Numa terra muito distante havia um rei que vivia feliz com seu povo. A terra era generosa em flores, frutos e animais de toda espécie. A água brotava generosamente de fontes que saciavam a todos. A paisagem era paradisíaca. As riquezas naturais eram tantas que eles nem se importavam com outras riquezas que dormiam embaixo de seus pés: ouro, prata e ferros e todo tipo de metais que não faziam a menor diferença para o povo do reino de Miraflores.

Mas um dia chegaram magos do oriente e pediram para falar com o rei. Vieram com o mapa da mina. Tinham uma conversa sedutora. Diziam que o país era pobre e precisava explorar os minérios para ficar entre as primeiras nações do planeta. Os milagres eram fantásticos. Chegaram a sugerir que se mudasse o nome do país para Miraferro. O rei ouviu atentamente e no final fez apenas uma pergunta: “Mas onde seriam colocados os rejeitos da mineração? Afinal, toda riqueza exagerada produz algum lixo! Onde este resíduo seria depositado para sempre?

Os magos trouxeram longos projetos que descreviam uma engenhoca feita de balões lixeiros. O rei ficou admirado. Não sabia se estava entendendo bem. O lixo seria guardado no céu? Em cestos de balões? Sim. Mas com absoluta segurança. E onde ficariam os balões? Os magos explicaram que ficariam sobre as cidades, florestas, rios e mares. O rei ficou desconfiado. Mas seria seguro? Não existe risco de um destes balões cair sobre a cidade ou mesmo sobre o Rio Maravilha que corta o reino? Os técnicos explicaram detalhadamente que o risco seria de apenas 1%. Desprezível. O rei consultou sua corte. Os nobres nem esperaram falar do risco. Todos estavam convencidos que o projeto era ótimo, pois na véspera haviam recebido dezenas de presentes dos Magos: roupa nova, carro novo, casa nova. Estavam literalmente a favor. O rei, então, autorizou o começo da mineração.

No começo tudo foi muito tranquilo. Um grande progresso chegou ao reino. Os exploradores eram discretos e os balões-lixo ficavam fora das vistas do povo. E, como sabemos, o coração não sente o que os olhos não veem. Mas os anos se passaram e o lixo foi aumentando. Aos poucos era possível ver os balões sobre a cidade e, principalmente, ao longo de todo o Rio Maravilha. Os técnicos diziam que, com isso, reduziriam os danos. O rei chegou a perguntar: “mas que dano?”. No caso de algum balão cair, explicaram. O rei disse assustado: “Mas existe risco?!” Eles responderam: “acalme-se… nada mais do que 5%”.

Um dia o povo começou a estranhar que o sol não nasceu. Todos saíram para a rua e viram que existia tamanha quantidade de balões que já não era possível ver o sol. Os Magos compraram mais casas para os nobres e construíram um palácio novo para o rei e até para os pretendentes de rei. Todos, então, ficaram calmos, sob a sombra da tragédia iminente, afinal, o risco não ultrapassava 10%.

Mas aconteceu o que ninguém esperava. Um dos balões caiu sobre o Rio Maravilha. Algumas pessoas foram atingidas pela chuva de lama tóxica. Logo os técnicos foram a rei explicar que o plano havia dado certo. A cidade nada sofrera. O balão tinha caído sobre o Rio. Logo a lama desapareceria e a vida voltaria ao normal. Passaram-se os dias e a lama continuou avançando. Matou os peixes e as esperanças dos pescadores. Os indígenas viram seu rio sagrado morrer. Cidades ficaram sem água e o comércio foi atingido. A vida no reino nunca mais foi a mesma. As flores pararam de sorrir. Tartarugas fugiram no momento da desova. Caranguejos foram assassinados no mangue. A flora que habitava feliz abaixo das águas do doce rio foi exterminada cruelmente. Os rejeitos chegaram ao mar e atingiram o mundo inteiro.

O rei ficou muito triste e decretou que, na verdade, se tratava de um lamentável desastre natural. A corte fez cara de poucos amigos, mas preferiu manter as casas e carros recebidos da mineradora. A cidade ficou confusa, pois estava totalmente dependente da mineradora. Os pássaros não tinham mais onde pousar. Alguém explicou na escola para as crianças que um dia Miraferro já havia sido Miraflores. Um menino qualquer perguntou: “E onde estão as flores, professora?”

Então o rei chamou os magos e perguntou: “O que faremos com os outros 700 balões que estão sobre nossas cabeças? Eles responderam: Não se preocupe majestade. O risco é de apenas 1%. E viveram infelizes para sempre no reino de Miralama.

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