FOTO OFICIAL - Pe. Joãozinho, scjJoão Carlos Almeida, o conhecido Pe. Joãozinho, scj, relata sua experiência como palestrista que percorre o Brasil falando sobre temas que vão de espiritualidade a empreendedorismo, de liturgia a Doutrina Social da Igreja. As Paróquias e Dioceses redescobrem o potencial motivador e formativo das palestras.

 

 

Dizer que a “palestra” é uma novidade na paróquia parece algo absurdo. Jesus palestrava continuamente por meio de parábolas, conversas e sermões. Os primeiros cristãos já sabiam da importância de uma “conversa familiar” após a leitura da Palavra de Deus, na Eucaristia. Aos poucos os “sermões” foram ficando mais longos e complexos. Recentemente o Papa Francisco relembrou aos sacerdotes o sentido original da homilia. Não é uma aula, um discurso, uma conferência ou mesmo um espetáculo. É a conversa de uma mãe com seus filhos: “A Igreja é mãe e prega ao povo como uma mãe fala ao seu filho, sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que se lhe ensina é para seu bem, porque se sente amado. Além disso, a boa mãe sabe reconhecer tudo o que Deus semeou no seu filho, escuta as suas preocupações e aprende com ele. O espírito de amor que reina numa família guia tanto a mãe como o filho nos seus diálogos, nos quais se ensina e aprende, se corrige e valoriza o que é bom; assim deve acontecer também na homilia.” (Evangelii gaudium nº 139).

Mas, então, que inovação existe nas palestras? Nossa reportagem procurou um palestrista experiente que a muitos anos percorre o Brasil e outros países desenvolvendo os mais diferentes temas: o teólogo e comunicador João Carlos Almeida, mais conhecido como Pe. Joãozinho, scj.

RP: Qual a origem da palavra “palestra”?

PJz: Esta palavra vem do grego palaistra, que significa o lugar destinado ao esporte das lutas corporais. Ainda hoje, em italiano, palestra significa o lugar onde se fazem exercícios físicos. Mas desde a antiguidade, por analogia, a palavra palestra começou a designar um estilo acadêmico de conversa sobre algum assunto. Mais do que uma simples conferência ou “aula expositiva” a palestra supõe uma relação motivacional com o público. Este estilo de comunicação fez escola desde a antiga Grécia até os nossos dias.

RP: É diferente de uma aula, sermão ou curso?

Sim! A palestra tem um tema e uma duração bem definidas. Geralmente trata de um tema concreto e motivacional. Um curso desenvolve lentamente detalhes mais profundos de uma temática. A palestra é apenas uma introdução. Em um jantar seria o aperitivo: abre o apetite. Dura de uma a duas horas. É intensa e bem preparada. Usa recursos de oratória, de motivação, imagem, símbolos e tem certa arte dramática. O palestrante não é apenas um professor. Além de dominar o tema precisa dominar o público. É um artista.

RP: Qual o valor de uma palestra?

As empresas investem continuamente em palestras, pois perceberam que equipes motivadas alcançam melhor desempenho. Um bom palestrista é aquele que deixa em cada pessoa e no grupo como um todo maior entusiasmo.

RP: Existe espaço para este estilo de palestra nas paróquias?

Demorei algum tempo para perceber que as palestras funcionam muito bem no ambiente paroquial e diocesano. Durante anos dei cursos de liturgia, preguei retiros, fiz shows de evangelização e dei aulas de teologia sem entender exatamente o “estilo inovador da palestra”. Até o dia em que fui convidado para dar uma palestra sobre liderança juntamente com um palestrista de renome no ambiente corporativo. Rapidamente percebi que seu conteúdo era mínimo. Seu foco era motivar as pessoas. Fiquei pensando se não seria capaz de produzir o mesmo entusiasmo com conteúdo. Comecei a dar palestras utilizando mais recursos visuais e musicais. Deu certo. Posso lhe dizer que o resultado é fantástico. Mas para preparar uma palestra dá muito mais trabalho. Hoje para falar durante uma hora e meia tenho que me preparar durante umas seis ou sete horas. Algumas paróquias perceberam que este estilo de comunicação dá mais resultados em termos de motivação pastoral. É claro que depois deste “aperitivo motivacional” é preciso vir com o alimento mais sólido. O bom é que os corações estão abertos e as pessoas motivadas.

RP: Que tipos de palestra o senhor tem dado no ambiente paroquial?

Isto é muito interessante. Tudo começou com palestras para empreendedores. Normalmente antes escrevo um livro sobre a temática. Foi o que aconteceu com As sete virtudes do líder amoroso, publicado pela Editora Canção Nova. Preparei uma palestra de uma hora e meia com uma série de recursos visuais. Rodei praticamente todo o Brasil com este tema. Lembro de palestras em Belo Horizonte, Aracaju, Salvador, São José do Rio Preto, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, João Pessoa… apenas para citar alguns lugares. Normalmente uma palestra puxa outra. Escrevi um segundo livro que continuava a temática: Como liderar pessoas difíceis e outro: Primeiro passo para o sucesso (ambos pela Editora Canção Nova). Fui percebendo que um livro bem escrito é suporte fundamental para uma palestra eficaz. Por isso comecei a reelaborar minhas ouras palestras. Hoje tenho uma série de temas que reelaboro de acordo com as necessidades do lugar: Curso de Liturgia, Pastoral da Acolhida, Como escolher as músicas da missa, Dinâmica Carismática, Pastoral do Empreendedor, Educação Integral, Apostolado da Oração, Dons carismas e frutos do Espírito, Doutrina Social da Igreja, Aprenda a rezar com Maria, As janelas do Vaticano II, As portas da fé, Redes Sociais, A Pascom, Solidariedade, Curso Básico de Teologia. Estes são alguns dos temas que tenho abordado.

RP: Que infraestrutura é necessária para organizar uma palestra?

Este é o lado bom. A infraestrutura é mínima e o resultado é máximo. Normalmente a palestra é feita para 100 até 400 pessoas. Já dei palestra para 30 e para mil pessoas. Mas o comum é que gire em torno de 200. Basta uma aparelhagem de som muito simples e data show. Normalmente trabalho com dois microfones sem fio (um fica à disposição do púbico para perguntas) e outro microfone com pedestal caso use o violão em alguma canção. É importante prever a conexão do computador com a mesa de som, pois uso o som de vídeos em minhas apresentações. O ambiente deve ser simples, porém, agradável. Fiz muitas palestras em anfiteatros. O resultado é ótimo.

RP: Como está sua agenda para 2014?

Crescem todos os dias os pedidos por palestras. Dou preferência para eventos bem organizados e cujos pedidos vêm do pároco ou do bispo. Tenho várias palestras sobre liturgia, teologia e Pastoral do Empreendedor previstas para este ano. Mas ainda recebo convites. Basta mandar e-mail com os detalhes para jocalmeida2005@hotmail.com

 

Lembro bem quando aquela dona de casa reclamou: “Padre, acho que eu deveria ter sido uma religiosa. Sinto muita vontade de viver uma espiritualidade profunda, mas as coisas do dia-a-dia me dispersam e acabo vivendo na superficialidade!” Na ocasião fiquei sem resposta. De fato ela poderia ter errado a vocação. Marido, filhos, almoço pra fazer, casa para limpar, roupa para lavar, telefone que toca… parecia impossível viver uma espiritualidade profunda no ambiente de uma casa de família.

Passou algum tempo e eu estava pregando um retiro para religiosas de clausura. Uma delas, angustiada, me procurou para partilhar seu “grande problema”. O ambiente do convento era dispersivo demais. Ela não conseguia viver uma espiritualidade profunda. Lembrei da dona de casa e perguntei para a religiosa: “E se você tivesse casado?”

O fato é que a nossa espiritualidade não pode existir no vazio. É uma ilusão pensar que seremos místicos quando nada nos dispersar. As coisas do dia-a-dia devem alimentar nossa vida interior. Mas depende do modo como olhamos para elas. Se você estiver lavando louça e fizer isso de maneira mecânica e funcional, será dispersivo. Mas se você sentir a água e viver a dimensão mística de um pequeno gesto, será um alimento para seu coração.

Fico pensando como Jesus espiritualizava suas andanças, almoço na casa de gentios, conversas com mestres e doutores, encontro com paralíticos e leprosos… Alguém um dia lhe perguntou qual é o lugar certo para adorar a Deus e ele disse que não se trata de um lugar mas de uma atitude: em espírito e verdade. Espiritualidade significa cultivo de “vida interior”. Você pode ser superficial na igreja e profundo na praça. Os místicos são pessoas que vivem cada instante como uma semente de eternidade e encontram o paraíso em uma gota d’água. Não é preciso dominar o mundo para ser feliz. O quotidiano esconde caminhos de felicidade que só encontra quem tem um coração aberto para encontrar a sintonia correta.

Apesar disso é muito útil parar de vez em quando e encontrar um lugar escondido para ficar em silêncio. Jesus fazia isso à noite quando subia ao monte para rezar. Quem sabe o travesseiro seja um bom companheiro para a espiritualidade do quotidiano. Durma rezando que você rezará dormindo.