Pe. Joãozinho, scj[1]

 

Durante o 12º Congresso Mariológico, em Aparecida, em 2018, tive a oportunidade de apresentar ao povo um livro publicado por um irmão redentorista. Falei da capa, do título e do conteúdo. Achei a temática muito interessante por ser um resgate fiel dos fatos que deram origem ao Santuário Nacional que acolhe milhões de peregrinos todos os anos. Gostei daquilo que li. Era uma pesquisa séria e um texto bem escrito. Mas confesso que era letra morta. O livro não tinha vida. De repente em um recorte de tempo que apareceu durante o Congresso tive o impulso de chamar o Ir. José Mauro Maciel, para ele mesmo falar de sua obra. Misturando amor com humor, saber com sabor, o escriba deu vida ao livro. Em menos de 10 minutos ele mostrou que sabia seu livro de cor (que vem do latim: de coração). Falou os pontos essenciais com fluência e simplicidade. Ele enfrentou a complexidade do tema em horas de pesquisa silenciosa e, por isso, tinha habilidade de falar de modo simples. Se escritor é isso. É viver no silêncio contemplativo da pesquisa dias, meses e até anos. A gestação de um livro dura bem mais que nove meses. Por isso todo livro é um filho e o parto é mais que dolorido. Escrever dói! O autor não vê seu livro como um produto ou como um impresso qualquer. É um membro de seu corpo. Tem alma e personalidade. É único. É o retrato eternizado de uma parte do seu ser.

Mas nem tudo são flores e amores na vida do escritor. Quando escrevi meu primeiro livro, ainda na mais tenra juventude, o saudoso Pe. Galache, jesuíta diretor da Loyola, insistiu diversas vezes com aquele vigor típico de espanhol para que eu lhe entregasse os originais para a publicação. Da minha parte sempre pedia mais um tempo pois achava que havia algo para melhorar. Depois fui perceber que todo escritor é assim. Seguramos o livro até que nos arrancam a criança dos braços. E assim fez o Pe. Galache dizendo: “Meu jovem, marque o que vou dizer… nenhum autor entrega seu livro para a editora. Todos se livram de um problema que têm em casa”. No meu ingênuo idealismo juvenil achei aquilo vigoroso demais. Hoje vejo que é um fato. Os editores “ajudam” os escritores. Eles nos livram de ideias mirabolantes e completamente fora do interesse do público. O livro é escrito para ser lido e não apenas como um desejo de exprimir algo.

A vida me levou intensamente para o lado das letras. Já são mais de cinquenta livros nestes quase trinta anos dedicados à escrever. Além disso, tenho minha obras secretas… duas teses de doutorado ainda não publicadas. Sempre acho que ninguém irá ler. De fato a primeira tese foi publicada como uma espécie de reconhecimento da editora por meus outros livros populares mais vendidos. Esse “livro científico” ficou na prateleira. Mas tenho imenso orgulho quando tomo nas mãos meu livro “Teologia da Solidariedade”. Um dia alguém descobrirá intuições interessantes ali.

Recentemente descobri a vocação de tradutor. Tive oportunidade de traduzir o livro do papa Francisco “Deus é Jovem”. Alguém poderia imaginar que esse é um trabalho mecânico e sem graça. Nada disso. Após a tradução literal vem o trabalho de fazer a versão. Isso significa dar o tom, o sotaque, a fluência portenha para o livro. É como se fosse uma música. Não basta traduzir a letra e ser rigorosamente fiel ao sentido. É preciso grudar as palavras na melodia. Uma pessoa comentou comigo ao ler o livro de Francisco que traduzi: “Parece que a gente escuta o papa falar”. Pensei: essa pessoa nem imagina o trabalho que deu para me esconder nas palavras e evidenciar o jeito do autor. Não tenho pudor de autografar a tradução quando me trazem. Traduzir é de certa-forma ser co-autor.

Escrever tem sua sacramentalidade pois o Verbo se fez carne e habitou no meio de nós, armou entre nós sua tenda na no livro que chamamos de Bíblia (cf. Jo 1,14). Aliás, voltando ao começo deste escrito, a Bíblia é mais que um livro: É UMA PESSOA.

 

[1] João Carlos Almeida, nasceu em Brusque-SC (10.05.1964) e é sacerdote religioso da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (Dehonianos). Tem cerca de 50 livros publicados por diversas editoras e mais de dois milhões de exemplares vendidos. Doutor em Teologia pela Pontifícia Faculdade N. Sra da Assunção (SP), em Educação pela USP e em Espiritualidade pela Gregoriana (Roma), atualmente é professor de Teologia da Faculdade Dehoniana, em Taubaté-SP.

(Sermo 83,4-6: Opera omnia, Edit. Cisterc. 2[1958], 300-302)

Amo porque amo, amo para amar

O amor basta-se a si mesmo, em si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio. Além de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de amar. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu princípio, volte à sua origem, mergulhe em sua fonte, sempre beba donde corre sem cessar. De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador e, por sua vez, dar-lhe outro tanto. Pois quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque bem sabe que serão felizes pelo amor aqueles que o amarem.

O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-Amor somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada corresponder ao amor! Por que a esposa e esposa do Amor não deveria amar? Por que não seria amado o Amor? É justo que, renunciando a todos os outros sentimentos, única e totalmente se entregue ao amor, aquela que há de corresponder a ele, pagando amor com amor. Pois mesmo que se esgote toda no amor, que é isto diante da perene corrente do amor do outro? Certamente não corre com igual abundância o caudal do amante e do Amor, da alma e do Verbo, da esposa e do Esposo, do Criador e da criatura; há entre eles a mesma diferença que entre o sedento e a fonte.

E então? Desaparecerá por isto e se esvaziará de todo a promessa da desposada, o desejo que suspira, o ardor da que a ama, a confiança da que ousa, já que não pode de igual para igual correr com o gigante, rivalizar a doçura com o mel, a brandura com o cordeiro, a alvura com o lírio, a claridade com o sol, a caridade com aquele que é a caridade? Não. Mesmo amando menos, por ser menor, se a criatura amar com tudo o que é, haverá de dar tudo. Por esta razão, amar assim é unir-se em matrimônio, porque não pode amar deste modo e ser menos amada, de sorte que no consenso dos dois haja íntegro e perfeito casamento. A não ser que alguém duvide ser amado primeiro e muito mais pelo Verbo.

 

Pe. Joãozinho, scj

 No seu recente livro Ave Maria (Editora Planeta, 2019), O Papa Francisco retoma uma bela imagem da aurora do cristianismo utilizada por Santo Irineu (130 – 202 d.C) “O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; aquilo que a virgem Eva atara com a sua incredulidade, desatou-o a virgem Maria com a sua fé” (Adversus Haereses III, 22, 4). Provavelmente essa é a origem remota da devoção a Nossa Senhora Desatadora dos Nós.

A frase é tão forte que atravessou dois mil anos de história e entrou no texto do Concílio Vaticano II: “Maria, filha de Adão, dando o seu consentimento à palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus e, não retida por qualquer pecado, abraçou de todo o coração o desígnio salvador de Deus, consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e à obra de seu Filho, subordinada a Ele e juntamente com Ele, servindo pela graça de Deus onipotente o mistério da Redenção. Por isso, consideram com razão os santos Padres que Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas que cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens. Como diz Santo. Ireneu, ‘obedecendo, ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano’. Eis porque não poucos Padres afirmam com ele, nas suas pregações, que ‘o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, desatou-o a virgem Maria com a sua fé’; e, por comparação com Eva, chamam Maria a ‘mãe dos vivos’ e afirmam muitas vezes: ‘a morte veio por Eva, a vida veio por Maria’” (Lumen gentium 56).

Mas o que significa isso? O Papa Francisco com simplicidade profunda nos ajuda a entender numa das mais belas respostas dadas ao padre Marco Pozza no livro Ave Maria: trata-se do “nó da desobediência, o nó da incredulidade. Poderíamos dizer, quando uma criança desobedece à mãe ou ao pai, que se forma um pequeno ‘nó’. Isto sucede, se a criança age sabendo o que faz, especialmente se existe aí pelo meio uma mentira; naquele momento, não se apóia na mãe e no pai. Sabeis que isto acontece tantas vezes! Então a relação com os pais precisa ser limpa desta falta e, de fato, pede-se desculpa para que haja de novo harmonia e confiança. Algo parecido acontece no nosso relacionamento com Deus. Quando não O escutamos, não seguimos a Sua vontade e realizamos ações concretas em que demonstramos falta de confiança n’Ele – isto é o pecado –, forma-se uma espécie de nó dentro de nós. E estes nós nos tiram a paz e a serenidade. São perigosos, porque de vários nós pode resultar um emaranhado, que vai se tornando cada vez mais penoso e difícil de desatar.  Mas, para a misericórdia de Deus – sabemos bem –,   nada é impossível! Mesmo os nós mais complicados desatam-se com a sua graça. E Maria, que, com o seu ‘sim’, abriu a porta a Deus para desatar o nó da desobediência antiga, é a mãe que, com paciência e ternura, nos leva a Deus, para que Ele desate os nós da nossa alma com a sua misericórdia de Pai. Cada um possui alguns destes nós, e podemos interrogar-nos dentro do nosso coração: Quais são os nós que existem na minha vida? ‘Mas padre, os meus nós não podem ser desatados’! Não, isto está errado! Todos os nós do coração, todos os nós da consciência podem ser desatados. Para mudar, para desatar os nós, peço a Maria que me ajude a ter confiança na misericórdia de Deus? Ela, mulher de fé, certamente nos dirá: ‘Siga em frente, vá até ao Senhor: Ele entenderá você’. E Ela nos leva pela mão, Mãe, Mãe, até ao abraço do Pai, do Pai da misericórdia”.

Exatamente por isso a Tradição da Igreja aprendeu a proclamar Maria como “Mãe de Misericórdia”. A Salve Rainha é uma dessas preces que repousa no coração do povo e acorda diariamente em seus lábios, principalmente ao final da recitação do Terço. Se pensarmos no seu autor, em torno do ano mil, entenderemos o sentido de cada palavra: Herman Contract (1013-1054). Nasceu com todas as doenças que se pode imaginar, inclusive com o palato do céu da boca fendido, o que o impedia de falar. Sua mãe o consagrou a Maria logo ao nascer. Mas a criança aparentemente não iria sobreviver. Foi entregue aos cuidados de um orfanato em um mosteiro. Tornou-se um milagre vivo. Além de se tornar monge e aprender a falar diversos idiomas foi compositor, matemático, poeta, escritor, historiador, musicólogo, teórico musical, astrônomo. Assim, entende-se o “gemendo e chorando nesse vale de lágrimas”, mas com a fé e confiança de que Maria nos “mostra para Jesus”. Cem anos depois, Bernardo de Claraval completou a prece de modo genial e definitivo: “ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria”.

            Além disso, a palavra “misericórdia”, na sua origem hebraica – Rahamin – significa literalmente “útero”. Maria é para nós o reflexo humano de um Deus Materno que nos gera para a vida. No seu colo encontramos o colo misericordioso de Deus. Ela nos representou diante do céu naquele dia em que o anjo Gabriel lhe fez a proposta para ser a mãe do Filho do Altíssimo. “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em segundo a sua promessa” (Lc 1,38). E foi aberta na terra a porta para o céu. Foi um sim totalmente livre, pois Maria não estava refém do pecado original: foi concebida imaculada. Era tão livre quanto nossos primeiros pais. Mas, ao contrário deles, ela disse SIM. Esse foi o seu principal ato de misericórdia.

            Naquele momento Maria ficou grávida de Deus. Em seu ventre foi gerado o Cristo todo: totalmente Deus e totalmente homem, como diria muito depois o Concílio de Calcedônia (451 d.C). O divino assumiu completamente o humano para nos redimir. Como havia dito Santo Irineu: “O que não foi assumido, não foi redimido”. O colo de Maria se tornou o sacrário desse mistério de salvação. Ali dentro, em Jesus Cristo, não era mais possível separar o que é humano do que é divino. Por isso a liturgia cristã, aos poucos começou repetir poemas em que reconhecia Maria como “Theotokos”, que a partir da tradução latina costumamos dizer em português: “Mãe de Deus”. Literalmente seria “portadora de Deus“. Oficialmente a Igreja levou um pouco mais de tempo para reconhecer essa verdade como dogma: apenas no Concílio de Éfeso, em 431, sob forte pressão popular.

            Por todos os lados que olhamos, Maria sempre aparece como aquela que reconcilia. Se retomarmos o primeiro texto cristão que faz referência a uma mulher, que depois seria identificada com o nome de Maria, veremos que o contexto é de salvação, reconciliação. Trata-se do versículo 4 do capítulo 4 da Carta de São Paulo aos Gálatas, utilizado por São João Paulo II logo no primeiro número de sua belíssima carta Redemptoris Mater: “A Mãe do Redentor tem um lugar bem preciso no plano da salvação, porque, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei, a fim de resgatar os que estavam sujeitos à Lei e para que nós recebêssemos a adoção de filhos. E porque vós sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Abbá! Pai!’” (Gálatas 4, 4-6). Se olharmos um texto bem recente, no capítulo 8 da Lumen gentium, dedicado à Maria, teremos algumas pérolas que vale ressaltar: Maria “Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo”.

         Portanto, podemos segurar nas mãos de Maria e pedir abrigo no seu colo. Ela nos protegerá em nossas angústias, desafios e tristezas e ao chegar perto da mãe sempre nos encontraremos com seu Filho. É sempre assim: a mãe leva para o filho. Não é possível separar. Algo de nossas mães estará eternamente em nós. E apenas para citar um poema lapidar de Pe. Zezinho, scj: “Em cada mulher que a terra criou, um traço de Deus, Maria deixou, um sonho de mãe Maria plantou”. Fomos gerados no ventre de Maria com Jesus Cristo. Somos membros do seu corpo Místico. Por isso, reconhecemos Maria como Mãe da Igreja e mãe de cada um de nós.



   Podemos agora rezar uma das mais antigas preces marianas das história:

Português

À vossa proteção recorremos,
Santa Mãe de Deus.
Não desprezeis as nossas súplicas
em nossas necessidades,
mas livrai-nos sempre
de todos os perigos,
ó Virgem gloriosa e bendita.
Amém.


Latim

Sub tuum praesidium confugimus,
Sancta Dei Genetrix.
Nostras deprecationes ne despicias

in necessitatibus,
sed a periculis cunctis

libera nos semper,
Virgo gloriosa et benedicta.
Amen.

Pe. Joãozinho, scj

 

Tudo começou quando a editora Planeta me convidou para fazer a revisão técnica do primeiro livro do papa Francisco “O nome de Deus é misericórdia”. Logo percebi que o papa tinha um estilo bastante pessoal e colocava poesia nas palavras. Não bastaria traduzir. Era preciso fazer uma versão, mais ou menos como fiz com tantas canções estrangeiras que hoje o povo canta como se tivessem nascido aqui no Brasil. Ao ler aquele livro uma pessoa comentou: “Parece que estou ouvindo o papa falar”. Tinha dado certo.

Em seguida vieram outros livros. A partir de “Deus é jovem” foi-me confiada também a tradução. Depois veio o “Pai Nosso”, “É proibido reclamar” (prefácio do papa Francisco) e finalmente este clássico: “Ave Maria”, em co-edição com Paulus.

Pai Nosso e Ave Maria são livros irmãos. Sempre sugiro que sejam lidos um após o outro. São duas entrevistas que o papa concedeu a um sacerdote do norte da itália chamado Marco Pozza. Além de ser um jovem doutor em teologia, ele é capelão do Presídio de Pádua, no norte da Itália. Escritor fecundo possui um programa de televisão. Em uma das temporadas arriscou o convite e o papa aceitou. Foram alguns encontros gravados que depois o entrevistador editou e submeteu à aprovação dos santo padre.

No livro Ave Maria o papa comenta a prece que aprendemos no colo da mãe, palavra por palavra. Chama a atenção o modo como ele faz a leitura de Maria como uma mulher normal e inserida na cultura do seu tempo. Outro detalhe interessante é a importância que ele dá para o carinho que existia entre Maria e José. Impossível não se encantar pela maneira simples e sábia com que o Papa Francisco descreve a família de Nazaré.

O livro é estruturado sempre em dois capítulos sobre cada tema. O primeiro é uma conversa entre o papa Francisco e o Pe. Marco Pozza e o segundo é uma reflexão feita pelo papa sobre esse assunto e extraída de alguma de suas catequeses. O resultado é um livro de leitura rápida e saborosa.

Os assuntos mais complicados para os teólogos são abordados com coragem e simplicidade pelo papa Francisco de modo que mesmo os que não têm formação teológica compreendem com clareza. É o caso de Maria “cheia de graça” ou “mãe de Deus” e “intercessora”.

A linguagem é clara e direta mas cheia de ternura. O papa fala de sua mãe e de sua avó. Lembra episódios de sua infância e explica a Ave Maria por meio de verdadeiras “parábolas do quotidiano”. Até ao falar da morte o papa não perde o bom humor, contando a história de um bispo em estado terminar, já em coma, mas que se negava a morrer. O que aconteceu? Bem… é necessário ler o livro. Só vou fazer um pedido. Leia em prece. Ao final de cada capítulo reze com sabor uma Ave Maria. E, ao rezar, não se esqueça de lembrar de mim em sua oração. Rezarei por você também.

Pe. Joãozinho, scj

Teólogo e Comunicador

O título desse livro poderia ser: “Confissões de um jovem compositor cristão”. Thiago nos mostra aqui a sua alma nua e crua. Revela segredos íntimos dos bastidores de sua vida de pregador itinerante. Quem ouve suas inspiradas canções não imagina que o canteiro dessas flores precisa da terra do amor, mas também da chuva do humor e até mesmo da água da dor. São melodias surpreendentes grudadas em letras que tocam o coração do simples e do doutor. Leia esses relatos do quotidiano e entenderá quais são os ingredientes dessa inspiração. O Brado musical do Thiago já tem espaço cativo na alma do povo, dos mais jovens aos que acumulam três doses de juventude.

Percebi havia algo diferente na vida e na obra desse jovem talento na primeira vez que ouvi “Minha Essência”. A simplicidade desse poema bíblico em canção esconde uma complexidade que não combina com a irreverência juvenil do autor. Normalmente a vida nos ensina a jogar fora os excessos e permanecer apenas com o essencial. Muitos descobrem essa química tarde demais, quando a irmã doença ou a prima morte ameaça roubar todos os tesouros da terra e nos deixar frente a frente com o único necessário que nos abre a porta do céu. Olhamos para trás e nos perguntamos: poderia ter amado mais! Poderia ter comido menos! Poderia ter rezado mais! Poderia ter acumulado menos! O menos é mais. Thiago vive e canta essa fórmula de felicidade. Sua música é apenas a roupa de suas vivências. Ele entendeu a arte de essencializar e descobrir pérolas no misterioso território do silêncio sagrado. Depois de calar ele colhe seu Brado e é generoso em partilhar essa dádiva de mil maneiras.

Quem ficou quieto no colo de Deus sai dali com o perfume do céu… e leva essa “essência” por onde passa. Esse livro é apenas mais uma forma genial de exalar este Cheiro Sagrado. Simples assim!

 

Pe. João Carlos Almeida, scj

Com a pandemia do Coronavírus nossa vida mudou radicalmente de uma hora para outra. Quem é estudante está tendo que encontrar caminhos para estudar a distância com o maior aproveitamento possível. Gostaria de apresentar 10 dicas para você ter sucesso em seu estudo online.

  1. Programe sua nova rotina definindo seus horários e procure ser fiel.
  2. Escolha o ambiente de estudo e procure utilizar sempre o mesmo espaço evitando toda dispersão.
  3. Invista algum tempo para conhecer as funcionalidades das ferramentas propostas pela sua Instituição de Ensino.
  4. Teste a velocidade de sua conexão com a Internet e os horários em que teria dificuldade de um bom desempenho por ser um horário de pico.
  5. Durante uma atividade em tempo real, ou mesmo de estudo daquilo que foi postado no ambiente de aprendizagem desligue de outros canais de informação, ruídos, som, sites, aplicativos de mensagem, redes sociais. Concentre-se.
  6. Se tiver alguma dúvida, o melhor sempre é perguntar, mesmo que pareça algo óbvio.
  7. Exercite seu protagonismo evitando ficar apenas recebendo passivamente o conteúdo.
  8. Encare o estudo como um jogo, um game, estabelecendo metas de desempenho para si mesmo.
  9. Entregue os trabalhos antes do horário limite evitando todo stress e ansiedade.
  10. Saiba a hora de desconectar… é fundamental esquecer para lembrar. Você está sempre ligado? Então se liga nesta última dica: “desliga”.

Pe. Joãozinho, scj

Teólogo e Comunicador

O Natal é uma festa que ultrapassou os limites da cristandade. O conhecido “espírito natalino” toma conta do mundo inteiro nos últimos dias de cada ano. Chineses e africanos, canadenses e russos, europeus e asiáticos, gente de todas as línguas, povos e nações param para comprar um presente, contemplar uma árvore iluminada e cantar “noite feliz”. Muitos destes sequer saberiam dizer quem é o dono da festa. Para alguns seria um simpático velhinho de barbas brancas que viria mitologicamente do céu com seu trenó e suas renas para trazer a solução mágica para todos os problemas: o Papai Noel. Mal imaginam que este personagem foi criado nos Estados Unidos na metade do século 19 como uma versão comercial de um generoso bispo do século 4º que viveu na atual Turquia e que costumava dar presentes para os pobres: São Nicolau.

Qual seria, então o verdadeiro sentido do natal? Qualquer cristão praticante responderia a esta pergunta sem pensar duas vezes: celebramos o nascimento do nosso salvador, Jesus Cristo. Segundo os evangelhos ele nasceu há dois mil anos no seio de uma família, Maria e José, na cidade de Belém, em um lugar muito simples, uma estrebaria; foi saudado pelos anjos e recebeu presentes de sábios vindos do oriente, que chegaram até o lugar do seu nascimento guiados por uma estrela. Esta cena é retratada todos os anos na cenografia do “presépio”, que teria sido criado pela primeira vez por São Francisco de Assis no século 13 como um recurso de catequese popular. Mas sabemos que já nos primórdios do cristianismo a cena impactava o imaginário dos cristãos e chegou a ser pintada nas catacumbas de Roma. Mas e o boi e o jumento que aparecem no presépio? Eles não estão nos evangelhos de Mateus e Lucas que narram a cena! Certamente a sua origem está no Antigo Testamento em textos como o do profeta Isaías (1,3) que afirma que até o boi e o burro são capazes de perceber o seu proprietário, mas o povo de Deus nem sempre reconhece o Messias.  Seguindo na mesma linha o profeta Habacuc situa a manifestação do Messias entre os animais. Alguém poderia dizer: mas nos presépios originais não havia o pinheiro iluminado. De onde teria vido esta tradição? Ele surge apenas no século 11 nos teatros populares europeus que procuravam contar o nascimento de Jesus. Era uma alusão à árvore do paraíso, carregada de frutos. A forma como conhecemos hoje, inclusive com neve, surgiu no século 16 na região da Alsácia, entre a Alemanha e a França. Os frutos foram substituídos por outros ornamentos e a árvore foi completamente iluminada. É claro que o comércio se encarregou de sofisticar este símbolo popular. Em 1912, em Boston, nos Estados Unidos, uma grande árvore de natal foi ornamentada e iluminada em praça pública. Rapidamente o costume se espalhou por todo o planeta.

Podemos observar que o Natal é um evento de grande impacto fora das igrejas, nas famílias e nas praças. Mas dentro das celebrações cristãs oficiais, como teria surgido o Natal? No início do cristianismo o ano litúrgico era marcado apenas por uma grande festa: a Páscoa. Seguindo a tradição judaica os cristãos calculavam a sua data a partir do calendário lunar. Enquanto os judeus comemoravam a libertação do Egito com a Ceia Pascal, os cristãos celebravam a ressurreição de Jesus, com a vigília Pascal. Ao terminar esta vigília a aurora era celebrada como a chegada do “sol nascente a luz do alto que veio nos visitar” (Lc 1, 78). Aos poucos a páscoa cristã começou a ser preparada por quarenta dias de penitência, a Quaresma, e depois dela vinham cinquenta dias de espera pela vinda do Espírito Santo, o Pentecostes. Esta arquitetura do Mistério Pascal celebrado no tempo cronológico, porém, tinha uma falha. O início do ano era marcado pela Páscoa, mas o final do ano era habitado por uma série de festas pagãs. Em Roma, por exemplo, o dia mais longo do inverno, em dezembro, era celebrado em honra ao “deus sol”. A partir do século 4º o cristianismo começa a dar um sentido cristão a estas festas do sol, entendendo que Jesus Cristo é o verdadeiro “sol nascente”. A primeira notícia que temos da celebração do natal cristão no dia 25 de dezembro vem do ano 354, em Roma. Nos anos seguintes esta data começou a ser celebrada de modo fixo no dia 25 de dezembro pelos cristãos ocidentais e no oriente no dia 06 de janeiro. Este costume rapidamente foi assimilado também pelo ocidente e o Natal recebeu, assim como o ciclo pascal, um tempo de preparação, chamado advento e um tempo de repercussão, chamado “epifania”, que significa manifestação. Devemos grande parte desta arquitetura do Natal ao Papa São Leão Magno (440-461) que nos deixou belíssimas homilias natalinas. Este é o grande teólogo do Natal.

O Natal, portanto, é uma festa da prece e da praça, da Igreja e da sociedade, dos que creem e dos que preferem não crer, mas não resistem a cantar o “noite feliz”, render-se ao espírito natalino e dar um presente para alguém. É uma festa contagiante que nos coloca em torno de uma criança, que é a nossa salvação. Isto nos enche de esperança e nos faz parar para pensar. Se a páscoa é a festa da lua, o natal é a festa do sol. As duas nos resgatam do ritmo cronométrico do relógio e nos colocam no ritmo humano da natureza. Viver o natal é sair da sofisticação complicada e assumir a cultura da vida simples e sóbria. O messias no presépio entre anjos e animais é um grito contra a complicação da vida moderna que sequestrou nossa felicidade. É tão simples, tão silencioso, tão fácil… parar um dia e eternizar o natal. Todo dia podemos renascer como faz o sol. O Sol Nascente, a Luz do Alto nos visitou para dizer que a noite pode ser feliz se acreditarmos que depois dela, um novo amanhecer virá. O natal, enfim, é a festa da esperança. Nosso forte e infinito Deus assume fragilidade e a simplicidade de uma criança. Será necessário cuidar deste menino que é o nosso Salvador. Este Menino-Deus mora no coração de cada um e precisa de cuidados. Até os animais já perceberam: Deus está no meio de nós. Feliz Natal.