Decálogo para ler a Bíblia com proveito

Por Dom Mario de Gasperín Gasperín, bispo de Querétaro

QUERÉTARO, segunda-feira, 14 de setembro de 2009 (ZENIT.org-El Observador).- Por ocasião do mês da Bíblia, o bispo de Querétaro, Dom Mario de Gasperín Gasperín, biblista reconhecido, escreveu um “Decálogo para ler a Bíblia com proveito”, que compartilhamos a seguir, por considerá-lo de interesse geral.Decálogo para ler a Bíblia com proveito1. Nunca achar que somos os primeiros que leram a Santa Escritura. Muitos, muitíssimos, através dos séculos, a leram, meditaram, viveram e transmitiram. Os melhores intérpretes da Bíblia são os santos.

2. A Escritura é o livro da comunidade eclesial. Nossa leitura, ainda que seja em solidão, jamais poderá ser solitária. Para lê-la com proveito, é preciso inserir-se na grande corrente eclesial que é conduzida e guiada pelo Espírito Santo.

3. A Bíblia é “Alguém”. Por isso, é lida e celebrada ao mesmo tempo. A melhor leitura da Bíblia é a que se faz na Liturgia.

4. O centro da Sagrada Escritura é Cristo; por isso, tudo deve ser lido sob o olhar de Cristo e buscando n’Ele seu cumprimento. Cristo é a chave interpretativa da Sagrada Escritura.

5. Nunca esquecer de que na Bíblia encontramos fatos e frases, obras e palavras intimamente unidos uns aos outros; as palavras anunciam e iluminam os fatos, e os fatos realizam e confirmam as palavras.

6. Uma maneira prática e proveitosa de ler a Escritura é começar com os Santos Evangelhos, continuar com os Atos dos Apóstolos e Cartas e ir misturando com algum livro do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Juízes, Samuel etc. Não querer ler o livro do Levítico de uma só vez, por exemplo. Os Salmos devem ser o livro de oração dos grupos bíblicos. Os profetas são a “alma” do Antigo Testamento: é preciso dedicar-lhes um estudo especial.

7. A Bíblia é conquistada como a cidade de Jericó: “dando voltas”. Por isso, é bom ler os lugares paralelos. É um método interessante e muito proveitoso. Um texto esclarece o outro, segundo o que diz Santo Agostinho: “O Antigo Testamento fica patente no Novo e o Novo está latente no Antigo”.

8. A Bíblia deve ser lida e meditada com o mesmo espírito com que foi escrita. O Espírito Santo é o seu principal autor e intérprete. É preciso invocá-lo sempre antes de começar a lê-la e, no final, agradecer-lhe.

9. A Santa Bíblia nunca deve ser utilizada para criticar e condenar os demais.

10. Todo texto bíblico tem um contexto histórico em que se originou e um contexto literário em que foi escrito. Um texto bíblico, fora do sue contexto histórico e literário, é um pretexto para manipular a Palavra de Deus. Isso é tomar o nome de Deus em vão.

+ Mario de Gasperín Gasperín

Bispo de Querétaro

8 Comentários

  1. Hugo de São Vitor
    ANOTAÇÕES PRÉVIAS AO ESTUDO
    DAS SAGRADAS ESCRITURAS
    “Praenotatiunculae de Scripturis
    et Scriptoribus Sacris”

    – PL 175, 9-28 –

    II.1. Distintividade das Escrituras a serem consideradas Sagradas.
    O leitor das Sagradas Escrituras deverá aprender primeiramente como reconhecer quais são as Escrituras que devem ser dignamente honradas com o nome de Sagradas. Pois, de fato, alguns dos que ensinaram pelo espírito deste mundo deixaram escrito muitas coisas. A Lógica, a Matemática e a Física ensinam verdades, mas não são capazes de alcançar aquela verdade na qual se encontra a salvação da alma, sem a qual será inútil alcançar todas as demais verdades. Os filósofos pagãos também escreveram tratados sobre Ética, nos quais descreveram alguns membros das virtudes, truncados, porém, do corpo da bondade, pois os membros das virtudes não podem ter vida sem o corpo da caridade divina. Todas as virtudes formam um só corpo, cuja cabeça é a caridade, e os membros do corpo não podem viver se não são sensificados pela cabeça. Os escritos, pois, em que não é possível encontrar a verdade sem contaminação de erro, nem são capazes de restaurar a alma conduzindo-a ao verdadeiro conhecimento de Deus e ao amor, não são dignos de serem considerados sagrados. Somente são corretamente chamados de sagrados aqueles escritores que foram inspirados pelo Espírito de Deus e que, administrados por aqueles que falaram pelo Espírito de Deus, tornam o homem divino, restaurando-o à semelhança de Deus, instruindo-o ao seu conhecimento e exortando-o ao seu amor. Nestas Escrituras tudo o que é ensinado é a verdade; tudo o que é preceituado é a bondade; tudo o que é prometido é a felicidade. Pois Deus é verdade sem falácia, bondade sem malícia, felicidade sem miséria.
    Se queres, pois, distinguir as Escrituras Sagradas das demais que não merecem este nome, distingue primeiro e considera diligentemente por uma reta consideração a própria matéria a respeito da qual e na qual versa a sua abordagem (1).

    Duas são as obras de Deus nas quais se resume tudo o que foi feito. A primeira é a obra da criação, pela qual foram feitas as coisas que não existiam; a segunda é a obra da restauração, pela qual foram refeitas as coisas que haviam perecido. A obra da criação consiste na criação das coisas do mundo com todos os seus elementos. A obra da restauração é a Encarnação do Verbo com todos os seus mistérios, seja aqueles que o precederam desde o início dos séculos, seja aqueles que o seguiram até o fim do mundo.

    A matéria das Sagradas Escrituras deve ser considerada também quanto a esta divisão; isto é, deves considerar aquilo de que tratam e o modo com que o tratam, para que pela matéria e pelo modo possas distingüi-las do restante dos demais livros que se escrevem. De fato, a matéria de todos os demais livros consiste nas obras da criação, enquanto que a matéria das Sagradas Escrituras consiste na obra da restauração. Esta é a primeira distinção a ser feita quanto à matéria de que tratam os livros e as escrituras diversas.

    Além disto, os demais livros, se ensinam alguma verdade, não o fazem sem o contágio do erro; se parecem recomendar alguma bondade, ou ela vem mesclada com a malícia, de modo a não ser pura, ou pelo menos é sem o conhecimento e o amor de Deus, de modo a não ser perfeita (2).

    II.2. Os três sentidos das Sagradas Escrituras.
    As Sagradas Escrituras se interpretam segundo três modos de entendimento.
    A primeira interpretação é a histórica, na qual se considera a primeira significação das palavras em relação às próprias coisas sobre as quais são ditas.

    As Sagradas Escrituras, porém, possuem uma propriedade que as diferencia dos demais livros, porque aquilo que nelas é significado em primeiro lugar pelas palavras são, por sua vez, como que tantas outras palavras que nos são propostas para a significação de outras coisas.

    História vem da palavra grega `historeo’, que significa vejo e narro. Neste sentido é que se deve entender propria e estritamente o termo história; costuma, porém, esta palavra ser tomada num sentido mais amplo de modo a designar o sentido que em primeiro lugar relaciona as palavras com as coisas. Além dela, porém, existe também a significação alegórica.

    A alegoria consiste em que aquilo que é proposto pela significação da letra significa também alguma outra coisa tanto no passado, como no presente ou no futuro. O termo alegoria soa como discurso alheio, porque é dita uma coisa mas significada outra.

    Subdivide-se a alegoria em simples alegoria e anagogia.

    Ocorre simples alegoria quando por um fato visível se significa um outro fato visível.

    Ocorre anagogia, isto é, um conduzir para o alto, quando por um fato visível se declara um fato invisível.

    Para maior clareza, colocamos um exemplo destes três modos de entendimento. (Neste exemplo que será dado a seguir, Hugo se utiliza de uma outra nomenclatura que é também a mais comum em seus escritos: além do sentido literal ou histórico ele menciona o sentido alegórico sem, porém, subdividí-lo, e ao sentido alegórico acrescenta o sentido moral, também denominado por ele de sentido tropológico ou tropologia).

    Diz a Sagrada Escritura que havia um homem na terra de Hus, chamado Jó, que sendo muito rico caíu em uma tão grande miséria que sentando-se junto a um monturo ou coletor de estrume raspava com uma telha as chagas de seu corpo (3).

    O sentido histórico é evidente; passemos, portanto, ao alegórico. Na alegoria consideramos que as coisas significadas pelas palavras significam por sua vez outras coisas, e um fato significa outro fato. Jó, efetivamente, traduzido significa sofredor; significa, portanto, o Cristo, que antes estava junto às riquezas da glória do Pai sendo co-igual a Ele e condescendeu- se de nossa miséria sentando-se humilhado no monturo deste mundo, compartilhando conosco, fora o pecado, todos os nossos defeitos.

    O sentido moral é aquilo que por meio deste fato deve- se fazer, isto é, aquilo que este fato significa ser digno de ser feito. Jó pode significar qualquer alma justa ou penitente, que compõe em sua memória um monturo de todos os pecados que fez e não vez ou outra, mas perseverantemente, sentando-se e meditando sobre o mesmo, não cessa de chorar (4).

    II.3. Nem tudo o que se encontra nas Sagradas Escrituras é passível de tríplice interpretação histórica, alegórica e moral.
    Não é tudo o que se encontra nas Sagradas Escrituras que pode ser interpretado segundo estes três modos, como se cada uma de suas passagens tivesse que conter simultaneamente uma história, uma alegoria e uma tropologia. Há muitos lugares em que estes três sentidos podem ser convenientemente assinalados, mas é bastante difícil ou mesmo impossível observá-los em todo lugar. Na cítara, assim como em outros instrumentos musicais, não são todas as partes que quando percutidas ressoam música, mas apenas as cordas; as demais partes do corpo da cítara são feitas para conectar e tensionar aquelas que modularão a suavidade da melodia. Ocorre o mesmo com as Sagradas Escrituras; nela há coisas que somente podem ser entendidas espiritualmente; há outras que estão a serviço da formação dos costumes; algumas foram escritas segundo o simples sentido da história; há, finalmente, algumas outras que podem ser convenientemente comentadas segundo a história, a alegoria e a tropologia (5).

    II.4. Necessidade da interpretação literal ou histórica.
    O sentido alegórico e moral, a inteligência mística, somente pode ser apreendido a partir daquilo que o sentido literal propõe em primeiro lugar. Causa-nos, portanto, não pouca admiração e perplexidade como possa haver algumas pessoas que se gabam de serem doutos na alegoria ignorando, entretanto, a primeira significação da letra. Nós, dizem eles, ensinamos as Escrituras, não, porém, a letra; não cuidamos da letra, porque nos ocupamos apenas da alegoria.
    Mas, pergunto, como é possível ensinar a Escritura, se não se lê a letra? De fato, se tirarmos a letra, o que será da Escritura?

    Dizem eles que a letra significa uma coisa segundo a história, e outra segundo a alegoria. A palavra leão, por exemplo, segundo o sentido literal significa o animal, mas segundo o sentido alegórico significa o Cristo, porque o leão dorme de olhos abertos.

    Esta afirmação, porém, tal como está apresentada, não pode ser sustentada. Deve-se mudar a frase proposta, ou modificar a causa apontada. De fato, não é a palavra leão que dorme de olhos abertos, mas o animal que a palavra significa. Entenda-se que quando se diz que o leão significa o Cristo, não é o nome do animal que significa o Cristo, mas o próprio animal. É o animal que dorme de olhos abertos que, segundo uma determinada semelhança, representa o Cristo, porque nos dias em que estava sepultado, enquanto sua humanidade dormia o sono da morte, o Cristo mantinha os olhos abertos por causa da sua divindade que velava. Não se pode pretender, portanto, ter compreendido as Sagradas Escrituras se se ignorar o sentido literal. Ignorar a letra é ignorar aquilo que a letra significa; ora, a coisa que a letra significa é, por sua vez, um sinal de algo que deverá ser entendido espiritualmente. Como, porém, este entendimento espiritual poderá ser apreendido pelos que lêem, se o seu sinal não lhes tiver sido significado?

    Aquele, portanto, que busca o entendimento das Sagradas Escrituras deve em primeiro lugar aplicar-se à compreensão daquelas coisas que as palavras sagradas propõem de modo imediato; só depois que as tiver bem conhecido é que deve passar às demais significações, meditando e reunindo, através das semelhanças, aquilo que diz respeito à edificação da fé e à formação dos bons costumes. Deve-se, pois, compreender primeiro o que a letra significa para depois vir a se entender aquilo que é significado pela coisa significada pela letra.

    Quisemos advertir bem o leitor a este respeito para que não aconteça que venha a desprezar os primeiros rudimentos deste ensinamento. Não pense que deva ser desprezado o conhecimento daquilo que as Sagradas Escrituras nos propõem através da primeira significação da letra, porque são estas coisas que o Espírito Santo mostra aos sentidos carnais a nós, que não podemos apreender as coisas invisíveis senão através das visíveis, como simulacros de entendimentos mais elevados, levantando nossa alma à compreensão do que é espiritual através destas semelhanças que nos são propostas.

    Se, como alguns dizem, fosse possível passar da letra diretamente àquilo que deve ser entendido espiritualmente, em vão teriam sido interpostas nas Sagradas Escrituras as figuras e as semelhanças das coisas pelas quais a alma é ensinada acerca do que pertence ao espírito. Não se deve, portanto, na palavra de Deus desprezar a humildade, porque é pela humildade que somos iluminados para a divindade. Este sentido exterior da palavra de Deus pode parecer lodo para ser talvez pisado pelos pés, mas é este lodo que nossos pés pisam que foi usado pelo Cristo ao curar o cego de nascença para iluminar-lhe a vista (Jo. 9).

    Leiamos, pois, as Sagradas Escrituras, e aprendamos diligentemente em primeiro lugar aquilo que ela narra materialmente. Se imprimirmos cuidadosamente em nossa alma a forma destas coisas segundo a seqüência da narrativa, depois, através da meditação, colheremos como de um favo a doçura da inteligência espiritual (6).

    II.5. Frutos que se devem esperar da leitura das Sagradas Escrituras.
    Todos os que se aproximam da divina lição devem conhecer primeiramente quais sejam os seus frutos. Nada, de fato, deve ser buscado sem motivo; nem mesmo é possível desejar aquilo que não promete algum tipo de utilidade.
    Ora, o fruto da divina lição é duplo, pois ela ensina a ciência e ornamenta a alma de virtudes.

    A ciência diz respeito principalmente ao sentido literal e alegórico; já a instrução dos costumes diz respeito mais ao sentido tropológico. Tudo o que diz a Sagrada Escritura está ordenado a estes fins (7).

    Por isto aqueles que se dedicam ao estudo das Sagradas Escrituras não devem desprezar aquilo que é significado pelas coisas manifestadas pelo sentido literal. Os filósofos, em seus escritos, somente conhecem a significação das palavras, mas nas sagradas páginas muito mais excelente é a significação das coisas significadas pelas palavras do que a própria significação das palavras. A significação das palavras foi instituída pelos usos dos homens, enquanto que a significação das coisas foi instituída pela própria natureza. As primeiras são vozes humanas, as segundas são vozes de Deus falando aos homens. A significação das palavras depende do arbítrio dos homens, mas a significação das coisas depende apenas da natureza, e da obra do Criador que deseja significar certas coisas através de outras. Ademais, o número de significados das coisas é muito maior do que o número de significados das palavras: poucas palavras significam mais do que duas ou três coisas, enquanto que as coisas podem ter significados tão variados quantas forem as propriedades visíveis ou invisíveis que tiverem em comum com as demais coisas (8).

    http://www.cristianismo.org.br/ese-02.htm

    http://www.cristianismo.org.br/ese-03.htm

    “…8. O tríplice entendimento das Sagradas Escrituras.
    Expusemos, assim, brevemente, a ordem e o número dos livros sagrados, para que o estudante conheça a matéria que lhe é oferecida. Passemos agora ao restante do que nos interessa para a intenção da presente obra.
    Antes de tudo o mais, deve-se saber que a Sagrada Escritura pode ser entendida de três maneiras, isto é, segundo a história, segundo a alegoria e segundo a tropologia ou, de acordo com outro modo de dizer, segundo o sentido literal, o sentido alegórico e o sentido moral.

    É certo que nem tudo o que se encontra no discurso sagrado pode ser vertido nesta tríplice interpretação, como se cada lugar sempre contivesse simultaneamente uma história, uma alegoria e uma tropologia. Em muitos lugares da Escritura estas três coisas podem, de fato, ser encontradas, mas encontrá-las em todas é muito difícil ou mesmo impossível.

    Ocorre no discurso sagrado o mesmo que se observa nos instrumentos musicais, nos quais somente as cordas produzem melodia, e não tudo o que puder ser percutido, embora as demais partes sejam incorporadas ao corpo do instrumento para interligarem as cordas entre si e para que, tensionando estas cordas, possam modulá-las a fim de produzir a suavidade da melodia. É deste mesmo modo que no discurso sagrado foram postas certas coisas que somente podem ser entendidas espiritualmente; outras, que estão a serviço do importante trabalho da formação das virtudes; outras ainda, que foram escritas para serem entendidas segundo o simples sentido histórico; há, finalmente, também os lugares que podem ser explicados convenientemente tanto segundo a história, como também segundo a alegoria e segundo a tropologia.

    Vemos, assim, que Deus de modo admirável dispôs e interligou toda a Sagrada Escritura em suas partes para que tudo o que nela estivesse contido soasse com a suavidade da inteligência das cordas espirituais ou então, contendo seus mistérios esparsos na seqüência histórica e na dureza das letras, interligasse e se unisse à melodia do espírito como a concavidade da madeira do instrumento interliga em um só todo todas as cordas estendidas e recebe em si o som das cordas tornando-o mais doce aos ouvidos. Este som, de fato, é mais doce porque não foi formado apenas pelas cordas, mas também pelo corpo do instrumento. É assim que também o mel é mais agradável quando está no favo.

    É necessário, portanto, ler a Sagrada Escritura sem que se queira buscar em toda a parte uma história, uma alegoria e uma tropologia. Cada uma destas coisas deve ser assinalada em seus devidos lugares segundo o que a razão o exija convenientemente. Será freqüente, todavia, que em uma só e mesma letra possamos encontrar a todas, na medida em que a verdade da história insinua através da alegoria um mistério espiritual e demonstra, através da tropologia, como se deve agir .

    9. Nas Sagradas Escrituras também as coisas significam.
    No discurso sagrado não apenas as palavras, mas também as coisas significadas pelas palavras têm por sua vez outras significações. Trata-se de algo que só muito raramente se observa em outros escritos. Os filósofos apenas conheceram as significações das palavras, embora as significações das coisas sejam mais excelentes do que as das palavras. Estas foram instituídas pelo uso, enquanto que aquelas foram impostas pela natureza.
    As palavras são a voz dos homens, as coisas são a voz de Deus dirigida aos homens. Aquelas, quando pronunciadas, já perecem; estas, quando criadas, subsistem. A tênue voz é sinal dos sentidos; as coisas são simulacros da razão divina. O som produzido pela boca, mal principia a sua subsistência, já se desvanece. Por isso, assim como este som está para a razão da mente, assim também está qualquer espaço de tempo no qual as coisas subsistem para a eternidade. A razão da mente é uma palavra interior manifestada por uma palavra exterior que é o som da voz; assim também a divina sabedoria que o Pai exalou do seu coração, invisível em si mesma, pode ser conhecida pelas criaturas e nas criaturas.

    Pode-se, deste modo, depreender quão profundo é o entendimento que deve ser buscado nas Sagradas Letras onde pela voz se chega ao intelecto, pelo intelecto à coisa, pela coisa à razão, pela razão se chega à verdade. Os menos instruídos, não considerando isto, julgam não haver nas Escrituras nada mais sutil em que possam exercer sua inteligência; por este motivo, apenas se ocupam com os escritos dos Apóstolos, já que nada mais conseguem apreender ali senão a superfície da letra, ignorando a força da verdade .

    10. Frutos do Estudo das Sagradas Escrituras.
    Aquele que se aproxima da Sagrada Escritura para aprender deve saber primeiro qual é o fruto que pode esperar dela. Nada, de fato, pode ser buscado sem causa, e aquilo que não promete alguma utilidade não é também capaz de atrair o desejo.
    Dois são os frutos das sagradas lições. Elas nos ensinam a ciência e nos ornamentam com as virtudes. A ciência se relaciona mais com a história e a alegoria, enquanto que as virtudes com a tropologia. Todas as Sagradas Escrituras existem para este fim.

    Embora seja mais importante ser justo do que ser sábio, sei todavia que muitos buscam no estudo do sagrado discurso mais a ciência do que a virtude. Não considero reprovável, porém, a busca de nenhuma destas duas coisas; ao contrário, tenho como certo que ambas são necessárias e louváveis, pelo que passarei a tratar brevemente de cada uma delas.

    11. As Sagradas Escrituras e a formação das virtudes.
    Consideremos primeiramente o que se deve abraçar nas Escrituras para a formação das virtudes.
    Quem no discurso sagrado busca a notícia das virtudes e uma forma de vida deve dedicar-se mais aos livros que aconselham o desprezo do mundo, que acendem a alma ao amor do Criador, que ensinam o caminho do reto viver e mostram como as virtudes podem ser adquiridas e os vícios abandonados.

    É a própria Escritura que diz:

    “Buscai em primeiro lugar
    o Reino de Deus e a sua justiça”,

    Mt. 6, 33

    como se dissesse abertamente:

    “Desejai as alegrias da pátria celeste
    e buscai cuidadosamente tudo aquilo
    por cujos méritos de justiça se chega a ela”.

    Ambos são bens e ambos são necessários: amai-os e buscai-os. Quando o amor existe, não pode ficar ocioso. Quando se deseja ardentemente chegar, aprende-se como se alcança aquilo ao qual se anela.

    Esta ciência se adquire por dois modos: pelo exemplo e pela doutrina. Adquire-se pelo exemplo quando lemos os feitos dos santos; adquire-se pela doutrina quando estudamos os seus ensinamentos no que diz respeito à nossa disciplina, entre os quais se destacam os escritos do muito bem aventurado S. Gregório Magno, que resplandecem entre todos os escritos dos santos padres pela doçura de sua doutrina e pela plenitude de amor pela vida eterna de que estão repletos.

    Aquele que tiver iniciado este caminho deve procurar aprender nestes livros não apenas pela beleza do fraseado, mas também pelo estímulo que eles oferecem à prática das virtudes. Procure neles não tanto a pomposidade ou a arte das palavras, mas a beleza da verdade.

    12. Que o estudo não seja uma aflição.
    Saiba também que não chegará ao seu propósito se, movido por um vão desejo da ciência, dedicar-se às Escrituras obscuras e de profunda inteligência, nas quais a alma mais se preocupa do que se edifica; e nem também se se dedicar de tal maneira apenas ao estudo que se veja obrigado a abandonar as boas obras. Para o filósofo cristão o estudo deve ser uma exortação, e não uma preocupação; deve alimentar os bons desejos, e não secá- los.

    13. Como o estudo pode tornar-se uma aflição.
    Deve-se considerar também que o estudo costuma afligir o espírito de duas maneiras, a saber, pela sua qualidade, se se tratar de um material muito obscuro, e pela sua quantidade, se houver demais para se estudar. Em ambas estas coisas deve-se utilizar de grande moderação, para que não aconteça que aquilo que é buscado como uma refeição venha a ser utilizado para sufocar-nos.
    Há aqueles que tudo querem estudar. Tu não contendas com eles, seja-te suficiente a ti mesmo. Que nada te importe se não tiveres lido todos os livros. O número de livros é infinito, não queiras seguir o infinito. Onde não existe o fim, não pode haver repouso; onde não há repouso, não há paz; e onde não há paz, Deus não pode habitar:

    “Na paz”,

    diz o profeta,

    “fêz o seu lugar,
    e em Sião a sua morada”.

    Salmo 75, 3

    Em Sião, mas na paz; é importante ser Sião, mas não perder a paz.

    Ouve a Salomão, ouve ao sábio, e aprende a prudência:

    “Meu filho”,

    diz ele,

    “mais do que isto não busques;
    não há fim para se fazer livros,
    e a meditação freqüente é aflição da carne”.

    Ecl. 12, 12

    Onde, pois, está o fim?

    “Ouçamos, pois, todos,
    o fim deste discurso:
    teme a Deus
    e observa os seus mandamentos,
    este é todo o homem”.

    Ecl. 12, 13

    14. Três gêneros de estudantes das Sagradas Escrituras.
    Há um primeiro gênero de homens que desejam a ciência das Sagradas Escrituras para obter honra ou fama. Esta intenção é tão perversa quanto deplorável.
    Há outros a quem agrada ouvir as palavras de Deus e aprender sobre as suas obras, não porque isto possa conduzí-los à salvação, mas por serem coisas admiráveis. São pessoas que desejam investigar segredos e conhecer novidades, saber muito e não fazer nada, incapazes de se darem conta que nas coisas divinas é em vão que se admira a onipotência se não se ama a misericórdia. Elas fazem com as Escrituras o mesmo que os que freqüentam os espetáculos dos teatros e as apresentações dos músicos e dos poetas. Não se deve, porém, censurá-los; ao contrário dos anteriores, a vontade destes homens não é má, e sim imprudente. Mais do que nossa repreensão, eles necessitam de nosso auxílio.

    Há, finalmente, um terceiro gênero de homens que estudam as Sagradas Escrituras para, seguindo o preceito do Apóstolo, estarem preparados para responder a todos aqueles que lhe pedirem a razão da fé que há neles (1 Pe 3,15), para destruírem com firmeza aquilo que vai contra a verdade, para ensinarem os que sabem menos, para que eles próprios conheçam mais perfeitamente o caminho da verdade, e compreendendo de modo mais elevado os segredos de Deus, possam amá-Lo mais entranhadamente. Estes são dignos de louvor e de imitação.

    15. O estudo alegórico das Escrituras.
    Considera o exemplo da construção de um edifício. Primeiro se assentam os alicerces e depois, por cima deles, levanta-se o prédio. Finalmente, consumada a obra, a casa é revestida com as suas cores.
    Assim também no estudo das Sagradas Escrituras importa que primeiro se aprenda a história, repetindo do princípio ao fim a verdade das coisas acontecidas, confiando diligentemente à memória o que foi feito, por quem foi feito e onde foi feito. Somente será possível investigar perfeitamente as sutilezas da alegoria quem primeiro está bem fundamentado na história.

    Depois da lição da história resta investigar os mistérios das alegorias, para o que deve-se saber que esta não é matéria apropriada para espíritos tardos e obtusos. Trata-se de uma investigação que exige inteligências já maduras, possuidoras de uma sutileza incapaz de perder a prudência no discernimento. É um alimento sólido, que não pode ser engolido se não for bem mastigado. Neste estudo é necessário fazer uso de tal moderação que, à medida em que se busca a sutileza das Escrituras, a presunção não nos torne temerários, recordando-nos do que diz o Salmista:

    “Retesará o seu arco e o apontará,
    e preparará para eles dardos de morte”.

    Salmo 7, 13-14

    Observa a obra do pedreiro com um pouco mais de diligência. Assentados os alicerces, ele estende uma linha na horizontal e levanta outra na vertical. Põe então em sua devida ordem as pedras previamente polidas com esmero. Depois, busca outras e mais pedras, e se encontrar algumas que não se encaixem na primeira disposição, toma de sua lima, apara as saliências, aplaina as superfícies ásperas e reduz à forma o que antes era informe. Finalmente, acrescenta a pedra assim trabalhada à ordem em que havia disposto as anteriores.

    É um exemplo digno de imitação. Os alicerces se encontram dentro da terra, e nem sempre têm suas pedras devidamente trabalhadas e lapidadas. Já o edifício está acima da terra, e exige uma estrutura mais trabalhada, com pedras perfeitamente ajustáveis entre si.

    Assim também a sagrada página contém muitas coisas que segundo o seu sentido natural parecem contradizer-se entre si, e algumas que até mesmo parecem absurdas ou verdadeiras impossibilidades. O entendimento espiritual, entretanto, não admite nenhuma repugnância; ainda que haja nele muita diversidade, não pode haver, porém, nenhuma contrariedade.

    Não carece também de significado a primeira série de pedras assentada sobre os alicerces, dispostas segundo uma linha previamente estendida e sobre a qual se ergue e se encaixa todo o restante do edifício. Esta primeira série de pedras é como que outro alicerce, e a base de todo o edifício. Este alicerce sustenta o que lhe é superposto e é sustentado, por sua vez, pelo alicerce anterior. Sobre o primeiro alicerce repousa toda a construção; nem tudo, porém, se lhe ajusta perfeitamente; sustenta o edifício, mas está abaixo do edifício. O segundo alicerce também sustenta o edifício, porém não está apenas debaixo do edifício, mas também no edifício.

    Dizemos que o alicerce que está debaixo da terra representa a história, e que o edifício que sobre ele se levanta representa a alegoria. A base deste edifício, portanto, base que lhe serve como de um segundo alicerce, deverá também pertencer à alegoria.

    A construção é composta de muitas ordens de pedras, cada ordem possuindo o seu alicerce; assim também a divina página contém muitos mistérios, cada um possuindo os seus princípios.

    A primeira ordem é o mistério da Trindade, pois a Escritura ensina que antes que existisse qualquer criatura Deus era trino e uno.

    Já existindo trino e uno, Deus criou toda a criatura do nada, tanto as visíveis como as invisíveis; esta é a segunda ordem.

    Deu livre arbítrio à criatura racional e preparou-lhe a graça, para que pudesse merecer a eterna bem aventurança. Puniu-as por terem caído por sua livre vontade; persistindo em sua queda, confirmou-as para que não pudessem cair mais ainda. A origem do pecado, o que ele é e qual a sua pena, eis a terceira ordem.

    Os mistérios que Deus instituíu sob a lei natural para a restauração do gênero humano, eis a quarta ordem.

    As Escrituras que Ele instituíu sob a Lei, eis a quinta ordem.

    O mistério da Encarnação do Verbo, eis a sexta ordem.

    Os mistérios do Novo Testamento, eis a sétima ordem.

    Sua própria ressurreição, eis finalmente a oitava ordem.

    Esta é toda a divindade, este é aquele edifício espiritual construído e erguido para o alto com tantas ordens quantos mistérios nele se contém. Os alicerces de cada ordem são os princípios destes mistérios. Se os alicerces da história já foram assentados, resta agora assentar os alicerces do próprio edifício. A linha que deve ser estendida antes de alicerçar as primeiras pedras é o caminho da verdadeira fé; as primeiras pedras que alicerçam a obra espiritual são os mistérios da fé pelos quais esta obra se inicia. Antes, pois, de abordar o estudo da alegoria, o estudante deve procurar instruir-se de quanto diz respeito à profissão da verdadeira fé para que tudo o que vier a encontrar depois possa ser edificado com segurança. Muitos que estudam as Escrituras, por não possuírem os alicerces da verdade, caem em erros diversos, e tantas vezes mudam suas sentenças quantas vezes se aproximam da leitura das Escrituras.

    No livro de Ezequiel lemos que eram as rodas que seguiam os animais, e não os animais que seguiam as rodas:

    “E quando os animais andavam,
    andavam também as rodas junto deles;
    e quando ao animais se elevavam da terra,
    também as rodas se elevavam juntamente”.

    Ez. 1, 19

    Assim ocorre com a mente dos homens santos, que quanto mais progridem nas virtudes ou na ciência, tanto mais profundos vêem ser os arcanos das Sagradas Escrituras, e aquilo que para os homens simples e ainda presos às coisas da terra parecem coisas desprezíveis, para os espíritos mais elevados parecem sublimes.

    Continua Ezequiel:

    “Para onde o espírito ia,
    e para onde o espírito se elevava,
    as rodas, seguindo-o,
    também igualmente se elevavam.
    Porque o espírito da vida estava nas rodas”.

    Ez. 1,20

    Lemos, assim, que as rodas seguiam estes animais, e seguiam o espírito. Ainda em outro lugar está escrito:

    “A letra mata,
    o espírito, porém,
    vivifica”,

    2 Cor. 3, 6

    porque, a saber, importa que o estudante das Escrituras esteja tão consolidado no entendimento espiritual que os pontos mais importantes da letras, que algumas vezes podem ser entendidos pervertidamente, não o inclinem a desviar-se.

    Por que aquele povo tão antigo, que havia recebido a Lei da Vida, foi reprovado, senão porque seguiu de tal maneira a letra que mata que não possuíu o espírito que vivifica? Não digo estas coisas para dar a qualquer um a ocasião de interpretar as Escrituras à sua vontade, mas para mostrar que aquele que segue apenas a letra não pode permanecer muito tempo sem cair no erro. É necessário, pois, seguir a letra de tal maneira que não se dê preferência ao nosso julgamento diante daquele dos autores sagrados; e não seguir a letra de tal maneira que se julgue depender dela todo o julgamento da verdade. Não é o letrado, mas o espiritual que tudo julga (1 Cor 2,15). Não é possível, porém, julgar a letra com segurança se se presumir do próprio julgamento, mas é preciso primeiro aprender, e informar-se, e assentar o alicerce da inabalável verdade.

    16. Conclusão.
    Explicamos o que pertence ao estudo das Sagradas Escrituras o mais lúcida e compendiosamente que nos foi possível. Quanto à segunda parte do aprendizado, isto é, a meditação, dela não diremos nada no momento, por ser coisa tão importante que necessita de um tratado especial, e é mais digno silenciar inteiramente neste assunto do que dizer algo imperfeitamente.
    Roguemos, pois, agora, à Sabedoria, para que se digne resplandecer em nossos corações e iluminar-nos em seus caminhos, para introduzir-nos naquele banquete puro e sem animalidade.

    Hugo de São Vitor
    (1096-1141)

  2. Muito pertinente a colocação do Bispo de Querétaro, Dom Mario de Gasperín Gasperín. Infelizmente, a Bíblia é uma biblioteca inteira mais manipulada e mais distorcida pelos indivíduos de má-fé. Quem a distorce e manipula a seu bel-prazer, esqueceu que a Palavra se fez carne e armou a sua tenda entre nós. Vejo também muitas leituras, hermenêuticas e pouca prática. Peçamos as luzes do Santo Espírito para que a leitura das Sagradas Escrituras, à luz da Tradição e do Magistério leve multidões a uma conversão sincera e ao mesmo tempo, a atitudes concretas. A palavra é eficácia ao ler e ao agir.

    Vivat Cor Iesu per Cor Mariae

    Ricardo

  3. Hoje é dia de Nossa Senhora das Dores!

    Nossa Senhora das Dores, ora pro nobis!

    Oração à Nossa Senhora das Dores – (15 de setembro)

    Ó Mãe das Dores. Rainha dos mártires, que tanto chorastes vosso Filho, morto para me salvar, alcançai-me uma verdadeira contrição dos meus pecados e uma sincera mudança de vida.
    Mãe pela dor que experimentastes quando vosso divino Filho, no meio de tantos tormentos, inclinando a cabeça expirou à vossa vista sobre a cruz, eu vos suplico que me alcanceis uma boa morte. Por piedade, ó advogada dos pecadores, não deixeis de amparar a minha alma na aflição e no combate da terrível passagem desta vida a eternidade.
    E, como é possível que, neste momento, a palavra e a voz me faltem para pronunciar o vosso nome e o de Jesus, rogo-vos, desde já, a vós e a vosso divino Filho, que me socorrais nessa hora extrema e assim direi: Jesus e Maria, entrego-Vos a minha alma.
    Amém.

  4. Sergio Souza

    Não é preciso ressaltar a importância de nós católicos conhecermos a Sagrada Escritura garantida e ensinada pela Santa Mãe Igreja, como disse o Papa Paulo VI, “administradora da Redenção”, e tão bem apresentada pelo seu sagrado Magistério dirigido pelo Papa.

    Só isso, já nos coloca na condição, para sermos verdadeiros fiéis católicos, devemos estar em unidade com a Igreja católica, cuja sua continuidade até hoje, de maneira ininterrupta, conservando intacto o ´depósito da fé´, que recebeu do Senhor, é a sua apostolicidade; isto é, a sucessão apostólica.

    Em suma, para que não caiamos nos erros de irmãos protestantes e “católicos”, que são levados aos sabores convenientes de qualquer vento de doutrina, apostila iluminadas ou pensamentos sectários, interpretando a Bíblia como lhe convém, DEVEMOS NOS MANTER ligados e em plena comunhão com a Igreja e seus LEGÍTIMOS PASTORES, nossos Bispos. Sem essa condição, interpretar ou meditar a Bíblia, é pura lorota!

  5. Sergio Souza

    Belíssimo TEXTO DO FUNDADOR DA COMUNIDADE CANÇÃO NOVA… Lemos e meditemos:

    http://www.cancaonova.com/portal/canais/pejonas/informativos.php?id=2133

    TÍTULO: Não adianta conhecer a Palavra e não colocá-la em prática

    Esforcemo-nos por conhecer o Senhor: a chegada d’Ele é certa como a aurora (cf. Oséias 6,3a). Urge aplicar-nos em conhecê-Lo. Tomemos por exemplo os orientais: para eles, o conhecer era muito concreto, palpável, era a mesma coisa que “experimentar”. As crianças são assim, elas conhecem levando tudo à boca, precisam experimentar. É assim que o Senhor quer que você O conheça. Um conhecer experimental! Um contato vivo com o Senhor! Assim como diz este trecho do Sermão da Montanha:

    Não basta me dizer: “Senhor, Senhor!” para entrar no Reino dos céus; é preciso fazer a vontade do meu Pai que está no céus. Muitos me dirão naquele dia “Senhor, Senhor! Não foi em teu nome que nós profetizamos? Em teu nome que expulsamos aso demônios? Em teu nome que fizemos numerosos milagres?” então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” Assim, todo o que ouve estas minhas palavras e as põe em prática pode ser comparado a um homem sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos; precipitaram-se contra esta casa, e ela não desabou, pois seus fundamentos assentavam-se na rocha. E todo o que ouve as palavras que acabo de dizer e não as põe em prática pode ser comparado a um homem insensato, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos; vieram dar contra esta casa e ela desabou, e sua ruína foi total (Mateus 7,21-27).

    Muitas vezes, usa-se este trecho somente a partir do versículo 24, que diz: “Assim, todo o que ouve estas minhas palavra e as põe em prática […]” Fala-se da casa edificada na rocha e daquela que foi edificada na areia. Mas este trecho não é isolado, está ligado aos versículos anteriores. O Senhor diz:

    Não basta me dizer: “Senhor, Senhor!” para entrar no Reino dos céus; é preciso fazer a vontade do meu Pai que está no céus (Mateus 7,21).

    O Senhor fala também que dirá a muitas pessoas que pregaram em Seu nome, que fizeram milagres, que expulsaram demônios em Seu nome: “Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” (Mateus 7,23).

    É muito duro imaginar que podemos ouvir de Jesus esta palavra: “Nunca vos conheci; afastai- vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” Você pode imaginar como é possível alguém que pregou em nome de Jesus ouvir do próprio Jesus: “Nunca vos conheci; afastai- vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” Como é possível que não O tenha conhecido? Como é possível alguém que expulsou demônios em nome de Jesus receber d’Ele mesmo esse tratamento?!

    Para não ouvir do Senhor essa palavra dura, é preciso levar muito a sério as palavras que se seguem: Assim, todo o que ouve estas minhas palavras e as põe em prática pode ser comparado a um homem sensato, que construiu a sua casa sobre rocha (Mateus 7,24).

    o Senhor continua: Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos; precipitaram-se contra esta casa, e ela não desabou, pois seus fundamentos assentavam-se na rocha (Mateus 7,25).

    Por que estava edificada na rocha? Porque quem a construiu ouviu a Palavra e a colocou prática. Duas coisas são necessárias: ouvir a Palavra e colocá-la em prática. Edifica a casa na rocha aquele que faz essas duas coisas. O Senhor, logo em seguida, continua: E todo o que ouve as palavras que acabo de dizer e não as põe em prática pode ser comparado a um homem insensato, que construiu sua casa sobre a areia (Mateus 7,26).

    Quem constrói a casa sobre a areia é aquele que não ouve a Palavra? Não. Jesus é claro: “E todo o que as palavras que acabo de dizer e não as põe em prática”. Ouve a Palavra, mas não a põe em prática. Talvez conheça muito dela [Palavra], mas não a põe em prática. Esse homem é aquele que construiu a casa sobre a areia: Caiu a chuva, vieram as torrentes, sopraram os ventos; vieram dar contra esta casa e ela desabou, e sua ruína foi total (Mateus 7,27).

    Qual é a ruína? Ouvir do Senhor esta palavra: “Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” (Mateus 7,23).

    É necessário colocá-la em prática. Se lemos a palavra: “Ninguém pode servir dois senhores […]. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mateus 6,24), é necessário colocá-la em prática. Se ouvimos: “Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5,44), é para colocar essa exortação em prática, mesmo que seja difícil.

    Muitas vezes, você pode até achar: “São palavras muito lindas, poéticas… românticas até! Que Beleza! Até vale a pena escrever e colocar num cartaz bonito: fazer uma mensagem com esta palavra… Vale a pena falar aos outros a respeito dessa palavra…”

    Não, a Palavra de Deus não é para isso! Ela é como uma receita. De que adianta ter uma receita se não a fazemos? De que adianta alguém ter uma coleção enorme de receitas se não as põe em prática? É assim com a Palavra de Deus. Não adianta nada conhecer tantas coisas das Sagradas Escrituras se não as colocamos em prática. Pelo contrário, a própria Palavra que você conhece irá condená-lo: exatamente porque você a conhece e não a coloca em prática.

    Muitas vezes, não coloca a Palavra de Deus em prática porque julga que ela “não funciona”, pensando assim: “Não dá para fazer isso! Não é possível! Como é que vou amar meus inimigos? Como vou rezar por aqueles que me perseguiram, me caluniaram? Como vou perdoar uma pessoa que me fez tanto mal? Eu não consigo! Como é que vou confiar totalmente em Deus, como os lírios do campo, como as aves do céu? As aves são as aves. O lírios são os lírios. Eu sou gente. Tenho família, casa, compromissos. Preciso pagar o aluguel no final do mês, comprar comida, pagar as contas atrasadas. Preciso me preocupar com tudo isso!”

    Você julga que a Palavra de Deus é bonita, mas não é aplicável na prática. Se criamos coragem e a colocamos em prática, logo começamos a perceber que ela “funciona”. A Palavra que foi plantada em seu coração se realiza. O Espírito Santo, que está em você, lhe dá forças para vivê-la, mesmo que no início isso pareça difícil.

    Peça ao Senhor que lhe dê esta convicção: a Palavra “funciona”. É necessário, é urgente colocá-la em prática para não receber do Senhor este tratamento: “Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” (Mateus 7,23).

    (Trecho do livro “O Pão da Palavra – volume 1” de monsenhor Jonas Abib).

  6. EMILIA:QUAL A DIFERENÇA DE ACEITAR JESUS PELOS EVANGELICOS?E NOS CATOLICOS?

  7. Maria Inês

    Não existe palavra de Cristo que se assemelhe às palavras dos homens.
    Veja: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas (as necessidades da vida) vos serão dadas por acréscimo”.(Mt 6,33)

    Quem mais poderia nos prometer isto a não ser um DEUS! então não estamos sozinhos … a partir de nosso SIM, Deus quer transformar nossa vida, e ai por consequencia, vai transformando as estruturas do mundo velho em que vivemos, para um “mundo novo”!

    Maria Inês

  8. Sergio Souza

    Emília…

    O termo “aceitar Jesus” é uma expressão bem comum nos discursos “evangélicos”.

    Só por alto!

    O que é aceitar Jesus nos “evangélicos”?

    Os protestantes afirmam que seguem a Bíblia como norma de fé. Acontece, porém, que a Bíblia utilizada por todos os protestantes é uma só; em português, vem a ser a tradução de Ferreira de Almeida. Por que então não concordam entre si no tocante a pontos importantes?

    O que é aceitar Jesus nos evangélicos?

    Algumas denominações batizam crianças; outras não as batizam;
    Algumas observam o domingo; outras, o sábado;
    Algumas têm bispos; outras não os têm;
    Algumas têm hierarquia; outras entregam o governo da comunidade à própria congregação (congregacionalistas);
    Algumas fazem cálculos precisos para definir a data do fim do mundo – o que para elas é essencial. Outras não se preocupam com isto.

    Defina o que é aceitar Jesus para os “evangélicos”?

    Vê-se assim que a Mensagem Bíblica é relida e reinterpretada diversamente pelos diversos fundadores dos ramos protestantes, que desta maneira dão origem a tradições diferentes e decisivas.

    Os “evangélicos” ao romperem com a Igreja de Cristo, Igreja Católica Apostólica Romana, criaram suas próprias doutrinas, coerentes às suas próprias conveniências.

    Leia POR QUE NÃO SOU PROTESTANTE? Dom Estevão Bettencourt:

    http://pr.veritatis.com.br/index.php/ano-xxxiii-359/

    O que é aceitar Jesus na Igreja Católica?

    O que garantiu a unidade da Igreja católica, sua continuidade até hoje, de maneira ininterrupta, conservando intacto o ´depósito da fé´, que recebeu do Senhor, é a sua apostolicidade; isto é, a sucessão apostólica.

    Conferindo aos Apóstolos o encargo de dirigir a Igreja em toda a terra, Jesus estabeleceu sobre eles o que chamamos de sagrado Magistério da Igreja, constituído pelo Papa (sucessor de Pedro) e os bispos (sucessores dos Apóstolos) em comunhão com ele. Sem este Magistério oficial, querido por Jesus, o ´depósito da fé´ já estaria esfacelado, como aconteceu fora da Igreja católica.

    Na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, o Papa João Paulo II foi mais claro ainda:

    ´Para ser verdadeira a oblação da fé, aqueles que se tornam discípulos de Cristo têm o direito de receber a palavra da fé não mutilada, falsificada ou diminuída, mas sim plena e integral, com todo o seu rigor e com todo o seu vigor.

    Fonte: A Escola da Fé
    http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=IGREJA&id=igr0562

    Eis aí uma diferença básica!

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