Você conhece a história da Bíblia. Há um tempo das vacas gordas e outro das vacas magras (cf. Gn 41), ou seja, na vida há momentos de abundância e outros de carência; há um tempo de sucesso e outro de fracasso. Santo Inácio de Loyola chamava o tempo das vacas gordas de “consolação” e o das vacas magras de “desolação”. Seus “Exercícios Espirituais” escritos mais ou menos no tempo em que os portugueses chegavam ao Brasil, são construídos basicamente sobre esta luta constante que travamos em nosso interior para administrar estas duas situações. Uma de suas lições que mais me marcou é a seguinte: “Na desolação não mude o propósito”. Este é um dos nossos erros mais freqüentes. Quando nos vemos em situação de desolação, fracasso, carência, queremos mudar alguma coisa. Marido e mulher têm uma briga e na hora da revolta resolvem se separar. É a pior decisão. Na desolação não devemos mudar as coisas. Imagine que no meio da festa você ouve o primeiro trovão e em seguida o barulho da tempestade. Imediatamente resolve sair sem guarda-chuva. Vai se molhar. Qualquer pessoa com um mínimo de discernimento espera a chuva passar. Mas na vida nem sempre usamos esta sabedoria natural. Enfrentamos raios e trovões e acabamos tomando uma decisão precipitada.

Outra lição de Santo Inácio é que no tempo das vacas gordas devemos ajuntar reservas de esperança no celeiro do coração, sabendo que o tempo das vacas magras virá. Quando chegar teremos suprimentos para o inverno da vida. Mas no tempo das vacas magras é importante também lembrar sempre que um dia a fartura retornará. Não será inverno para sempre. Esta dupla atitude faz de nós pessoas sábias que nem se empolgam demais com o sucesso nem se desesperam com o fracasso.

Falando em sucesso, ele é bem diferente da fama. Uma psssoa famosa é apenas alguém muito conhecido e que neste momento tem um grande número de admiradores. Não é necessariamente uma pessoa que está fazendo as coisas do jeito certo. Há criminosos que são famosos. A fama não vale nada. É pura ilusão. É efêmera. O sucesso é diferente. Uma pessoa bem sucedida é aquela que faz as coisas bem feitas. Muitas pessoas alcançam a fama por causa do seu sucesso. Outras são produto do marketing ou de algum fenômeno sazonal, ou seja, é uma fama de estação, como algumas canções que duram apenas um verão.

Penso que o tempo das vacas magras é mais propício para o crescimento. É o tempo das podas. É o inverno quando as folhas caem, rareiam os frutos e a força da árvore vai para a raiz. É o momento ideal para fazer um retiro de silêncio e discernir caminhos para a vida. O tempo do sucesso costuma nos iludir e colocar a alma em risco. Não é raro ouvir os casais dizerem que foi no tempo do desemprego e da fome que seus laços de amor se fortaleceram mais. Famílias bem sucedidas, ricas, normalmente tem mais dificuldades na educação dos filhos e em manter estes laços de comunhão.

Vejo hoje movimentos na Igreja que estão tendo sucesso. É bom tomar cuidado com este tempo de vacas gordas, pois o o carisma pode estar sendo congelado pela fama. A intuição pode estar sendo refém da instituição.

O ministério de libertação é uma força de apoio ao combate espiritual que todo cristão é chamado a viver. Precisamos conhecer este combate na vida e nas palavras de Jesus. O Mestre sofreu tentações antes de começar sua vida pública: cobiça, vaidade e orgulho! Venceu e nos ensinou a pedir: Pai, não nos deixeis cair em tentação, MAS LIVRAI-NOS DO MAL. O Pai-Nosso é a principal oração de libertação.             O apóstolo Paulo falou muito de Combate Espiritual. O texto mais eloqüente é Ef 6,10-17: armadura do cristão. Cada versículo deste texto deve ser meditado com muita atenção. A armadura de Deus é Jesus. Precisamos nos revestir de Cristo para estar a salvo dos ataques do inimigo. Isto significa permitir que o “homem novo” vá crescendo em nós, até o ponto de podermos dizer: já não sou eu que vivo, Cristo vive em mim. Estar revestido de Cristo significa sentir como ele sentia, fazer o que ele fazia, falar como ele falava, agir como ele agia. É colocar a vontade amorosa de Deus como princípio e centro da nossa vida. A Eucaristia é a expressão maior deste revestir-se de Cristo. É o melhor refúgio.  Precisamos estar conscientes de que o inimigo existe e age. A Igreja afirma claramente que o demônio existe. Mas não é tão poderoso assim… é criatura, age só com a permissão de Deus. É interessante conhecer as estratégias do inimigo para que possamos resistir “no dia mau”, ou seja, na hora H. Santo Inácio de Loyola, com suas “regras de discernimento” nos ensina com sabedoria a perceber a voz do Espírito Santo, distinguindo-a da sedutora cantinela do inimigo.             Ao final do seu texto São Paulo compara o cristão com um soldado pronto para a guerra:

·      o cinturão da verdade: Lembre-se que o inimigo é o Pai da Mentira. É o Príncipe das Trevas. Portanto não resiste à luz e à verdade. O Sacramento da Confissão é uma luz de verdade que deve ser utilizado como estratégia contra o inimigo.

·      a couraça da justiça: bastaria lembrar a Campanha da Fraternidade destes dois últimos anos. Justiça e Paz se abraçarão.

·      calçado da prontidão para anunciar o Evangelho da Paz:  a Nova Evangelização é uma estratégia de libertação. Quando nos fechamos em nós mesmos estamos à mercê dos ataques… mas quando nos colocamos a caminho…

·      o capacete da salvação: na cabeça, um critério muito seguro que distingue as verdadeiras das falsas doutrinas: Jesus é o Salvador.

·      a Espada do Espírito: é a Palavra de Deus, nosso instrumento de libertação. 

QUESTÕES PARA REFLEXÃO PESSOAL  1.   Conheço algo do Combate Espiritual na vida dos Santos? (Santo Agostinho, Antão, Bento…)2.   Já tive a curiosidade de pesquisar este tema no Catecismo da Igreja Católica?3.   Conheço algum outro texto da Bíblia que freqüentemente me anima no combate?4.   Tenho um diretor espiritual, ou, pelo menos, um confessor?5.   Tenho um Projeto Pessoal de Vida? Escrito? Tenho metas? Ou meu combate consiste apenas em resolver problemas!?

O resumo de toda a Lei de Deus está no mandamente do amor:  “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. O pecado nos leva a perverter esta ordem: Amar a si mesmo e as coisas acima do próximo, julgando-se igual a Deus. A Luta Espiritual nos leva a renunciar a esta idolatria do “eu” procurando a libertação do pecado e a volta ao verdadeiro amor. É isto que  significa as inúmeras passagens de Jesus: perder para ganhar, últimos serão os primeiros, servo se torna Senhor, e mesmo o magníficat: derruba os poderosos de seu tronoe eleva os humildes.  

As três brechas 

      São Bento encontrou três brechas por onde o inimigo pode entrar em nosso coração. A luta espiritual acontece aí nestes lugares de maior fragilidade humana e espiritual. É nestas brechas que precisamos maior vigilância. 

Primeira brecha:  A COBIÇA 

            É a idolatria das coisas. Por exemplo, fazer do dinheiro um deus. É o apego às coisas da terra. São Bento coloca como símbolo desta brecha o porco, pois seu focinho está sempre ligado ao chão. Curioso observar no Evangelho que o filho pródigo, após ter gastado todos os seus bens, foi trabalhar no meio dos porcos.   Nesta brecha a luta acontece na reorientação dos desejos. É preciso conquistar uma atitude de oblação, de generosidade, desapego.   É neste sentido que os religiosos fazem o voto de pobreza.  

Segunda brecha:  A VAIDADE             

É a idolatria do outro como objeto de prazer. É a necessidade de ser reconhecido e amado distorcida, pois esquece da relação de fraternidade com o próximo e pensa apenas em si mesmo. A vaidade se torna neste caso motivação até de coisas boas, mas no fundo está o apego idólatra aos elogios e a toda espécie de prazer. É fazer tudo só pelo interesse de ocupar o primeiro lugar, ser bem visto pelos outros, elogiado, ter status, ser admirado. Aqui São Bento usa o símbolo do Pavão.   É preciso reorientar esta necessidade natural e boa de ser reconhecido e amado. É dizer com sua vida e todo o seu coração:  Senhor, vosso é o Reino, o Poder e a Glória.  Se na primeira brecha, a atitude de desapego era uma garantia de vitória, nesta segunda brecha é necessário perseguir a atitude da solidariedade, do diálogo, da comunhão com Deus e com próximo. Para isso é fundamental a mansidão e a simplicidade.   É neste sentido, de reorientar todos os afetos para o serviço da comunhão, que os religiosos fazer voto de castidade. 

Terceira brecha:  O ORGULHO 

            É querer dominar tudo para si. Ser um verdadeiro deus. É a idolatria de “si mesmo”. Aqui São Bento ilustra com o símbolo da águia. O orgulho é a origem de todos os pecados. É pelo orgulho que o homem se separa de Deus e procura sua independência.    É necessário perseguir a virtude da humildade. Na luta espiritual, às vezes Deus nos da a graça da humilhação (Cf. Eclo 2) como uma espécie de exercício para crescermos na humildade e vencermos a brecha do orgulho. Neste sentido os religiosos fazem o voto de obediência.  

Todas estas brechas estão descritas em Gn 1-11 

1     COBIÇA: Idolatria das coisas (árvore, frutos…)

2     VAIDADE: Idolatria do outro como objeto (Caim)

3     ORGULHO: Idolatria de si mesmo (sereis deuses…) 

Jesus venceu todas estas brechas (Cf. Mt 4,1-10) 

1.   Cobiça: estar seguro contra a falta de alimento

2.   Vaidade: fazer um milagre diante das multidões

3.   Orgulho: dominar o mundo 

Joio e trigo misturados no coração 

É preciso reorientar os desejos de acordo com o amor segundo o qual fomos criados: 

1.   Cobiça X desejo natural de viver, produzir, inventar

2.   Vaidade X desejo natural de ser reconhecido, amado

3.   Orgulho X desejo natural de organizar, dirigir

Na Bíblia e na vida dos santos encontramos muitas dicas interessantes e práticas sobre como lutar contra as artimanhas do maligno. Erra quem subestima esta criatura do mal que existe e age. Erra quem imagina que o mal é apenas o fruto de nossos erros e falhas. Não se trata de uma “energia negativa” ou algo parecido. Segundo a doutrina católica o inimigo de Deus existe e precisamos estar atentos às suas artimanhas.

O Demônio é o príncipe das trevas e o pai da mentira. Ele gosta de coisas feitas às escondidas. Por outro lado, não suporta a verdade e a luz. O melhor exorcismo, portanto, é abrir-se com o diretor espiritual, o confessor, ou com uma pessoa de confiança. Você já percebeu que quando estamos em uma situação difícil preferimos mais ficar sozinhos, no escuro, calados, ensimesmados? É um prato cheio para o maligno. Ele é a incoerência em pessoa. Primeiro se aproxima de nós como sedutor e diz que não tem problema, é normal, nem é pecado… Depois que caímos na tentação ele muda de atitude. De sedutor passa para acusador. Diz que aquilo que fizemos é horrível, que é um grande pecado, que não merecemos mais o céu, que viver nem vale a pena, que melhor seria morrer. Tudo errado. Não era tão bom antes e não tão ruim agora. O que precisamos é mudar de vida. Deus é um pai que está sempre de braços abertos. Mas o inimigo apaga as luzes para que não percebamos a misericórdia de Deus.

O que precisamos fazer nesta hora é acender a luz… e não haverá mais lugar para as trevas; precisamos contar a verdade… e não haverá mais lugar para a mentira. É por isso que o sacramento da confissão é um grande momento de cura e libertação. Procure um sacerdote e conte seu pecado sem rodeios nem maquiagem. Tem gente que enfeita tanto o pecado que no final dá vontade de elogiar e não de absolver.

Precisamos nos antecipar a satanás. Podemos contar até mesmo a tentação que estamos sofrendo. É claro que devemos encontrar alguém de confiança. Não precisamos dar testemunho diante das câmeras e das multidões. É ingênuo mostrar sua intimidade para toda a comunidade. O próprio Jesus reconheceu o valor destes níveis de intimidade quando ensinou que devemos corrigir o irmão primeiro em particular. Somente se ele não aceitar devemos procurar mais alguém e falar em dois. De qualquer maneira colocar as “cartas na mesa” sempre é uma ótima forma de afastar aquele que se diverte com nossas fraquezas e tribulações.