APRESENTAÇÃO

João Carlos Almeida[1]

 

 

 

A Bíblia afirma que, no princípio, Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança; homem e mulher os criou. Michelangelo eternizou esta cena no teto da Capela Sistina, no Vaticano, com a admirável cena da “Criação”. O toque do dedo do Criador transfere sua imagem e semelhança, qual dádiva divina, à criatura humana.

Os tempos mudaram. Hoje é o ser humano quem pretende recriar “deus” à sua imagem e semelhança. Nosso artista visual, Valdemar Érico Scramin[2], expressou esta “virada antropológica” na inspirada capa deste livro. Confortavelmente deitado no seu divã, o velho Adão exibe, orgulhoso, seu instrumento de poder: o controle remoto. Deus fica aparentemente aprisionado à moderna tela de LCD, provavelmente em alta definição digital, o que não significa necessariamente uma adequada definição “real”. É apenas uma imagem. Se não se comportar bem, rapidamente será substituído por outro canal mais atraente. Nos dias de hoje, muitos preferem escolher o “seu” tipo de deus. O poder está aparentemente nas mãos de quem segura o controle remoto. No mundo da hegemonia midiática é de se perguntar se estamos diante da realidade ou de um simulacro de deus. Definitivamente a tela da TV ou do Computador não é um espelho. Não reflete com autenticidade o que Deus é! Qualquer semelhança é mera coincidência.

O artista que elaborou a capa deste livro teve ainda a idéia de colocar Deus numa espécie de reação emancipatória, diante do atrevimento humano. Por isso, sua imagem não está totalmente presa à tela da TV. Parte dela está para o lado de fora. Isto significa que – ainda que o homem moderno pretenda recriar a sua divindade – Deus continua sendo soberanamente Deus. Ele não se deixa condicionar pelos nossos mesquinhos antropomorfismos. Em algum momento somos surpreendidos pela presença inusitada de Deus na história e, quem sabe, até na mídia.

Este livro pretende ser uma contribuição para todos os que querem refletir com alguns referenciais críticos sobre a “Imagem e semelhança de Deus na Mídia”.[3] Todos os textos foram preparados especialmente para esta edição. Seus autores, de uma forma ou de outra, estão ligados à Faculdade Dehoniana, em Taubaté. Ali, o debate entre professores e estudantes precedeu a publicação desta obra que pretende socializar algumas conclusões.


[1] João Carlos Almeida é religioso e sacerdote da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos). É doutor em Teologia Sistemática (Pont. Faculdade Assunção-SP), doutor em Educação (USP) e doutor em Espiritualidade (Gregoriana–Roma). Tem intensa presença nos Meios de Comunicação Social, especialmente na TV. É o atual Diretor Geral da Faculdade Dehoniana.

[2] Valdemar Érico Scramin é religioso da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos) e aluno do Bacharelado em Teologia, na Faculdade Dehoniana, Taubaté-SP.

[3] Os textos reunidos neste livro foram fruto das reflexões e debates ocorridos na Semana Teológica da Faculdade Dehoniana, em Taubaté, em outubro de 2009.

3 Comentários

  1. Maria Rita de castro avellar

    FOI O QUE EU QUESTIONEI NO OUTRO POST…DEUS E SUA HISTÓRIA NUNCA MUDOU E NEM VAI MUDAR,QUEM MUDOU FORAM AS PESSOAS E AS IGREJAS.AGORA TEMOS QUE SABER COMO LIDAR COM ESSAS MUDANÇAS UMAS BOAS..OUTRAS NÃO…AGORA SE CADA PADRE TEM UM SACERDOTE SUPERIOR A ELE E QUE ELE TEM QUE DAR SATISFAÇÃO DO QUE ELE ESTÁ FAZENDO EM SUA PARÓQUIA,CABE AO SEU AO SEU SUPRIROR REVER SUAS PERMISSÕES.COMO O SENHOR MESMO DISSE TUDO TEM QUE TER PERMISSÃO SUPERIOR.SE A PERMISSÃO VEM LÁ DE CIMA,COMO RESOLVER ISSO?

    OBS: DEUS NÃO QUER MÍDIA,COLOCARAM “ELE”.E O QUE ELE PENSA DISSO? NÃO SABEREMOS NUNCA PORQUE ELE NÃO APARECE…MAS FALA ATRÁVES DE SEUS FILHOS QUE NÃO ESTÃO FELIZES COM ESSA EXPOSIÇÃO GRITANTE EM NOME DA EVANZELIZAÇÃO.

    S.BENÇÃO

    MARIA RITA

  2. Renata Prado

    Sua benção Pe. Joãozinho,

    Enfim, conteúdo vultuoso para analisarmos, apreendermos e palpitarmos! rsrs
    Como já escrevi em algum dos meus comentários anteriores, desejo de verdade, que este livro seja mais um dos seus sucessos e que nos conduza à reflexões transformadoras do pensar.
    Vamos combinar que só a capa, já daria uma tese interpretaviva dos significados e significantes contidos nela né e, o fato de ter uma explicação explícita da ilustração, de certa forma limita nossa divagação, então vou ponderar quanto à explicação ofertada:
    1. Sempre me questionei o que será que Michelangelo quis demonstrar quando fez a criatura tocar o Criador, pois em nenhum lugar que eu tenha conhecimento, está escrito a ordem dos tratores, ou seja, quem tocou em quem? O homem, já naquela época, não “se achava” o bastante, para também já trazer em si a arrogância de, silenciosamente, crer que Deus era sua imagem e semelhança ao invés do contrário? E se assim o fosse, então nossa mentalidade de hoje não seria mais do que a continuidade da mesma mentalidade com outra roupagem? Os historiadores não afirmam que a história se repete em ciclos, com releituras dos mesmos fatos, acrescidos de pequenas modificações, transformações e intervenções?
    2. E não seria secular também nossa disputa de poder com Deus, uma vez que estamos quase sempre, barganhando com Ele, nossas bençãos e favores? (aviso aos esquentados: estou generalizando “filosoficamente”, mas sei que a carapuça não serve a todos os cristão ok! rsrs).
    3. E para lincar meus questionamentos com a questão da mídia, eu sei muito superficialmente e, às vezes até posso estar equivocada no meu saber sobre a história do cristianismo, mas tenho uma idéia de que a mídia se separou da igreja, em relação ao tempo histórico, depois que a igreja deixou de ocupar um lugar social de detentora do poder maior, ou seja, enquanto a igreja era o poder que regia a sociedade, em caráter pleno e absoluto, tudo pertencia à igreja, então tudo sob sua tutela e encomenda era de Deus e somente aquilo que a própria rejeitava era profano ou pagão? Então, enquanto tudo era de Deus, não era necessário questionar o sagrado e o profano? Então, quando este poder se separa historicamente, a igreja passa a fazer uso do carimbo que o Pe. Léo nos apresentou: “do céu, do inferno”? Então o sagrado já em tempos remotos não era parte integrante da mídia? Então só porque a consciência de mídia de hoje se difere da antiga, isso tem que virar polêmica? E tudo que tem no mar, no ar, no fogo e na terra não é Deus? Então porque separar e atribuir à Deus uma demanda de separação? Quando dizemos que usar a mídia como meio de evangelizar é errado, nós não estamos simplesmente carimbando: “do inferno”, sem explicitar quais os critérios e aprofundamentos de valor que adotamos?
    Enfim, como já afirmei aqui, em outros comentários, questiono muito a quem cabe o poder de determinar juízo de valor sobre o que é sagrado ou profano, pois nem sempre os critérios são claros, nem aprofundados, nem isentos, nem imparciais.
    Vale questionar, duvidar e buscar entendimento, sabendo que poucas respostas e muitas outras perguntas, sempre serão encontradas.
    Renata Prado.

  3. Prezado Padre Joãozinho,

    como disse anteriormente, cabe a Michelangelo, ter criado, a “encarnação” do Pai. Em si mesma, a pintura é antropomórfica.

    Fique com Deus.

    Abraço

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