SUPERIORE GENERALE

CONGREGAZIONE DEI SACERDOTI

DEL SACRO CUORE DI GESÙ

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Roma, 13 maio 2010

Prot. N. 0079/2010

“Dar-vos-ei um coração novo”

Carta por ocasião da Festa do Coração de Jesus

Aos confrades Dehonianos

Aos membros da Família Dehoniana

Irmãos e irmãs,

Celebramos a Solenidade do Coração de Jesus, a um ano do XXII Capítulo Geral, que realçou a necessidade de voltar a centrar a nossa vida em Cristo e rever a nossa herança espiritual, em diálogo com o tempo em que vivemos. Com esta Festa encerra-se também o ano especialmente dedicado aos sacerdotes, que são chamados a encarnar e a exprimir, de uma forma privilegiada, na Igreja e no mundo, o amor de Cristo. Com a reflexão que vos apresentamos, queremos contribuir para viver tais eventos com um olhar sobre as nossas raízes, procurando deixar-nos conduzir pelo Espírito que renova todas as coisas.

Introdução: um caminho no Espírito

Uma Espiritualidade é um caminho, ou melhor, o guia para o caminho, pois o próprio Cristo é que é o caminho, motivação, guia e meta da viagem. Os carismas ou as diferentes “espiritualidades” na Igreja não dividem mas enriquecem o caminho da vida cristã, com motivações, estratégias, momentos de pausa e de motivação, com vistas panorâmicas, objectivos e pontos de esforço. Tudo isto tem como finalidade treinar e ajudar os caminhantes ou peregrinos a encontrar a alegria e a motivação do caminhar juntos, a não perder de vista as metas a alcançar, a ajudar os demais peregrinos na sua viagem da vida.

Na Igreja, um dom carismático ou uma espiritualidade podem compreender-se à luz do episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35). Na sua caminhada, estes dois peregrinos fizeram a experiência pessoal da presença do Senhor ressuscitado que mudou radicalmente a sua viagem. Esse encontro fê-los regressar à comunidade, a Jerusalém, onde ouviram os apóstolos anunciar-lhes: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente!”. A narração da sua experiência pessoal, que fizeram à comunidade, não substitui nem entra em conflito com a proclamação dos apóstolos, que está na base da fé de toda a Igreja. Antes, a enriquece, oferece-lhe um exemplo e fá-la concreta, tornando-se, ao mesmo tempo, indicação de caminho para tantos outros, até aos nossos dias.

Como para os discípulos de Emaús, as heranças espirituais na Igreja são como manuais de viagem, fruto da experiência de alguém ou de um grupo, que fez o percurso e partilhou com outros o que ouviu, sofreu, sonhou e esperou, à luz do Espírito. Tais experiências estão marcadas pelo tempo, pelas circunstâncias e pelas próprias pessoas que as fizeram. Mas, como expressões da presença do Espírito do Senhor ressuscitado, tornam-se fonte de comunhão, de vida e de caminho para a comunidade. Por isso, a vitalidade destas guias exige repensamento e adequação constantes, para responder às condições do tempo e do ambiente, às circunstâncias históricas e a cada grupo de pessoas em caminho. Tal é o desafio que nos é lançado hoje: redescobrir e refazer a experiência do Senhor ressuscitado, vivida e narrada pelo Padre Dehon, como indicação de caminho, a viver e a comunicar à Igreja.

Na hora da morte, o Padre Dehon deu-nos uma indicação que considerava essencial para compreender e viver a sua experiência espiritual: “Deixo-vos o mais maravilhoso dos tesouros, o Coração de Jesus” (Cf. Testamento Espiritual). Em tais circunstâncias, essa indicação não é uma simples ou piedosa recomendação, mas o núcleo da sua experiência pessoal; o que o motivou, amparou e iluminou na sua vida e no seu ministério, levando-o inclusive à fundação da Congregação. Uma tal experiência, como dizem as nossas Constituições no n.º 2, inspira-se no que o apóstolo Paulo apresenta como centro da própria vida: “Esta vida na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim” (Ga 2,20). Tem ela, portanto, um valor fundacional e caracterizante para todos os que queiram seguir o seu mesmo caminho.

Bem sabemos que esta experiência espiritual se insere em correntes de pensamento e de espiritualidade seculares, que florescem no tempo do Padre Dehon, influenciadas pelas circunstâncias históricas da Igreja e da sociedade. Para diversas gerações de cristãos, o ícone do Coração de Jesus foi a forma de se aproximar do amor e da compaixão de Deus, quando expressões teológicas e litúrgicas levavam muitas vezes a considerá-l’O distante. A renovação teológica e litúrgica que conflui no Concílio Vaticano II fez sentir a necessidade de rever, purificar e exprimir, de forma nova, os contornos dessa espiritualidade. Por vezes, porém, com a superação de certas concepções e expressões e com o desejo de purificá-las, eliminaram-se apressadamente também aspectos muito importantes, com o risco de “deitar fora a criança com a água do banho”.

Há, portanto, que ter bem presente o que realmente é válido nesta corrente espiritual, de modo especial na forma como se encontra no Padre Dehon, de modo a poder vivê-la e reexprimi-la na Igreja e no mundo de hoje, sem ter de reproduzir modalidades e expressões próprias de outras épocas históricas. O próprio Fundador nos sugere o modo de realizar essa renovação. De facto, a sua visão do “Coração de Jesus”, situa-se, certamente, no contexto do seu tempo, mas nutre-se profundamente na Sagrada Escritura, que cita nos seus escritos com uma frequência nada comum nos seus dias. Seguindo as suas peugadas, através do caminho da Palavra de Deus, podemos ter um fundamento comum para compreender os princípios fundamentais e as fontes de inspiração e de alimento dessa experiência espiritual.

Na tradição bíblica, de facto, muito antes do que na espiritualidade cristã, o coração, em sentido figurativo-simbólico, ocupa um espaço singular na compreensão da pessoa humana e das suas relações com as outras pessoas e com Deus. Enquanto, na cultura ocidental, a simbologia do coração evoca a emocionalidade e a afectividade/amor, na mentalidade bíblica liga-se, antes de mais, ao conhecimento, à memória, à vontade e capacidade de decidir. Além disso, falar com o coração não significa indicar um sector ou uma parte da pessoa, mas a globalidade do seu ser, a sua interioridade em oposição ao que é superficial, a verdade íntima em relação ao que é simplesmente aparente, provisório ou enganador.

A dimensão do coração é muito importante nas relações interpessoais. Nestas, o coração exprime, antes de mais, verdade e transparência, mas também amabilidade e ternura de relação. Expor ou “extravasar” o próprio coração significa revelar os próprios sentimentos ou pensamentos, o segredo da própria existência; ao passo que ter acesso ou falar ao coração de alguém indica conhecimento íntimo do outro e comunicação de afecto. O coração de alguém é o seu segredo profundo, que só é conhecido na medida em que a própria pessoa se revela e entra em comunicação com outras.

Não admira, portanto, que “o coração”, isto é, o homem na sua verdade pessoal e íntima, seja o campo por excelência da relação com Deus. O Criador conhece os seus impulsos mais íntimos, cura as suas feridas, quebra a sua dureza, instrui-o e renova-o. Por isso, consciente da fraqueza e desvios do coração humano, Deus anuncia, por boca do profeta Ezequiel, o dom de um coração novo, por obra do seu Espírito, como sinal e antecipação dos tempos novos da salvação: “Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um Espírito novo” (Ez 36,26).

1. Olhar para o Coração de Cristo

À luz do que se acaba de expor, falar do “Coração de Jesus”, ou do “Coração de Cristo”, não é uma referência a uma parte ou dimensão do seu ser, mas à totalidade da sua pessoa e das suas relações com o Pai e com as outras pessoas. É, ao mesmo tempo, dom e convite ao conhecimento e à experiência do seu ser, do segredo da sua vida e missão.

Antes de mais, o “Coração” leva a olhar para a humanidade de Jesus, como Verbo feito carne e que veio habitar entre nós (Jo 1,14). Nos seus gestos, pode-se contemplar a solicitude de Deus pela humanidade, a sua proximidade a toda a pessoa, independentemente da sua raça, cultura ou condição social; a prioridade da atenção aos mais pequenos, aos que sofrem e são marginalizados; a fidelidade do amor, mesmo perante a recusa, o sofrimento e a morte. O “Coração relacional” de Cristo exemplifica, de forma humana, o imperecível amor de Deus para com a sua criatura predilecta: o ser humano, mas é, ao mesmo tempo, expressão do melhor que o ser humano pode ser, nas relações com os outros e com o Criador. Por isso, apresenta-se como modelo a seguir e a imitar – “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29) – numa clara referência às bem-aventuranças, que descrevem o ideal da vida humana a partir do seu íntimo, do seu coração (Mt 5,3-12). É a partir desta sua humanidade, como Emanuel (Deus connosco), que Jesus Se torna, ao mesmo tempo, revelação do amor de Deus e modelo que se pode imitar, caminho possível para todo o homem e mulher deste mundo.

Os gestos e palavras de Jesus, a proximidade com os seus, levam a interrogar-se sobre a sua verdadeira identidade, sobre o íntimo segredo do seu ser, sobre o seu “Coração”. Esta é a pergunta que assoma aos lábios das multidões e dos discípulos, ao longo de todo o Evangelho, e que encontra resposta, na medida que Ele mesmo Se revela e os discípulos se avizinham do seu mistério. E o que lhes é dado contemplar é que Jesus não é apenas o que há de melhor no ser humano, mas é o homem novo na plenitude do Espírito, o Filho de Deus. Não é o simples resultado de um aperfeiçoamento do ser humano, mas uma intervenção radicalmente nova de Deus, que dá início a uma nova humanidade pela efusão do seu Espírito, segundo a revelação do baptismo junto do Jordão (Mc 1, 9-11) e a figura do novo Adão na apresentação do apóstolo Paulo (cf. Rm 5,12-21).

Mas Cristo não é só a exemplificação do homem novo, na plenitude do Espírito do Pai; é também aquele que baptiza no Espírito. Segundo o anúncio de João Baptista, onde ecoa a profecia do coração novo do profeta Ezequiel, a verdadeira transformação do ser humano, segundo o projecto de Deus, não é fruto apenas dos esforços de arrependimento e de conversão (o baptismo de água), mas do dom do próprio Espírito de Deus, que Jesus possui em plenitude: “Eu baptizo-vos com água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo” (Mc 1,8).

A revelação de Jesus como fonte do Espírito é muito cara ao Evangelho de João, que culmina no episódio do lado trespassado de Jesus, donde brotam sangue e água, sinais da vida e do Espírito derramados sobre a humanidade (Jo 19,31-37). No golpe da lança, o evangelista contempla a revelação da verdade mais clara e profunda acerca da vida de Jesus, no momento em que termina a sua missão neste mundo. É a prova culminante de uma vida oferecida por amor até às últimas consequências: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao extremo” (Jo 13,1). Indica, de certa maneira, o nascimento do homem novo, capaz, não só de uma vida livre do egoísmo e do pecado, mas finalmente arrancado das cadeias da morte, porque acolhido na glória do Pai. Dá início à comunidade nova, formada pelo primeiro e segundo Israel, representados pela Mãe e pelo discípulo junto da cruz. Esta nova humanidade é reunida, fecundada e orientada pelo Espírito, simbolizado no sangue e na água, que gera uma nova existência e abre novos horizontes de relação e de vida.

O lado trespassado de Jesus revela uma outra dimensão fundamental. A manifestação suprema do amor e do dom de Si mesmo faz-se no meio do drama da recusa, do ódio, da violência e da morte, que avassala a humanidade. Esta sente uma enorme necessidade de se libertar dessa espiral infernal de violência e de morte, de ser reconciliada nas suas rupturas, regenerada da corrupção, recriada com um novo princípio de vida. No lado trespassado, resumo do mistério pascal, revela-se essa reparação ou regeneração da humanidade ferida pelo pecado, que corrompe as relações humanas e impede a relação com Deus. Em fiel obediência ao projecto do Pai, de oferecer à humanidade o Espírito da regeneração, Cristo carregou sobre Si o peso da degradação humana, “até à morte e morte de cruz (Fil 2,8). Mesmo na recusa, no sofrimento e na morte, permanece fiel ao amor, recusando as soluções de violência e de repressão e afirmando a possibilidade de um novo caminho na solidariedade, na reconciliação e no perdão. Como Filho de Deus e dador do Espírito, torna possível esse caminho também para nós, tornando-Se “fonte de salvação eterna”, como diz a carta aos Hebreus (cf. He 5,7-10). O Espírito torna possível a superação da morte e das demais consequências do pecado: corrupção, divisão e violência, que destruem a convivência humana.

Aproximar-se ou deixar-se atrair assim do Coração de Cristo não é apenas uma visão contemplativa ou especulativa, mas um caminho que empenha a pessoa inteira, como o exige a lógica própria do coração. Torna-se proximidade, compreensão, identificação e transformação, a partir do pedido e da disponibilidade para receber o dom do Espírito. Este caminho de configuração ou de “cristificação” é o que procuraremos esboçar na segunda parte da carta, a partir de três atitudes fundamentais que o caracterizam: um coração que escuta, um coração aberto aos outros, um coração solidário.

2. O caminho do coração

2.1 Um coração que escuta

O itinerário de vida que provém deste aproximar-se ao Coração de Cristo começa pelo regressar ao próprio coração. Sobretudo no ritmo alucinante imposto pela sociedade contemporânea, dar espaço ao coração é requisito fundamental para evitar a manipulação e a alienação, conservar a saúde mental e a harmonia do próprio ser e conquistar a liberdade interior que permite avaliar correctamente as situações e desenvolver um próprio projecto de vida. Inclui um constante processo de cura e de reconciliação do próprio “eu”, a nível psicológico, moral e espiritual, de forma a impedir que as feridas do passado continuem a perturbar o presente e o futuro. Exige a formação e o treino disciplinado do próprio coração, para se ser capaz de olhar para a vida com sabedoria e coerência, julgar com verdade e justiça, empenhar-se com generosidade e com toda a energia do próprio ser na construção do mundo.

O objectivo deste regresso ao coração é possuir-se a si mesmo em liberdade. Uma liberdade que vai muito além do próprio “eu”, na procura de novos sentidos e novas relações, pois o coração humano foi criado como peregrino da verdade.

Regressar ao coração não significa fechar-se no interior do próprio “eu”, mas um processo dinâmico de procura e de diálogo, que leva a pessoa às portas do coração novo no Espírito, segundo o dom e o projecto de Deus. A viagem do coração leva ao encontro com Aquele que o criou. O dom do Espírito não anula o coração humano, mas abre-o a novas possibilidades a nível da existência, da moral, das relações e da esperança.

Este caminho tem um guia, um modelo e um apoio: Cristo, o Homem Novo segundo o Espírito, protótipo e primogénito da nova humanidade e dador do Espírito. O nosso “caminho do coração” passa através do Coração de Cristo, “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6). Para o apóstolo Paulo, a comunhão com Cristo é uma simbiose que o leva a reproduzir na própria existência as atitudes do próprio Cristo: “Fui crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gal 2,19). Não se trata apenas de imitar os gestos de um mestre, mas mais radicalmente trata-se da obra do Espírito que faz da pessoa uma criatura nova, segundo o modelo e os sentimentos de Cristo.

Viver, pensar e agir segundo esta “segunda natureza” ou esta “natureza renovada” não é só fruto do esforço e da ascese, mas é dom do Espírito. Por outro lado, o homem velho, ou primeiro Adão, continua bem presente na existência daqueles que se puseram em caminho, bem como na mentalidade dominante da sociedade em que vivemos. Daí a exigência de uma constante escuta do Espírito que cura, reconcilia, educa e guia o coração, como descreve Paulo, sobretudo no capítulo 8 da carta aos Romanos.

O itinerário de Emaús, que acima evocámos, indica dois elementos fundamentais desta escuta que transforma a existência. Ao longo do caminho, os dois discípulos, guiados pelo misterioso companheiro de viagem, confrontaram a palavra dos profetas e de Jesus com a sua vida e com a dos outros discípulos. Depois, ao anoitecer, reconheceram-n’O no partir o pão, quando Se sentou à mesa com eles. Aquele que aceitou a morte como expressão de fidelidade e de amor e que agora se torna presente entre os seus, é o único capaz de dar sentido ao escândalo da recusa, do sofrimento e da morte, através dos quais passa a redenção da humanidade.

Hoje, a “lectio divina” e a Eucaristia são momentos privilegiados do tempo consagrado à renovação deste encontro com Cristo ressuscitado na comunidade. É uma escuta que alimenta a comunhão com Deus e com a comunidade; ensina a discernir o sentido do momento actual, na sua esperança e no seu drama; modela o coração e configura a vida no seguimento de Jesus; torna possível a oferta da própria vida, na alegria e no sofrimento, para a transformação do mundo.

Conscientes de levar este “tesouro em vasos de barro, quer pelo peso das nossas culpas, quer pela fraqueza física ou dificuldades da vida, do trabalho ou dos relacionamentos, abrimos o coração à acção do Espírito, num processo de constante purificação e renovação, de modo que, “embora o nosso ser exterior se vá desfazendo, o interior se renove de dia para dia” (cf. 2Co 4,7-18), até que se completa, também em nós, a medida do homem novo em Cristo.

2.2 Um coração aberto aos outros

O caminho do coração é profundamente relacional: ensina a criar pessoas livres das limitações do egoísmo e das amarras das feridas e ressentimentos, capazes de relações fraternas, marcadas pela verdade, justiça, misericórdia, amor. À luz do Espírito, este caminho relacional abre-se a novos horizontes: desde a sua efusão no dia de Pentecostes, o Espírito revela-Se como gerador de uma nova família humana, removendo as barreiras de nação, raça ou cultura. Esta comunidade tem por modelo e primogénito o Senhor Jesus, que supera toda a divisão e violência com o amor e o perdão para os próprios perseguidores, tornando-se dom de reconciliação e de paz.

A primeira realização deste projecto de criação de Deus, tem lugar no âmbito da própria família, onde se aprende a amar e ser amado para além do próprio interesse ou utilidade, na gratuidade do próprio amor. Construindo a sua comunidade, não já sobre as raízes do sangue, da cultura ou etnia, Jesus não anula esta dinâmica natural do coração humano. Ao contrário, vendo os discípulos sentados à sua volta, apresenta-os como sendo a família dos que escutam e realizam a vontade de Deus (cf. Mc 3,31-35). A ternura e a atenção de mãe, pai, irmão e irmã devem caracterizar as relações entre eles. Assim, o encontro com Cristo conduz sempre a esta nova família, tanto nos percursos do Jesus histórico, pela Palestina, como nos encontros com o seu Espírito, depois do Pentecostes, nas estradas do mundo inteiro. O contacto dos discípulos de Emaús com o Senhor ressuscitado, que representa o caminho da Igreja, é um exemplo disso. Depois de terem reconhecido o Senhor, “partiram imediatamente e voltaram a Jerusalém” para se reintegrarem na comunidade dos discípulos (Lc 24,33). Os caminhos pessoais com o Espírito do ressuscitado terminam sempre na sua comunidade.

A vida no seio desta comunidade tem um modelo e uma lei, que é Cristo e o seu amor: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Nisto todos vos reconhecerão como meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,34-35). A configuração com Cristo, o homem de Coração novo, na força do seu Espírito, torna-nos capazes de participar na construção da nova humanidade, segundo o projecto de Deus. A sua atitude de Mestre e Pastor, o cuidado que tem pelos discípulos, pelos doentes e pecadores e o amor levado às últimas consequências, até à morte, constituem a fonte de inspiração, a regra e o distintivo dos membros da sua comunidade. Por isso, toda a comunidade cristã se compreende e organiza, antes de mais, como comunidade de oração, para acolher e escutar a voz do seu Senhor, discernir a sua vontade, recompor as rupturas, orientar e tornar fecunda a missão.

O desafio da comunhão é particularmente importante nas nossas comunidades de consagrados, que aceitam o convite para um seguimento radical de Cristo, testemunhar o seu amor e pôr-se inteiramente ao serviço da construção do mundo novo na força do Espírito. Nas relações com os outros, a começar pela própria comunidade, pode ver-se até que ponto nos deixamos realmente converter e configurar com o Coração de Cristo. Sem o testemunho do amor concreto, enganamo-nos a nós mesmos (cf. 1Jo 4,20) e não passaremos de vendedores de fumo. A configuração do coração com Cristo, na sua dimensão relacional, exige uma constante conversão e reconciliação, de modo que cada um possa fazer, nas relações com os outros, a experiência de oferecer e receber o amor de Cristo, traduzido em gestos concretos de acolhimento, perdão, ajuda, colaboração e esperança.

Não nos devemos, porém admirar se as nossas comunidades não são perfeitas e se nelas há conflitos, divisões, incompreensões e rupturas. O coração humano e o tecido social de que fazemos parte continuam marcados pelo egoísmo, pela exploração e abuso dos outros, pela injustiça e opressão, pelo conflito e pela morte. O dinamismo da reparação/regeneração, presente na solidariedade de Cristo com a humanidade, leva-nos a olhar para tudo isso com um coração de “com-paixão” responsável e de esperança. Perante o peso das nossas relações e do pecado das nossas comunidades e da Igreja, é grande a tentação de desanimar, de deixar de participar ou pôr-se de parte, ou então revoltar-se, assumir uma atitude de crítica externa ou de recusa. Cristo, o homem novo, não se comportou assim! Diante da incapacidade dos discípulos de compreender e assumir o seu programa de novas relações, não desistiu, nem os mandou embora ou condenou. Manteve-Se fiel e solidário, quando faliram; continuou a afirmar claramente o seu caminho, quando seguiam outras solicitações; carregou sobre Si o peso da reabilitação deles, quando caíram; pagou o preço do seu resgate, quando ficaram reféns do medo e da desilusão … e nem chegou a ver com os olhos terrenos a sua recuperação. Será depois da sua morte e ressurreição, pela acção do Espírito, que começarão a compreender e a usar a nova lógica do amor e da reconciliação, na construção da sua comunidade. Dada a inconsistência do coração humano, não é possível um autêntico projecto de comunhão duradoura sem esta nova lógica de oferecer-se a si mesmo para reconciliar, reparar, regenerar: fazer com que onde abunda o pecado, superabunde a graça e o perdão (cf. Rm 5,15).

Uma característica fundamental do amor de Cristo é a sua universalidade, para além de toda a língua, cultura ou nação. Na lógica do projecto de Deus, o caminho do coração é um itinerário de libertação de si mesmo em círculos cada vez mais largos, até abranger a humanidade inteira. Por isso, a dinâmica da comunidade que vivemos sob o impulso do Espírito de Cristo abre-nos e prepara-nos para viver a internacionalidade nas nossas comunidades e nos nossos projectos de missão. Para um dehoniano, a perspectiva intercultural e internacional não é simples concessão a uma moda ou uma estratégia de desenvolvimento, mas é dimensão fundamental para quem se deixou contagiar e transformar pelo Coração de Cristo e quer colaborar na construção da sua Igreja e na renovação do mundo.

Isso exige uma consciência e afirmação da própria cultura e riqueza tradicional, de modo a poder enriquecer a comunidade intercultural, mas requer igualmente a libertação de toda a forma de preconceito, discriminação ou arrogância, baseados na raça, etnia ou cultura. Vivemos num mundo marcado pela globalização, mas onde cada vez mais emergem abismos de intolerância, marginalização e exploração dos mais fracos, pela imposição do pensamento, da cultura e dos interesses dos mais fortes. A experiência da interculturalidade, que vemos crescer na Congregação, pretende ser a expressão do contributo evangélico na construção de um mundo universalmente mais fraterno.

2.3 Um coração solidário

A universalidade do amor de Cristo impele-nos para a missão (cf. 2Co 5,14ss). É esta urgência que leva o próprio Paulo a dizer “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1Co 1,17), e que a primeira carta de João liga à experiência do amor de Cristo: “Nisto conhecemos o amor: Jesus Cristo ofereceu a sua vida por nós. Também nós devemos oferecer a vida pelos nossos irmãos (1Jo 3,16). Nascido pelo Espírito do Pentecostes, o caminho do coração torna-se um itinerário para todas as estradas da humanidade, próximas e distantes, acolhendo os esquecidos, curando as feridas, reconciliando os conflitos, colaborando com os esforços de desenvolvimento, infundindo esperança e anunciando a presença de Deus na vida e na história dos homens.

Penetrando no Coração de Cristo, compreendemos mais profundamente a lógica da missão como solidariedade de Deus, que não se limita a oferecer de longe a sua salvação ou a perdoar os pecados na sua misericórdia. Em Jesus, Ele veio para o meio da humanidade pecadora, partilhando o seu drama, angústias e esperanças, abrindo, apresentando e tornando possível um caminho novo como homem e Filho de Deus. No seu “ecce venio”, de que faz eco o “ecce ancilla” de Maria, descobrimos uma disponibilidade para a missão, feita de comunhão consciente com o projecto do Pai e de liberdade obediente para realizá-lo. Nesta luz, compreendemos a lógica do Bom Pastor, que organiza o próprio rebanho e quer ir buscar as ovelhas que estão fora (Jo 10,16), que perde o tempo com uma única que se tresmalhou e necessita de cuidados especiais (Lc 15,4-7) e que, por todas, oferece a própria vida.

Assumir assim a missão exige um coração livre, humilde e generoso, unido ao de Cristo. Antes de mais, fica excluída toda a espécie de imposição, arrogância ou violência. O confronto com a recusa, a indiferença ou a violência exige, pelo contrário, uma solidariedade fiel, que não abandona, não julga e não destrui, mas toma sobre si o peso da regeneração e da vida. Quem anuncia, não o faz como projecto próprio, mas em nome de Cristo e como enviado de uma comunidade, em comunhão com outros irmãos e irmãs. Muitas vezes terá de renunciar aos próprios planos, porque a missão o chama para outro lado. Alegra-se, como lemos nas páginas do Evangelho, com os sinais do Reino que descobre à sua volta e com o trabalho dos outros, sentindo-se fraterno com todos os que procuram o bem. Estará próximo de todos os que sofrem e anunciará a Boa Nova da esperança, partilhará as alegrias e lágrimas e será também capaz de derramar o seu sangue como dom extremo de si mesmo, porque a sua vida estará sempre nas mãos do Pai. Na sua palavra e na sua vida, os povos reconhecerão que Deus veio para junto deles.

A missão está presente em toda a parte no mundo, perto de cada um de nós e de cada uma das nossas comunidades. Exige-se de todo o dehoniano, antes de mais, a coragem e a solidariedade do anúncio, que supera a administração das nossas obras e procura sempre tornar-se presente, com todos os meios ao alcance, mas sobretudo com todo o coração, junto dos que estão fora, que passam privações, que são esquecidos. Não se pode todavia esquecer que da missão faz parte pôr-se em caminho, olhar para além das necessidades locais, ultrapassar confins e contactar com outras culturas e regiões, como também outros areópagos da actividade humana, no campo social, económico e das comunicações. Tornar-se disponível e preparar-se para essa missão faz parte da nossa vocação, porque é implícito no Coração universal de Cristo. A dimensão internacional e intercultural assume uma importância especial neste momento da vida da Congregação e da história, unida ao crescimento da interculturalidade da nossa experiência comunitária. Neste tempo de globalização, queremos contribuir, com a nossa comunhão e missão, para fazer de Cristo o coração do mundo.

Conclusão

As raízes da herança espiritual que recebemos do Padre Dehon revelam-nos um precioso tesouro de reflexão bíblica e teológica, centrada na espiritualidade do Coração de Jesus, ícone do amor de Deus, que Se fez homem entre nós. Leva-nos à intimidade da pessoa de Cristo: a sua comunhão com o Pai, o seu serviço solidário até à morte, a sua presença na Igreja e o dom do Espírito, capaz de transformar o nosso ser à sua imagem de Homem Novo segundo o projecto de Deus.

A configuração com Cristo dá origem a um caminho de vida, guiado e tornado possível pelo seu Espírito, que transforma o nosso coração. É um percurso feito de escuta da voz do Espírito, que gera a nova família do Ressuscitado, convocada de entre todos os povos e culturas, anúncio e sinal do mundo novo, segundo o projecto de Deus. Deixar-se transformar pelo Espírito de Cristo significa percorrer a estrada da existência com coração livre e solidário, alegrando-se e colaborando na transformação do mundo. Significa também tomar sobre si o sofrimento, as dificuldades e as lágrimas dos companheiros de estrada, muitas vezes vítimas da injustiça, da violência ou da própria fraqueza, sem desviar o olhar ou resignar-se, sem recorrer à rebelião violenta ou à vingança destrutiva. Este é o caminho que o Homem de Coração Novo abriu no meio do drama da humanidade, abrindo-a aos horizontes da misericórdia e do poder do Pai.

A parábola do bom samaritano (cf. Lc 10-29-37) nos sirva de quadro e de inspiração final desta reflexão sobre o “caminho do coração”. Nessa nossa estrada, o importante não são as nossas origens, cultura, títulos, funções ou vestes; importante é o coração, que determina o nosso modo de olhar, julgar e agir. Atraídos e modelados por Cristo, bom samaritano da humanidade, ouçamos a sua voz que nos abre os olhos do coração e nos provoca: Vai e faz também tu o mesmo!

Com votos de uma boa Festa do Coração de Jesus!

P. José Ornelas Carvalho

Superior Geral SCJ

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1 comentário

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  7. Joel Xavier

    Padre Joãozinho,

    Gostaria de conhecer seu posicionamento frente ao artigo “Samba do crioulo doido: Pe. Joãozinho e a filosofia” cujo link está posto abaixo.

    RECONHECE O SENHOR que errou ao interpretar a encíclica de Bento XVI?

    http://angueth.blogspot.com/2010/06/samba-do-crioulo-doido-pe-joaozinho-e.html

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