas é bom, que já estamos chegando ao meio termo… embora o assunto tenha sido todo desviado…

    Espero que o Sr. possa ensinar isso as ovelhas confiadas ao Sr., sempre confiando na graça divina…

    Porém, a confusão toda se deu, pq a biblia ave maria diz expressamente que Deus odeia tanto o impio como sua impiedade…

    Eu nao cometi nenhum erro em citar o que uma biblia catolica diz…

  5. Patricia-SP

    Olá Pe. Joãozinho

    Posso ousar numa interpretação pessoal e como leiga? A frase:

    maldito, porém, aquilo que é feito por mãos humanas e aquele que o fez: este, porque o fabricou, e aquele, porque, sendo corruptível, foi chamado deus!

    Metaforicamente descrevo um Grande Mar (na qual considero Deus) e neste mar navega um grande navio. Por desleixo, algo causa uma fissura no casco deste navio. Pois bem, a pequena fissura acaba por receber tamanha pressão da água que está no mar e pela própria Lei da Natureza é tomado completamente por águas até afundar!

    Aqui acrescendo (ao meu ver leigo) que Deus é o que é… nós como criaturas fomos criados e estamos a mercê deste Criador. As leis naturais que Ele criou aí está e circula naturalmente (pelo menos deveria), porém é sabido tbm que toda vez que alteramos uma destas leis teremos que arcar com as consequencias destes atos e na maioria das vezes seguesse um nocivo efeito dominó.

    Não acredito no ódio de Deus, mas no amor Dele por nós. Nós é que aceitamos ou regeitamos este amor. Nos aproximamos ou nos afastamos dele… Tanto é que não importa a dimensão do meu amor por este Deus mas sim o quando descobrimos e somos capazes de gratidão pelo AMOR que ELE tem por nós!!! E quem não quer o amor escolhe?

    Creio que Deus não está a mercê do mundo mas o mundo sim está a merce de Deus… por isso as catastrofes do dilúvio, sodoma e gomorra entre outros fatos e que hj não é muito diferente (tsuname, terremotos, queimadas, …)

    Pe. Joãozinho, sei que escrevo como leiga e estou aprendendo muito acompanhando seu Blog. mas se eu estiver equivocada, por favor, gostaria de correção!

    Abraço fraterno.

    Patricia-SP

  6. FORJANDO OS VERDADEIROS DISCIPULOS DE CRISTO POR AMOR À CAUSA DOS JUSTOS:
    O ESPÍRITO DOS SANTOS PROFETAS DESPERTA OS DISCIPULOS DO CRISTO VIVO, REVELANDO O QUE ESTÁ ESCONDIDO NAS PARÁBOLAS BÍBLICAS: (RM.9.1) – Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência; (RM.10.11) – porquanto a Escritura diz:
    (MT.15.18) – E chamando Jesus os seus discípulos, disse: (MC.14.41) Ainda dormis e repousais? Basta! (LC.8.10) – A vós outros é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; aos demais, fala-se por parábolas, para que, vendo, não vejam, e, ouvindo, não entendam: (HB.12.25) – – Tende cuidado, não recuseis ao que fala; (LC.10.24) – pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram, e ouvir o que ouvis e não ouviram; (SL.78.22) – porque não creram em Deus nem confiaram na sua salvação: Vede o que o Espírito Santo nos revela ao recompormos as 116 letras e os 4 sinais, que compõem esta parábola:
    (AP.2.7) – QUEM TEM OUVIDOS OUÇA O QUE O ESPÍRITO DIZ ÀS IGREJAS:AO VENCEDOR DAR-LHE-EI QUE SE ALIMENTE DA ÀRVORE DA VIDA, QUE SE ENCONTRA NO PARAÍSO DE DEUS:
    (LC,20.17) – Que quer dizer, pois, o que está escrito? Quer dizer que hoje podemos ler, entender e saber ensinar que:
    AGORA O CRISTO VIVO ESCREVE ENSINANDO O HOMEM A SER DE DEUS: QUER QUE O ESPÍRITO QUE É DONO DA VERDADE, ESPIRITUALIZE A ALMA QUE É DONA DA JUSTIÇA:
    (JB.14.1) – Não se turbe o vosso coração, credes em Deus, crede também em mim; (EC.12.14) – porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até mesmo as que estão escondidas, quer sejam boas quer sejam más. (JÓ.33.3) – As minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber: (LC.14.27) – E qualquer que não tomar a sua cruz e vir após mim, não pode ser meu discípulo: (JB.21.14) – Este é o discípulo que dá testemunho destas cousas e que as escreveu, e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro; (IS.28.26) pois o seu Deus assim o instrui devidamente e o ensina. ((1TS.5.18) – Em tudo daí graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus, para convosco.

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