A frustração do homem

A origem do homem é Deus e o seu fim último é o de se encontrar com esse Deus que é amor

Não sei se você já teve o seu corpo repleto de lama – eu já estive literalmente coberto por ela. No início, a lama é fria, pegajosa e acaba provocando uma certa aversão. No entanto, com o tempo, a lama começa a endurecer no próprio corpo, ao ponto de tornar-se como uma espécie de crosta. E, quando você arrisca retirar um pouco dessa lama que se tornou crosta, acaba puxando a pele e os pelos do corpo. Existe dor, existe incômodo com a lama no corpo e ao ter que limpá-lo.

O que é o corpo? É o ambiente no qual não sou escravo, mas posso, por meio dele, amar e ser amado. No corpo e com o corpo tenho a capacidade de expressar a caridade. Quem é capaz de amar? Aquele que é imagem e semelhança do Deus que é amor. O que é a lama? Você poderia responder: “É o pecado”. Mas, eu digo que não é somente o pecado. É tudo o que está sobrando e não faz parte do que é a essência e a finalidade da existência humana.

O homem é fruto do amor transbordante do Criador e, diferente de todas as criaturas, o homem tem alma, isso o faz ser alguém que não se encerra neste mundo. Existe um germe de eternidade em sua existência. A origem do homem é Deus e o seu fim último é o de se encontrar com esse Deus que é amor.

Foto: Renata Matos

Portanto, a lama é o que ousa atentar contra a dignidade do ser humano. Pode ser o pecado, entretanto, pode ser, também, as ocasiões que mesmo sem pecar, a criatura esquece quem é o seu Criador. Por isso, não O busca responder com amor, acaba escolhendo viver na busca incessante pelos planos de carreira e pelas coisas passageiras, algo que não necessariamente seja pecado, mas pode ser um movimento que em sua consequência o leva a pecar. A lama ousa atentar a dignidade do homem, o que não significa conseguir de fato, mas de qualquer forma o fere profundamente.

Existe um tipo de pecado que quero mencionar: o pecado contra a castidade. Pecar contra a castidade é fruto de uma má escolha e uma desordem no como amar, seja a si mesmo ou seja amar as pessoas. Existe na pessoa uma potência para amar, mas ela, ao usar essa potência, pode fazer de maneira desordenada e, portanto, descontrolada.

O resultado é justamente o egoísmo, onde a pessoa busca nos outros ou nas coisas uma oportunidade de prazer para si, ela busca “ser amada”. E, nesse movimento de busca ao prazer, abre mão do que é racional em nome dele; é capaz de abrir mão do que é genuíno, apenas para obter o prazer próprio. A medida da relação humana se torna o quanto de prazer aquela determinada relação pode oferecer. O ser humano é reduzido à objeto. Diante do outro perde-se a capacidade de: admiração; contemplação; de dar a vida; e se sacrificar se assim for preciso. Esvai todo sentimento de altruísmo.

Aos poucos, desfigura-se o ser humano imagem e semelhança de Deus e o homem ignora sua essência e finalidade. O que resta é a lama endurecida sobre sua existência nesta terra. Por fim, a frustração do próprio homem.

Jonathan Ferreira

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