Ao receber bispos do norte do Brasil

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 15 de abril de 2010 (ZENIT.org).- Bento XVI advertiu nessa quinta-feira que aqueles que, em nome da inculturação, decaem no sincretismo estão distantes da verdadeira liturgia cristã.

O Papa falou a bispos do norte do Brasil (Estados do Pará e Amapá), recebidos em audiência no contexto da visita ad Limina Apostolorum.

Em seu discurso, Bento XVI enfatizou sua preocupação “por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados”.

O pontífice reconheceu que “uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério”.

Isso “sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor”.

“Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar”, disse o Papa.

Bento XVI enfatizou que “se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora”.

“Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa”, disse.

O Papa assinalou, citando João Paulo II, que o mistério eucarístico “é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções, particularmente quando, despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa”.

Bento XVI considera que uma das razões dessa descaracterização está numa “mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem”.

“A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.”

Mas –prossegue o Papa – o culto “não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo”.

“A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz. A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro”, afirmou o pontífice.

7 Comentários

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  5. @elzinnha32

    Palavras sábias de nosso Santo Padre!!!
    Eu não acho necessário sincretismos para re-aproximar católicos afastados. Primeiro, porque se estão afastados não terão a percepção de reconhecer o ritual da missa como o do santo sacrifício e segundo porque se se afastaram nunca estiveram mesmo essencialmente participante da celebração eucarística.
    Apenas um humilde ponto de vista!
    Paz e bem a tds.
    Sua santa benção hj e sempre e de roma tb!
    E-beijocas cariocas da família Mello

  6. Pingback: rosaura brito bastos

  7. Gostaria de partilhar com os leitores do blog a instrução “REDEMPTIONIS SACRAMENTUM” (Sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia) – redigida pela CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, e que pode ser facilmente localizada no site: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20040423_redemptionis-sacramentum_po.html

    Vem muito de encontro com o que o S.S. Bento XVI constatou aqui no Brasil.

    Separo dois tópicos que nos alertam a respeito da disciplina, respeito e amor com que temos que ter com a Divina Liturgia, bem como abusos e excessos cometidos, e alertar que há a possibilidade de qualquer católico (desde que, bem instruído sobre a disciplina litúrgica) denunciar os abusos que não condizem com o espírito da Divina Liturgia.

    4. A união de vários ritos com a celebração da Missa

    [75.] Pelo sentido teológico inerente à celebração da Eucaristia ou de um rito particular, os livros litúrgicos permitem ou prescrevem, algumas vezes, a celebração da santa Missa unida com outro rito, especialmente dos Sacramentos.[157] Nos outros casos, sem dúvida, a Igreja não admite esta união, especialmente quando que se tornaria um caráter superficial e sem importância.

    [76.] Além disso, de acordo com a antiqüíssima tradição da Igreja romana, não é lícito unir o Sacramento da Penitência com a santa Missa e fazer assim uma única ação litúrgica. Isto não impede que alguns sacerdotes, independentemente dos que celebram ou concelebram a Missa, escutem às confissões dos fiéis que assim não desejem, mesmo estando no mesmo lugar, de participar da Missa, para atender as necessidades dos fiéis.[158] Para isso, faça-se de maneira adequada.

    [77.] A celebração da santa Missa, de nenhum modo, pode ser inserida como parte integrante de uma ceia comum, nem se unir com qualquer tipo de banquete. Não se celebre a Missa, a não ser por grave necessidade, sobre uma mesa de refeição[159], ou num refeitório, ou num lugar que será utilizado para uma festa, nem em qualquer sala onde hajam alimentos, nem os participantes na Missa se sentem à mesa, durante a celebração. Se, por uma grave necessidade, deva-se celebrar a Missa no mesmo lugar onde depois será a refeição, deve-se mediar um espaço suficiente de tempo entre a conclusão da Missa e o início da refeição, sem que se exibam aos fiéis, durante a celebração da Missa, alimentos ordinários.

    [78.] Não está permitido relacionar a celebração da Missa com acontecimentos políticos ou mundanos, ou com outros elementos que não concordem plenamente com o Magistério da Igreja Católica. Além disso, se deve evitar totalmente a celebração da Missa pelo simples desejo de ostentação ou celebrá-la de acordo com o estilo de outras cerimônias, especialmente profanas, para que a Eucaristia não se esvazie de seu significado autêntico.

    [79.] Por último, o abuso de introduzir ritos tomados de outras religiões na celebração da santa Missa, contrários ao que se prescreve nos livros litúrgicos, devem ser julgar com grande severidade.

    AS CORREÇÕES

    [169.] Quando se comete um abuso na celebração da sagrada Liturgia, verdadeiramente se realiza uma falsificação da liturgia católica. Tem escrito Santo Tomás: «incorre no vício de falsidade quem, da parte da Igreja, oferece o culto a Deus, contrariamente à forma estabelecida pela autoridade divina da Igreja e seu costume».[278]

    [170.] Para que se dê uma solução a este tipo de abusos, o «que mais urge é a formação bíblica e litúrgica do povo de Deus, pastores e fiéis»,[279] de modo que a fé e a disciplina da Igreja, no que se referir à sagrada Liturgia, sejam apresentadas e compreendidas retamente. Sem dúvida, de onde os abusos persistam, deve-se proceder na tutela do patrimônio espiritual e dos direitos da Igreja, conforme às normas do direito, recorrendo a todos os meios legítimos.

    [171.] Entre os diversos abusos há alguns que constituem objetivamente os graviora delicta, ou atos graves, e também outros que, com menos gravidade, há também de se evitar e corrigir. Tendo presente tudo o que se tem tratado, especialmente no Capítulo I desta Instrução, convém prestar atenção a quanto à continuidade.

    1. Graviora delicta

    [172.] Os graviora delicta (atos graves) contra a santidade do sacratíssimo Sacramento e Sacrifício da Eucaristia e os sacramentos, são tratados de acordo com as «Normas sobre osgraviora delicta, reservados à Congregação para a Doutrina da Fé»,[280] isto é:

    a) roubar o reter com fins sacrílegos, ou jogar fora as espécies consagradas;[281]

    b) atentar à realização da liturgia do Sacrifício eucarístico ou sua simulação;[282]

    c) concelebração proibida do Sacrifício eucarístico juntamente com ministros de Comunidades eclesiais que não tenham sucessão apostólica, nem reconhecida dignidade sacramental da ordenação sacerdotal;[283]

    d) consagração com fim sacrílego de uma matéria sem a outra, na celebração eucarística, ou também de ambas, fora da celebração eucarística.[284]

    2. Os atos graves

    [173.] Embora o critérios sobre a gravidade dos atos se faz conforme à doutrina comum da Igreja e às normas por ela estabelecidas, como atos graves se consideram sempre, objetivamente, os que põe em perigo a validade e dignidade da Santíssima Eucaristia, isto é, contra o que se explicou mais acima, nos números: 48-52, 56, 76-77, 79, 91-92, 94, 96, 101-102, 104, 106, 109, 111, 115, 117, 126, 131-133, 138, 153 e 168. Prestando-se atenção, além disso, a outras prescrições do Código de Direito Canônico, e especialmente ao que se estabelece nos cânones 1364, 1369, 1373, 1376, 1380, 1384, 1385, 1386 e 1398.

    3. Outros abusos

    [174.] Além disso, aquelas ações, contra o que se trata nos outros lugares desta Instrução ou nas normas estabelecidas pelo direito, não se devem considerar de pouca importância, mas sim incluir-se entre os outros abusos a evitar e corrigir com solicitude.

    [175.] Como é evidente, o que se expõe nesta Instrução não compreende todas as violações contra a Igreja e sua disciplina, que nos cânones, nas leis litúrgicas e em outras normas da Igreja, têm sido definidas pela essência do Magistério e a santa tradição. Quando algo seja mal realizado, corrija-se, conforme às normas do direito.

    4. O Bispo diocesano

    [176.] O Bispo diocesano, «por ser o dispensador principal dos mistérios de Deus, tem de cuidar incessantemente para que os fiéis que lhe estão confiado cresçam na graça pela celebração dos sacramentos, e conheçam e vivam o mistério pascal».[285] Ao Bispo ainda corresponde, «dentro dos limites de seu competência, dar normas obrigatórias para todos, sobre matéria litúrgica».[286]

    [177.] «Dado que tem obrigação de defender a unidade da Igreja universal, o Bispo deve promover a disciplina que é comum a toda a Igreja e, por tanto, exigir o cumprimento de todas as leis eclesiásticas. Tem de vigiar para que não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, especialmente acerca do ministério da palavra, a celebração dos sacramentos e sacramentais, o culto de Deus e dos Santos».[287]

    [178.] Portanto, quantas vezes o Ordinário, seja ele de algum Instituto religioso ou Sociedade de vida apostólica noticie, ao mínimo provável, de um delito ou abuso que se referir à Santíssima Eucaristia, informe-se prudentemente, por si e pelo outro clérigo idôneo, dos feitos, das circunstâncias e da culpabilidade.

    [179.] Os delitos contra a fé e também os graviora delicta (atos graves) cometidos na celebração da Eucaristia e nos outros sacramentos, sejam comunicados sem demora à Congregação para a Doutrina da Fé, a qual «examinará e, em caso necessário, procederá a declarar ou impor sanções canônicas do direito, tanto comum como próprio».[288]

    [180.] De outro modo, o Ordinário proceda conforme à norma dos sagrados cânones, aplicando, quando seja necessário, penas canônicas e recordando de modo especial não estabelecido no cânon 1326. Tratando-se de feitos graves, faça-se saber à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

    5. A Sé Apostólica

    [181.] Em várias vezes a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos tenha notícia, ao mínimo provável, de um delito ou abuso que se referir à Santíssima Eucaristia, o fará saber ao Ordinário, para que investigue o fato. Quando resulte um fato grave, o Ordinário envie quanto antes, a este Dicastério, um exemplar das atas da investigação realizada e, quando seja o caso, da pena imposta.

    [182.] Nos casos de maior dificuldade, o Ordinário, pelo bem da Igreja universal, de cuja solicitude participa por razão da mesma ordenação, antes de tratar a questão, não omita solicitar o parecer da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Por sua vez, esta Congregação, em vigor das faculdades concedidas pelo Romano Pontífice, ajude ao Ordinário, de acordo com o caso, concedendo as dispensas necessárias[289] ou comunicando instruções e prescrições, as quais devem ser seguidas com diligência.

    6. Queixas por abusos em matéria litúrgica

    [183.] De forma muito especial, todos procurem, de acordo com seus meios, que o santíssimo sacramento da Eucaristia seja defendido de toda irreverência e deformação, e todos os abusos sejam completamente corrigidos. Isto, portanto, é uma tarefa gravíssima para todos e cada um, excluída toda acepção de pessoas, todos estão obrigados a cumprir esta trabalho.

    [184.] Qualquer católico, seja sacerdote, seja diácono, seja fiel leigo, tem direito a expor uma queixa por um abuso litúrgico, ante ao Bispo diocesano e ao Ordinário competente que se lhe equipara em direito, ante à Sé apostólica, em virtude do primado do Romano Pontífice.[290]Convém, sem dúvida, que, na medida do possível, a reclamação ou queixa seja exposta primeiro ao Bispo diocesano. Para isso se faça sempre com veracidade e caridade.

    [157] Cf. especialmente, Institutio generalis de Liturgia Horarum, nn. 93-98;Rituale Romanum,ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, auctoritate Ioannis Pauli Pp. II promulgatum: De Bendictionibus, editio typica, 31 de maio de 1984, Typis Poliglottis Vaticanis, 1984, Praenotanda n. 28; Ordo coronandi imaginem beatae Mariae Virginis, editio typica, 25 de março de 1981, Typis Poliglottis Vaticanis, 1981, nn. 10 e 14, pp. 10-11; S. Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instr., sobre as Missas com grupos particulares, Actio pastoralis, 15 de maio de 1969: AAS 61 (1969) pp. 806-811; Directório das Missas com crianças, Pueros baptizatos, 1 de novembro de 1973: AAS 66 (1974) pp. 30-46; Missale Romanum, Institutio Generalis, n. 21.

    [158] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica «motu proprio datae», Misericordia Dei, 7 abril do 2002, n. 2: AAS 94 (2002) p. 455; cf. Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Responsa ad dubia proposita: Notitiae 37 (2001) pp. 259-260.

    [159] Cf. Congr. para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Instr., Liturgicae instaurationes, n. 9: AAS 62 (1970) p. 702.

    [278] S. Tomás D’Aquino, Summa Theol., II, 2, q. 93, a. 1.

    [279] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica, Vicesimus quintus annus, n. 15: AAS 81 (1989) p. 911; cf. também Conc. Ecumênico Vaticano II, Const. de S. Liiturgia, Sacrosanctum Concilium, nn. 15-19.

    [280] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica motu próprio, Sacramentorum sanctitatis tutela: AAS 93 (2001) pp. 737-739; cf. Congr. para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica e aos Outros Ordinários e Hierarcas interessados: de delictis gravioribus eidem Congregationi pro Doutrina Fidei reservatis: AAS 93 (2001) p. 786.

    [281] Cf. Código de Direito Canônico, c. 1367; Pont. Conselho para a Interpr. de Textos Legislativos, Responsio ad propositum dubium, 3 de julho de 1999: AAS 91 (1999) p. 918; Congr. para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica e aos Outros Ordinários e Hierarcas interessados: de delictis gravioribus eidem Congregationi pro Doutrina Fidei reservatis: AAS 93 (2001) p. 786.

    [282] Cf. Código de Direito Canônico, cc. 1378 § 2 n. 1 e 1379; Congr. para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica e aos Outros Ordinários e Hierarcas interessados: de delictis gravioribus eidem Congregationi pro Doutrina Fidei reservatis: AAS 93 (2001) p. 786.

    [283] Cf. Código de Direito Canônico, cc. 908 e 1365; Congr. para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica e aos Outros Ordinários e Hierarcas interessados: de delictis gravioribus eidem Congregationi pro Doutrina Fidei reservatis: AAS 93 (2001) p. 786.

    [284] Cf. Código de Direito Canônico, c. 927; Congr. para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica e aos Outros Ordinários e Hierarcas interessados: de delictis gravioribus eidem Congregationi pro Doutrina Fidei reservatis: AAS 93 (2001) p. 786.

    [285] Código de Direito Canônico, c. 387.

    [286] Ibidem, c. 838 § 4.

    [287] Ibidem, c. 392.

    [288] João Paulo II, Constitução Apostólica, Pastor bonus, art. 52: AAS 80 (1988) p. 874.

    [289] Cf. ibidem, n. 63: AAS 80 (1988) p. 876.

    [290] Cf. Código de Direito Canônico, c. 1417 § 1

  8. Um artigo específico sobre a missa afro, escrito por D. Estevão Bettencourt, osb

    http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESTEVAO&id=deb0055

    A Missa Afro

    Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
    D. Estevão Bettencourt, osb.
    Nº 403 – Ano 1995 – Pág. 560

    Em síntese: O rito de Missa Afro exibido pela televisão aos 20/08/95 não passa de um ensaio infeliz de inculturação que de modo nenhum gozava da aprovação do Papa João Paulo II, ao contrário do que foi declarado. Trata-se, antes, de uma iniciativa local, cujos mentores visavam a utilizar símbolos da cultura africana para exprimir a fé e a Liturgia católicas; acontece, porém, que o espetáculo daí resultante não atingiu a sua finalidade, que era elevar as mentes a Deus em atitude de oração; lembrou muito mais os festejos folclóricos do nosso povo, associados a Carnaval e a cultos não cristãos. A inculturação tem em vista aproveitar expressões da cultura africana, asiática e indígena para transmitir as verdades do Evangelho; estas são destinadas a todos os povos e devem ser apresentadas aos destinatários de tal maneira que as possam compreender e viver, sem que percam a sua identidade africana, asiática ou indígena. Esta tarefa de inculturação é delicada e difícil, como se pode depreender da iniciativa mal sucedida de que nos deu notícias a televi¬são. – Importa frisar que o espetáculo assim apresentado não represen¬ta os rumos oficiais da Igreja Católica. Quanto à escrava Anastácia, é notório que ela nunca existiu; o seu rosto recoberto de máscara se deve à fusão de duas gravuras que representavam rostos masculinos! A biografia respectiva se deve ao Sr. Yolando Guerra, falecido em 1983, que, com a melhor das intenções, reuniu documentos diversos dos quais re¬sultou a estória da escrava Anastácia.

    Nos últimos tempos algumas paróquias do Brasil têm apresentado aos fiéis o espetáculo de Missa com instrumentos musicais, cantos, gestos e símbolos que lembram fortemente o folclore popular ou mesmo o Candomblé, a Umbanda, o Carnaval… Um dos momentos mais expressi¬vos desses novos rituais foi a celebração exibida pela TV Globo em seu programa “Fantástico” de 20/08 pp: além de danças, paramentos fortemente coloridos, pipocas, foi ostentada a imagem da “Escrava Anastácia”, que nunca existiu, sendo então presidente da celebração um Cardeal da S. Igreja. O espetáculo, presenciado por espectadores de todo o Brasil, causou impacto profundo, de mais a mais que a emissora de televisão afirmou que tal ritual fora aprovado e abençoado pelo Papa. À guisa de confirmação desta falsa notícia, a TV Globo mostrou quadros de uma Missa celebrada por João Paulo II utilizando símbolos africanos na basílica de São Pedro em Roma.

    Que dizer a propósito? O ritual da Missa será mudado? Os símbolos que lembram folclore e festas populares tornar-se-ão habituais na Igre¬ja?

    É preciso responder, de imediato, que tais ensaios, especialmente o que a TV apresentou em 20/08…, são tentativas infelizes ou mal sucedi¬das de inculturação, tentativas que contrariam as instruções oficiais da Santa Sé. Esta preconiza a inculturação dentro de moldes dignos, que preservem ou mesmo favoreçam o caráter sagrado e orante da Liturgia. Vejamos, pois, o que a Igreja entende por “inculturação”.

    1. INCULTURAÇÃO

    A Liturgia é o exercício continuado do sacerdócio de Jesus Cristo, que, com a sua Santa Igreja, adora, agradece, suplica e desagrava Deus Pai. Ora a Igreja é a hierarquia e o povo santo de Deus; em conseqüên¬cia, o povo católico toma parte nesse culto sagrado que a Igreja unida a Cristo presta ao Pai… E toma parte segundo os seus moldes próprios de expressão: língua, gestos, símbolos… aptos a significar o louvor a Deus e as preces do coração humano. Cada povo tem o direito de se exprimir diante de Deus segundo os seus canais típicos de manifestação ou, numa palavra, conforme a sua cultura¹.

    É por isto que na S. Igreja existem, desde épocas antigas, diversos ritos litúrgicos e, em particular, diversos ritos de celebração da Eucaris¬tia: além do romano, há os ritos orientais (o bizantino, o melquita, o maronita…) e os ritos ocidentais menos propagados (o ambrosiano, o visigótico, o lionês…). Acontece, porém, que, ao expandir-se para a Áfri¬ca, a Ásia e a América, os missionários levaram o rito latino romano, com seus símbolos e gestos…, assaz diversos do linguajar dos povos não europeus. Em conseqüência, o Cristianismo tomou, por vezes, a feição de uma religião de europeus para europeus ou ocidentais…, religião muito estranha aos povos da África, da Ásia e da América indígena. Para que um filho de qualquer desses povos se fizesse cristão, deveria deixar de se sentir africano, asiático, indígena? Haveria dilema entre as culturas não européias e a mensagem cristã, de modo que quem optasse por uma deveria renunciar a outra? Um africano que se faça cristão, deverá desintegrar-se de sua nação?

    – Está claro que não. O Cristianismo é essencialmente católico, universal, destinado a todos os povos; ele deve levar o ser humano à sua plena realização, adotando tudo o que haja de válido e sadio no expressionismo humano para louvar e suplicar a Deus. Eis por que nos últimos decênios a Igreja tem apregoado a inculturação da S. Liturgia.

    Donde se vê que inculturar é assumir, dentre os elementos da cultu¬ra (linguagem, gastos, símbolos…) de cada povo, aqueles que possam ser veículos fiéis e dignos da fé católica, não deteriorada nem adultera¬da. Pode acontecer que em certas regiões determinados símbolos sejam muito significativos de reverência e louvor, mas que em outras partes do mundo nada signifiquem ou até exprimam o contrário; basta lembrar o uso do chapéu por parte dos homens (o ocidental tira o chapéu em sinal de respeito, ao passo que o judeu o coloca sobre a cabeça para signifi¬car a mesma coisa).

    A inculturação assim concebida é tarefa muito delicada e difícil. Deve levar rigorosamente em conta a sensibilidade, a psicologia, os costumes dos povos mais diversos, a fim de não suscitar, por parte de quem a considera, interpretações indesejáveis ou falsas. Deve evitar todas as expressões populares já consagradas pelo folclore carnavalesco ou quase carnavalesco, como também todos os símbolos característicos de cultos não católicos.

    Eis o que a propósito dizia o Concílio do Vaticano II em 1963:

    “A Igreja não deseja impor na Liturgia uma forma rígida e única para aquelas coisas que não dizem respeito à fé ou ao bem de toda a comuni¬dade. Antes, cultiva e desenvolve os valores e os dotes de espírito das várias nações e povos. O que quer que nos costumes dos povos não esteja ligado indissoluvelmente a superstições e erros, Ela o examina com benevolência e, se pode, o conserva intato. Até, por vezes, admite-o na própria Liturgia, contanto que esteja de acordo com as normas do verdadeiro e autêntico espírito litúrgico” (Constituição Sacrosanctum Concilium n0 38).

    “Salva a unidade substancial do rito romano, dê-se lugar a legítimas variações e adaptações para os diversos grupos, regiões e povos, principalmente nos territórios de missão, também quando forem reformados os livros litúrgicos” (ibid. n0 38).

    “A competente autoridade eclesiástica.. considere acurada e prudentemente o que, das tradições e da índole de cada povo, se pode oportunamente admitir no culto divino. As adaptações que pareçam úteis ou necessárias sejam propostas á Sé Apostólica, para serem introduzidas com o seu consentimento” (ibid. nº 40, 1).

    Em 1975 o Santo Padre Pauto VI assim se exprimia, falando da pregação do Evangelho em geral:

    “0 Evangelho e, conseqüentemente, a evangelização não se identificam por certo com a cultura, e são independentes em relação a todas as culturas. E, no entanto, o Reino que o Evangelho anuncia, é vivido por homens profundamente ligados a uma determinada cultura, e a edificação do Reino não pode deixar de servir-se de elementos da cultura e das culturas humanas. O Evangelho e a evangelização independentes em relação ás culturas não são necessariamente incompatíveis com elas, mas suscetíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas” (Exortação Apostólica Evangelium Nuntiandi nº 20).

    O Papa João Paulo II tem presidido a celebrações que utilizam a simbologia de povos não europeus, todavia dentro dos parâmetros da reverência indispensável à Sagrada Liturgia. Quaisquer que sejam os gestos e sinais aplicados à Liturgia, deverão sempre contribuir para que se levem as mentes a Deus numa atitude de oração e adoração. Caso este objetivo não seja atingido, mas, ao contrário, se provoque dispersão e perplexidade entre os fiéis, os símbolos não podem ser considerados autênticos.

    É à luz de tais ponderações que se devem avaliar as tentativas de adotar elementos culturais novos para enriquecer sadiamente o ritual católico.

    Quanto à Escrava Anastácia, deve-se dizer o seguinte:

    2. A “ESCRAVA ANASTÁCIA”

    A devoção a “Escrava Anastácia” está baseada numa lenda, pois cultua uma personagem que nunca existiu.

    2.1. COMO SURGIU A LENDA?

    Em 1971 houve uma solenidade, com toda razão, cara aos homens de cor: a trasladação para o mausoléu, na Catedral de Petrópolis, dos restos mortais da Princesa Isabel e de seu marido o Conde d’Eu. Antes de seguirem em 29/7/1971 para lá, ficaram, para uma vigília cívica, na igreja do Rosário. Para acentuar o merecimento da Princesa na questão da Abolição da Escravidão, organizou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico do então Estado da Guanabara uma exposição iconográfica no museu desta igreja e, a pedido do diretor deste, Sr. Yolando Guerra (+ 30/11/83), ficou após o encerramento da exposição uma ampliação fotográfica, feita pelo Serviço do Patrimônio, da ilustração dum livro francês que apresentava, como diz o título do desenho, “châtiment des esclaves (Brésil)” – “Castigo dos escravos no Brasil”. O “poster” está ainda no Mu¬seu.

    O resto é totalmente inventado do Sr. Yolando Guerra. Condoído pela apresentação dos castigos e influenciado pelo interesse despertado entre os visitantes, começou a escrever sobre o assunto (ele já tinha escrito anteriormente artigos sobre a igreja do Rosário, a escravidão, a Princesa Isabel, a Umbanda) e avançou pouco a pouco: começou achando que se tratava de uma mulher escrava (se bem que inicialmente co¬mentasse “que nada se sabia dela”); achou que “poderia ter sido” – e apresentou uma biografia completa com o nome Anastácia, princesa banto-Angola, ligada a Abaeté-Bahia e Rio. Até acrescentou uma “prece” de sua autoria, nesta “Oferta de Yolando Guerra”. Tudo isso consta de documentos impressos ou mimeografados pelo Sr. Yolando Guerra.

    2.2. E A ORIGEM DO “POSTER”?

    Em 1817 visitou o Rio de Janeiro um escritor e desenhista francês, Jacques Étienne Victor Arago.

    Como outros dessa época, participou de uma expedição científica, encarregado da documentação iconográfica. Desenhou (pois não existia máquina fotográfica) e seus trabalhos foram, por técnicos especializados, transformados em litografias, algumas coloridas, outras em preto e bran¬co.

    Observou, com espírito crítico e bastante negativo, a sociedade brasileiro-portuguesa da época, ficando particularmente penalizado e escandalizado com o sofrimento dos escravos. No livro Viagem ao redor do mundo. Memória de um cego, conta muitos detalhes e a certa altura descreve dois dos castigos observados: “Olhe aquele homem que pas¬sa por lá, com um anel de ferro, ao qual é adaptada uma haste do mesmo metal, fortemente presa à nuca: é um escravo que tentou fugir”; “Eis um outro cujo rosto é totalmente coberto por uma máscara de flandres, na qual foram abertos dois furos para os olhos; o miserável comeu terra e capim para se suicidar… “Para mostrar isso, juntou os dois castigos numa só ilustração, aliás não com toda precisão. Pois a haste da “gargantilha” costumava ser mais alta, para cumprir a finalidade: dificultar a fuga pelo mato, embaraçando-se nos galhos. E, se bem que existisse também uma máscara em forma de bridão, era mais usada a máscara total. Temos gravuras de muitos outros visitantes do Brasil nessa época.

    Portanto: 1º – o sr. Arago reúne numa só figura o castigo que tinha observado em dois homens;

    2º – ele, que em outros trechos menciona os nomes dos escravos em questão, aqui apresenta um anônimo (em lugar de dois);

    3º – numa edição de 1840, é fácil ver que quis apresentar um ho¬mem e não uma “mulher de extraordinária beleza” (as ilustrações de ou¬tras edições não puderam ser controladas por ele, que tinha ficado cego);

    4º – a ilustração é em preto e branco. Portanto é pura fantasia falar de “olhos azuis”;

    5º – fantasia igual é afirmar que este “retrato” da escrava Anastácia foi encontrado entre as cinzas da igreja após o incêndio de 25/3/1967. Não sobraram quadros a óleo, quanto menos um papel fotográfico (!), levado à igreja em 1971, como explicamos. O sr. Guerra comenta clara¬mente que, antes de 1971, não se sabe nem se diz algo sobre o assunto.

    Assim, devemos chegar à conclusão de que, por mais justo que seja compadecer-se com o sofrimento dos escravos negros, não podemos aceitar o culto litúrgico duma figura que não existiu, baseando-¬nos numa gravura que não apresenta uma mulher, mas um homem (melhor: dois homens). Um movimento popular surgiu pela fantasia inventora do sr. Yolando Guerra. Esta fantasia pode servir para um romance, um filme, se quisermos.

    Apesar de tudo, assumiu características de uma “devoção”: com orações, pedidos e agradecimentos por graças recebidas (promessas), con¬fecção e venda de santinhos com orações, medalhas, estatuetas em gesso, “posters”, livrinhos impressos com uma suposta biografia, missas à escrava Anastácia, velas – e até um movimento para pedir a canonização litúrgica. Um esperto, afastado pelos responsáveis da Irmandade de N. S. do Rosário, se colocou nas imediações da igreja, com um grande saco aberto e um cartaz, pedindo contribuições “para as despesas da canonização” da “Escrava – Princesa”, da “Princesa – Deusa”, da “Deusa – Escrava”.

    2.3. A NOTA DA CÚRIA ARQUIDIOCESANA DO RIO

    Em vista dos resultados atrás publicados, entende-se que a Cúria Arquidiocesana do Rio de Janeiro tenha publicado a seguinte nota.

    “ESCRAVA ANASTÁCIA”

    “O culto dos Santos sempre foi objeto de especiais cuidados por parte da Igreja, pois o exemplo de suas vidas é proposto como modelo de santidade a ser imitado.

    Assim sendo, antes que uma pessoa falecida seja declarada Santa oficialmente, sua vida é submetida a sérios exames e pesquisas, efetuados por estudiosos competentes, como vem acontecendo, por exemplo, com o Venerável Pe. Anchieta e outros.

    Nestes últimos decênios, tendo surgido um certo movimento de culto popular à “Escrava Anastácia”, a Autoridade Eclesiástica viu-se na obrigação de promover estudos e pesquisas sobre este assunto, a fim de que a piedade dos fiéis possa ter um sólido e firme suporte e não seja, eventualmente, decepcionada na sua boa fé. Os estudos, em fase de conclusão, são negativos quanto à autenticidade da existência dessa personagem.

    Determina-se aos Sacerdotes que se abstenham de aceitar inten¬ções de Missa de ação de graças ou por outro qualquer motivo à “Escra¬va Anastácia”. Tal determinação, naturalmente, não impede que sejam aceitas por almas dos escravos.

    Rio de Janeiro, 26 de agosto de 1987

    Dom Romeu Brigenti

    Vigário Geral e Moderador da Cúria”

    O interesse da Igreja, no caso, é evitar que a piedade se torne meramente sentimental e quase irracional, baseando-se em “estórias” não devidamente reconhecidas e avaliadas. A atitude da autoridade eclesi¬ástica está longe de significar descaso do problema da escravatura, que deve ser abordado na base de fatos históricos e não sobre fundamentos lendários.

    ¹ Assim define cultura o Concílio do Vaticano II:

    “Pela palavra cultura indicam-se todos os elementos pelos quais o homem aperfeiçoa e desenvolve as suas variadas qualidades de alma e de corpo; procura submeter a seu poder, pelo conhecimento e pelo trabalho, o orbe terrestre; torna a vida social mais humana, tanto na família quanto na comunidade civil, pelo progresso dos costumes e das instituições; enfim, exprime, comunica e conserva em suas obras no decurso dos tempos as grandes experiências espirituais e as aspirações, para que sirvam ao proveito de muitos ou mesmo de todo o gênero humano” (constituição Gaudium et Spes nº 53).

    Data Publicação: 06/08/2007

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  14. Bom dia padre, Adorei seu blog e gostaria mto que me enviasse as atualizações pelo meu twitter pra que o divulgue. @nadiavida .

    Sou católica desde sempre, mas há algum tempo não vou à missa. Não encontro o que procuro, qtas vezes precisei de uma palavra de conforto e o padre da minha comunidade nunca me atendeu como gostaria. Falava mto rápido, olhando pro relógio, parecia que estava fazendo um favor. Essas atitudes estão afastando os católicos da igreja. Agora rezo meu teço sozinha… Em casa. Mas gosto do templo mas perdi a motivação. Parabéns!Acho quer aqui encontrarei o que procuro. Abraços

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  16. Rafael Queiroz

    O sincretismo é uma doença sobretudo aqui no Brasil e também no interior da Igreja.

    As missas afro , as missas índígenas e quiça as missas da RCC (amplamente inspiradas em um estilo neopentecostal) são exemplos claros disso.O clero do Brasil precisa não apenas de advertências mas de punições canônicas.

  17. todo este sincretismo e fruto do concílio vaticano II que rompeu com a tradição da igreja e com os sagrados ensinamentos,a igreja pos concilio e apostata inclusive a canção nova que só tem hereges e pseudos conhecedores da doutrina católica,uma destes hereges é o padre joãozinha que em um dos seus posts negou até o concílio de latrão que é um concilio dogmático.

  18. A Igreja soube valorizar a cultura e a piedade popular. A inculturação enriquece a vida espiritual da comunidade de fieis. Mas sincretismo, realmente, não dá.

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