Archive for the ‘desenvolvimento-infantil’ Category

ELABORANDO ANGÚSTIAS

quarta-feira, agosto 13th, 2008

O processo de sobrevivência do bebê é estabelecido no princípio pelo foco alimentar, pelo menos nos primeiros meses. Ao desejar o seio da mãe, o espera como se fosse um mecanismo automático, e como se fizesse parte dele mesmo. Mas o seios podem faltar, ou não chegar no tempo exato de sua espera. Começa aqui as primeiras relações do indivíduo com a ansiedade, este sentimento que acompanha o ser humano por toda a vida, instaurado nas primeiras relações com a mãe. A ansiedade desencadeia angústia pela espera   e ao mesmo tempo por não poder estabelecer autonomia sobre esta relação. Quando o alimento chega, ele já angustiado ataca o seio materno, como resposta à demora de satisfação de sua necessidade.

Para Melanie Klain, precursora da Psicanálise infantil, a função do ego (estrutura do eu percebido) é o domínio da angústia pelas perdas. Através dos processos de projeção e introjeção, o mundo interno do bebê vai se construindo por fantasias inconscientes. O bebê projeta externamente amor e ódio e introjeta gratificações pelo leite recebido, que será incorporado como amor e ódio. Nasce a dissociação entre o bem e o mal e a angústia é internalizada pelo medo da perseguição. Veja que todo este processo se dá na forma de fantasia inconsciente. Por isto que dizemos que os processos analíticos para crianças, adolescentes e adultos, é a reconstrução de processos regressivos inconscientes, construídos desde bebê, neste jogo de gratificação pela amamentação, que as pessoas transferem para o mundo externo, principalmente nos relacionamentos.

O bebê plenamente feliz deverá percorrer esta ambivalência de sentimento. È necessário transitar entre amor e ódio, ganhos e perdas, vida e morte; esta é a dinâmica da vida que todo ser humano precisa passar. Negar este processo, ou fazer como muitas mães fazem, de evitarem o jogo da angústia pelas perdas, procurando estar a serviço do bebê por vinte quatro horas, sem que ele sofra, é um caminho que trará mais prejuízos ao mundo emocional da criança e consequentemente do futuro adulto.

Tenho debatido com os pais em escolas, que os pais que não aceitam a possível morte dos filhos, não estão preparados para o processo educacional. È constante e diário as situações em que a vida nos convida a morrer. O bebê deseja ser plenamente saciado, mas o leite não vem. Instaura a ansiedade e todas as fantasias de ataque ao seio, para nascer a angústia de ter atacado aquele que o nutrirá, os seios. A angústia de fantasiosamente estar introjetando objetos destrutivos, como resposta ao seu ataque.

Você pode estar perguntando-se, como é possível o ser humano nascer com esta ambivalência tão acentuada entre o amor e o ódio? Esta pergunta geralmente brota no coração de adultos que foram educados só para deixarem manifestar dentro de si o bem, o amor, e ao longo da vida sofrem quando se deparam com sensações e sentimentos de raivas e ódios interior. Mas o ser humano necessita se encontrar com esta ambivalência, pois a vida é um constante jogo entre a vida e a morte, o bem e o mal.

Assim como o sol é belo por que aquece, pode ser terrível por destruir plantações em plena seca. Como também a chuva serena encanta, mas diante de uma tempestade ela destroe coisas belas, amedronta. O bebê que lhe é permitido transitar com as fantasias inconscientes de amor e ódio, terá potencializado dentro de si um ser fortalecido, com capacidade para superar desafios.

APRENDENDO A PERDER OS SEIOS

LEMBRANÇA DA MÃE

quarta-feira, agosto 13th, 2008

A construção do psiquismo inicia na interação pós-natal a partir de processos de satisfações, angústias e frustrações que o bebê estabelece na relação com a figura materna. Ela carrega em si a lembrança inconsciente da existência da mãe. Por isto que o bebê feliz não é meramente um estágio de gratificação plena, mas sim a somatória de todos os estágios e condições relacionais que o bebê vai configurando na relação com sua mãe, tanto de coisas boas como ruins.

Mas podemos indagar como fica as crianças adotivas ou entregues as instituições sociais de internação integral sob privação materna? Se a lembrança da mãe é estruturante na  formação do psiquismo e está cravado no inconsciente, poderíamos entender que um bebê que passou por perda da mãe terá dificuldades na constituição de vínculos afetivos e consequentemente estará fadada à infelicidade?

Estas questões norteiam a vida dos pais adotantes e tem dificultado o crescimento de pais com desejo de adotar. Mas sabemos que o psiquismo é energia que se compõe de processos, não é estanque, isto é, um bebê que passa pela privacidade da sua mãe biológica, terá nos braços que a acolhe a identificação da figura materna, por isto que hoje pensamos na idéia de que mãe e pai são aqueles que se fazem amor, relacionamento de acolhida. É verdade que bebês criados por suas mães biológicas poderão sofrer da ausência afetiva, tanto quando bebês que tiveram perdas reais de suas mães. A questão está na contingência de amor que uma mulher se dispõe a ser para com um bebê. A memória psíquica é de contato real, e da sensação estabelecida na relação, no vínculo.

Mesmo em situações em que o bebê é acolhido por um internato, ela terá nos braços das funcionárias que se fazem de mãe, a potencialização do estabelecimento de vínculo afetivo. Neste sentido, as boas instituições estão cuidando para que as babás sejam fixas e até se criou o conceito de mães substitutivas.

Quando nos deparamos com crianças em período escolar ou adolescentes que  foram adotados e estão apresentando sintomas psico-afetivos desestruturantes, temos observado que é por que as mães adotantes não conseguiram ao longo do processo educacional estabelecer em um real vínculo de afeto. Passaram por dificuldades pessoais que as disfocaram da integração com o filho adotivo. A fantasia de que a adoção é um problema, não passa de mero preconceito ou uma forma de não se enxergar as dificuldades pela qual os pais adotantes passaram ou passam. A adoção em si é semelhante com o processo de educação de um filho biológico, pois a saudade ou lembrança inconsciente não é de contatos biológicos em si, mas sim do vínculo.

O conflito na adoção vai se instaurando na medida em que dentro dos processos normais de satisfação, angústias e frustrações inerentes da construção do psiquismo, haja ausência de vínculo duradouro e estável, o bebê e posteriormente a criança adotiva começa a criar conflito interno sobre sua própria origem. Em conflito, a pergunta que não se faz calar é sobre a origem uterina: – “De que útero nasci”- tendo em vista que a verdade da adoção deve ser manifestada desde o primeiro dia de recebimento do bebê. Se o ambiente de acolhida é desfavorável, a dúvida interna aumenta e o conflito também. È comum observarmos que adolescentes adotivos em ambientes conflitivos e com instabilidade emocional, tendem a provocarem aos pais adotantes pelo desejo de conhecer a mãe biológica, o que gera muita angústia na família e a fantasia de que uma hora o filho vai abandonar os pais adotantes. Mas dificilmente teremos este tipo de provocação em situações onde os pais adotantes fizeram-se presença real de afeto.

Primeiras Construções do Conhecimento no Mundo do Bebê

sexta-feira, julho 4th, 2008

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O processo de conhecimento que tem início no ato de mamar do bebê se estende para suas atividades lúdicas na seqüência do desenvolvimento do primeiro ano de vida. É nos primeiros meses pela interação com a figura materna na amamentação que ocorre o estabelecimento do processo de aprendizado. O bebê deseja ser saciado e aprende que na interação com os seios da mãe terá o leite. Depois, com seu desenvolvimento motor, visual e perceptivo, começa a estabelecer o processo de aprendizado com objetos que estão ao seu redor, mas objetos do qual ele pode ter uma interação de satisfação. Tudo ao seu redor transforma-se em brinquedo, pois se interage com os objetos como se estivesse se interagindo com sua própria mãe. Assim, busca os objetos  que mais se assemelham ao vínculo materno, como é o caso dos chocalhos de borracha, pois neles pode morder e ao mesmo tempo ouvir sons. No chocalho imagina  que algo está dentro, provocando no bebê o desejo de descobrir de onde sai aquele barulho, algo parecido com a dinâmica do útero. Também os objetos pendurados no teto, que ao potencializar sua capacidade para visualizar as coisas além da sua própria mãe, tem nestes objetos estímulos de comunicação com o mundo externo. Em contato com os rostos familiares consegue sorrir, sinal de sua percepção de mundo externo. Aqui já estamos entrando na 2ª mês e estabelece uma relação intima com suas mãos. Inicia uma leve separação da mãe e apega-se aos seus membros (braços e pés). Seus grunhidos começam a ser escutados por ele mesmo e balbucia alto para tomar posse deles. No 3° mês, seu desenvolvimento psicomotor já possibilita o bebê entrar na brincadeira de esconde esconde, apegando-se às pessoas que estão ao seu redor e estabelecendo brincadeiras com elas. Como se as pessoas fossem objetos animados.

Ao se falar com o bebê, ele responde com vocalização de gargalhada e já busca pelas vozes que o chamam. Entrando no quarto mês, o bebê já pega objetos que caem de suas mãos. Interage com terceiros provocando o jogo da queda dos brinquedos, a perda e reencontro com sua própria imagem. Descobre seu retorno refletido no espelho e brinca com eles. Aos cinco meses já começa a distinguir rostos não familiares dos familiares e se interage muito com seus pés. Seu corpo é percebido além de sua boca e mãos. Aos seis meses, o bebê é capaz de realizar grandes proezas, pega um objeto em cada mão, acaricia sua imagem no espelho, já começa a comer papinha e com isto o jogo de se lambuzar jogando a comida para fora de sua boca, provocando um contínuo contato da criança com quem o cuida. O bebê está sempre provocando os encontros.

Nas interações com os diferentes objetos que vai interagindo, desde corporal até externos, o bebê revela sua busca pelo conhecimento em tudo que toca ou vê. O bebê é desta forma, um grande filósofo, tudo experiência, palpa, sensoriza, relaciona e integra. Absorve tudo para si. Este mundo que o cerca, sendo carregado de muito estímulo, impulso de vida, alegria de tê-lo (bebê) como centro, provocará um campo altamente favorável nesta primeira etapa de construção do conhecimento pelo bebê. Nos pequenos detalhes de busca, e na pré-disposição do ambiente em favorecer estas buscas, dá-se uma iniciação brilhante do processo de conhecimento. Nasce assim o ser desejante, curioso e estimulado para se encontrar com a vida.

Como Nasce o Conhecimento

quarta-feira, junho 25th, 2008

Desde bebê, o ser humano estabelece o processo de conhecimento. As primeiras interações com a mãe pelo ato de mamar, trás em si o mecanismo de conhecimento. Pela memória e motricidade desencadeada na experiênciação do ato de mamar, o bebê aprende a buscar seu alimento. Na mãe, seu ego está enraizado e integrado, onde elabora a reprodução do recordar, desejar e esperar os seios que o nutrirá. Encontra-se com os seios e o integra em seu ser, conhecendo que nesta interação estabelece a capacidade para se nutrir, superar-se em sua fome. O ato de se alimentar desta forma acontece como seu primeiro processo de conhecimento.

Conhecer é uma atitude que carrega em si a identificação, a cópia, o desejo pela busca de algo que espera. Conhecer mobiliza o sujeito a sair de si e encontrar-se. Por isto mesmo que quando nos deparamos com crianças em educação infantil que estão com dificuldade de conhecer, isto é, de aprendizado, imediatamente tentamos identificar como está o vínculo da criança com quem educa. Muitos são os casos em que ao se trocar o educador, a criança consegue surpreendentemente se superar nos seus conhecimentos, pois encontra alguém que consegue ser suporte de apoio e afeto para a busca pelo conhecimento. Pois o educador que se coloca afetivamente no processo educacional, oferece à criança a re-memorização de vínculos estabelecidos no início do processo de conhecimento que carrega gravado na criança a partir da amamentação. Amamentar não é bom só pelo fato do leite materno ter nutrientes que melhora na estruturação neurológica, mas também por deixar marcas de vínculos afetivos que nortearam os primeiros processos de aprendizado. Por isto mesmo que ser professor de ensino fundamental mobiliza intensamente processos regressivos nos professores.

Na tenra idade, quando imaginamos que uma criança ainda bebê não é capaz de estabelecer processos de busca, temos no ato da amamentação muito mais que um simples mecanismo de sobrevivência. Temos o princípio do mecanismo de conhecimento. È preciso conhecer para se alimentar, o alimento não chega até o bebê só por que sua mãe assim quer. Chega por que ele também desejou. É o encontro de seres desejantes, mãe e filho, ela desejosa pelo crescimento saudável do filho, ele desejoso de ter suas necessidades básicas realizadas. Se ambos buscam e se encontram nestes desejos, o resultado será favorável.

Uma boa interação de amamentação potencializa crianças para caminhos do conhecimento de forma prazerosa, tornando-os sedentos de saber, com o passar dos anos.

O AMBIENTE FAMILIAR PARA O BEBÊ

sexta-feira, maio 30th, 2008

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Bebês necessitam de ambientes serenos. Espaço de paz. É nesta estrutura que um casal deve preparar a chegado de um filho. Lógico que não vamos fazer disto um padrão de conduta que leve a entender que o melhor ambiente é aquele que tenha todas as estruturas materiais. Quando falamos em ambiente de paz, isto pode se dar em todo tipo de residência, desde casas pouco estruturadas, e quem sabe em situações extremas de moradores de rua, até palacetes de milionários.

Já visitei uma família com oito filhos, que moravam em um viaduto de uma rodovia. Um bebê recém nascido, mamando no peito de sua mãe, e um pai preocupado em sair logo para catar papelão nas ruas. Ali havia paz, e serenidade. Não havia conformidade, nem de nós que estávamos visitando e nem daquela família. Participávamos de um levantamento social para tentar recursos visando à construção de uma casa própria para aquela família. A mãe atenta ao seu bebê, o pai em busca do ganha pão e os filho, lógico que fora da escola, saiam com o pai para ajudá-lo no trabalho. Os filhos eram força de trabalho. Muitas vezes pensamos que filhos é ignorância de pais empobrecidos que não sabem planejá-los, mas muitas vezes os filhos é força de trabalho.

Já em uma residência de classe média alta, o casal recebe seu filho recém chegado, em um ambiente com todos os recursos financeiro, mas a mãe encontra-se em depressão pós – parto devido ao seu perfil de ansiedade que desencadeou medos de ver seu filho sofrer. Uma mãe preocupada que não conseguia ser afeto para seu bebê, era apenas funcional, queria só supri-lo de condições materiais. Nesta casa, encontrava-me devido a depressão pós parto da mãe. Um filho que já dava sinal de estorvo, tanto que o casal nem imaginava querer ter outro filho.

Duas situações distintas, onde aparentemente poderíamos dizer que na casa com melhores recursos financeiros, a construção de um ambiente de paz seria mais fácil de acontecer; na situação dos moradores de rua, a sensação é de que seria quase impossível. Na verdade, o ambiente de paz diz respeito ao estado emocional e a capacidade de acolhida dos pais ao filho recém chegado. È a manifestação de amor pelo filho, a felicidade de ter gerado, de estar podendo suprir as necessidades básicas da criança. Em situações deste tipo, ou com esta postura, haverá um cuidado para que o espaço que cerca o bebê seja de proteção. É engraçado observar mães funcionais, aquelas que cuidam por obrigação, tentando já querer fazer o bebê respeitar regras e algumas até batem no bebê ou falam alto com ele. Pior é quando os pais são obsessivos por limpeza, que quando o bebê vai se desenvolvendo, engatinhando e até andando, eles já apresentam a necessidade de fazer o bebê sair da fralda. Alguns pais ficam bravos quando o bebê, já andando e escorando nos móveis da casa pegam objetos pequenos e às vezes até quebram. Quantos tapinhas dado nas mãos do bebê sem que o mesmo nem saiba o por quê. Numa certa oportunidade questionei uma mãe quando batia na mão de seu filho, pelo fato dele ter derrubado uma cadeira no chão. Ela defendeu-se dizendo que se não fizesse a correção bem sedo, ele não iria aprender nunca. Neste tipo de postura, podemos entender que a paz não está instaurada. Parece que prevalece a idéia da violência, da punição, como alguns ditadores que garantem que só é possível a paz com a guerra.

No primeiro ano de vida de uma pessoa, o que deve prevalecer é a mão uterina, aquela que acolhe e acaricia, como uma continuidade do útero materno. Uma casa que seja a continuidade do útero. Não é a toa que uma casa com bebê cujo ambiente revela ser muito uterino, de paz, temos boa sensação de estarmos nela. Aliás, quer receber estímulos de paz, visite uma mãe com bebê em sua casa.

BRINQUEDOS ESTRUTURANTES E AUTOCONHECIMENTO CORPORAL DO BEBÊ

quarta-feira, maio 28th, 2008

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Quando o bebê chega na fase do conhecimento do terceiro na relação, ele também começa a descobrir um maior número de jogos e brinquedos. Sua relação com o mundo se dá pelo brincar, e o conhecimento deste mundo só passa pela via do brincar. Assim podemos dizer que o bebê só brinca mesmo. Veja que bebês nos três primeiros meses de vida se ocupam deles mesmos, o mundo é ele e ele é o mundo. Assim, seus pés, mãos, braços, enfim seu corpo todo é seu grande brinquedo. Não é a toa que eles sempre estão com as mãos na boca e até os pés. Seu órgão de sensor é a boca. Já, após os seis meses, outros objetos fazem parte deste arsenal de brinquedos, são os chocalhos que mobiliza o bebê, pois representa que ali dentro há algo, remetendo ao mistério de algo que está dentro e pode sair como o útero materno. Nesta perspectiva, a maioria dos brinquedos que começam a fazer parte dos bebês são os que têm uma perspectiva oca e que remetem à percepção dos ecos do útero materno, pois afinal de contas o bebê está iniciando o processo de separação exatamente deste útero materno. Podemos observar que bolas com objetos soltos dentro, tambores e brincadeiras que faz esconder e aparecer, são os prediletos deles.

Olha que alguns continuam sendo prediletos brinquedos até de adultos. O que podemos falar da bola? Quantos são os esportes que necessita de uma bola? Quanta gente correndo desesperadamente atrás de uma bola. Como ficamos encantados com instrumentos de percussão, os atabaques e tambores. Quando vemos uma banda passar, ficamos meio que saudosistas de nossa própria infância.

Assim, bebê brinca muito, e com muita sabedoria, os adultos que estão ao redor podem provocar esta interação agradável de brincar com os objetos que o bebê têm como prediletos . Nós adultos temos muito com o que brincar com bebês. Não é só o colo que estimula o bebê a uma vida saudável.

O BEBÊ DESCOBRE O TERCEIRO

quarta-feira, maio 28th, 2008

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Aproximadamente 120 dias é preciso para que o bebê amadureça seus órgãos físicos vitais para o seu desenvolvimento, o cérebro precisa de seis meses. Neste período dos primeiros seis meses, as principais estruturas a ser colocada para estimulação do bom desenvolvimento fisiológico do bebê é a alimentação e muito afeto.

Por isto que seus primeiros brinquedos são de apego. Após estes meses estruturantes, teremos uma incrível descoberta, o terceiro na relação. O principal terceiro desta relação é o Pai, que pela proximidade desde a vida intra-uterina, torna-se fácil de ser identificado. O bebê começa a desejar a presença real do pai. Lembro de uma bela cena quando meu filho Samuel, já com sete meses, recebendo o mama de minha esposa no seu quarto, ouve o barulho do carro anunciando minha chegada. Ele para de mamar e olha para a Celina soltando sons com a boca. A Celina ficou encantada com esta cena, pois narrava-me que era como se ele estivesse dizendo que o papai tinha chegado. O carro era um fusquinha 69 barulhento, numa tarde de 1993.

A possibilidade do terceiro na relação já permite que o bebê pule para os braços de parentes e amigos. Que bom para a mãe, que vai ficando mais aliviada, por não ter que segurar a criança o tempo todo. Esta é uma faze que o bebê fica rodeado de pessoas, todos querem pegar.

Novas angústias emergem para as mães que apresentam dificuldade para se desprenderem do filho. A ameaça do terceiro, que muitas vezes é refletida em ataques ao companheiro: “É sempre assim, o pai que nunca está tão perto, agora é o motivo de sorriso largo do bebê”. Situações que leva as mães mais apegadas a manterem seus esposos distanciados, o apoderamento materno que é sinal da dificuldade de distribuir os poderes, tanto dos serviços como dos benefícios. E o sorriso de um bebê é um estímulo motivacional para os pais, como se no sorriso o bebê estivesse retribuindo tudo o que está recebendo.

Lógico que um bebê cuidado com muito protecionismo e obsessiva profilaxia, dificilmente terá abertura para aceitar o colo de terceiros. Bebês que sofrem muito para se desapegarem da mãe, já estão revelando um sintoma de disfunção emocional, que pode ser corrigido com eficácia e em curto espaço de tempo. Mas as mães nem precisariam ficar com tanto medo de perda nesta idade, pois no final, é no colo delas que o bebê vai ter o conforto de estar em porto seguro. Nasce também nesta situação, o ciúme dos pais, que mesmo com todas as travessuras que podem realizar com o bebê, ainda será no colo da mãe que vai conseguir de fato sentir-se protegido.

OS PRIMEIROS BRINQUEDOS DO BEBÊ

segunda-feira, maio 26th, 2008

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Depois dos seios o bebê com seu crescimento vai se estabelecendo no brincar com outros objetos. Transfere seu brincar para a chupeta e a fraudinha de pano, muitas vezes um bichinho de pelúcia. Na verdade, as mães parecem estar dotadas de uma sabedoria educacional de vínculo que é incrível. Elas colocam a chupeta na boca do bebê, para provocar um aprendizado de espera maior para a amamentação, pois sabem que se não educarem o bebê ele fica mal acostumado. Assim, a chupeta passa a ser um substituto temporário dos seios, e o bebê consegue se vincular a este novo objeto com tranqüilidade, uma forma lúdica de entender esta espera pelo peito. Nas noites em que o bebê começa ter um sono mais espaçado, as mães tendem a colocar a fraldinha ou bichos de pelúcia, que vai dando a sensação no bebê de acolhida, como se alguém estivesse ao lado dele, já inicia quase que uma brincadeira do objeto imaginário. Algumas mães mais criativas colocam objetos que se movem no teto bem acima do rosto do bebê, aos poucos ele consegue ir se identificando com estes objetos e passa a utilizá-los como um bom passa tempo. Nestes objetos que são introduzidos no mundo do bebê, temos a configuração de sua primeira brinquedoteca (chupetas, fraudinhas, bichos de pelúcia, dobraduras no teto, etc.). Mas ainda o mais valioso de todos é sempre as mãos, os braços, a fala e sorriso de quem está por perto. Mas sabemos que esta presença de alguém por perto não dá para ser vinte quatro horas. Toda mãe tem outros afazeres. Deixar o bebê sozinho envolto no seu brincar com seus objetos mais diretos, é uma boa maneira de ajudá-lo, a saber ficar só. Desde cedo, a criança aprende a ter sua particularidade e individualidade. Por isto que os brinquedos, cuja sabedoria das mães aprendidas por histórias contadas e até pela própria história revitalizada no processo regressivo com seu bebê (ela também retorna a sua vida de bebê), vão potencializar a criança criativa. Nos primeiros brinquedos vemos com clareza os objetos transicionais que proporcionam a possibilidade da criança ir se desapegando da mãe.

Estes primeiros brinquedos ficam comprometidos quando a mãe se coloca de forma muito profilática, atuando com a criança de forma higiênica ou técnica. Não coloca a chupeta por que vai entortar a dentição da criança, não coloca bichos de pelúcia por causa dos ácaros, dobraduras no teto poderão deixar o bebê vesgo, e uma série de restrições quase que compulsiva que dificultará a criança a estabelecer o processo de separação, consequentemente estará se instaurando um vínculo de simbiose em que nem a criança e nem a mãe crescem.

O Bebê e a Brincadeira de Esconde Esconde

quarta-feira, maio 21st, 2008

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Gerson Abarca*

Quem nunca brincou com um bebê no colo de sua mãe de esconder o rosto para ele? Geralmente quando estamos perto de mulheres com filhos no colo, começamos a observar o bebê e interagir com ele. Quando estamos cansados, ao vermos um bebê sorridente, parece que é como se recebêssemos um balsamo de rosas em nossa alma. Aquela ingenuidade angelical do bebê, um ser desprovido de malícias e totalmente afetivo, com seu sorriso convidativo nos chama para brincar. Na sua brincadeira, a forma do bebê conversar conosco. Um ato que nos remete ao estado regressivo, viajamos na nossa própria ingenuidade de criança. Por isto mesmo a sensação de estarmos aliviados.

Na verdade, a brincadeira de esconde esconde, em que o bebê esconde-se do rosto do adulto e logo em seguida reaparece, ou quando nós adultos tiramos nosso rosto do campo visual da criança e em seguida fazemos aparecer rapidamente com algum barulho revelando surpresa, “achou!”, trás a certeza de que o bebê está entrando na descoberta do terceiro. Revela que ele está conseguindo deixar sua mãe para descobrir outras pessoas. Agora ele já não é mais um com a mãe, apresenta sinais de separação. Já a partir dos três meses o bebê começa a ensaiar esta separação, mas é com determinação aos seis meses que esta procura vai se solidificando.

Neste desprendimento do bebê, algumas mães começam apresentar sintomas de apego simbiótico (da relação de dependência mútua, como a plantinha que se fixa no tronco de uma árvore e necessita dela). Não é a toa que quando vamos brincar com bebês no colo de suas mães, corremos o risco de sermos mal interpretados, como se a mãe estivesse imaginando que fosse perder seu filho, pior ainda é quando o bebê estende os braços para nós, num gesto de querer intensificar a brincadeira. Já me dei muito mal com isto, a ponto de ser estupidamente agredido por algumas mães. Mas sabedor deste movimento de apego e separação mãe/bebê, pedia desculpas, mas sempre expressando a brincadeira: “É que eu tenho cheiro de bebê”.

Freud conseguiu observar em uma criança, filho de um paciente seu (caso pequeno Hans), que quando ele brincava com um carretel, onde soltava a linha e o carretel corria para debaixo do sofá, e depois ao puxar a linha o carretel aparecia novamente, despertando na criança uma agradável sensação, estava ali uma representação do movimento de separação da figura materna. Mãe – carretel, linha – cordão umbilical. Quando o carretel desaparecia por debaixo do sofá a sensação de perda, ao reaparecer, a sensação do reencontro com a mãe. Foi a partir dai que Melanie Klein elabora sua teoria psicanalítica com crianças. É neste movimento de esconde esconde, tão praticado pelas crianças desde o estágio de bebê até a infância, já em sua fase final, aos 12 anos, que temos a representação de que o processo de separação e crescimento é contínuo e vivenciado intensamente entre mãe e filho.

*É Psicólogo – Diretor do Instituto Pensamento.

O Mundo do Bebê

sexta-feira, maio 16th, 2008

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Em que sintonia uma criança na fase do primeiro ano de vida se encontra?

Doze meses não podem ser considerados como uma régua onde cada mês fosse considerado igual ao outro. A evolução do bebê se dá na medida de seu desenvolvimento biológico. Contínua será sua dependência, mas de forma diferenciada. A cada mês será uma surpresa no seu desenvolvimento.

Logo no primeiro mês a mãe está cindida nele. Pelos seios ele é a mãe e a mãe é ele. O mundo está para suas necessidades fisiológicas. Comer (mamar), dormir, e esperar sempre um colo caloroso. Muitas vezes os adultos ao redor ficam pensando que o bebê sorri para eles quando aproximam-se do seu rosto. Mas na verdade o sorriso do primeiro mês é uma estimulação visual sem nenhuma percepção por parte do bebê de que há um terceiro na relação, ele está no mundo dele, é o que chamamos de narcisismo primário tão necessário para a estruturação de seu self. Noites e dias se misturam e por isto a mãe deverá estar em constante presença, sabendo que a qualquer momento o bebê a solicitará. Mente quem diz que uma mãe não precise de licença maternidade. Ainda bem que as empresas estão olhando para esta necessidade de forma menos mercantilista. Sabemos que quando uma trabalhadora é respeitada em sua maternidade, ela retorna ao trabalho com muito vigor. Valorizada, retribuirá à empresa que trabalha com serviço de qualidade.

Muito afeto e paciência são necessários neste momento, como também um ambiente de tranqüilidade e silêncio. A fragilidade do bebê pode incomodar muitas mães, pois despertam nelas medos, de perder a criança ou mesmo dúvidas se elas estão satisfazendo a necessidade do filho. Outra angústia que nesta idade geralmente mobiliza as mães é a falta de comunicação clara do bebê. Como saber se ela está conseguindo satisfazê-lo com seu leite. Seu choro é por fome ou cólica intestinal? Dúvidas que podem desenvolver angústias e ao mesmo tempo desencadear depressão pós-parto. A mãe mobilizada necessita regredir até o estágio do bebê, e nesta regressão pode encontrar-se com conteúdos pessoais, da sua própria história materno/filial não elaborada. É interessante notar aqui, que as mamães procuram estar próximas de suas próprias mães, por isto que as avós maternas se mobilizam tanto para ficarem junto da filha. Mesmo aquelas que não podem ter a mãe por perto, sempre haverá alguma amiga com experiência.

“O tempo não passa…” uma sensação de quem se dedica exclusivamente ao bebê. Mas a mãe, atenta, desenvolverá diversas atividades paralelas ao bebê, sem, no entanto comprometer o vínculo afetivo. É neste período que o ser humano começa a se estruturar concretamente na potencialização de vínculos afetivos. Por isto que a mãe não poderá ter no período de cuidados dos primeiros meses, a sensação de invalidez, de estresse. Pois todas as alterações comportamentais trarão transtornos na via de condução dos vínculos afetivos. Lembro sempre aos pais (maridos), que a maior função deles é de ser bateria que possa recarregar energias à esposa. Não adianta o marido (pai) ficar com ciúmes da mãe (esposa), por ela não lhe estar dando tanta atenção. O foco da mãe é todo centrado no filho recém nascido. O papel do homem é cuidar para que este ninho esteja protegido. Não é a toa que há um costume popular de muita sabedoria que atribui a este período o nome de quarentena, onde o casal se quer tem relação sexual.

No momento em que o bebê necessita de sua mãe, manifesta de alguma forma, principalmente com choro. Mas se no primeiro momento a mãe não responder, o bebê tenta novamente em choro, um pouco mais forte, mas se a mãe novamente não responder, inicia-se aí o processo de instauração da angústia no bebê, e conseqüente ansiedade. Já no terceiro momento, o bebê em prantos, se a mãe novamente não aparecer, surge à fixação. Trauma? Pode ser, depende de como a mãe recuperará esta ausência no bebê. Geralmente, utilizando-se de processos compensatórios, estabelecendo assim o jogo de ter que suprir o que faltou. Por isto que nestes três primeiros meses, a presença da mãe deverá ser indiscriminadamente de amor pleno, um ser total para seu filho. Assim, os primeiros meses da criança estarão anunciando para ela que a vida é bela, e o que lhe espera será fruto de muito afeto. Nasce assim o sujeito integral e potencialmente maduro. Sonho ou realidade?

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