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VOCAÇÃO PADRE

sábado, março 29th, 2008

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*Gerson Abarca 

Dentro da Psicologia temos a área de Orientação Vocacional voltada para ajudar jovens na escolha de uma profissão. Geralmente é muito utilizada por pré-vestibulandos que estão indefinidos sobre qual curso universitário vão escolher. A procura pela Orientação Vocacional começa a ser uma realidade também de profissionais que desejam mudar de área de trabalho ou aposentados que desejam desenvolver algum novo investimento profissional.

Mas como fica a Vocação de Padre? Passa pelos mesmos critérios de seleção de uma atividade profissional?

Os Psicólogos que tentarem igualar o processo de caminhada para a vocação Padre, como de outras profissões estarão errando o foco. Conheço Padres Engenheiros, Médicos, Economistas, Psicólogos, Músicos, etc. Alguns até exercem a profissão por um período e mesmo assim continuam sendo Padres. Por isto que os critérios para selecionar um candidato à Padre, não pode se utilizar  dos mesmos instrumentos da Orientação Vocacional Psicológica.

Ser Padre é uma Vocação de caráter religioso e está diretamente ligado com a Fé dos candidatos e a Graça – de ter sido escolhido por Deus -.

É aqui que nós Psicólogos não conseguimos entrar. Pois escolhas religiosas não se interpretam, mas acolhe-se. É notório casos de Vocacionados  a serem Padres que não são aceitos em uma comunidade religiosa, mas que insistem em buscar caminhos e acabam sendo aceitos por outras comunidades. Conheci vários casos de candidatos que foram rejeitados porque não tinham perfil para determinada Congregação ou Diocese e que conseguiram ser bem vindos
em outras Congregações. Isto prova que a Graça dada, não são os homens que irão impedir seu curso.

Tive uma  boa experiência de acompanhamento de seminaristas de seminários menores ou de nível superior. Pelo menos uns seis anos de meu exercício profissional (19 anos) pude colaborar com o processo de formação. Das Comunidades formadoras que mais êxito tive no processo de acompanhamento dos candidatos, foi na Congregação dos Teatinos. Nela, o Reitor do seminário não estava preocupado em saber sobre perfis psicológicos ou querer descobrir quem era homossexual ou estavam fazendo fuga de algum problema pessoal. Este Reitor dizia que se a Graça foi oferecida, o tempo iria mostrar para todos do processo de formação. Ele também falava que não gostava de ficar controlando sobre as neuroses dos seminaristas, porque todos possuem suas neuroses, “se fossemos ficar apegados nisto, nunca teria sido ordenado Padre”, ressaltava este Reitor. Foi ótimo, pois suas idéias bateram com as minhas. Sempre pensei que o papel do psicólogo em um seminário, é de ser um elemento que contribua para que os candidatos possam fazer suas escolhas de forma transparente e sem conflitos internos, mas que as decisões de acolher a continuidade na formação era dos Padres formadores. Nunca aceitei opinar sobre os perfis psicológicos dos candidatos porque meu trabalho era de caráter sigiloso e tinha que assegurar aos seminaristas que estava sendo apenas um porta-voz dos processos inconscientes deles. Durei pouco neste processo de formação, pois fui deparando-me com outros grupos formadores que ficavam insistindo em que revelássemos intimidades dos seminaristas e também que desse parecer sobre as neuroses ou distorções emocionais. Infelizmente uma grande fatia de Psicólogos estão deixando de exercer de forma ética o exercício  profissional. Tenho certeza disto, por estar atuando como conselheiro do sistema Conselho de Psicologia há pelo menos sete anos contínuo. Conheço um belo trabalho desenvolvido pelo Psicólogo Ângelo Missura Neto, que assessora a Diocese de Guaxupé-MG, sempre pergunto para ele se os formadores ficam especulando sobre os seminaristas, e ele me responde que só se mantém neste trabalho porque os formadores da Diocese entenderam muito bem o papel do Psicólogo no processo.

Minha interrupção em colaborar na formação aconteceu exatamente quando conheci um Pregador formador que garantia que o ser humano não suporta a transparência nas relações, e utilizando-se inapropriadamente das teorias de Lacan, um Psicanalista Francês. Psicanalizava todo processo de formação, onde a Graça de Deus sobre uma Vocação de Padre era substituída pela lógica psicanalítica. Aí não daria mais para continuar, pois o resultado deste tipo de procedimento só causa traumas nos candidatos, clima persecutório nos seminários e afastamento até da religião naqueles que por ventura são cortados da caminhada. É muito comum vermos pessoas que foram seminaristas e que na vida adulta possuem um grande rancor pela Igreja Católica. Quando deparo-me com pessoas assim, logo imagino quanta tortura esta pessoa tenha passado na época de formação.

Entender que ser Padre não é semelhante a uma escolha profissional, torna-se difícil pela sociedade contemporânea, onde a Fé está cada vez mais sendo massacrada pelo mundo laico. Onde os pais acreditam que o sucesso dos filhos está no lucro que uma futura profissão dará. Lembro-me da história do Padre João Mohana, que primeiro terminou a faculdade de Medicina, pois este era o desejo de seus pais, e entregou a eles o diploma embrulhado em presente, para depois entrar no seminário e realizar seu chamado vocacional de ser Padre.

Entender este processo só com os olhos da ciência filosófica e do comportamento humano (psicológico), é não entender os sinais de Deus na humanidade. Esta é uma questão de Fé. E a Vocação Padre só será bem realizada mediante um profundo mergulho do candidato na pessoa de Deus, pela Oração e formação. É um caminho que se faz caminhando, e que diz respeito à instituição Igreja Católica, que possui seus Dogmas e Doutrinas, cujos candidatos deverão ter profundo conhecimento para saber o que estão escolhendo. Por isto que o processo de formação deve ser o mais transparente possível.

* É Psicólogo, diretor do Instituto Pensamento.

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