O Bebê e a Brincadeira de Esconde Esconde

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Gerson Abarca*

Quem nunca brincou com um bebê no colo de sua mãe de esconder o rosto para ele? Geralmente quando estamos perto de mulheres com filhos no colo, começamos a observar o bebê e interagir com ele. Quando estamos cansados, ao vermos um bebê sorridente, parece que é como se recebêssemos um balsamo de rosas em nossa alma. Aquela ingenuidade angelical do bebê, um ser desprovido de malícias e totalmente afetivo, com seu sorriso convidativo nos chama para brincar. Na sua brincadeira, a forma do bebê conversar conosco. Um ato que nos remete ao estado regressivo, viajamos na nossa própria ingenuidade de criança. Por isto mesmo a sensação de estarmos aliviados.

Na verdade, a brincadeira de esconde esconde, em que o bebê esconde-se do rosto do adulto e logo em seguida reaparece, ou quando nós adultos tiramos nosso rosto do campo visual da criança e em seguida fazemos aparecer rapidamente com algum barulho revelando surpresa, “achou!”, trás a certeza de que o bebê está entrando na descoberta do terceiro. Revela que ele está conseguindo deixar sua mãe para descobrir outras pessoas. Agora ele já não é mais um com a mãe, apresenta sinais de separação. Já a partir dos três meses o bebê começa a ensaiar esta separação, mas é com determinação aos seis meses que esta procura vai se solidificando.

Neste desprendimento do bebê, algumas mães começam apresentar sintomas de apego simbiótico (da relação de dependência mútua, como a plantinha que se fixa no tronco de uma árvore e necessita dela). Não é a toa que quando vamos brincar com bebês no colo de suas mães, corremos o risco de sermos mal interpretados, como se a mãe estivesse imaginando que fosse perder seu filho, pior ainda é quando o bebê estende os braços para nós, num gesto de querer intensificar a brincadeira. Já me dei muito mal com isto, a ponto de ser estupidamente agredido por algumas mães. Mas sabedor deste movimento de apego e separação mãe/bebê, pedia desculpas, mas sempre expressando a brincadeira: “É que eu tenho cheiro de bebê”.

Freud conseguiu observar em uma criança, filho de um paciente seu (caso pequeno Hans), que quando ele brincava com um carretel, onde soltava a linha e o carretel corria para debaixo do sofá, e depois ao puxar a linha o carretel aparecia novamente, despertando na criança uma agradável sensação, estava ali uma representação do movimento de separação da figura materna. Mãe – carretel, linha – cordão umbilical. Quando o carretel desaparecia por debaixo do sofá a sensação de perda, ao reaparecer, a sensação do reencontro com a mãe. Foi a partir dai que Melanie Klein elabora sua teoria psicanalítica com crianças. É neste movimento de esconde esconde, tão praticado pelas crianças desde o estágio de bebê até a infância, já em sua fase final, aos 12 anos, que temos a representação de que o processo de separação e crescimento é contínuo e vivenciado intensamente entre mãe e filho.

*É Psicólogo – Diretor do Instituto Pensamento.

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