O texto revelado apresenta Deus comprometido com uma criação continuada: quer levar tanto o homem quanto a mulher a serem sua imagem. Por esta vocação, o homem e a mulher constituem valores autônomos; entre eles ocorre não mais complementaridade de seres incompletos e interdependentes, mas reciprocidade.

Para poder estabelecer vida comunitária nobremente interpessoal entre homem e mulher, Deus convida para cooperar nela a própria atividade dos seres humanos. Estando a ação criadora divina vinculada a operosidade humana, ela se sujeita as vicissitudes da historia do homem.

O texto revelado recorda as conseqüências do pecado nas relações entre homem e mulher mediante expressões inculturadas, próprias da época israelita (Gn 3, 16): a mulher introduz o homem ao mal; o homem tenta subjuga-la; em sua própria intimidade se sentem estranhos e envergonhados um diante do outro.

Esta experiência de desigualdade entre homem e mulher influirá no próprio modo de imaginar e representar Deus. A Sagrada Escritura quando fala de Deus, embora o apresente como ser assexuado (Jô 9, 32) e espírito, trata-o implicitamente como varão (Jo 4, 24). O próprio Verbo de Deus ao se encarnar é o Cristo Jesus, Deus-homem. Tudo isso contribuiu implicitamente para a supremacia do homem sobre a mulher.

São Paulo lembra a indicação utópica do Evangelho: o homem e a mulher constituem ser na aliança de caridade com Deus em Cristo (Gl 3, 28); por isso mesmo, a mulher, no exercício de ministérios e profecia, é igual ao Homem. Por outro lado e simultaneamente, são Paulo declara respeitar os costumes de sua época (1 Cor 11, 2-16). Seguindo estes costumes e participando da vida caritativa de Cristo vivo na Igreja, exige que a mulher seja submissa ao marido, que use véu como sinal de submissão e que permaneça silenciosa n assembléia, deixando-se instruir pelo marido.

 

 

I – Homem e mulher Ele os criou (Gn 1, 27). 

 No AT diferença sexual está em primeiro lugar ligada a convicção de que o homem foi criado a imagem de Deus. O contexto imediato desta passagem, devida ao redator sacerdotal, se limita a ligar a diferença sexual do homem e da mulher com a fecundidade de Deus que transmite a vida e domina o universo. O ponto de vista javista é mais completo. A seus olhos, o que fundamenta a diferença sexual é a necessidade que tem o homem de viver em sociedade: Não é bom que o homem esteja só. É preciso que lhe faça uma auxiliar que lhe seja adequada (Gn 2,18). A fecundidade, não esquecida por este autor, acrescenta-se a relação de alteridade dos sexos.

Estas duas motivações situam o individuo num contexto social. Mas  o pecado, separação de Deus, introduz ai distancia e medo. Daí para diante a relação sexual é ambígua: não deixa de ser fundamentalmente boa, mas caiu sob o domínio da força de divisão que é o pecado. Em vez da alegria diante da diferença irredutível do outro, é, nos parceiros o desejo da posse egoísta. O impulso sexual, caracterizado pela extroversão, é perturbado por um movimento de introversão: em vez de se voltar para o outro, ele se concentra em si próprio.

A bondade e o valor da relação sexual no casamento jamais foram postos em duvida na Bíblia. Não só no Cântico dos Cânticos, mas também na maioria dos livros vemos apontados, a propósito do casamento, esses dois aspectos de alteridade e de fecundidade.

Jesus, retomando os próprios termos do Gênesis, sublinha a indissolubilidade do casal assim formado (Mt 19,4 ss). Paulo, enfim, que as vezes é injustamente qualificado de asceta hostil a vida sexual, dá aos esposos orientações ainda validas para os ilusórios contemporâneos. Contra os ilusórios desejos de continência manifestada pelos corintios, lembra ele a senda normal do casamento, o dever das relações sexuais.

 

 

II- “ Não há nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só
em Cristo Jesus” ( Gl 3, 28)
 

 

Essa afirmação não nega nada das perspectivas antes apontadas, mas a vinda de Jesus determinou, na situação respectiva do homem e da mulher, uma mudança que confere a condição sexual e sua verdadeira dimensão.

Jesus não elaborou a respectiva teoria, mas adotou por própria conta um comportamento particular e endereçou aos homens um apelo. Com efeito, Jesus não viveu como os rabis judaicos que pelo costume deviam ser casados. A provável pratica do celibato entre os essênios talvez contribuiu para excluir reações de estranheza ou escândalo pela situação de Jesus neste ponto. Mas Jesus não se trata dum ascetismo hostil à mulher. Compreendemos qual a sua motivação nas seguintes palavras que constituem uma velada confidencia: “Há eunucos que se fizeram tais em vista do Reino dos céus!” (Mt 19,12).

Essa declaração é um convite para “ os que a podem compreender”; ela  tem em Lucas um paralelo igualmente rude: para ser discípulo de Jesus é preciso renunciar a sua própria mulher ( Lc 14,26). Tal programa de vida só se compreende em função duma realidade nova, que se revela em Jesus: a vinda do Reino de Deus, no qual se entra seguindo-o. O acesso a esta nova ordem de coisas pode convidar a ir além do mandamento da criação, dando um sentido a continência voluntária.

Seguindo nas pegadas de Jesus, Paulo, que talvez tivesse sido casado, se faz advogado da virgindade. Há dois motivos para esse comportamento novo: o carisma dum chamado particular, semelhante ao que ele próprio escutou, e a situação criada pelo fim dos tempos iniciado
em Jesus. O fato de estar-se nos últimos tempos, acarreta, com efeito, a distinção de duas novas categorias da humanidade: a antiga oposição homem/mulher vem acrescentar-se a oposição casado/virgem. Esses dois tipos de homens ou de mulheres são necessários para constituir e exprimir de maneira complementar a plenitude do Reino dos céus.  Seria, portanto errôneo dizer, levando em conta apenas as afirmações do AT, que o homem ou a mulher só podem chegar a plena realização pela união, efetiva com o parceiro sexual. Com efeito, na comunidade humana total recapitulada
em Cristo Jesus, é possível comungar com um Tu embora renunciando ao exercício carnal da sexualidade.

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