Produção e Conteúdo da Mídia*

5 – Publicidade, conteúdo e produção da mídia

Dentro das teses que o Conselhos Federal de Psicologia vem defendendo para a Confecom, a maioria delas está associada com a questão da publicidade:

  • Fim da publicidade infantil;
  • Fim da publicidade de bebida alcoólica;
  • Direitos humanos na exploração da imagem de mulheres e homens na mídia;
  • Mídia focada para uma cultura de paz no trânsito;
  • Classificação indicativa;
  • Controle social da mídia (sistemas de conselhos);

Dentro de um debate amplo, que é a comunicação, alguns comunicólogos vão defender que não se pode focar muito na questão da publicidade por que ela é a “pedra no sapato” dos donos da mídia e aí tentam dar força para questões mais estruturais da comunicação, como por exemplo o tema das concessões; ou de questões tecnológicas como a transferência do analógico para o digital e outros.

Mas sabemos que uma temática está intrinsecamente ligada a outra, pois quando pensamos na publicidade estamos falando da produção e do conteúdo dos meios de comunicação, que requerem orçamento elevado.

De onde vem este orçamento que banca a produção e consequentemente o conteúdo? Vem da publicidade!

Desta forma, publicidade é a “seiva bruta” dos meios de comunicação. Se esta seiva for substancial e suculenta, a possibilidade do produto vir com uma “cara melhor” (seiva elaborada) aumenta. E é exatamente o que acontece com a mídia hoje. Temos a possibilidade de pacotes de TV paga com mais de 200 canais diferentes, mas acabamos por cair nos canais comerciais (abertos) por terem mais recursos financeiros e consequentemente maior grade de programação. Mas estes, financiados por publicidades que norteiam a forma de produção e os conteúdos.

Desde meus 15 anos assisto o telejornal da TV Cultura. Há 30 anos venho observando sua evolução. Ano após ano seus produtores inovam o que não deixa seu formato cansativo. Porém, há pouco tempo a TV Cultura abriu as portas para a publicidade comercial, no início apenas com anúncios institucionais das empresas e agora com a mesma formatação comercial da mídia comercial. Consequentemente o conteúdo e produção mudaram, aquele menos denso e este mais tecnológico e ágil. Se fizermos exercícios de leitura crítica dos telejornais, observaremos que aqueles que são financiados pela publicidade comercial conseguem provocar um fenômeno inverso ao que se espera de um telejornal (fazer o telespectador lembrar ao final do programa mais das marcas de produtos do que de notícias). Durante os anos de 1995 quando lancei o livro “O Poder da TV no mundo da Criança e do Adolescente – Ed. Paulus” até 1997, apliquei muitos workshops sobre leitura critica da mídia para adolescentes em escolas públicas e privadas e um dos exercícios que levou-me a constatar esta realidade de telejornal comerciais foi o de memorização que os alunos tinham após assistirem ao bloco completo do telejornal, onde os resultados obtidos variavam entre 3 a 4 notícias e 6 a 7 marcas lembradas, onde concluíamos que os estudantes que quisessem estar informados, não conseguiriam êxito apenas com os telejornais comerciais.

A publicidade que financia, quer telespectador com desejo de consumo. Hoje, a grande estratégia é a produção de angustia, ansiedade, depressão, síndrome do pânico, obsessão. Elementos desestruturantes que geram vazio interior, perda de identidade e necessidade de consumo. Pessoas com disfunções emocionais tendem a comprar mais como mecanismo de preenchimento do vazio existencial. Esta é a atual forma de subjetividade produzida pela mídia publicitária, a subjetividade da individualidade e do consumo.

Não tem como esperar conteúdo de qualidade em mídia movida à publicidade de consumo. Nesta só nos resta a baixaria.

*Conteúdo das palestras de Gerson Abarca por ocasião dos eventos Pró-Conferência Nacional de Comunicação. Eixo: Produção e Conteúdo, na condição de representante do CRP16. Gerson Abarca é psicólogo, Conselheiro do CRP16-ES e autor do livro “O Poder da TV no Mundo da Criança e do adolescente” – Ed. Paulus/SP.

Tags: , ,

Leave a Reply

Subscribe to RSS feed