A quinta das doze invocações de Maria como “Rainha” saúda a Mãe de Deus como “Rainha dos Mártires”, em latim Regina Martyrum. Após os apóstolos, os mártires foram a principal coluna de sustentação da fé dos primeiros cristãos. A palavra “Matyria”, em grego, significa “testemunha”. Os mártires foram aqueles que deram testemunho de sua fé com o próprio sangue, suor e lágrimas. Hoje sabemos que existem diversas formas de martírio. Quantas mães dão testemunho de sua fé diante dos filhos afastados e rebeldes. São martírios de lágrima. Quantos missionários gastam seus pés e sua voz para evangelizar em terras distantes ou mesmo na selva urbana, cada vez mais pagã. É o martírio do suor. Ainda hoje há quem arrisque a vida para defender a verdade e a vida. Poderíamos citar uma lista de mártires que deixaram em nossas terras a marca do seu sangue. São mártires dos nossos tempos.

          Maria é a rainha de todos os que dão testemunho de sua fé em Jesus e participam de sua paixão e morte na cruz. Ninguém viveu este martírio de modo tão intenso quanto ela. Foi fiel de Nazaré até a cruz. A profecia do velho Simeão, quando Jesus ainda era um bebê, se realizou: “uma espada transpassará a tua alma” (Lc 2, 35). Existe um mistério profundo que une a mãe aos seus filhos. Quem é mãe sabe exatamente do que estou falando. A mãe participa de modo especial das vitórias de derrotas dos seus filhos. É como se aquele cordão umbilical jamais fosse totalmente cortado. Muitas mães levam este sentimento tão a sério que não se convencem que seus filhos cresceram. Serão sempre… os meus meninos. Lembro de minha vó Rosalina, que tinha dificuldade de dormir quando seus filhos demoravam para chegar a noite. O detalhe é que neste tempo nenhum deles tinha menos do que cinquenta anos de idade.

          Maria viveu intensamente as diversas “paixões” de seu filho. Podemos dizer que o fato de ser a mãe do Redentor lhe permitiu viver, de um modo todo especial, uma espécie de com-paixão. Por isso que a Igreja a chama de co-redentora, ou seja, colaboradora do Redentor. Na verdade ela antecipou aquilo que os mártires de todos os tempos seriam chamados a viver: “completar em sua carne o que falta à paixão de Cristo pelo seu corpo que é a Igreja”.

          Os primeiros santos do calendário cristão foram os mártires. O interessante é que sua festa nunca era marcada no dia do seu nascimento, mas sim no dia do seu martírio. Com Jesus também foi assim. Primeiro se começou a celebrar a Páscoa. Somente muitos anos mais tarde é que surgiu a festa do Natal. Na verdade quando nascermos, começamos a morrer; e quando morremos, nascemos definitivamente em Deus. O nascimento definitivo de Maria é celebrado na festa da Assunção, no dia 15 de agosto. O dogma diz que “terminado o curso de sua vida terrena, Maria foi assunta ao céu de corpo e alma”. Este “assunta” pode significar “elevada”, “promovida” ou “assumida”. Não sabemos exatamente como e quando isso aconteceu. A teologia dos primeiros séculos gostava de dizer que Maria “dormiu”. Havia até mesmo uma festa da “dormição” de Maria. São palavras místicas e não biológicas ou histórico-cronológicas. A verdade nem sempre pode ser contida em números e datas. Para entender melhor, basta lembrar que os teólogos dos primeiros séculos, os Santos Padres, gostavam de se referir à morte de Cristo como “Jesus dormindo na cruz”. Esta era uma referência explícita ao sono de Adão, durante o qual Deus tirou a mulher de seu lado. Assim também, do lado aberto de Cristo, dormindo na cruz, Deus tirou a Igreja, sua esposa. São metáforas de amor e de salvação.

          Maria viveu intimamente este sono redentor junto com seu filho. Ela morreu de sua morte e ressurgiu de sua vida plena. Foi recriada no coração de Jesus. É o caso único na história de uma mãe que vai se tornando cada vez mais semelhante ao seu filho até ser totalmente recriada nele.

          Temos mil oportunidades de dar testemunho de nossa fé. São os martírios que a vida nos coloca todos os dias. Pode acontecer na família, na comunidade, no trabalho, nas amizades. Muitas vezes isto exigirá lágrimas, suor e… quem sabe, sangue. Estejamos prontos para dizer a palavra na hora certa. Maria intercederá por você neste momento difícil. Ela conhece suas dores e seus martírios. Peça a intercessão da mãe que o Filho atenderá! Rainha dos mártires, rogai por nós!

 

 

 

 

A quarta das doze invocações de Maria como “Rainha” saúda a Mãe de Deus como “Rainha dos Apóstolos”, em latim Regina Apostolorum. Jesus escolheu doze apóstolos para o seguirem ais de perto. Tinha pelo menos setenta e dois discípulos e uma multidão de seguidores. Mas os doze eram aquels que o seguiam mais de perto. O número doze é uma alusão às doze tribos de Israel. Com isso Jesus nos indica que ele era o novo Moisér, que guiaria o novo povo de Deus, para uma nova terra prometida, guiados pela síntesede toda a Lei e todos os profetas: o amor!

          Hoje sabemos que a Igreja Católica é una, santa, católica e “apostólica”. Somente com estas quatro características, ou propriedades ela pode ser considerada plenamente a Igreja fundada por Jesus Cristo. Dizer que é “una”, significa afirmar que é sacramento universal do comunhão. Deve congregar os povos na unidade. Este é o modo que a Igreja tem de anunciar a salvação. Ela é santa, ou seja, configurada ao santo dos santos, Jesus Cristo. Cada batizado por dizer: “Já não sou eu que vivo; Cristo vive em mim!” (Gal 2,20). A obra do Espírito Santo em nós é esta: nos configurar a Cristo. Ser santo é ser um outro Cristo. A Igreja é santa porque é o Corpo Místico de Cristo. Seus membros podem cair no pecado. Mas a Igreja enquanto Corpo de Cristo é pura e sem mancha; é uma esposa preparada para o seu esposo, que é Cristo. Dizer que a Igreja é Católica significa literalmente afirmar que ela tem o Cristo todo para anunciar a todos (Cat-holos: o que se refere ao todo). Mateus no últmo capítulo do seu evangelho dá uma lição de catolicidade no mandato missionário: “Ide por todo o mundo e anunciai o evangelho a toda criatura, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e eis que estarei convosco todos os dias, até o fim”. Percebeu quantas vezes fala a palavra todo? Ser católico é ser totalmente cristão. Quanto mais você se afasta da Igreja Católica, menos cristao você será. O Espírito Santo pode agir até em nao-cristãos, porém toda fé verdadeira subsiste na Igreja Católica. Não ser católico é optar por ser um cristão que não tem a plenitude. Muita gente pode se assustar com esta afirmação, mas é hora de começarmos a dizer claramente as coisas, pois a Igreja católica não mais uma igreja. Ela é A Igreja, fundada por Jesus Cristo.

          Restou a última propriedade da Igreja que está no coração de nossa meditação. A Igreja é “apostólica”, ou seja, é missionária A Conferência de Aparecida insistiu neste ponto dizendo que todo cristão deve ser discípulo-missionário. Os apósltolos aprenderam esta lição com o Mestre de Nazaré. Jesus caminhou neste mndo fazendo o bem e curando a todos. Ele nos ensinou que não devemos descansar enquanto o evangelho não chegar a todas as pessoas. Somos águas de um rio que só descansará quando suas águas chegarem ao mar. Precisamos evangelizar todas as pessoas ao nosso redor. Quem recebe o toque do Espírito não pode ficar parado; não pode ficar calado. Após fazer a experiência do Cristo ressuscitado, temos que ir às pressas anunciar esta boa notícia aos irmãos. Isto foi o que os apóstolos fizeram e por esta missão deram a própria vida.

          Maria é a rainha dos apóstolos, dos missionários e dos evangelizadores, pois ela recebeu o anúncio do anjo e imediatamente levantou-se às pressas e foi serir sua prima Isabel, que morava a 120km de Nazaré. É a primeira cristã, a primeira missionária e a primeira apóstola. O primeiro passeio missionário de Jesus foi no ventre de sua mãe. Deste modo é que aconteceu o seu primeiro encontro com João Batista que estava no ventre de Isabel.

          Se Maria ensinou Jesus a caminhar, foi ela também que ensnou os apóstolos a perseverar na oração. Após a morte de seu filho ela permaneceu com o grupo e diz a Bíblia que “Eram perseverantes na oração, com Maria, a mãe de Jesus” (At 1,4). Este foi o primeiro encontro de um “apostolado da oração”. Rezar também faz parte de nosso apostolado, de nossa missão.

          Que Maria interceda por todos os que vivem intensamente sua atividade apostólica. Que ela reze principalmente pelos apóstolos e apóstolas que vivem diariamente em suas famílias a desafiadora missão de educar seus filhos na fé Rainha dos Apóstolos, rogai por nós!

A terceira das doze invocações de Maria como “Rainha” saúda a Mãe de Deus como “Rainha dos Profetas”, em latim Regina Prophetarum. Na verdade a grande missão de todos os profetas foi anunciar ao mundo a vinda do Salvador, por isso Maria estava no próprio coração desta grande profecia. Isto aparece claramente no sonho José, descrito logo no primeiro capítulo do Evangelho de Mateus: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo.  Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados.  Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta:  Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel (Is 7, 14), que significa: Deus conosco”  (Mt 1,20-23). Esta profecia de Isaías refere-se indiretamente à Maria, a jovem que Deus escolheu por sua mãe.

          A todos os profetas Deus anunciou que era um Deus-Conosco. Ele não abandona o seu povo. É solidário, pois quem ama se faz presente. Mas na plenitude dos tempos a presença de aor de Deus se tornou carne de nossa carne, gente de nossa gente. Deus se fez criança. O Apóstolo Paulo se insere nestra tradição profética para anunciar: “Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho, nascido de mulher e sujeito à lei, para pagar a alforria daqueles que estão sujeitos à lei, para que nos seja dado ser filhos adotivos” (Gal 4,4).

          Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria que ela seria a mãe do salvador, todas estas profecias chegaram ao ápice. O céu inteiro esperava por aquela resposta. Porém, antes, a menina de Nazaré ousou perguntar como se cumpriria aquilo, pois ela era apenas noiva, ainda não conhecera homem. O anjo explicou tudo detalhadamente. Finalmente ele disse uma frase que normalmente nossas bíblias traduzem por: “Para Deus nada é impossível” (Lc 1,37). Segundo alguns especialistas em Bíblia esta frase poderia ser traduzida como: “Deus cumpre o que promete”. Prefiro esta tradução, pois imagino que naquele momento o tempo parou para deixar Maria refletir. Ela perpassou a história de tantos profetas que ouviram Deus e proclamaram que o messias viria para libertar Israel. Agora eram os seus ouvidos que escutavam a mesma provocação do céu: Deus promete e cumpre!!! Então Maria respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo esta profecia” (Lc 1,38). Poderíamos dizer que naquele momento “A profecia se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).O sim de Maria permitiu a encarnação de todas as profecias. Deus agora não é mais o prometido. É a Palavra encarnada para a nosa salvação. Ele assumiu nossa natureza para nos redimir. E bateu na porta para entrar. Quem abriu esta porta foi Maria, por isso é a rainha dos profetas.

          No seu Magnificat a própria Virgem Maria assume um tom profético para dizer que Deus veio em socorro de Israel, seu servo, lembrado das promessas que fizera a nossos pais” (Lc 1,54-5). Tudo isso foi confirmado naquele dia em que levaram o menino para ser apresentado no templo, segundo a lei. As palavras do velho Simeão revelaram que uma grande profecia estava se cumprindo. Ele disse: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra.  Porque os meus olhos viram a vossa salvação  que preparastes diante de todos os povos,  como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel”  (Lc 2, 29-32). Alguns anos mais tarde Jesus diria somente aos seus discípulos aquilo que deve ter conversado muitas vezescom sua mãe: “ Felizes os olhos que vêem o que estais a ver, porque Eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes e não viram e ouvir o que vós ouvis e não ouviram” (Lc 10, 23-24).

          Todos nós, pelo batismo, devemos viver a nossa vocação de profetas: anunciar a verdade e denunciar toda forma de injustiça. Maria viveu intensamente esta vocação profética de Nazaré até ao pé da cruz. Ela sou dizer a palavra certa, na hora certa. Sabia o tempo de aparecer e também a hora de desaparecer. Quando foi necessário o seu “sim” foi a profecia mais oportuna que nossa história jamais ouviu. Por isso podemos a invocar: Rainha dos Profetas, rogai por nós!

A segunda das doze invocações de Maria como “Rainha” saúda a Mãe de Deus como “Rainha dos Patriarcas. Mas como a jovem de Nazaré poderia ser rainha de Abraão, Isaac e Jacó (1 Cr 8,28), que viveram tanto tempo antes dela? O que a prece quer nos ensinar é que Maria é mãe de todo o povo de Deus. Quando a Palavra de Deus se encarnou em seu seio, toda a história recebeu a visita do Messias, do Salvador. Apenas para que possamos entender o que significou a Encarnação do Verbo, poderíamos compará-la a uma pedra que uma criança joga na água. Logo se formam aquelas ondas que vão se expandindo em círculos até atingir a margem do lago. Jesus é este “toque de Deus” na humanidade. Maria está no coração deste toque carinhoso de Deus. É nela que o Verbo se encarnou por vontade do Pai e pela ação do Espírito Santo. A Santíssima Trindade passeou em sua alma e depositou seu projeto de salvação em sua carne.

          Em Maria se cumpriu aquilo que fora prometido a todos os patriarcas. Nela se realizou a fé de Abraão e a esperança de Isaac e Jacó. Todos esperaram a realização da promessa de que viria o Messias. O velho Simeão, no dia em que Maria e José apresentaram o menino no Templo de Jerusalém, teve olhos para ver este milagre: “Agora, meu Senhor, já posso descansar; meus olhos viram a salvação de Israel”. Jesus foi a plenitude do cumprimento das promessas de Deus. A grande promessa é que ele estaria sempre presente. Ao longo dos séculos esta presença se realizou por meio de “presentes”. O maná, as codornizes, a água saída da rocha, os patriarcas e profetas, as tábuas da lei, a arca da aliança, o templo de Jerusalém… são presentes que indicavam uma presença maior. Mas na plenitude dos tempos o próprio Deus veio nos visitar. Esta era a grande esperança dos patriarcas e Maria foi a escolhida para acolher o grande Rei dos reis, o Messias, o Deus-Conosco!

          Alguns evangelistas ligam Maria com os patriarcas ao iniciar seu evangelho com a “genealogia”. Muita gente acha estranho que um texto da Bíblia comece com uma coleção de nomes de família: “Abraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacó; Jacó gerou José…” O que os livros inspirados querem nos ensinar é que Jesus faz parte da história humana. Deus não entrou pela porta dos fundos. Ele quis ter mãe; teve endereço; pisou nosso chão; amou com coração humano; trabalhou com mãos humanas; suou do nosso suor; chorou de nossas lágrimas e salvou-nos por meio da oferta de seu sangue… sangue de verdade; morreu de nossa morte para nos eternizar de sua eternidade; fez-se humano para nos fazer participar de sua divindade. A genealogia nos ensina que, em Jesus, Deus se fez história para nos abrir a porta da salvação. Maria é esta porta por onde a salvação entrou na humanidade. Não é uma pessoa qualquer. Foi “a escolhida”. Por isso, podemos a invocar doze vezes como rainha. Os patriarcas sonharam com o nascimento desta virgem da qual nasceria o Messias. O poeta colocou esta profecia em canção: “Da cepa brotou a rama; da rama brotou a flor; da flor nasceu Maria, de Maria, o Salvador”.

          Dizer que Maria é Rainha dos Patriarcas mostra que não existe total descontinuidade entre a Antiga e a Nova Aliança. Nós cristãos, fazemos parte deste povo de Deus que foi eleito em Abraão. Os patriarcas não são grandes pais apenas para os judeus. Nós também reconhecemos sua importância e paternidade. O apóstolo Paulo reconhece a importância da “fé de Abraão”. O Antigo Testamento não é uma espécie de “rascunho” do Novo Testamento, superado e dispensável. Muito pelo contrário: é Palavra de Deus. Não devemos nos esquecer que Maria se reconhecia como “filha de Abraão” e Jesus é chamado de “Filho de Davi”. Isto significa que o cristianismo não é uma seita, ou seja, uma dissidência do judaísmo. Somos povo de Deus. O papa Bento XVI tem insistido muito nesta relação de fraternidade com o povo judeu. No recente sínodo sobre a Palavra de Deus, os judeus pela primeira vez na história foram convidados para participar. Juntos somos parcelas do povo eleito que vivemos da promessa feita a Abraão de uma terra prometida.

          Por tudo isso e muito mais podemos e devemos rezar a ladainha em comunhão com todos os personagens do Primeiro Testamento: Rainha dos Patriarcas, rogai por nós!

A Ladainha de Nossa Senhora chega agora em sua reta final. Comentamos cada uma das invocações. Agora invocaremos doze vezes Maria com o título de Rainha. Começa com Rainha dos Anjos e termina com Rainha da Paz. O número doze é rico em simbolismo. Lembra as doze tribos de Israel e, principalmente, os doze apóstolos, sobre fundamento dos quais Jesus construiu a sua Igreja. Lembra o texto do Apocalipe que diz: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1).

          Naturalmente Deus não escolheu uma Rainha para dela fazer nascer o rei dos Reis. Jesus nunca foi Rei por sua mãe ser uma rainha. Ao contrário, Deus subverte a lógica humana, ao nascer na periferia da periferia, de uma jovem que o céu chamou de agraciada: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” Na realidade o que aconteceu é que Maria herdou a realeza de seu filho… caso único na história. Ela foi serva e por isso é rainha!

          Podemos dizer então que Jesus não é o Filho da Rainha, mas ela que é a mãe do Rei. Mas não podemos negar que Maria é chamada de Rainha em toda a Tradição da Igreja. No tempo Pascal rezamos o Regina Coeli. No final do Rosário rezamos a Salve Rainha. A ladainha mariana exagera no reinado de Maria, chamando-a até de Rainha dos Apostolos (Regina Apostolorum). Temos até mesmo uma esclarecedora Encíclica de Pio XII (1954), sobre a realeza de Maria: Ad Caeli Reginam (Sobre a realeza de Maria e a Instituição da sua festa). No fundo o santo padre expõe a doutrina tomista de manter-se no equilíbrio, evitando o maximalismo e o minimalismo marianos.

          O título de “rainha” vem na Tradição intimamente conexo com o de “senhora”, que poderia parecer bem mais equívoco, pois somente Jesus é o “Senhor”. A encíclica se reporta a Maria como rainha com expressões como: Mãe do Rei divino, bem-aventurada rainha virgem Maria, Mãe do céu, Mãe do meu Senhor, mãe do Rei, Virgem augusta e protetora, rainha e senhora, Mãe do Rei de todo o universo, Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo, senhora, “dominadora” e “rainha”, “Senhora dos mortais, santíssima Mãe de Deus, rainha do gênero humano, “Senhora de todos aqueles que habitam a terra”,”rainha, protetora e senhora”, senhora de todas as criaturas”ditosa rainha”, “rainha eterna junto do Filho Rei”, rainha de todas as coisas criadas, rainha do mundo e senhora do universo Mãe e Rainha,  Mãe do Rei dos reis, etc.

          Todos estes títulos apenas encontram justificativa na íntima união entre Maria e seu Filho Jesus, no horizonte da doutrina da recapitulação já delineada por Santo Irineu no século II. É por isso que Pio XII afirma de modo bastante claro: “E certo que no sentido pleno, próprio e absoluto, somente Jesus Cristo, Deus e homem, é rei; mas também Maria – de maneira limitada e analógica, como Mãe de Cristo-Deus e como associada à obra do divino Redentor, à sua luta contra os inimigos e ao triunfo deles obtido participa da dignidade real. De fato, dessa união com Cristo-Rei deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas as coisas criadas: dessa mesma união com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispensar os tesouros do reino do Redentor divino; finalmente, da mesma união com Cristo se origina a inexaurível eficácia da sua intercessão junto do Filho e do Pai” (nº 37). A partir destas justificativas e advertâncias, Pio XII institui a festa de Maria Rainha, no dia 31 de maio.

          Exercendo sua realeza intimamente unida ao senhorio universal de se Filho, Maria é Rainha do céu e da terra. Por isso, ao invocar Maria como Rainha dos Anjos, reconhecemos que ela é rainha também na esfera da Igreja Triunfante, acima de todos os santos e até mesmo de todos os anjos. De alguma forma esta invocação nos lembra o dogma da Assunção, onde a reconhecemos como Maria da Glória. Pessoalmente tenho muita simpatia por esta invocação, pois minha mãe se chama Maria da Glória e nasceu nas vésperas da Festa da Assunção, no dia 14 de agosto. Existem muitas outras “marias”… mas lembro apenas as “Maria dos Anjos”. É um jeito que o povo tem de eternizar a verdade que o céu já conhece. Maria é Rainha dos Anjos.

 

Esta é a quarta de uma série de quatro invocações bastante semelhantes: “Saúde dos Enfermos”, “Refúgio dos Pecadores”, “Consoladora dos Aflitos” e “Auxílio dos Cristãos”. Logo em seguida virão doze invocações de Maria como “Rainha” e a Ladainha de Nossa Senhora terminará. Portanto, este título de Maria como “auxílio” ocupa um lugar de destaque em toda sequência de invocações.

Já em 1476 o papa Sisto IV invocava Maria como “Nossa Senhora do Bom Auxílio”, após ser surpreendido por um temporal e ter invocado o auxílio da virgem. Porém, o fato histórico mais marcante ligado ao título de “Maria Auxiliadora” certamente foi a vitória de Lepanto, sobre os turcos otomanos, em 1571. O papa São Pio V atribuiu esta vitória à intercessão da virgem Maria. Talvez você ache estranho Maria interceder e o papa comemorar de modo tão solene pela vitória em uma batalha armada. Mas veja bem a data. O Brasil e praticamente toda a América Latina estavam sendo colonizados por portugueses e espanhois. Se os muçulmanos tivessem vencido aquela batalha estratégica, seria inevitável a expansão do império otomano por toda a europa e a forçada conversão dos países católicos ao islamismo. Caso isso tivesse ocorrido, provavelmente o mundo hoje seria quase todo muçulmando, incluindo o Brasil. As forças naquele tempo estavam tão acirradas. O catolicismo havia sido mutilado interiormente pela reforma protestante, principalemento com Lutero. De fora vinha a ameaça muçulmana. Um dos guerreiros sonhava entrar a cavalo na Basílica de São Pedro, em Roma. Em 1566 é eleito o papa Pio V. Com ele o mundo cristão ensaia uma reação contra todas estas ameaças. Forma-se a “Liga em Defesa da Cristandade”. O ponto alto de todo este conflito foi a batalha naval de Lepanto, litoral da Grécia, no dia 7 de outubro de 1571. No ano anterior os turcos haviam tomado a ilha de Chipre, que pertencia à República de Veneza. Era uma conquisata estratégica que permitiria dominar todo o mar mediterrâneo e, consequentemente, toda a Europa cristã. A batalha de Lepanto durou apenas três horas e representou o fim da ameaça turca para a europa.

Este fato foi tão marcante e decisivo para a cristandade, que o dia 7 de outubro ficou dedicado a Nosa Senhora da Vitória, e futuramente a Nossa Senhora do Rosário. O senado de Veneza mandou colocar a seguinte frase abaixo do quadro comemorativo da vitória: “Nem as tropas, nem as armas, nem os comandantes, mas a Virgem Maria do Rosário é que nos deu a vitória“.

Outro fato semelhante aconteceu em 1814, quando o Papa Pio VII, liberto da tirania napoleônica, finalmente pode retornar a Roma. Por isso, instituiu no dia 24 de maio a festa de Maria Auxiliadora. Em todos estes fatos a Igreja recorda a frase profética do livro de Judite: “Ai das nações que se insurgirem contra o meu povo! No dia do juízo as punirá o Senhor todo-poderoso” (Jt 16,17). No ano seguinte nasceria São João Bosco, um maiores devotos e propagadores da devoção a Maria Auxiliadora. Este tornou-se o título mariano preferido de toda a grande família salesiana.

Nos momentos de perigo e de crise devemos nos lembrar que temos uma mãe que nos auxilia, defende e protege. Papas e reis a invocaram. O próprio Papa João Paulo II reconheceu a proteção de Maria no episódio em que sofreu  atentado. Rezemos a prece a Maria Auxiliadora para que nossos lares sejam protegidos de todas as ameaças.

Santíssima Virgem Maria, a quem Deus constituiu Auxiliadora dos Cristãos,
nós vos escolhemos como Senhora e Protetora desta casa.
Dignai-vos mostrar aqui Vosso auxílio poderoso.

Preservai esta casa de todo perigo: do incêndio, da inundação, do raio, das tempestades,
dos ladrões, dos malfeitores, da guerra e de todas as outras calamidades que conheceis.

Abençoai, protegei, defendei, guardai as pessoas que vivem nesta casa.

Sobretudo concedei-lhes a graça mais importante, a de viverem sempre na amizade de Deus,
evitando o pecado. Dai-lhes a fé que tivestes na Palavra de Deus,
e o amor que nutristes para com Vosso Filho Jesus e para com todos aqueles
pelos quais Ele morreu na cruz.

Maria, Auxílio dos Cristãos, rogai por todos que moram nesta casa.

Amém.

 

 

Esta é a terceira de uma série de quatro invocações bastante semelhantes: “Saúde dos Enfermos”, “Refúgio dos Pecadores” e “Auxílio dos Cristãos”. Todas elas professam a fé de que Maria tem o dom de nos ajudar em todos os momentos: na doença, no pecado e na aflição.

Toda mãe tem um jeito especial para consolar seu filho.  É comum vermos aquela cena do neném chorando no colo dos parentes e amigos. Só o colo da mãe é capaz de fazer a criança parar de chorar e até dormir com aquela sensação gostosa de segurança.

Imagino que esta tenha sido a experiência do apóstolo João ao pé da cruz (cf. Jo 19, 25). Ele devia estar extremamente aflito. Seu melhor amigo pendia naquela cruz. Pouco antes da morte ele escutara palavrasde confiança e dor: “Filho, eis aí a tua mãe; mãe eis aí o teu filho”. Normalmente imaginamos que com aquele gesto, Jesus pedira que João cuidasse de sua mãe. De fato foi isso que aconteceu. João levou Maria para sua casa e cuidou dela até o final de sua vida. Mas podemos também inverter a história. Naquele momento  jovem João precisava muito mais de cuidado do que Maria. Imagino que ela tenha digo palavras de encorajamento para ele e o tenha consolado em todas as suas aflições. E foi assim durante muitos anos. Logo em seguida, quando os apóstolos se dispersaram por medo de serem perseguidos, Maria o consolava. Quando estavam no cenáculo, antes de Pentecostes, Maria estava lá Certamente ela dizia palavras de consolo e fortaleza. O pentecostes dela já começara em Nazaré. Ela já estava “cheia de graça”. Por isso o céu já vivia plenamente no seu coração. Quem vive assim, pode consolar os irmãos que vivem “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.

Maria consola também cada um de nós em nossas aflições. Quando estamos diante das cruzes da vida, devemos procurar o colo da mãe. Ali conseguiremos o sono tranquilo de crianças que sabem que estão seguras.

Mas qual seria o consolo de Maria? Seria uma palavra, um olhar de ternura, uma prece confiante, um conselho de paz, um afago, uma resposta de solução? Tudo isso ela faz, como tem feito nas diversas aparições aprovadas pela Igreja, como Lourdes e Fátima. Mas o principal consolo é “mostrar-nos seu filho, Jesus”! Certamente foi isso que ela disse a João:

– Filho, ele voltará… ele ressuscitará… a morte não pode vencer o amor!

Nomalmente nossas aflições tem alguma coisa a ver com a morte. Quem não tem medo de morrer? Rezamos na ave-maria, que a mãe esteja nos consolando “agora e na hora de nossa morte”. As pequenas mortes de todos os dias costumam nos afligir. Você recebe uma notícia ruim e seu coração fica pálido de tristeza. Procure o colo da mãe de toda consolação. Ele apontará para a cruz e dirá:

– Ele não está ali.

Ela apontará para a sua cruz e dirá:

– Com meu Filho você vencerá este momento de aflição. Creia, ame, espere!

Maria aprendeu esta lição quando Jesus se perdeu no meio da multidão, aos doze anos. Foram encontrá-lo em Jerusalém, no templo, conversando com os doutores da lei. Maria disse:

– Teu pai e eu te procurávamos aflitos.

Nesta ocasião o menino os consolou:

– Não sabíeis que devia estar na casa de meu Pai?

Esta é a forma de buscar o consolo. Maria entendeu. Temos que procurar Jesus na casa do Pai. Se você está muito aflito com alguma situação, procure uma igreja; fique um momento en silêncio; consagre seu coração à Maria. Ela te pegará no colo, e te colocará junto de seu Filho, Jesus. Ali não temos mais razão para permanecer com medo, ou aflitos. É exatamente isso que diz o Salmo 22: “A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias” (Sl 22, 6).

Consoladora dos aflitos, rogai por nós!