Cariocas participam da procissão levando alimentos e rezando pela paz
RIO DE JANEIRO, terça-feira, 1º de junho de 2010 (ZENIT.org).- A Arquidiocese do Rio de Janeiro promove, às 16 horas desta quinta-feira, 3 de junho, um dos maiores eventos do calendário religioso da cidade: a tradicional procissão de “Corpus Christi”, que vai reunir  mais de 80 mil pessoas nas homenagens a Cristo Eucarístico, segundo informa a arquidiocese.
O programa da festa do “Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo” começa na manhã deste dia 03 de junho, às 10 horas,  quando Dom Orani João Tempesta celebra missa solene no  Santuário da Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento que fica na igreja de Sant’Ana,à rua de Sant’Ana. A missa marca o encerramento da 84a Semana Eucarística da Arquidiocese que ali é realizada desde o dia 3 de junho em preparação a  festa de “Corpus Christi” e que tem o tema: “Mestre, onde moras?”.

Pelas ruas do centro

Na parte da tarde a Arquidiocese do Rio inicia a homenagem pública a Cristo Eucarístico, com a tradicional procissão que percorre as ruas do centro da cidade.

Na igreja da Candelária, na Praça Pio X, às 15 horas, Dom Orani preside a Oração do Ofício de Vésperas da festa de Corpus Christi, com a participação dos bispos auxiliares, sacerdotes, seminaristas e fiéis. Após o Ofício, o Santíssimo Sacramento, colocado na custódia usada no 36º Congresso Eucarístico Internacional, realizado no Rio, em 1955, será levado até o carro-andor, em estilo barroco e  usado nesse mesmo congresso.

Às 16 horas começará o deslocamento da procissão até a frente da Catedral de São Sebastião, onde estará um grande palco. Após a chegada, Dom Orani falará aos fieis e dará a bênção com o Santíssimo Sacramento.

O carro-andor é tradicionalmente puxado por uma guarnição de marinheiros e será acompanhado por uma guarda  de honra formada pelos Adoradores Noturnos, por soldados do Regimento de Polícia Montada da Policia Militar (RPMONT) e da Companhia Independente do Palácio Guanabara, em uniforme do Império (1815), além de escoteiros e pela Guarda de São Sebastião.

Saindo da igreja da Candelária, a procissão seguirá pelas Avenidas Rio Branco, Almirante Barroso e República do Chile. Durante o trajeto, os fieis poderão acompanhar melhor os cantos e orações através dos rádios de pilha e também pelo sistema de amplificação em trio-elétrico e dez carros de som, aparelhagens especiais, totalizando mais de 58 mil watts de som.

As associações religiosas Filhas de Maria, Legião de Maria, Congregados Marianos, Apostolado da Oração, Irmandades, movimentos de juventude e de apostolado leigo, Ligas Católicas, Ordens Terceiras,  representações de  colégios e do Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros,  formarão, com os fieis, o dispositivo da procissão que  começa  a  ser  armado pela Arquidiocese a partir das 14 horas, na Avenida Rio Branco no trecho entre a rua do Ouvidor e a Avenida Presidente Vargas.

Tapete na procissão

Pela primeira vez, por desejo do arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta,  será montado, na Avenida República do Chile,  um tapete por onde passará o Santíssimo Sacramento. Com uma extensão de 400 metros com 2,50 metros de largura,  o tapete é impresso e terá mais de 60 quadros religiosos e alusivos ao Ano Sacerdotal. O tapete será colocado na manhã da própria quinta-feira.

Alimentos para pessoas carentes

Novamente neste ano, na procissão de “Corpus Christi” todos os fiéis  são convidados a levarem, pelo menos, um quilo de qualquer alimento não perecível, que será doado aos mais carentes. Os fiéis deverão entregar suas doações em qualquer uma das nove kombis, nos carros de  som e no trio elétrico identificados por faixas e cartazes com a inscrição “Entregue aqui seu alimento”. Todos esses carros   estarão estacionados na  Avenida Rio Branco, no trecho entre a Avenida Presidente Vargas  e a rua do Ouvidor, a partir das 14:30 horas. As pessoas que irão aguardar a chegada da procissão na Catedral de São Sebastião, na Avenida Chile, poderão entregar suas doações naquele templo, desde as 8 horas. Nesta homenagem a “Corpus Christi”, a idéia de recolher os alimentos é uma forma simbólica de lembrar que quem caminha para o pão espiritual deve também partilhar o pão material.

Para que os presos, pessoas doentes e idosas que moram no Rio possam participar em suas casas, a emissora da Arquidiocese do Rio, a rádio Catedral FM 106,7 vai transmitir toda a procissão  e a missa solene de encerramento.

Histórico da festa de “Corpus Christi”

Celebrada em todo o mundo desde 1264, a festa de “Corpus Christi” possui a única procissão de preceito da Igreja Católica.  Isso significa que os fieis são convidados a participar desse cortejo religioso que homenageia o “Corpo de Cristo”, a Eucaristia. A instituição da Eucaristia é comemorada na Quinta-feira Santa,  mas dentro do contexto da Quaresma, não era possível fazer uma festividade. Por conta disso, a celebração de “Corpus  Christi” que já acontecia na Diocese de Liège (Bélgica), foi levada à toda Igreja católica pelo Papa Urbano IV. A festa acontece na primeira quinta-feira depois do domingo dedicado à Santíssima Trindade e, neste ano de 2010, aconteceu no domingo, 30 de maio.

3 Comentários

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  7. Oi Pe. Joãozinho, como vai? O senhor estava doente? Com dengue? Acho que deve dar uma sensação horrível no corpo não é mesmo? Mas ainda bem que passa rs

    Estes dias tem sido muito corridos para mim, tive que entregar o primeiro capitulo do meu TCC, fazer estagio em uma escola estadual para segundo grau (para falar a verdade cai feito balão na sala de aula, tava faltando professor rs) e ter que ir atrás de 5 museus para completar a carga horária de estagio obrigatório.

    Semana passada andei feito um camelo rs teve alguns museus que só cheguei à porta peguei o comprovante e voltei para trás (alguns eu já conhecia também), mas um eu tive que entrar porque os folders estavam lá dentro, é o Memorial da resistência o antigo (DEOPS- Departamento de ordem Política e Social do Estado de São Paulo), fica próximo da Estação da Luz, lá os policiais do delegado Fleury prenderam, torturam e mataram muitas pessoas… Entrei onde eram as celas, elas comportavam de 15 a 20 pessoas lá dentro com um pequeno banheiro ao

    http://rafaelfortes.files.wordpress.com/2008/06/sampa-jun-08-008.jpg

    Se tudo arrumadinho já dá uma sensação de claustrofobia imagina na época que tudo era sujo e fétido

    http://www.desaparecidospoliticos.org.br/arquivos_biblio/dops4.jpg

    Entrei em todas as celas, lá (não sei se foi apenas para ilustração ou realmente os presos políticos deixaram as suas escritas marcadas com canivete nas paredes, tinham muitas frases “eu fulano de tal estive aqui em 15/06/1970” (eu só tinha 13 dias de vida rs) ou aqui mais me comoveu “ levaram o meu bebê e pararam de me ameaçar…”).

    Teve uma hora que me voltei para uma das paredes e nela tinha fotos do filme Batismo de Sangue, principalmente as fotos da celebração da Missa na cadeia feita pelos freis dominicanos…

    Na hora me deu uma sensação tão estranha, que não sei explicar… Meu deu um vontade enorme de cantar a musica “Viver para mim é Cristo” bem alto, só cantei em pensamento rs, mas cantei!

    Sai dela bem mexida, e depois como sempre fui atrás das sutilezas de Deus rs procurando saber mais encontrei este testemunho do Frei Tito sobre a sua prisão e torturas, na primeira vez que ele tentou se matar foi para proteger os seus irmãos dominicanos, pois sabia que os militares queriam pegar todos através dele…

    Veja… Relato da tortura de Frei Tito

    Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeu.

    Fui levado do presídio Tiradentes para a “Operação Bandeirantes”, OB (Polícia do Exército), (este local fica perto da Rua Tutoia na Lapa, mas ele também esteve no DEOPS e foi torturado lá) no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”. Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.

    Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. ( agora DEOPS) Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor Dr. Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.

    Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram-me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça.

    Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me “telefones” (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do “pau-de-arara”. O interrogatório reiniciou.

    As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até as 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida. Um soldado carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.

    Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.

    Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. “Vai ter que falar senão só sai morto daqui”, gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na “cadeira do dragão” (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao “pau-de-arara”. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.

    “Nosso assunto agora é especial”, disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. “Quando venho para a OB – disse – deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede… Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo “não” que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber”. Eram três militares na sala. Um deles gritou: “Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)”. Quando respondi: “não sei” recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.

    Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte “metidos na subversão”. Partiu para a ofensa moral: “Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?”. Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido “a toque de caixa” e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo “tratamento”. Disse que a “Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo”. Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.

    Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma “explicação”. Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O “interrogatório” reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo “corredor polonês”. Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no “pau-de-arara”. Mas o capitão Albernaz objetou: “não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis”. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”.

    Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.( ele queria se matar por eles…)

    Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.( VIVER PARA MIM É CRISTO…)

    Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: “o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos”. Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a “gillete” para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pronto-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: “Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos”. No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.

    No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: “A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.

    Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliarem de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era “uma estupidez” e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.

    De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.

    É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.

    A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo
    “Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2Cor, 8-9).(muitos na Igreja foram a favor ou se omitiram perante as torturas , mas muitos lutaram contra a ditadura como os freis dominicanos, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Helder Câmara, para mim grandes heróis da Igreja!, peguei dois livros para ler a respeito que são muito bons “ A Ditadura Envergonhada e a Ditadura Escancarada de Elio Gaspari” que fala também sobre a prisão dos dominicanos).

    Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.

    Frei Tito de Alencar Lima, OP
    Fevereiro de 1970

    Abaixo segue um relato do psiquiatra que tratou do Frei Tito depois das torturas, interessante é verificar que o que os militares mais queriam era ATINGIR A IDENTIDADE DE PADRE DO FREI TITO, no relato da a entender que eles naquele momento conseguiram (ganharam) e que o Frei Tito tinha saído como perdedor, porque conseguiram a sua despoetização…( veja texto dos dominicanos anexo)

    http://www.dominicanos.org.br/textos/tito/frtito.htm

    Mas quem entende realmente os DESIGNIOS DE DEUS, não é mesmo! 40 anos depois cada pessoa que canta hoje a musica VIVER PARA MIM É CRISTO, poetisa intensamente cada momento de luta do Frei Tito e de toda a Igreja e principalmente de Jesus, pois confiaram nele… Como disse o Frei Fernando em uma das suas entrevistas “A Missa realizada na prisão foi o momento onde o céu encostou-se ao inferno.” (aqui não defendo ideologias até porque faziam parte do contexto histórico da época, aqui defendo o ATO DE FÉ” (…)SE CALAREM O SOM DA MINHA VOZ , EM SILÊNCIO ESTAREI A ORAR (…)” – AS PRÓPRIAS PEDRAS GRITARÃO!!!!

    A frase abaixo Pe. Joãozinho, como professor de Teologia o senhor sabe da onde eu tirei rs

    Quem se admira reinará. E quem reinar encontrará repouso…
    Quem procura, não descansa enquanto não encontra. Quem encontra se ADMIRA.Quem SE ADMIRA reinará. QUEM REINAR ENCONTRARÁ REPOUSO! (repouse em paz Frei Tito…)

    OBS: Na gravação do DVD poderiam convidá-los (os Dominicanos) para ir ao show!

    http://www.youtube.com/watch?v=eGsdDdvPB38

    Beijo para todos

  8. Elaine Mendes

    Olá padre, daqui a pouco estarei na procissão.
    Estou gostando muito do nosso atual bispo Dom Orani, ele está conseguindo envolver mais os católicos nas grandes celebrações, especialmente, aqueles que possuem feriados. Foi muito bom o feriado de São Sebastião e São Jorge, conseguimos mobilizar vários setores da cidade.
    Sua benção

  9. Pingback: Amanda

  10. Olá padre!
    Dia mt importante para nossa Igreja padre,dia de olhar para dentro de nós,e rever a nossa fé em Jesus Eucarístico, se doar mais aos pobres e necessitados,de firmarmos o nosso pensamento naquele que se faz pra nós fonte de vida e Salvação!
    Diante de tanta realidade, que hj estamos vivendo,na nossa Igreja,Jesus vem nós dizer que precisamos ser fortes e corajosos,para ficarmos unidos a Ele pela Santa Eucarístia.
    Fique com Deus,abraços!!

  11. Pingback: Alice

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