Archive for novembro, 2008

Curso sobre Método Billings em Vitória da Conquista - BA

quinta-feira, novembro 27th, 2008

Alô galera da Bahia, estarei com minha esposa Maria Celina ministrando um super curso sobre o Planejamento Natural da Família na cidade de Vitória da Conquista-BA, nestes dias 28,29 e 30 de novembro. O evento é em comemoração aos 10 anos do NUPLAFAM ( Nucleo de Planejamento Familiar da Diocese de Vitória da Conquista). Espero você por lá. Quero ver a galera da Casa de Missão da Canção Nova, que sei que está antenada com o MOB. Caso você queira participar é só entrar em contato com a Diocese de Vitória da Conquista-BA. Vale a pana conferir. Conosco estamos levando nossos filhos Samuel Iauany, Davi Tainã e Helder Manacô, todos gerados dentro do Planejamento Familiar.

Na segunda vou deixar uma série de fotos da viagem para vocês curtirem…

Venha conferir….

Psicologias Indutivas

terça-feira, novembro 25th, 2008

O crescente número de pessoas procurando por profissionais de psicologia, faz-nos pensar sobre o significado desta busca. Neste final de semana, uma amiga que estuda pedagogia, opinava em um circulo de conversas que a psicologia é uma boa profissão, pois cada dia que passa as pessoas vão precisando mais de apoio psicológico. Nesta posição, observamos que a psicologia de hoje ainda é muito vista pela sociedade como a psicologia de anos atrás, quando  começou para tratar doentes emocionais. Sem dúvida que a pós-modernidade tem criado situações de vida urbana que desencadeia doenças emocionais, desta forma, o olhar da população para a psicologia é de uma ciência que trará cura emocional.

Outro aspecto é a necessidade das pessoas em  terem respostas prontas. Cada vez mais o ser humano torna-se dependente do outro. Perde sua capacidade manufaturada e suas agilidades. Foi através do fazer pelas mãos que o ser humano evoluiu no seu desenvolvimento cerebral, pois aprendia mecanismos de superar suas dificuldades elementares do cotidiano. Mas o indivíduo pós-moderno é teórico e pouco prático, e diante de simples necessidades não consegue encontrar respostas, necessitando com isto de que alguém faça por ele.

Imagine diante de um quadro de depressão que mobiliza muito sofrimento, tendo o paciente a necessidade de uma cura rápida, quase que milagrosa, o psicólogo dizer que o tratamento percorrerá um longo caminho e que necessitará de pelo menos dois anos para que se tenha alguma resposta mais favorável de recuperação?  A angustia do paciente ficará ainda mais acentuada. Não é por acaso que as propostas de psicologia indutiva ganham força nas abordagens psicoterapêuticas, pois torna-se uma adaptação ao contexto pós-modernos das respostas imediatas.

Com minha formação em psicologia, proveniente de um centro de estudos de excelência – UNESP – Assis/SP -, associado a minha trajetória pessoal de prática religiosa que me proporcionou muitos estudos teológicos, somado à minha capacidade persuasiva, estaria milionário hoje se tivesse escolhido uma abordagem de psicologia indutiva. Misturaria religião com psicologia e “venderia” a idéia de que teria a fórmula mágica para resolução dos sofrimentos emocionais. Estaria propondo tratamentos a curto prazo, com simbologias milagrosas, do tipo regressivas – trocaria meus referenciais éticos e morais pelo sucesso econômico -. Ao contrário, continuei pragmático na prática de uma psicologia que não promete nada a ninguém, apenas se compromete em aplicar teoria e técnica científica para que o próprio paciente aprenda a encontrar seu caminho. Esta minha escolha faz-me perder muitos pacientes, porém delimitou minha prática em processos sólidos, transparentes e estáveis. Com meus 18 anos de atuação ininterrupta, considero-me portador de uma experiência bem sucedida sem ter tido a necessidade de apelar para a venda de ilusões.

Mas por que há uma forte tendência de se buscar respostas prontas para transtornos emocionais? O paciente em sofrimento emocional está fixado em etapas de desenvolvimento infantil que o coloca na condição de neurótico, isto é, repete suas ações no presente sem conseguir avançar para um futuro. Sua fixação, o remete a necessidades infantis de ser gratificado, assim como uma criança é gratificada pela mãe e pai. Ao adoecer emocionalmente já na vida adulta, busca por alguém que lhe gratificará. Assim o psicólogo passa a ser objeto de transferência da neurose do paciente  quando procura suprir suas necessidades dizendo que irá curá-lo, ou que em pouco tempo terá melhora do sintoma e se coloca como  mãe e pai do paciente em um estágio regressivo. Processos deste tipo podem provocar uma súbita melhora, assim como ele ficava gratificado quando recebia a proteção de seus pais. Mas desta forma será estabelecido um vinculo de dependência ao psicólogo, onde o paciente acreditará que foi suprido em sua necessidade. O problema é que neste tipo de indução, a neurose não estará sendo elaborada pelo próprio paciente. A falsa resolução do problema aconteceu de fora para dentro. Uma hora a neurose retorna ao mesmo lugar de origem.

Durante minha trajetória de formação acadêmica busquei primeiro as teorias que estivessem mais associadas com minha prática religiosa da época. Abominava Freud e qualquer filosofia que questionasse a existência de Deus. Mas com o tempo fui observando a grande tendência das teorias de suporte emocional de criarem vínculos de dependência aos pacientes, davam apoio, mas não davam estrutura de levá-los a caminharem com suas próprias pernas. Desta forma acabei escolhendo abordagens que colaboram para que as pessoas vejam e reconstruam suas próprias histórias por elas mesmas. Assim, Freud passou a ter um grande sentido nesta construção de um referencial; também Nietzsche com sua filosofia do questionar tudo, desconstruindo para reconstruir. Hoje trilho uma forma pessoal de atuação que tenho dado o nome de Psicanálise Contextualizada, em que acolhemos a todos, nas suas diferentes situações de necessidades e sofrimentos, para ir construindo junto com o paciente a reconstrução da história de vida pessoal na perspectiva de que aprenda a caminhar elaborando seus problemas  por ele mesmo. Eliminamos a idéia de que um problema será eliminado ou curado. Construímos a idéia de que o paciente precisa aprender a enfrentar os problemas quando surgem.

Tenho clareza de estar no caminho certo pelos índices que estamos aferindo pelo Instituto Pensamento, onde conseguimos manter um grande contingente de pacientes em processo de psicoterapia sendo que 70% a 80% dos que dão prosseguimento ao  processo de tratamento pontuam melhora de sintomas em relação à queixa inicial, dentro de um período de dois anos contínuos de psicoterapia. Mais do que oferecer muletas para as pessoas caminharem, preferimos leva-las a caminharem sem auxilio delas. As induções, deixamos para os vendedores de ilusões.

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA E A "DEMONIZAÇÃO" DA CULTURA

quinta-feira, novembro 20th, 2008

Hoje é o dia Nacional da Consciência Negra. Data comemorativa pela morte de Zumbi dos Palmares, lider negro que foi um dos protagonistas das fugas dos escravos na época da escravatura no Brasil, para refugiar em quilombos, ondem pudessem viver a liberdade em comunidade. Neste dia 20 de novembro, aproximadamente 300 municípios do Brasil decretaram feriado municipal. A CNBB publicou um manifesto por este dia que está na página da frente do site da Canção Nova. Isto tem sua fundamental importância, pois ha muitas seitas no Brasil tentando fortalecer novos preconceitos em relação a causa dos negros no brasileiros; eles estão “demonizando” a cultura, isto é, tentam convencer a população que alguns alimentos ou culinária Africana são endemoniadas. Querem dizer que a  pipoca, acarajé e outros alimentos tradicionais da cultura afro-descendente são simbolos de deuses do camdoblé. Tanto, que em cidades como Salvador-BA, ha barraquinhas de “acarajé de Jesus”, vendidos ao lado de barraquinhas das baianas típicas que há dezenas de anos vendem seus acarajés tradicionais. Tentam convencer seus fiéis, de que se comerem estes acarajés tradicionais estarão incorporando o malígno. A pipoca também entra nesta questão.

Estava recentemente em um encontro da RCC, e uma senhora disse em um grupo de partilha que havia ganho uma escultura de uma negrinha, destas que parecem estar olhando em uma janela com os braços cruzados; dizia em sua partilha que havia recebido uma visão de que aquela escultura da negrinha possuia o demônio. Fiquei inquieto com aquela colocação e perguntei para a senhora se ela teria tido a mesma visão se a escultura fosse de uma menina branca de olhos azuis.

Temos que ter muito cuidado ao cairmos nestas questões de ver em traços da cultura afro-descendente manifestações demoníacas, pois desta forma estaremos acentuando o racismo camuflado existente no Brasil. Em nome de um Deus dos brancos e Europeus, desqualificamos histórias e manifestações culturais,

Por acaso vão dizer que a Pizza é coisa do demônio? Mas a culinária Italiana é nobre aos olhos do brasileiro, assim pizza é muito gostosa e faz bem…mas culinária africana ?

A “demonização” da cultura afro-descendente é uma forma cruel de ressaltar o racismo no Brasil. Não precisamos utilizar destes artifícios para vivermos nossa religião.

Uma revista de grande circulação no Brasil, tentou nesta semana trazer a idéia de que Zumbi era dono de escravos. Uma revista que está a serviço do poder econômico que insiste em vender a idéia da raça superior – branca -. Aliás, quantos ricos no Brasil são negros? Como alerta-nos a Vanessa Laquanet no sue blog no site da C.N. :”os negros receberam a liberdade e foram para as favelas”.

Vamos construir a luta pelo direito de igualdade à todo cidadão brasileiro, independente de raça, cultura ou religião.

Viva o dia de Zumbi dos Palmares.

*Gerson Abarca é Psicólogo e Diretor do Pensamento – Instituto de Psicologia e Pedagogia

Desenvolvimento Emocional – Sentimento de Culpa*

segunda-feira, novembro 17th, 2008

Gerson Abarca* *

Culpa na vida humana reflete a experiência do conflito na  realidade existencial entre amor e ódio. A culpa é o elemento intermediário capaz de integrar estes dois sentimentos, como se fosse a espessura de uma moeda  – cara e coroa – amor e ódio. Na moeda fina, a culpa é integração das duas vivências, já na moeda de espessura grossa a culpa é o equivalente à dificuldade de se transitar entre os dois sentimentos que estão co-relacionados.

Viver com culpa é não permitir-se viver, pois para se viver é condição a transitoriedade entre amor e ódio. Mas por sua vez, viver sem culpa é a não percepção existencial da bipolaridade de amor e ódio dentro de nós, condição observada nos delinqüentes, que ficam desprovidos de qualquer sentimento de culpa diante de seus atos delinqüentes. É o resultado de uma mente que não conheceu limites.

Já a culpa como fator estruturante, é necessária para que cada indivíduo a perceba em momentos que necessita reparar um erro, a culpa como condição de auto percepção de si no mundo.Como uma mãe que ao amar seu filho,  diante de um processo de correção, castiga, mas  vê neste castigo uma necessidade de limites.Este castigo corretivo dispertará a culpa por ter ofendido um objeto de amor, que a remeterá  na busca  pela continuidade  de manifestação deste amor para com seu filho. Este processo cíclico e permanente é o resultado da vivência de culpa que integra. Já, uma mãe, disprovida de sentimento de culpa, ao invés de corrigi vai espancar e não se preocupará de ter ofendido seu objeto de amor, o filho, que aliás, não conseguirá pontuar a existência de amor nesta relação, mas sim o resultado de uma  relação onde a mãe não conseguiu sair de seu próprio mundo.

“O sentimento de culpa – implica a tolerância da ambivalência…”(Winnicott – 1958), do conflito causado na ansiedade vivenciada no conflito entre amor e ódio.

Em Melanie Klein temos no conceito de “Posição depressiva” a relação duálica entre mãe e filho, em um estágio bem precoce do relacionamento onde a criança ao ser gratificada pelo seio materno se vê na condição de ataque ao mesmo. Nesta ansiedade vivida entre o seio bom e o seio mal, provocado pela ação destrutiva do bebê ou pela ausência da mãe no processo de amamentação, dá-se início à vivência de culpa. Culpa esta que estará configurando-se em estruturante ou destrutiva e quem sabe sem a existência dela. A culpa que nos impulsiona para revitalizar o amor é aquela que não nos faz negar dentro de nós o sentimento de ódio, ou raiva que são provenientes de qualquer vínculo amoroso: na amizade, no trabalho, na família; mas quando negamos o ódio que está intrínseco ao amor vivido, como parte de uma moeda de duas caras, passamos a desejar apenas o amor e seus benefícios provenientes do vínculo amoroso, que quando despertado em um repente de ódio, de cisão com o objeto amado, torna-se obsessão, compulsão, depressão – chicote sobre si mesmo –, prevalecendo a culpa destrutiva e o distanciamento de amor ao objeto amado. Já a ausência de culpa é o resultado de vínculos afetivos que não se estabeleceram, a ausência total de um ambiente sem traços afetivos.

**Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.

* Winnicott,W.D – O Ambiente e os Processos de Maturação. Teoria do desenvolvimento emocional.  Artmed-RS. 2008

Consciência Negra

sexta-feira, novembro 14th, 2008

A semana da  Consciência Negra teve início dia 15/11 e vai até dia 22/11. Dia 20 de novembro é propriamente o Dia Nacional da Consciência Negra por ocasião do aniversário de morte de Zumbi dos Palmares – um líder negro, que com coragem e determinação, na época da escravatura, foge da fazenda onde mantinha-se escravo no estado de Alagoas e funda o Quilombo dos Palmares. Na época, centenas de escravos fugiam das correntes de seus feitores e fundavam quilombos, só na região de São Mateus/ES temos aproximadamente 47 áreas de quilombos ou quilombolas.

Em vários municípios comemora-se o dia 20 de novembro com feriado municipal, como é o caso da cidade do Rio de Janeiro. Homenagens a Zumbi dos Palmares se espalharam por todo o Brasil. Neste mês, conheci um anfiteatro municipal na cidade de Volta Redonda/RJ que leva o nome de Zumbi dos Palmares.

Segundo a UNESCO – Organismo da ONU ligado às pesquisas educacionais em todo o mundo – no Brasil 70% da população é afro-descendente – Negra –. Mas infelizmente, o IBGE preferiu dificultar a percepção da população afro descendente, diminuindo seus índices, principalmente quando trás o conceito de “preto”, “pardo”, “mestiço”, para que a população responda sobre sua “cor”. Ao invés de se responder no senso sobre raça (amarelo; branco; negro) estamos respondendo sobre cor de pele. Um nítido procedimento preconceituoso. Se o IBGE tivesse coragem de pesquisar a população brasileira com os reais procedimentos raciais, viríamos que os dados da UNESCO são os mais próximos da realidade. O único porém disto, é que a elite brasileira não quer enxergar a realidade que o Brasil é  – o pais com maior população negra do planeta -. É melhor dizer que somos descendentes europeus.

Quem sabe, com a vitória do negro Barack Obama, um Afro Descendente Americano, emergente de família não nobre cuja trajetória foi de luta e chega ao maior posto da nação mais poderosa do planeta, o Brasil comece a tratar a questão da Afro descendência com justiça. Como bem configurou Luiz Inácio Lula da Silva, o operário brasileiro que conquistou o poder no Brasil: “- Só na democracia é possível ver a ascensão de personagens como Obama”.

Mas a democracia brasileira no quesito racial, precisa copiar ou olhar para algumas formas de fazer política nos Estados Unidos. Lá a ascensão dos negros na universidade se deu pelo sistema de quotas; aqui ainda analisamos esta questão com argumentos preconceituosos, do tipo: “precisamos melhorar o ensino fundamental para o negro chegar lá”. O problema é: até que os negros cheguem na universidade muitos já terão abandonado as escolas no meio do caminho -.


Em São Mateus, temos a Lei Municipal que garante quotas de negros nos concursos públicos, isto é mais do que justo, pois a população negra mateense configura-se em mais de 80%. Mas estamos paralisados no processo de conscientização negra na cidade. Pouco vemos acontecer, a não ser no mês de novembro onde algumas organizações se encontram para o debate da consciência negra. São Mateus merece uma secretaria especial para fazer avançar o debate e enaltecer a raça negra e toda esta cultura afro descendente.

Nesta semana, a Comunidade Católica São Benedito – centro, da Paróquia de São Mateus está com uma extensa programação em torno da Consciência Negra. Vale a pena conferir toda a movimentação que está se dando na Igreja São Benedito e no Salão ao lado (Antigo Teatro Anchieta). É um processo de evangelização na cultura.

Estou na organização desta semana por observar que há uma auto-estima baixa no inconsciente coletivo mateense, provocado pelo não reconhecimento sócio histórico cultural da raça negra no município. Esta auto-estima baixa trás diversas dificuldades, principalmente na percepção da beleza negra – há comentários racistas de que a população é feia

em São Mateus. Assim a auto imagem fica destituída de valor. Outro aspecto que a auto-estima baixa tem trazido é a dificuldade de se organizar grupos sociais para fazer valer a vontade popular. Temos observado que a cidade fica dependente de lideranças políticas em uma população cuja excelência da história organizacional está na coletividade. Não é a toa que ramificaram-se quase 50 quilombos pelo interior do município.

É a afro-descendência, com todas suas ramificações culturais e sociais que causou em mim o grande fascismo de escolher São Mateus para viver e construir minha família. Por que negro é lindo e africanidade nos remete a força da solidariedade e da coletividade.

O racismo oprime, e a opressão faz sofrer. Com Zumbi dos Palmares gritemos à liberdade e declaremos para o planeta que o Brasil é a maior nação em contingente populacional negro. Só o racismo insiste em omitir está realidade.

Venha participar conosco na Semana da Consciência Negra

Paixão Capixaba – o reencontro

sexta-feira, novembro 14th, 2008

Depois daquela primeira temporada capixaba, parecia que não cabíamos em São Paulo. Mas nossos projetos estavam apenas começando. Celina que atuava na saúde pública em Bauru-SP e eu já na reta final da faculdade de psicologia, desenvolvemos um belo projeto social na cidade de Assis-SP, onde Celina sai de Bauru e vai coordenar o CECAB, (Centro de Capacitação Popular) que situava em uma periferia de Assis-SP. No ano de 1989, voltamos ao Espírito Santo, para matar saudade. Mas desta vez escolhemos o mês de julho.

Chegamos pelo litoral e outras imagens encantadoras nos reservavam. A praia de Conceição da Barra e Dunas de Itaúnas. Ficamos vislumbrados com aquele pedacinho de litoral. Em Dunas parecia estarmos em uma praia particular de paulistas, já em Conceição da Barra, a acolhida de mineiros, a praia mineira. Uma vida mansa, mas que já nos despertava para outras questões sociais, pois neste ano a prefeitura de Conceição da Barra havia inaugurado o calçadão, víamos os coqueiros sendo plantados já adultos. Sem dúvida uma bela obra, cuja inicial do nome do prefeito da época podíamos observar da janela do quarto do hotel que ficava bem próximo da praia. Com a letra M, a decoração do calçadão enchia os olhos dos moradores da cidade. Estivemos rapidamente na praia de Guriri, que pela falta de investimentos na época, não nos atraiu a permanecermos por mais que um período do dia, algo meio parecido com o que acontece ainda hoje com turistas que estão subindo o litoral com destino à Bahia. Mas esta questão era comentada pelos moradores de Conceição da Barra que defendendo os investimentos no calçadão, diziam que em Guriri por questões ambientais, não se podia fazer nada na praia, por isto que ela era desinteressante. Um comerciante até dizia que tentou fazer investimentos em Guriri, mas via que o Ibama atrapalhava, na época estava iniciando o projeto Tamar em Guriri. Interessante que 20 anos depois, o cenário é outro, a Praia de Conceição da Barra sofre com as intervenções na orla sem critérios ambientais e a praia de Guriri segue soberana, transformando-se no grande potencial turístico do litoral norte capixaba.

Nosso destino nesta viagem seria novamente Montanha, pela forte amizade que mantínhamos por Pe. Domênico, e aproveitaríamos a oportunidade para convidá-lo a celebrar nosso casamento em janeiro de 1991 na cidade de Assis-SP. Antes de partirmos para Montanha, agendamos um horário com o Bispo Dom Aldo Gerna, que para nós era uma referência de luta em defesa dos oprimidos. Dom Aldo nos acolheu em sua residência no Bispado de São Mateus, e orgulhosamente nos apresentava a nova Catedral. Falava do projeto que representava uma casa que acolheria a todos na forma de uma assembléia participativa. Mostrava as pinturas do artista plástico Cláudio Pastro, revelando grande sensibilidade intelectual e cultural. Mas ao sairmos da Catedral Dom Aldo teve que se recolher rapidamente, pois avistara um carro preto, com vidros pretos, estacionado à frente: “Preciso entrar, pois nestes dias temos recebido ameaças de morte, o conflito no campo está se agravando e nossos posicionamentos em defesa dos oprimidos têm me valido o martírio”, refletiu conosco Dom Aldo. Presenciávamos a reflexão de um dos principais Bispos na causa da Evangélica Opção pelos pobres no Brasil.

Partimos para Montanha, a lá vivenciamos outro fato sócio político que nos deixou estagnados e mais apaixonados pelo povo capixaba. Conhecemos Verino Sossai, um pequeno agricultor com ampla atuação na vida pública de Montanha, cidadão de classe média e chefe de família, muito atuante na Comunidade Católica. Neste mês de julho a Paróquia de Montanha organizava cursos de capacitação para jovens da Pastoral da Juventude, pudemos presenciar um curso ministrado por Verino na qual os jovens gostaram muito, possuía o dom de comunicar com eles. Depois de duas semanas pela região de montanha com muita convivência fraterna, tomamos rumo a São Mateus, para retornarmos a São Paulo. Conosco novamente o sentimento de que nossos corações ficavam partidos. Chegamos a São Mateus e ficamos sabendo que Verino Sossai estava preso. A notícia corria como se ele fosse um criminoso. Pensava comigo:- “Mas como pode! Uma liderança daquela ser presa como bandido?” As artimanhas do conflito agrário estava longe de ser desvendado por nós, meros turistas. As notícias que recebíamos frequentemente
em São Paulosobre o Espírito Santo era marcada sempre por questão de corrupção política, mas o conflito agrário estávamos apenas vendo alguns confusos sinais perpassarem por nós.

Ao chegarmos
em São Paulo, recebíamos a notícia que um líder sindicalista rural havia sido assassinado no norte do Espírito Santo, e por ironia do destino, era Verino Sossai. Naquele ano, iniciava-se uma temporada de caça à lideranças  populares do meio rurais…Passamos a acompanhar mais intensamente as notícias do Estado não só pela ótica da grande imprensa, mas também pelo víeis dos movimentos sociais organizados em redes por todo o Brasil.

Depois de 20 anos, temos presenciado ainda os conflitos agrários, hoje por conta da demarcação das terras quilombolas. Neste conflito, o limite entre sermos todos irmãos em busca de uma solução em conjunto, muitas vezes dá lugar ao desejo de poder e posse. Esta paixão capixaba parece que aquece na medida em que os fatos sócios políticos esquentam.

Com todo este envolvimento, só nos restaria um encontro mais definitivo com o Espírito Santo, mas isto eu conto depois.

Paixão Capixaba – o primeiro encontro

sexta-feira, novembro 14th, 2008

Estávamos a passeio, nosso destino Montanha/ES. Vínhamos curiosos pois Pe. Domênico amigo de Maria Celina, por ocasião de trabalhos desenvolvidos juntos na Pontifícia Obra Missionária (CNBB) em Brasília, convidara-nos a conhecer a sua realidade de trabalho missionário. Ina e eu, ainda namorados, chegamos à Vitória bem pela manhã, e logo pegamos o ônibus com destino ao norte do Espírito Santo. Época em que a empresa de transporte coletivo oferecia as rodomoças, chic! Ar condicionado água e cafezinho à bordo. Coisa para encantar turista mesmo.

Na medida em que íamos adentrando o interior do estado, encantávamos pelas montanhas. Avistávamos as formações rochosas à distância, e logo estávamos passando ao lado delas. Grande expectativa foram criando em nós os passageiros capixabas, que diziam que em breve viríamos o elefante. Pensava com meus botões, não é possível tanta fantasia. Mas ao contornarmos a tal da pedra do elefante, as pessoas se levantavam das poltronas, para apreciar um orgulho capixaba. Não é que a pedra é um elefante mesmo? Principalmente quando a estrada fica de frente para a tromba… “Que incrível…” exclamou Celina. Lá estávamos nós boquiabertos com a pedra do elefante.

Mais um longo trecho, entre muitos rochedos, chegamos em Montanha, onde não avistávamos montanha. Pensávamos que chamava Montanha porque ficava em uma chapada elevada. Mas não, nas andanças pelo interior de Montanha, entendemos o motivo, é que entre o caminho da cidade de Montanha até Mucurici há duas montanhas rochosas bem definidas e enormes, uma ao lado da outra, como irmãs inseparáveis.

Neste ano, de 1988, em plena abertura da Campanha da Fraternidade com o tema Negro, final de janeiro e início de fevereiro, rodamos toda a região do extremo norte do estado junto com lideranças comunitárias, onde ajudávamos a organizar os encontros com a juventude do meio rural. Uma moçada muito acolhedora, sofrida pela aridez do clima e pouquíssimas chuvas, onde a cada dia o sol castigava. Ponto Belo, Mucurici, Vinhático e também Pinheiros, localidades de muita acolhida e ao mesmo tempo muita pobreza. Parece que onde falta recursos financeiros o calor humano é maior, ou quem sabe, nós que chegávamos de outros ares a esperança batia à porta daquele povo em busca de novidades. Parecíamos enamorados com a população, uma recíproca de quem chega para conhecer e de quem recebe para oferecer e vice versa. Quantos cafezinhos e bolinhos de fubá. Os Missionários falavam-nos da pobreza, mas não conseguíamos enxergar de que pobreza falavam. Havia muita partilha, e comida não faltava. Lógico que comparado a realidade de centros urbanos mais desenvolvidos, poderíamos identificar a pobreza com clareza. Mas o que é mais pobre, a realidade do meio rural do extremo norte capixaba ou as favelas das grandes cidades? Nosso olhar que estava contaminado pelo coração capixaba, não nos permitia identificar aquela realidade rural como uma pobreza, mas sim como riquezas que precisavam ser transformadas em mobilidade organizacional, em força de povo.

Esta sensação da necessidade de organizar a sociedade em busca de soluções produtivas para melhoria das condições econômicas daquelas famílias, levou-nos a procurarmos projetos sociais, e nesta busca nos deparamos com uma visita em um assentamento rural. Meio assustados, pois
em São Paulo vendiam a imagem que este tipo de organização era de baderneiros, invasores de terras. Mas a cena que não se faz apagar até hoje de minha mente é a de uma residência neste assentamento de trabalhadores rurais do MST em que havia um belo jardim florido em frente à casa. A família desta casa nos acolheu, com saboroso cafezinho e foram revelando a trajetória deles até chegarem naquele pedaço de terra conquistada. Saíram de grupos de maloqueiros (moradores de rua com vícios alcoólicos), através das reuniões do MST onde prometiam que se entrassem na luta pela terra poderiam conquistar seu próprio pedaço de chão para plantar. Acreditaram na proposta e passaram por várias etapas de luta, desde os acampamentos à beira da pista, perseguições de fazendeiros e policiais. –“Mas valeu a pena todo o sacrifício, hoje temos nossa propriedade e não estamos marginalizados nas ruas das cidades”, desabafou o chefe daquela família, todo contente quando apresentava-nos seu equipamento de produzir farinha de mandioca conquistado com apoio do governo.

Aquele jardim florido era a representação simbólica de uma estrutura de pessoas que encontraram a identidade pessoal no resgate dos direitos elementares para a construção da felicidade
em família. Antes do MST, aquela família vivia com o diabólico (dissociação e desintegração da identidade humana). O jardim florido, era resultado de almas felizes (simbólico, a integração entre o ser e o ter).

Neste janeiro de 1988, muitas coisas vivemos. De todas, a que falou mais forte em nossas almas, foi o encontro com a alma capixaba: uma integração movida pela paixão, e ação do Espírito Santo dentro de nós. Nossa volta ao Estado de São Paulo, deixou-nos inquietos. Estávamos longe há quilômetros, e nossas almas navegavam em terras e pessoas do Espírito Santo. Nosso namoro só havia começado.

UM CASO DE AMOR COM A CANÇÃO NOVA - CONSOLIDANDO CAMINHOS

quarta-feira, novembro 12th, 2008

Chegamos bem deste nosso quarto encontro vocacional. Já passou o primeiro ano de caminhada e nosso processo vai se consolidando a cada encontro, independentemente de sermos selecionados ou não para o próximo encontro. Sem dúvida alguma a Família Canção Nova é uma realidade em nossas vidas e temos certeza que muitos amigos que conhecemos por lá já são nossos irmãos.

A marca deste quarto encontro foram os temas Murmurias e fidelidade ao projeto de Deus. Pelo menos foram os temas na qual eu consegui melhor estabelecer relação com minha vida. Como na primeira carta de São João capítulo 1, em que Deus se mantém fiel àqueles que seguem sua luz e se fazem luz no mundo. Mas “no meio do caminho havia uma pedra…” como já falava o poeta Carlos Drumond Andrade, os murmurinhos de cada dia que nos leva a construirmos relacionamentos persecutórios e afastarmos da Luz de Deus. Sempre que algo não dá certo e atribuimos à terceiros a responsabilidade, aí estará reinando o murmúrio e a desunião.

Nesta faze em que estamos de caminhada, temos muito que construir. O caminho se faz caminhando.

Enquanto isto, vamos construindo nossos pensamentos por este blog. Muita coisa boa o Senhor está me inspirando a escrever. Fique plugado

 

*Gerson Abarca é Psicólogo e Diretor do Pensamento – Instituto de Psicologia e Pedagogia

ESTOU PARTINDO PARA MAIS UM ENCONTRO VOCACIONAL- OBA!

quarta-feira, novembro 5th, 2008

Em clima de reconhecimento Pontifício, Celina e eu estamos de partida para Cachoeiro Paulista, em mais um encontro vocacional. É contagiante este clima de pegar onibus e percorrer aproximadamente 1400 Kms. Nos revitaliza e faz-nos rejovenecidos.

Ainda mais agora que o pessoal da família Canção Nova estarão retornando de  Roma, vai ser muito emocionante.

Este ciclo de encontros a cada dois meses nos mantém vigilantes na fé e em plena sintonia com a Família Canção Nova. É um método envolvente para trilhar este caminho vocacional.

Até dia 11 de novembro, quando estarei voltando deste quarto encontro. Depois te conto mais causos deste nosso “CASO DE AMOR COM A CANÇÃO NOVA”…

ATÉ LÁ.

 

*Gerson Abarca é Psicólogo e Diretor do Pensamento – Instituto de Psicologia e Pedagogia

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