Lembro bem quando aquela dona de casa reclamou: “Padre, acho que eu deveria ter sido uma religiosa. Sinto muita vontade de viver uma espiritualidade profunda, mas as coisas do dia-a-dia me dispersam e acabo vivendo na superficialidade!” Na ocasião fiquei sem resposta. De fato ela poderia ter errado a vocação. Marido, filhos, almoço pra fazer, casa para limpar, roupa para lavar, telefone que toca… parecia impossível viver uma espiritualidade profunda no ambiente de uma casa de família.

Passou algum tempo e eu estava pregando um retiro para religiosas de clausura. Uma delas, angustiada, me procurou para partilhar seu “grande problema”. O ambiente do convento era dispersivo demais. Ela não conseguia viver uma espiritualidade profunda. Lembrei da dona de casa e perguntei para a religiosa: “E se você tivesse casado?”

O fato é que a nossa espiritualidade não pode existir no vazio. É uma ilusão pensar que seremos místicos quando nada nos dispersar. As coisas do dia-a-dia devem alimentar nossa vida interior. Mas depende do modo como olhamos para elas. Se você estiver lavando louça e fizer isso de maneira mecânica e funcional, será dispersivo. Mas se você sentir a água e viver a dimensão mística de um pequeno gesto, será um alimento para seu coração.

Fico pensando como Jesus espiritualizava suas andanças, almoço na casa de gentios, conversas com mestres e doutores, encontro com paralíticos e leprosos… Alguém um dia lhe perguntou qual é o lugar certo para adorar a Deus e ele disse que não se trata de um lugar mas de uma atitude: em espírito e verdade. Espiritualidade significa cultivo de “vida interior”. Você pode ser superficial na igreja e profundo na praça. Os místicos são pessoas que vivem cada instante como uma semente de eternidade e encontram o paraíso em uma gota d’água. Não é preciso dominar o mundo para ser feliz. O quotidiano esconde caminhos de felicidade que só encontra quem tem um coração aberto para encontrar a sintonia correta.

Apesar disso é muito útil parar de vez em quando e encontrar um lugar escondido para ficar em silêncio. Jesus fazia isso à noite quando subia ao monte para rezar. Quem sabe o travesseiro seja um bom companheiro para a espiritualidade do quotidiano. Durma rezando que você rezará dormindo.

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