Em alguns comentários recentes percebo que existe uma certa confusão na compreensão do que significa a “fé”. Alguém chegou a afirmar categoricamente que sua fé é imutável. Mas fé em que sentido? Isso ele não disse. Assim começam as confusões, ainda mais quando a pressa em condenar antecede a pesquisa do pensamento integral de alguém. Caçadores de “hereges” não conseguem se furtar a esta pressa e até ficam tristes quando percebem que sua vítima na verdade é ortodoxa. Isso, sinceramente, não é coisa de Deus nem de gente normal. 

A fé uma palavra polissêmica (tem vários sentidos). A Tradição destacou pelo menos dois sentidos: FIDES QUAE (a doutrina da Igreja… os artigos da fé) e a FIDES QUA (adesão pessoal à Deus, confissão de fé). Lato Sensu poderíamos falar de “fé objetiva” e “fé subjetiva”. Reproduzo abaixo um ótimo artigo do site

http://www.presbiteros.com.br/index.php/fe-e-teologia/

 

  1. A fé como pressuposto objetivo da Teologia:

Os dados revelados (os artigos da fé ou o fides quae) constituem o fundamento e a matéria prima da Teologia. O teólogo deve ser antes de tudo um crente, que aceita o Credo da Igreja segundo o sentido exato das proposições dogmáticas.

Os artigos da fé não são inventados pelos teólogos, mas lhe são transmitidos pela comunidade eclesial, que é guiada por Deus. A Teologia parte da fé e ela mesma é um ato de fé.

“À Teologia pertence o crer e à teologia pertence o pensar. A ausência de um ou do outro provocaria a dissolução da atividade teológica. Isto significa que a teologia pressupõe um novo inicio no pensar que não e produto de nossa reflexão, mas que nasce do encontra com a Palavra que nos precede[1].”

A Teologia chama ao dado revelado objetivo presente na Sagrada Escritura e na Tradição Eclesial como a expressão “depósito da fé”. O Magistério atua como um depositário, que mantém vivo o testemunho dos apóstolos e garante a sua integridade. A palavra apostólica segue, portanto, viva. Este depósito da fé possui a capacidade de se proteger contra corrupções e de se atualizar em novas situações culturais.

  1.  A fides qua como pressuposto subjetivo da Teologia:

A fé pela qual cremos é no teólogo cristão a raiz de sua Teologia. A Teologia nasce como efeito de uma fé que assume o discurso ou o proceder da razão. A razão que é instrumento da Teologia não é carismática nem racionalista, mas uma razão guiada pela fé. Entendemos aqui que a fé é a atitude interior e a conduta livre, sobrenatural e razoável dos homens e mulheres que aceitaram a revelação de Deus e tentam viver a vontade divina. A fé, portanto, é entendida com a resposta da criatura humana a Deus que se revela e a chama.

Crer é um ato pessoal, quer dizer, algo que ocorre entre dois seres pessoais. Deus se auto-comunica, se deixa encontrar e o crente responde à sua chamada. Antes de crer em algo, o fiel cristão crê em alguém.

O Concílio Vaticano II ensina que “quando Deus se revela deve-se prestar-lhe a obediência da fé (Rom. 16,26), pela qual o homem se confia livre e totalmente a Deus (se totum libere Deo committit), prestando do Deus revelador a homenagem do entendimento e da vontade, e assentindo voluntariamente à revelação feita por ele.[2]”

Se olharmos o Novo Testamento veremos:

  • a) Nos Evangelhos Sinóticos: a fé é a resposto ao chamado de Jesus, é um ato interior de confiança plena na pessoa e na autoridade de Jesus, entendido como enviado de Deus e centro do Reino que chega com ele.
  • b) São Paulo: destaca o fato de que pela fé em Deus se aceita uma mensagem de vida sob Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós (Cfr. Rom. 4, 25);
  • c) São João: a fé é um impulso interior que leva a reconhecer livremente o caráter divino de Jesus. Não tem uma causa externa porque é graça direta de Deus.
  1.  O Ato de fé:

A fé subjetiva contém as seguintes características: a) É um ato de assentimento;  b) é livre e incondicionado; c) É razoável; d) É um dom sobrenatural; e) Leva consigo um modo de viver;

  • a) É um ato de assentimento: o crente aceita verdades e mistérios que não são evidentes para a razão. “Pela fé cremos ser verdadeiro o que nos foi revelado por Deus e o cremos não pela intrínseca verdade das coisas, percebida pela luz natural da razão, mas pela autoridade do mesmo Deus que se revela que não pode se enganar, nem nos enganar.[3]” O aspecto intelectual da fé significa que a fé é conhecimento certo, não simples opinião, e que não se esgota na confiança em Deus. O crente aceita e incorpora à sua visão da realidade, verdades concretas de modo que a sua fé possui um conteúdo preciso e certo.
  • b) É livre e condicionado: “pela fé o homem se confia livre e totalmente a Deus” (D.V. 5). A fé é uma opção da vontade que se inclina para Deus e decide se entregar a Ele. Os sinais contidos na Revelação, não impelem o homem a aceita-la necessariamente. O homem permanece livre para responder a esses sinais.
  • c) É razoável: a fé supera a razão, como a graça supera à natureza, mas não a destrói nem a ignora. “Quero falar da doutrina de Cristo Salvador, a fim de que alguns não considerem o seu ensinamento demasiado rude e possam suspeitar que haja uma fé carente de razão” (Santo Atanásio). Nesse sentido também Pascal afirmava: “Se submetemos tudo à razão, nossa religião nada terá de misterioso nem de sobrenatural. Se são desprezados o princípios da razão, nossa religião será absurda e ridícula.” Os crentes tem sempre razões para crer, ainda que a fé procede sempre de uma moção da graça.
  • d) É um dom gratuito e sobrenatural: os homens não somos capazes de alcançar nenhum conhecimento salvífico sem a graça de Deus (Cfr. Concilio II de Orange, D. 373-378). A fé é um ato humano livre, mais só é possível mediante uma graça aceita pela pessoa.
  • e) A fé é o principio e a base do modo de viver segundo o Evangelho (Cfr. Rom. 6, 3-4). A fé é para vida, deve se fazer operativa e deve se realizar na vida do crente.
  1.  O Mistério Cristão e os dogmas da Igreja:

A religião crista é uma religião dogmática, quer dizer, os mistérios revelados são expressos pela Igreja em formulas de fé que traduzem as verdades divinas a linguagem humana. Os dogmas são a identidade doutrinal do cristianismo. São declarações precisas sobre a realidade sobrenatural e a confissões vivas de fé verdadeira.

Os primeiros autores cristãos aplicaram a palavra dogma aos ensinamentos e preceitos de Jesus. Orígenes fala expressamente dos dogmas de Deus como diferentes das opiniões humanas. O dogma cristão se apresenta basicamente como pronunciamento eclesial sobre a verdade religiosa. Os dogmas são princípios fundamentais que orientam o comportamento humano. O dogma não pode ser entendido como uma opinião, ou ponto de vista. É sempre formulado com rigor e precisão, que supõe veneração ao mistério que contem e também respeito e consideração ao intelecto e à sensibilidade do homem que o aceita. O dogma expressa sempre a consciência doutrinal da igreja, encerra sempre um componente eclesial e tradicional, que não pode ser eliminado.

  1.  O valor das fórmulas dogmáticas:

As fórmulas dogmáticas mantêm sempre o mesmo sentido que tinham no tempo que foram definidas pela igreja. O Concílio Vaticano I reconheceu o desenvolvimento dogmático, mas declarou que o dogma possui seu sentido próprio de uma vez para sempre e censuram aqueles que se separam desse sentido, sob o pretexto de um conhecimento superior, do progresso da ciência ou de uma interpretação mais profunda da formulação dogmática. O caráter irreversível e irreformável do dogma se encontra implícito na infalibilidade da igreja guiada pelo Espírito Santo. O Espírito faz que a igreja participe da veracidade de Deus. Paulo VI insistiu na Encíclica Mysterium Fidei (1965) na necessidade de se reter as expressões precisas dos dogmas fixados pela tradição da igreja.

O dogma nos proporciona o conhecimento certo da verdade revelada. É um conhecimento certo e imperfeito por causa dos limites da nossa inteligência, da debilidade da linguagem humana e das circunstancias históricas da formulação, que às vezes não nos permitem captar e entender bem todos os aspectos de verdade que se encontram nela. “As formulas dogmáticas devem ser consideradas como respostas a problemas precisos e é nesta perspectiva que permanecem sempre verdadeiras.[4]”

  1.  A interpretação dos dogmas:

Os dogmas necessitam interpretação para que a verdade neles contida se faça mais clara e explicita à Igreja e a todos os crentes. A interpretação dos dogmas deve responder aos seguintes princípios:

  • a) Integração de todos os dogmas na totalidade da doutrina e na vida da Igreja (D.V. 8);
  • b) Integração de cada dogma no conjunto de todos os demais, já que os dogmas não são compreendidos senão a partir dos seus nexos intrínsecos e da hierarquia de verdades (U. R. 11);
  • c) Compreensão analógica, que permite superar interpretações errôneas;
  • d) Eliminação das concepções puramente simbólicas ;
  • e) Idéia da interpretação como um processo que não é meramente intelectual, que deve ser entendido como um esforço espiritual dirigido pelo Espírito da Verdade.
  1.  O desenvolvimento dogmático:

Os dogmas não mudam, mas se desenvolvem. A verdade pode se desenvolver e receber uma nova formulação. Nesse caso, a doutrina não se corrompeu nem perdeu sua pureza evangélica. O que ocorre, é que o implícito na doutrina se torna mais explicito. Quando, por exemplo, a Igreja definiu os dogmas da Conceição Imaculada de Maria (1854), e de sua Assunção ao céu (1950), não inventou novas verdades marianas, mas declarou explicitamente aspectos que estavam contidos desde sempre no mistério de Maria. O desenvolvimento do dogma é sintoma da vida da Igreja.

O teólogo Cardeal John Newman em 1845 escreveu uma obra decisiva para explicar o desenvolvimento dogmático da Igreja, o Ensaio Sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã. Nesta obra Newman propõe sete critérios que ajudam a distinguir um desenvolvimento genuíno de um falso:

  • a) “Preservação do tipo”: conservação da formula fundamental das proporções e da relação entre as partes e o todo.
  • b) “Continuidade de princípios”: cada uma das diferentes doutrinas representa princípios que vivem num nível mais profundo.
  • c) “Poder de assimilação”: uma idéia viva demonstra sua força por sua capacidade de penetrar a realidade, de assimilar outras idéias, de estimular o pensamento, e desenvolver-se sem perder sua unidade interior.
  • d) “Coerência lógica”: as conclusões dogmáticas devem ser sempre congruentes com os dados iniciais da Revelação;
  • e) “Antecipação do futuro”: tendências que só mais tarde chegarão a sua plenitude são signos do acordo do desenvolvimento posterior com a idéia original;
  • f) “Influência protetora sobre o passado”: um verdadeiro desenvolvimento confirma os desenvolvimentos e formulações precedentes, enquanto que uma corrupção é negadora do passado;
  • g) “Vigor durável”: a corrupção conduz à desintegração; o que esse corrompe não pode durar de modo que a força vital é um critério do desenvolvimento fiel e genuíno;

 

 


 

[1] J RATZINGER, Natura e compito della teología, Millano, 1993, p.54.

[2] Constituição Dogmática Dei Verbum, n. 5.  

[3] Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, c. 3.

[4] Comissão Teológica Internacional, Unidade da fé e pluralismo teológico, tese 10.

5 Comentários

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  2. Católico Apostolico Romano

    Esta é minha profissão de fé:

    1. Quem quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica.
    2. Porque aquele que não a professar, integral e inviolavelmente, perecerá sem dúvida por toda a eternidade.
    3. A fé católica consiste em adorar um só Deus em três Pessoas e três Pessoas em um só Deus.
    4. Sem confundir as Pessoas nem separar a substância.
    5. Porque uma so é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo.
    6. Mas uma só é a divindade do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade.
    7. Tal como é o Pai, tal é o Filho, tal é o Espírito Santo.
    8. O Pai é incriado, o Filho é incriado, o Espírito Santo é incriado.
    9. O Pai é imenso, o Filho é imenso, o Espírito Santo é imenso.
    10. O Pai é eterno, o Filho é eterno, o Espírito Santo é eterno.
    11. E contudo não são três eternos, mas um só eterno.
    12. Assim como não são três incriados, nem três imensos, mas um só incriado e um só imenso.
    13. Da mesma maneira, o Pai é onipotente, o Filho é onipotente, o Espírito Santo é onipotente.
    14. E contudo não são três onipotentes, mas um só onipotente.
    15. Assim o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus.
    16. E contudo não são três deuses, mas um só Deus.
    17. Do mesmo modo, o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, o Espírito Santo é Senhor.
    18. E contudo não são três senhores, mas um só Senhor.
    19. Porque, assim como a verdade cristã nos manda confessar que cada uma das Pessoas é Deus e Senhor, do mesmo modo a religião católica nos proíbe dizer que são três deuses ou senhores.
    20. O Pai não foi feito, nem gerado, nem criado por ninguém.
    21. O Filho procede do Pai; não foi feito, nem criado, mas gerado.
    22. O Espírito Santo não foi feito, nem criado, nem gerado, mas procede do Pai e do Filho.
    23. Não há, pois, senão um só Pai, e não três Pais; um só Filho, e não três Filhos; um só Espírito Santo, e não três Espíritos Santos.
    24. E nesta Trindade não há nem mais antigo nem menos antigo, nem maior nem menor, mas as três Pessoas são coeternas e iguais entre si.
    25. De sorte que, como se disse acima, em tudo se deve adorar a unidade na Trindade e a Trindade na unidade.
    26. Quem, pois, quiser salvar-se, deve pensar assim a respeito da Trindade.
    27. Mas, para alcancar a salvacão, é necessário ainda crer firmemente na Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
    28. A pureza da nossa fé consiste, pois, em crer ainda e confessar que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem.
    29. É Deus, gerado na substância do Pai desde toda a eternidade; é homem porque nasceu, no tempo, da substância da sua Mãe.
    30. Deus perfeito e homem perfeito, com alma racional e carne humana.
    31. Igual ao Pai segundo a divindade; menor que o Pai segundo a humanidade.
    32. E embora seja Deus e homem, contudo não são dois, mas um só Cristo.
    33. É um, não porque a divindade se tenha convertido em humanidade, mas porque Deus assumiu a humanidade.
    34. Um, finalmente, não por confusão de substâncias, mas pela unidade da Pessoa.
    35. Porque, assim como a alma racional e o corpo formam um só homem, assim também a divindade e a humanidade formam um só Cristo.
    36. Ele sofreu a morte por nossa salvação, desceu aos infernos e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos.
    37. Subiu aos Ceus e está sentado a direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
    38. E quando vier, todos os homens ressuscitarão com os seus corpos, para prestar conta dos seus atos.
    39. E os que tiverem praticado o bem irão para a vida eterna, e os maus para o fogo eterno.
    40. Esta é a fé católica, e quem não a professar fiel e firmemente não se poderá salvar”.

    PAPA BENTO XVI
    AUDIÊNCIA GERAL

    Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

    Santo Atanásio

    Queridos irmãos e irmãs!

    Continuando a nossa retrospectiva dos grandes Mestres da Igreja antiga, queremos dirigir hoje a nossa atenção a Santo Atanásio de Alexandria. Este autêntico protagonista da tradição cristã, poucos anos depois da sua morte, foi celebrado como “a coluna da Igreja” pelo grande teólogo e Bispo de Constantinopla Gregório Nazianzeno (Discursos 21, 26), e foi sempre considerado como um modelo de ortodoxia, tanto no Oriente como no Ocidente. Portanto, não foi por acaso que Gian Lorenzo Bernini colocou uma sua estátua entre a dos quatro santos Doutores da Igreja oriental e ocidental juntamente com Ambrósio, João Crisóstomo e Agostinho que na maravilhosa abside da Basílica vaticana circundam a Cátedra de São Pedro.

    Atanásio foi sem dúvida um dos Padres da Igreja antiga mais importantes e venerados. Mas sobretudo este grande santo é o apaixonado teólogo da encarnação do Logos, o Verbo de Deus, que como diz o prólogo do quarto Evangelho “se fez carne e veio habitar entre nós” (Jo 1, 14).

    Precisamente por este motivo Atanásio foi também o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, que então ameaçava a fé em Cristo, reduzido a uma criatura “intermediária” entre Deus e o homem, segundo uma tendência recorrente na história e que vemos concretizada de diversas formas também hoje. Nascido provavelmente em Alexandria, no Egipto, por volta do ano 300, Atanásio recebeu uma boa educação antes de se tornar diácono e secretário do Bispo da metrópole egípcia, Alexandre. Estreito colaborador do seu Bispo, o jovem eclesiástico participou com ele no Concílio de Niceia, o primeiro de carácter ecuménico, convocado pelo imperador Constantino em Maio de 325 para garantir a unidade da Igreja. Os Padres nicenos puderam assim enfrentar várias questões, e principalmente o grave problema causado alguns anos antes pela pregação do presbítero alexandrino Ário.

    Ele, com a sua teoria, ameaçava a fé autêntica em Cristo, declarando que o Logos não era verdadeiro Deus, mas um Deus criado, um ser “intermediário” entre Deus e o homem e assim o verdadeiro Deus permanecia sempre inacessível para nós. Os Bispos reunidos em Niceia responderam preparando e fixando o “Símbolo de fé” que, completado mais tarde pelo primeiro Concílio de Constantinopla, permaneceu na tradição das diversas confissões cristãs e na liturgia como o Credo niceno-constantinopolitano. Neste texto fundamental que expressa a fé da Igreja indivisa, e que recitamos também hoje, todos os domingos, na Celebração eucarística encontra-se a palavra grega homooúsios, em latim consubstantialis: ele pretende indicar que o Filho, o logos, é “da mesma substância do Pai, é Deus de Deus, é a sua substância, e assim é posta em realce a plena divindade do Filho, que tinha sido negada pelos arianos.

    Tendo falecido o Bispo Alexandre, Atanásio tornou-se, em 328, seu sucessor como Bispo de Alexandria, e logo depois demonstrou-se decidido a recusar qualquer compromisso em relação às teorias arianas condenadas pelo Concílio niceno. A sua intransigência, tenaz e por vezes muito dura, mesmo se necessária, contra quantos se tinham oposto à sua eleição episcopal e sobretudo contra os adversários do Símbolo niceno, atraiu a implacável hostilidade dos arianos e dos filo-arianos. Apesar do inequívoco êxito do Concílio, que tinha afirmado com clareza que o Filho é da mesma substância do Pai, pouco depois destas ideias erradas voltaram a prevalecer nesta situação até Ário foi reabilitado e foram defendidas por motivos políticos pelo próprio imperador Constantino e depois pelo seu filho Constâncio II. Ele, aliás, que não se interessava tanto pela verdade teológica como pela unidade do Império e dos seus problemas políticos, pretendia politizar a fé, tornando-a mais acessível segundo a sua opinião a todos os seus súbditos no Império.

    A crise ariana, que se pensava estar resolvida em Niceia, continuou por decénios, com vicissitudes difíceis e divisões dolorosas na Igreja. E por cinco vezes durante um trinténio, entre 336 e 366 Atanásio foi obrigado a abandonar a sua cidade, transcorrendo 17 anos no exílio e sofrendo pela fé. Mas durante as suas forçadas ausências de Alexandria, o Bispo teve a oportunidade de defender e difundir no Ocidente, primeiro em Trier e depois em Roma, a fé nicena e também os ideais do monaquismo, abraçados no Egipto pelo grande eremita Antão com uma opção de vida à qual Atanásio sempre esteve próximo. Santo Antão, com a sua força espiritual, era a pessoa mais importante na defesa da fé de Santo Atanásio. Insediado de novo e definitivamente na sua sede, o Bispo de Alexandria pôde dedicar-se à pacificação religiosa e à reorganização das comunidades cristãs. Faleceu a 2 de Maio de 373, dia em que celebramos a sua memória litúrgica.

    A obra doutrinal mais famosa do santo Bispo alexandrino é o tratado Sobre a encarnação do Verbo, o Logos divino que se fez carne tornando-se como nós para a nossa salvação. Atanásio diz nesta obra, com uma afirmação que se tornou justamente célebre, que o Verbo de Deus “se fez homem para que nos tornássemos Deus; ele fez-se visível no corpo para que tivéssemos uma ideia do Pai invisível, e ele próprio suportou a violência dos homens para que nós herdássemos a incorruptibilidade” (54, 3). De facto, com a sua ressurreição o Senhor fez desaparecer a morte como se fosse “palha no fogo” (8, 4). A ideia fundamental de toda a luta teológica de Santo Atanásio era precisamente a de que Deus é acessível. Não é um Deus secundário, é o Deus verdadeiro, e através da nossa comunhão com Cristo podemos unir-nos realmente a Deus. Ele tornou-se realmente “Deus connosco”.

    Entre as obras deste grande Padre da Igreja que em boa parte permanecem ligadas às vicissitudes da crise ariana recordamos depois as quatro cartas que ele enviou ao amigo Serapião, Bispo de Thmuis, sobre a divindade do Espírito Santo, que foi afirmada com determinação, e cerca de trinta cartas “festivas”, dirigidas no início de cada ano às Igrejas e aos mosteiros do Egipto para indicar a data da festa de Páscoa, mas sobretudo para garantir os vínculos entre os fiéis, fortalecendo a sua fé e preparando-os para essa grande solenidade.

    Por fim Atanásio é também autor de textos meditativos sobre os Salmos, depois muito difundidos e sobretudo de uma obra que constitui o best seller da antiga literatura cristã: a Vida de Antão, isto é, a biografia do abade Santo Antão, escrita pouco depois da morte deste santo, precisamente enquanto o Bispo de Alexandria, exilado, vivia com os monges do deserto egípcio. Atanásio foi amigo do grande eremita, a ponto que recebeu uma das duas peles de ovelha deixadas por Antão como sua herança, juntamente com a capa que o próprio Bispo de Alexandria lhe tinha oferecido. Tendo-se tornado depressa muito popular, traduzida quase imediatamente em latim por duas vezes e depois em diversas línguas orientais, a biografia exemplar desta figura querida à tradição contribuiu muito para a difusão do monaquismo, no Oriente e no Ocidente.

    Não por acaso a literatura deste texto, em Trier, está no centro de uma emocionante narração da conversão de dois funcionários imperiais, que Agostinho coloca nas Confissões (VIII, 6, 15) como premissa da sua própria conversão. De resto, o próprio Atanásio mostra ter uma consciência clara da influência que a figura exemplar de Antão podia ter sobre o povo cristão. De facto escreve na conclusão desta obra: “Que fosse conhecido em toda a parte, por todos admirado e desejado, até por quantos não o tinham visto, é um sinal da sua virtude e da sua alma amiga de Deus. De facto, Antão não é conhecido pelos escritos nem por uma sabedoria profana nem por qualquer capacidade, mas só pela sua piedade em relação a Deus. E ninguém poderia negar que isto é um dom de Deus. De facto, como se teria ouvido falar na Espanha e na Gália, em Roma e em África deste homem, que vivia retirado entre os montes, se o não tivesse dado a conhecer em toda a parte o próprio Deus, como ele faz com quantos lhe pertencem, e como tinha anunciado a Antão desde o princípio? E também se estes agem no segredo e desejam permanecer escondidos, o Senhor mostra-os a todos como um lampadário, para que quantos ouvem falar deles saibam que é possível seguir os mandamentos e se sintam encorajados a percorrer o caminhoda virtude” (Vida de Antão 93, 5-6).

    Sim, irmãos e irmãs! Temos tantos motivos de gratidão para com Santo Atanásio. A sua vida, como a de Antão e de muitos outros santos, mostra-nos que “quem caminha para Deus não se afasta dos homens, antes, pelo contrário, torna-se-lhes verdadeiramente vizinhos” (Deus caritas est, 42).

    http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070620_po.html

  3. Católico Apostolico Romano

    Abaixo o Credo que canto todos os domingos na Missa:

    Credo in Deum Patrem omnipotentem,
    criador do céu e da terra. Creatorem caeli et terrae.
    E em Jesus Cristo, seu único Filho Nosso Senhor, Et in Iesum Christum, Filium eius unicum, Dominum nostrum,
    o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, qui conceptus est de Spiritu Sancto,
    nasceu de Maria Virgem, natus ex Maria Virgine,
    padeceu sob Pôncio Pilatus, passus sub Pontio Pilato,
    foi crucificado, morto e sepultado, crucifixus, mortuus, et sepultus,
    desceu aos infernos, descendit ad infernos,
    ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, tertia die resurrexit a mortuis,
    subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis,
    de onde há de vir a julgar os vivos e mortos. inde venturus est iudicare vivos et mortuos.
    Creio no Espírito Santo. Credo in Spiritum Sanctum,
    Na Santa Igreja Católica, sanctam Ecclesiam catholicam,
    na comunhão dos santos, sanctorum communionem,
    na remissão dos pecados, remissionem peccatorum,
    na ressurreição da carne, carnis resurrectionem,
    na vida eterna. vitam aeternam.
    Amém.

  4. Simone Teixeira

    Pe. Joãozinho,

    Queria agradecer por essa postagem. Isso é exatamente o que lhe pedi em um dos meus comentários: esclarecer pontos de vista, dando-nos a possibilidade de saber qual o pensamento da Igreja sobre o que estão dizendo. Por mais que eu leia e estude sobre os documentos da Igreja e sobre a espiritualidade, jamais terei a profundidade teológica que você tem. Tenho me encantado com a riqueza da espiritualidade dos padres do quarto século e agradeço a Deus pela possibilidade de participar da Fraternidade Nossa Senhora Guadalupe e do Mosteiro Popular, mas não vou esquecer nunca como Deus agiu e age na minha vida através de seu sacerdócio.
    Amigo, conte sempre com minha prece, meu carinho e admiração.

    Simone.

  5. Caro católico Anônimo

    Copiar coisas não é uma declaração pessoal de Fé.

    Viver a palavra vai muito além de copiar textos de lá para cá, isto não significa nem que você tenha lido o texto que foi copiado, muito menos que você vive na pratica o que foi copiado.

    Este era o problema dos judeus que nunca viveram a lei como Deus havia proposto, mas a conheciam de cor e salteado.

    Não podemos cair no erro do farisaismo.

    Paz de Jesus

  6. Católico Apostolico Romano

    Caro Sizenando,

    Não são coisas é Credo da Igreja Católica. Um deles é o credo de Santo Atanásio. O Outro é um texto do Papa Bento XVI sobre santo Atanásio. Seu comentário é simplesmente hilário.

    Adeus

    Virgo Potens, ora pro nobis

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