SER PROFESSOR - NA CORÉIA DO SUL

* Gerson Abarca 

Neste dia 15 de outubro comemora-se o dia do Professor. Vejo a movimentação em torno deste dia, e o que mais os alunos gostam é do feriado. Mas os professores sempre estão comemorando. É um churrasco aqui, outro acolá. Alguns escolhem as manifestações sindicais, outros preferem ficar descansando em casa. Há prefeituras que enviam mensagens sentimentais, outras promovem almoços dançantes; enfim, para os professores o dia 15 de outubro é dia de comemoração.

Mas lá na Coréia do Sul, um país com crescimento econômico fabuloso, um dos milagres dos tigres asiáticos, professor têm muito o que comemorar. Por lá, os salários iniciais equivalem aqui no Brasil a 4 mil reais, com direito a três meses de férias no ano. Ser professor por lá, é um orgulho, profissão muito bem valorizada tanto salarialmente como em investimentos de formação. Poxa, por que não ser professor por lá?

Mas para ser professor na Coréia do Sul, é necessário passar por um processo muito exigente de formação, olha só: Os 5% dos alunos com melhores desempenhos educacionais no ensino médio, poderão concorrer a uma vaga na universidade para o curso de graduação, o que aqui seria pedagogia ou normal superior; é avaliado o histórico escolar e devem tirar notas altíssimas em uma prova de seleção de conhecimento em línguas, matemática e habilidades de comunicação básica para quem ensina; 4 anos de estudo de graduação em regime integral com estágio em escolas que funcionam na universidade, sendo acompanhados por tutores; após a graduação é obrigatório o mestrado para licenciar; na graduação  o aluno é avaliado semanalmente em reuniões… Que ralo hem!

Mas ao ser contratado como professor, a vida entra na sua estabilidade, e ser professor na Coréia do Sul é coisa chique… Mas só há 13 instituições autorizadas na formação de professores, e há vagas conforme a demanda.

E tem mais, por lá também, as salas de aula são equipadas com telões de plasma, televisores e computadores conectados na internet.

No Brasil, pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas fez uma análise de 71 currículos de ensino público e privado das faculdades de Pedagogia e detectou-se que existe um descompasso entre o que se aprende na graduação em pedagogia e o que se vivencia na prática das escolas. Há uma evasão de 24% de alunos que começam a cursar a pedagogia no Brasil, contra uma taxa de 0% de evasão na Coréia do Sul. Isto revela que as “fábricas” de fazer professores no Brasil estão formatando peças desajustadas à realidade. Além do mais, enquanto temos um número absurdo de cursos espalhados no território nacional, que cresceu ainda mais com os cursos à distância, associado à baixa estima em ser professor, tipo – “… todo mundo pode ser…”, caímos em um dos principais efeitos de fracasso do sistema educacional brasileiro, a desqualificação profissional. É provado que os alunos com professores qualificados e com amplas condições de ministrarem suas aulas, aprendem mais, há uma queda considerável do fracasso escolar.

            Nos últimos anos, houve um aumento considerável  de investimento em formação de professores no Brasil, mas poucos são os investimentos continuados, realizados na própria escola com supervisão direta ao professor. Mas muitos municípios querem os recursos para aplicarem em grandes seminários, cursos relâmpagos. Temos visto órgãos públicos gastarem altas cifras em contratações de “gurus” da educação para proferirem palestras shows. Parece que este tipo de evento favorece no sistema de fazer caixa dois em prefeituras, segundo nos informa  a ONG Transparência Brasil. Recentemente perguntei para uma professora o porquê em palestras o coletivo da categoria tende a não prestar atenção em nada e ficam “tricotando”, enquanto o conferencista fala. Ela me disse que era uma reação natural dos professores às propostas de formação para “inglês ver”. “Parece que até rola propina para empresas especializadas em oferecer treinamentos, ai é um  tal de encher bexigas e  estoura-las. Aí todo mundo faz de conta que gostou”. Respondi para a professora que este tipo de pacto da mediocridade à longo prazo estaria levando-nos a um desgaste em relação à profissão e o resultado da instituição escola cairia em descrédito na população”. Mas ela rebateu-me dizendo que estava prestes a se aposentar. Pelo visto, esta professora se esqueceu que seus filhos, netos e muitas crianças precisarão de uma educação de qualidade.

Lá na Coréia do Sul, um dia também a educação já esteve como a nossa. Mas acreditaram que educação era necessário na sustentação do crescimento econômico. Por aqui, mesmo dizendo que estamos em franco crescimento econômico, nosso sistema educacional ainda está adormecido. O nosso perigo é de vermos a onda de crescimento passar e não conseguirmos pegar a onda por falta de educação.

Acredito que os professores no Brasil ainda têm muito pouco o que comemorar. A não ser que se satisfaçam por pouco… o muito pouco que estão recebendo para o muito esforço que estes guerreiros estão oferecendo.

* Psicólogo, Diretor do Instituto Pensamento, especialista em Psicologia Escolar pelo Conselho Federal de Psicologia.

3 Responses to “SER PROFESSOR - NA CORÉIA DO SUL”

  1. cristina disse:

    Prezado colega Gerson Abarca,
    Belíssimo artigo você nos apresenta. Consolou a minha alma, aqueceu meu coração, evidenciou meu ego professoral e alertou o meu intelecto inquieto e preocupado com a situação educacional no Brasil e em especial com seus professores. Sua reflexão é um belo presente para amanhã, dia do Mestre. Espero que muitos tenha a oportunidade de lê-lo e observar todas as verdades ali expostas.É extremamente reconfortante verificar que ainda se fala com lucidez e de maneira objetiva sobre essa profissão-missão tão
    desqualificada entre nós. Sem dúvida, a experiência da Coréia do Sul é fascinante… me faz pensar que muita coisa ainda vale a pena para nós,professores, grandes guerreiros e incansáveis sonhadores.
    Parabéns pelo artigo e por tê-lo partilhado conosco. Não temos muito a comemorar,é verdade, mesmo assim, feliz dia do Mestre!
    Grande abraço,
    Cristina ,Rio de Janeiro

  2. Elisa Almeida disse:

    Oi Gerson, gostei muito do seu blog e me identifiquei, pois também sou psicóloga e me preocupo com a educação no nosso país.
    Estou tentando me aventurar na área da Psicologia Escolar, porém o que encontro são portas fechadas para o psicólogo nesse contexto.
    Parabéns pelos temas aqui abordados! Também possuo um blog (www.refletindopsi.blogspot.com)no qual levanto questões principalmente sobre a orientação profissional, área na qual venho trabalhando. Se puder, dá uma olhada lá!
    Um abraço, Elisa

  3. Lucas disse:

    Muito bom o texto! Só acho que frisa demais a questão do crescimento econômico.

    Devemos lembrar que este não necessáriamente significa bem-estar da sociedade. Enfim, há muito mais a se ganhar com a melhoria da educação: a cidadania, os valores democráticos, respeito aos direitos humanos, ao meio-ambiente etc.

    Não podemos nos esquecer do Brasil-Nação, conceito tão desprezado por aqueles que desejam um Brasil-Mercado.

    Parabéns pelo texto.

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