Hoje o Evangelho fala de escondimento, discrição, interioridade. Jesus critica quem faz muito alarde espiritual e aconselha a entrar no quarto, fechar a porta e rezar ao Pai “em segredo”. Vivemos no tempo da indiscrição, da exposição na mídia… como viver esta dimensão da vida interior?

Evangelho segundo S. Mateus 6,1-6.16-18.

«Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para vos tornardes notados por eles; de outro modo, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está no Céu. Quando, pois, deres esmola, não permitas que toquem trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo; e teu Pai, que vê o oculto, há-de premiar-te.» «Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te. «E, quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas apenas do teu Pai que está presente no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, há-de recompensar-te.»

São João da Cruz, com sua linguagem de 500 anos atrás, comenta este evangelho mostrando que precisamos entrar dentro de nós mesmos para encontrar com Deus. A nossa “alma” seria este quarto, do qual Jesus nos fala.

São João da Cruz (1542-1591), Carmelita, Doutor da Igreja
Cântico Espiritual B,1, 8-9 (Obras completas, Edições Carmelo, 2005, pp. 550-551)

«Reza em segredo a teu Pai»

Então, ó alma, o que é que desejas e procuras fora de ti, se é em ti que estão as tuas riquezas, as tuas delícias, a tua consolação, a tua riqueza e o teu reino, ou seja, o teu Amado, que a tua alma tanto deseja e procura! […] Só precisas de saber uma coisa: embora esteja dentro de ti, está escondido. […]

Mas também perguntas: «Então, se Aquele que a minha alma ama está em mim, porque é que não O encontro nem sinto?» A razão disso é que Ele está escondido, e tu não te escondes para O encontrar e sentir. Quem quiser encontrar uma coisa escondida há-de penetrar escondido no lugar onde ela está escondida; ao encontrá-la, fica tão escondido como ela. Portanto, uma vez que o teu Amado é o tesouro escondido no campo da tua alma, pelo qual o sábio comerciante entregou tudo (Mt13,44), convirá que tu, para O encontrar, esquecidas todas as tuas coisas e alheando-te de todas as criaturas, te escondas no teu refúgio interior do espírito.

Fechando atrás de ti a porta, isto é, a tua vontade a todas as coisas, ores a teu pai em segredo (Mt 6, 6). E ficando assim escondida com Ele, senti-lo-ás no escondido, amá-Lo-ás e possui-Lo-ás no escondido, e escondidamente te deleitarás com Ele, mais do que aquilo que a língua e os sentidos podem alcançar. ”

Mas não seria esta perspectiva intimista demais? Não seria necessário conjugar Mateus 6, com Mateus 25, onde Jesus diz que devemos encontrar a sua face no rosto desfigurado dos pobres? Com certeza. A intimidade é somente um dos campos aonde devemos perambular. A alteridade é outro. Sem estes dois passeios caímos em algum tipo de superficialidade. Porém, hoje gostaria apenas de destacar a importância de parar e entrar dentro de nós mesmos, fechar a porta e rezar em segredo. A oração pessoal precisa um tempo, um rito, silêncio, método, cuidado… Dentro do nosso coração mora uma pequena e frágil plantinha. Todos os dias devemos entrar neste quarto e regar a planta, caso contrário, fenecerá!

8 Comentários

  1. Pingback: Pe. Joãozinho, SCJ

  2. Pingback: Jerusa Pordeus

  3. Pingback: ieda floss pedrotti

  4. Muito bom!!!!! Adorei acordar e ler esse belíssimo texto!

  5. Pingback: Twitter Trackbacks for A VIDA INTERIOR « Padre Joãozinho, scj [cancaonova.com] on Topsy.com

  6. Pingback: Lilian Mesquita

  7. Fabiana Coutinho

    Olá ,Pe Joaozinho, o evangelho de hoje me faz lembrar de minha querida irmã que fez a opção pela vida escondida e vive em clausura.Demorei entender a escolha dela.Perguntavam-me: Por que sua irmã foi se esconder? Não poderia ter escolhido ser freira , mas de vida ativa? Escolheu logo a vida contemplativa, em clausura…Muitos me perguntavavam: O que sua irmã faz lá no convento? Eu respondia: Ela reza e faz outros trabalhos… Aí me perguntavam : Só reza? Tão jovem para viver assim…
    O evangelho nos responde a escolha dela, as palavras de São Joao da Cruz também: ela foi se “esconder” para encontrar o amado que está escondido, Jesus Cristo.
    Pe Joaozinho, cada vez que a visito, vejo a disciplina das orações.Pela manhã, um padre vem de nossas paroquias da cidade realizar a missa com elas, a tarde tem as vésperas e tem outras orações.Fui aprendendo com o tempo a fazer como elas, como Jesus nos ensinou: a fechar a porta , para no silêncio orar e me encontrar com meu amado Jesus Cristo.
    Obrigada Pe Joaozinho por postar aqui o evengelho de hoje, juntamente com as palavras de São João da Cruz.
    Firmes até o fim no catolicismo
    A paz de Cristo
    Fabiana

  8. VANIR DANTAS/RN

    Gosto muito dessa passagem bíblica. Ela retrata a oração simples, silenciosa, sem alardes. A oração verdadeira, profunda, em que nós fechamos os olhos e podemos repassar nossa vida, nossos agradecimentos, nossos pedidos. Uma vez participei de uma micareta católica, foi um evento lindo, mas eu só consegui sentir a presença de Cristo na saída do trio, fim de tarde, o padre rezando a Ave Maria com uma multidão de pessoas e na missa de encerramento. Mesmo assim , o evento foi lindo- NATAL/RN.

  9. Pingback: Olga Silva de Souza

  10. Bom dia padre.
    Vivemos num mundo onde as pessoas tem uma necessidade incontrolável de serem notadas “aparecer”. Não me sinto fora disto vejamos pelo twitter ficamos nos sentindo transparente quando não obtemos respostas.
    Em relação a Deus então pessoas gritam seu amor e devoção aos quatro cantos, quando ele se encontra dentro de nosso coração e no coração do irmão que precisa.
    Precisamos crescer muito espiritualmente. O caminho é oração íntima com Deus. Afinal ele sabe tudo, nao adianta esconder e não precisa divulgar.

  11. Olga Amorim

    Bom dia padre.
    Vivemos num mundo onde as pessoas tem uma necessidade incontrolável de serem notadas “aparecer”. Não me sinto fora disto vejamos pelo twitter ficamos nos sentindo transparente quando não obtemos respostas.
    Em relação a Deus então pessoas gritam seu amor e devoção aos quatro cantos, quando ele se encontra dentro de nosso coração e no coração do irmão que precisa.
    Precisamos crescer muito espiritualmente. O caminho é oração íntima com Deus. Afinal ele sabe tudo, nao adianta esconder e não precisa divulgar.

  12. Dos dos melhores métodos de oração que conheci foi o inaciano:

    Antes de começar a oração é importante marcar um tempo para realizá-la. Não exagere. Comece com o tempo que você acha que dá para cumprir e vá aumentando à medida que puder.
    O tempo ideal seria uma hora por dia, mas o mais importante é a busca sincera de encontrar a Deus. Começe com uns 10 a 15 minutos diários e depois, conforme for sentindo a necessidade vá, aos poucos e sem pressa, aumentando esse tempo.
    Apresentamos os passos para rezar segundo Santo Inácio nos

    Exercícios Espirituais:

    1. O Lugar da Oração

    Procure um lugar tranquilo que favoreça a oração. Dê preferência um ambiente silencioso, onde você fique sozinho e se sinta bem.
    Encontre uma posição relaxante e favorável que mais o ajude a rezar. Santo Inácio aconselha a fazer sempre o que mais ajuda. Se por exemplo ouvir uma música instrumental ajudar a entrar em clima de oração, faça isso.

    2. A Presença de Deus

    Aos poucos vá acalmando-se, fazendo silêncio interior e vá tentando perceber a presença de Deus ao seu redor e dentro de si mesmo, com confiança. Deixe brotar no seu coração o desejo de estar com Deus e ser íntimo dele.
    Faça uma oração espontânea louvando e agradecendo a Deus por este momento de intimidade e amor; peça que Ele oriente sua oração e se entregue inteiramente em seus braços.
    Se tiver dificuldades para fazer orações espontâneas, você pode começar rezando um salmo (o Salmo 138, por exemplo), lendo uma oração pronta ou cantando alguma música que dê sentido ao momento.
    Se lhe ajudar, você pode rezar a oração de Santo Inácio neste momento inicial de abertura a Deus:

    “Tomai, Senhor e recebei
    toda minha liberdade,
    minha memória, meu entendimento e toda minha vontade
    Tudo que tenho e possuo
    Vós me deste, e a Vós Senhor vos devolvo.
    Todo é vosso; dispõe de tudo segundo vossa vontade
    Dai-me vosso amor e vossa graça, que isto me basta sem que te peça outra coisa.Dai-me vosso Amor e Graça,
    que elas me bastam.”

    Lembre-se do princípio inaciano de fazer sempre o que mais lhe ajuda a atingir o objetivo que você se propõe.
    Na metodologia dos Exercícios Espirituais toda oração tem uma graça específica a ser alcançada, ou seja, um objetivo a ser atingido. Durante este período de oração inicial peça a Deus essa graça. Por exemplo, você pode pedir a graça de não ser surdo aos apelos de Deus ou de vivenciar uma intimidade sempre maior com ele, etc.

    3. O Texto Bíblico

    Os Exercicios Espirituais são fundamentados na Palavra de Deus, por isso a meditação ou a contemplação de um texto bíblico durante esse momento de oração é muito importante.
    Não precisa tomar muitos textos, as vezes basta apenas um versículo ou uma palavra, pois segundo Inácio:
    “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma,
    mas o sentir e saborear as coisas internamente”(EE 2).
    Procure trazer o texto para sua vida cotidiana. Lembre-se que a oração é diálogo com Deus e que muitas vezes é melhor deixar Deus falar, tentar perceber os apelos que o Espírito Santo nos faz através de sua Palavra.
    O que mais lhe chamou a atenção ao ler a Palavra de Deus, um versículo, uma palavra, a atitude de algum personagem?

    4. Dialogo (colóquio) com Deus

    Neste momento é hora de conversar com Deus sobre aquilo que a meditação/contemplação do texto causou em você.
    Seja sincero e deixe o coração falar com Deus de maneira simples, sem se preocupar com muitas palavras.
    É momento de falar, escutar, louvar, pedir, perguntar, silenciar, escutar e sentir.
    Preste atenção nos sentimentos que brotam internamente: alegria, tristeza, paz, inquietação, esperança, medo, dúvida, confiança, angústia, etc.

    Termine este momento agradecendo a Deus e pedindo forças para continuar sua caminhada dentro de seu plano de amor.
    Dependendo da graça que você pediu ou do que vem experimentando na oração, reze o “Pai Nosso”, “Alma de Cristo” ou “Ave Maria”.

    5. Anotando a Experiência

    Procure lembrar e registrar brevemente por escrito tudo o que foi relevante na oração, por exemplo, como você estava antes da oração e como você está agora, os sentimentos (agradáveis ou não) que brotaram em você, um trecho do texto bíblico, lembranças da sua própria vida, os apelos e resistências, etc.
    Estas anotações são de grande valor para sua caminhada, portanto não deixe de fazê-las, pois você poderá partilhà-las com seu diretor espiritual, se achar necessário.

  13. ana silvia

    HOJE PASSEI EM FRENTE A UMA INSTITUIÇÃO QUE AJUDA AS PESSOAS QUE ESTÃO EM TRATAMENTO DE CANCER, E LÁ ESTAVA NOSSSOS IRMÃOS EVANGÉLICOS, ANUNCIANDO O EVANGELHO, O JEITO DE FALAR ERA DE VOZ FIRME E GRITANTE, PODIAMOS ESCUTAR ATÉ DO OUTRO QUARTEIRÃO….

    AÍ EU DISSE: JESUS O POVO DE DEUS É SURDO, OU PRECISAMOS CHAMAR ATENÇÃO PARA QUE ALGUÉM NOS ESCUTE!…

    BOM SÓ SEI QUE ELES ESTAVAM LÁ E NÓS CATÓLICOS, SÓ PASSAMOS ,
    OLHAMOS E REZAMOS E QUANDO REZAMOS.

  14. Pingback: Amanda

  15. Pingback: Carmem

  16. Pingback: Danielle M Tostes

  17. Padre,
    Acredito que há complementaridade das duas citações (aliás, acredito que toda Sagrada Escritura só pode ser analisada assim). Deve existir uma relação de intimidade com Deus e isso, realmente, demanda um tempo diário de recolhimento para meditação da Palavra, digestão dos ensinamentos sagrados, reflexão sobre nossa caminhada terrena. Só assim conseguimos discernir a voz de Deus. Seria o valor místico e transcendental da fé. Em contrapartida, temos uma relação de interdependência, decorrente de nossa condição fraterna, afinal somos todos filhos de um único Pai. Creio que muitos nem tem consciência desta urgência, de que fomos criados a Sua imagem e semelhança. E aí entra nosso modo de ser e ver o outro como irmão e nosso compromisso passa além do conceito de agradarmos ao Pai, visto que é no outro que Deus se “realiza”. Seria o valor prático da fé. Engraçado isso, é algo completamente cíclico…buscamos na oração a fonte, mas executamos na pessoa do irmão…algo interligado, no sentido de que o social sem a fé, o assistencialismo sem a doutrina, vira apenas ativismo.
    Muito bonita esta reflexão. Num olhar apressado não entendi muita a correlação,mas ao meditar as passagens, consegui refletir aos olhos do nosso compromisso social. Obrigada pela provocação!
    Sua benção,

    “Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo,
    porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes;
    nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim.
    Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber?
    Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos?
    Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?
    Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.”

  18. Pingback: mioco gomes

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.