Quando estamos diante de um conflito juvenil procuramos a causa dos problemas fora e quase nunca dentro, esquecendo-nos de que a maioria dos problemas dos jovens nasce do ambiente onde vivem e onde desenvolvem a própria personalidade. A família continua sendo o centro essencial da serena realização dos jovens, portanto, nada e ninguém pode interferir positiva ou negativamente nas escolhas e no futuro destes jovens. O saudoso Santo Padre João Paulo II, durante seu pontificado, quando se referia à família, várias vezes destacou este aspecto importante e, ao mesmo tempo, delicado na formação e na vida das novas gerações. Por este motivo, gostaria de propor o testemunho de Fausto e Paola, um casal que teve a experiência da importância de se tornarem testemunhos autênticos dos valores humanos e cristãos em família, para assim, evitar a perda dos filhos. Estes pais perderam uma filha para o mundo das drogas, a qual foi reencontrada na luz de Cristo por intermédio da Comunidade Cenáculo, onde também este casal reencontrou o sentido de ser família.

Vamos escutar o testemunhos deles:

Pai: A descoberta que fizemos de que a nossa filha estava fazendo uso de drogas foi um drama para nós dois. Mas, na verdade, os problemas já existiam desde antes, já chegamos à conclusão de que o núcleo familiar que tínhamos interferiu sobre o comportamento da nossa filha. Quando minha esposa se deu conta de que a nossa filha se drogava, foi uma cruz que nos pegou de improviso e naquele momento posso dizer que provei sensações terríveis como pai, as quais jamais pensei provar: primeiro a de muita raiva ao ver o desespero da minha filha e segundo a da minha própria aflição como pai, já que me culpava por tudo e repensava angustiadamente em toda a minha vivência como pai e marido.

De fato, depois que minha esposa ingressou na comunidade, vi que aconteceu um verdadeiro milagre: De um lado, pela minha filha e do outro, no que diz respeito a nós como família. Um dia, pedi que uma moça me contasse em que estado se encontrava quando entrou na comunidade e ela me respondeu que esteve em estado bem pior do que a minha filha. A partir dessa afirmação, meu coração se abriu e comecei a confiar na salvação da minha filha, mesmo que, para mim, fosse difícil acreditar em algo que estava além da minha razão. Entretanto, diante daqueles testemunhos resolvi também abraçar o caminho que me estava sendo proposto. O milagre maior foi que minha filha entrou na casa que ficava localizada vizinha a Lourdes, na França. No dia em que a acompanhei, parei diante daquela Nossa Senhora que nunca tinha visto ou sonhado encontrar, já que meu trabalho, sucesso e presunção nunca haviam me permitido me dobrar diante daquele presença celestial, e rezei um rosário em lágrimas, vendo, ao mesmo tempo, escorrer diante de mim toda a minha vida vazia de verdadeiros valores e de compromissos sérios, visto que estes estavam sempre ligados ao trabalho e ao reconhecimento.

Mãe: Agradeço à Comunidade Cenáculo por aquilo que fez e está fazendo por nós. Em mim aconteceu e continua acontecendo esta transformação. Apesar das dificuldades que encontro todos os dias, hoje tenho confiança e encontro a força para enfrentá-las dia a dia.

Eu me volto agora às mães e aos pais que, neste momento, estão desesperados. Quero gritar a alegria de ter encontrado o Senhor! Quero voltar-me aos pais que não se dão conta de que os filhos estão ma:, eu sei que vocês não se dão conta, porque, muitas vezes, eles escondem, dizem mentiras e você acredita neles ou porque nunca pensam que eles serão capazes de fazer certas coisas, afinal de contas são seus filhos, entretanto, mesmo assim digo: Abram os olhos! Preciso ser sincera, depois de várias tentativas com psicólogos, com assistentes de serviços sociais, quando eles me tranquilizavam e minha filha era aceita pela sociedade e por todos mesmo sendo drogada. Da minha parte, eu não aceitava isso e todos os insucessos das tentativas. Foi quando finalmente encontrei uma luz na Comunidade Cenáculo, onde as mães de outros jovens que ali estavam me diziam: “Coloque-se em oração, pois desta forma você verá que a oração é capaz de sustentar. A oração te ajudará”. Mas, mesmo assim, minha resposta era: “Isso é um absurdo! Sim, posso rezar, inclusive já rezava antes, mas…”. Depois, comecei a fazer o que elas me diziam e comecei a rezar com o coração.

Falei do meu desespero para Nossa Senhora e pedi que ela me ajudasse. Aos poucos fui vendo que isso me sustentava e me enchia de confiança. A grande força que esta comunidade deu a mim e a nós como casal foi a de termos confiança, não termos medo e confiarmos inteiramente em Jesus. Nossa Senhora nos deu essa força! Estivemos em Lourdes, depois em Medjugorje e em ambos os lugares senti a força da presença da Virgem Maria e o dom que ela nos deu por meio da comunidade. Naquele lugar pude conhecer outros pais, rezar junto com eles e orar diante do ícone de Nossa Senhora Mãe da Ternura, que passa por todas as nossas casas. A força da nossa família hoje está em acreditar que, apesar dos insucessos, tentações, raivas que tivemos por não termos conseguido salvar nossa filha sozinhos, foi o amor de Deus que nos salvou.

Senhor Jesus, dê a cada família a consciência da própria missão de educar e conduzir os filhos à vida e à esperança. Faça, Senhor, com que cada família seja reflexo do Teu amor misericordioso e o lugar da abertura dos jovens a Cristo, luz e vida do mundo. Amém!

Quarta-feira, 29 de agosto 2007 

Caríssimos irmãos e irmãs!

Na última catequese falei de dois grandes doutores da Igreja do século IV, Basílio e Gregório Nazianzeno, bispo em Capadócia, na atual Turquia. Hoje reunimos um terceiro, o irmão de Basílio, São Gregório de Nissa, que se mostrou um homem de um caráter meditativo, com grande capacidade de reflexão, e de uma vivaz inteligência, aberta a cultura de seu tempo. Se revelou assim um pensador original e profundo na história do cristianismo.

Nasceu em torno do ano 335; a sua formação cristã foi cuidada particularmente pelo irmão Basílio – Que ele definiu “Pai e Mestre” – e pela irmã Macrina. Completou os estudos, aprendendo particularmente a filosofia e a retórica. Em um primeiro tempo se dedicou ao ensinamento da vida ascética. Mais tarde é eleito bispo de Nissa, e se demonstrou um pastor zeloso, assim atraiu a estima da comunidade. Acusado de ser um mal administrador dá-lhe detestar os heréticos, e teve que, por um breve tempo, abandonar a sua sede episcopal, mas depois retornou triunfante, e continuou a empenhar-se na luta para defender a verdadeira fé.

Sobre tudo depois da morte de Basílio, quase recolhendo-se a herança espiritual, cooperou ao triunfo da ortodoxia. Participou de vários sínodos; procurou dizer os contrastes no meio da Igreja; Capturou a parte ativa da reorganização eclesiástica e, como “coluna da ortodoxia”, foi um protagonista do Concílio de Constantinopla de 381, que definiu a divindade do Espírito Santo. Então vários encarregados oficiais da parte do imperador Teodósio, pronunciou importantes homilias e discursos fúnebres, se dedicou a compor varias operas teológicas. No ano 394 participou ainda de um sínodo ocorrido
em Constantinopla. Não é conhecida a data da sua morte.

Gregório exprime com clareza a finalidade de seus estudos, o propósito supremo a qual mira o seu trabalho de teólogo: Não empenhar a vida em coisas vãs, mas procurar a luz que dá o discernimento aquilo que é verdadeiramente útil.

Procuro este bem supremo, no cristianismo, graças a qual é possível “A imitação da natureza divina”. Com a sua astuta inteligência e o seu vasto conhecimento filosófico e teológico, ele defende a fé cristã contra os heréticos, que negavam a divindade do Filho e do Espírito Santo, comprometendo a perfeita humanidade de Cristo.

Comentou a sagrada escritura, afirmando sobre a criação do homem. Este era para ele um tema central: A criação. Ele via na criatura o reflexo do Criador e procurava aqui a estrada em direção a Deus.

Mas ele escreveu também um importante livro sobre a vida de Moisés, que apresenta como um homem em caminho a Deus: Esta subida ao monte Sinai, parece pra ele uma imagem da nossa subida na vida humana verso a verdadeira vida, verso o encontro com Deus. Ele interpretou também a oração do Senhor, o Pai Nosso, e a Santificação. No seu grande discurso catequético, expôs a linha fundamental da teologia, não para uma teologia acadêmica fechada em si mesma, mas para oferecer a catequese um sistema de referência para ter presente neles as instruções, quase o quadro no qual se move a interpretação pedagógica da fé.

Gregório, é também, insigne pela doutrina espiritual. Toda sua teologia não era uma reflexão acadêmica, mas expressão de uma vida espiritual, de uma fé vivida. Como grande “pai da mística” destacou em vários tratados – como o De professione christiana e o De perfectione christiana – o caminho que os cristãos devem seguir para chegar a verdadeira vida, a perfeição. Exaltou a virgindade consagrada (De virginitate), e desta propôs um modelo admirável na vida de irmã Macrina que, para ele, foi sempre uma guia, um exemplo.

Fez vários discursos e homilias, escreveu numerosas cartas. Comentando a criação do homem, Gregório colocou em evidência que Deus, “o melhor dos artistas, forja nossa natureza de maneira que possa torná-la apta ao exercício da realeza. Através da superioridade estabelecida pela alma, e por meio da mesma conformação do corpo, ele dispõe as coisas de modo que o homem seja realmente idôneo ao poder real”.

Mas vejamos como o homem, na rede dos pecados, freqüentemente abusa da criação, não exercita uma verdadeira realeza. Por isso, para realizar, de fato, uma verdadeira responsabilidade para com as criaturas, deve ser penetrado por Deus e viver na sua luz. O homem, de fato, é um reflexo daquela beleza originária que é Deus: “tudo o que Deus criou era ótimo”, escreve o santo Bispo. E acrescenta: “dá testemunho disso o relato da criação. Entre as coisas ótimas estava também o homem, ornado de uma beleza de grande superioridade a todas as coisas belas. O que mais, de fato, podia ser belo, conforme quem era semelhante à beleza pura e incorruptível?… Reflexo e imagem da vida eterna, ele era belo verdadeiramente, antes, belíssimo, com o sinal radiante da vida em sua face”.

O homem foi honrado por Deus e colocado acima de qualquer outra criatura: “não o céu foi feito à imagem de Deus, não a lua, não o sol, não a beleza das estrelas, nenhuma outra das coisas que aparecem na criação. Somente tu, (alma humana) tornaste imagem da natureza que ultrapassa todo intelecto, semelhança da beleza incorruptível, marca da verdadeira divindade, receptáculo da vida bem aventurada, imagem da verdadeira luz, olhando para a qual tu te tornas aquilo que Ele é, porque por meio do raio reflexo proveniente da tua pureza tu imites Aquele que brilha
em ti. Nenhuma coisa que existe é tão grande para ser comparada à tua grande”. Meditemos este elogio do homem.
Vejamos também como o homem seja degradado pelo pecado. E busquemos retornar à grandeza originária: somente se Deus é presente, o homem chega a esta sua verdadeira grandeza.

O homem, portanto, reconhece dentre de si o reflexo da luz divina: purificando o seu coração, ele volta a ser, como era no princípio, uma límpida imagem de Deus, beleza exemplar. Assim o homem, purificando-se, pode ver Deus, como os puros de coração: “Se, com um teor de vida diligente e atento, lavarás as feiúras que se depositaram sobre teu coração, resplandecerá em ti a divina beleza… Contemplando a ti mesmo, verás em ti aquele que é o desejo de teu coração, e serás bem-aventurado”. Portanto, lavarás as feiúras que se depositaram sobre nosso coração e reencontrarás em nós mesmos a luz de Deus.

O homem, portanto, tem como fim a contemplação de Deus. Somente nela poderá encontrar o seu sentido. Para antecipar de algum modo tal objetivo já nesta vida, ele deve progredir incessantemente rumo a uma vida espiritual, uma vida em diálogo com Deus. Em outras palavras – e é esta a lição mais importante que São Gregório Nisseno nos ensina – a plena realização do homem consiste na santidade, em uma vida vivida no encontro com Deus, que assim se torna luminosa também para os outros, também para o mundo. 

27. agosto 2007 · 1 comment · Categories:

Domingo- 26 de agosto 2007 

Queridos irmãos e firma! 

A liturgia do dia nos propõe uma palavra de Cristo clara e ao mesmo tempo desconcertante. Durante a sua ultima subida para Jerusalém, um tal lhe pergunta: “Senhor, são poucos aqueles que se salvam?”. E Jesus responde: “Esforçai-vos em entrar pela porta estreita, porque muitos procuram entrar, mas não conseguirão”. (Lc 13, 23-24). O que significa esta “porta estreita”? Porque muitos não conseguem entrar? Trata-se de uma passagem reservada só para alguns eleitos? Efetivamente, este modo de raciocinar dos interlocutores de Jesus, é sempre atual: é sempre uma astúcia a tentação de interpretar a pratica religiosa como fonte de privilegio ou de segurança. Na realidade, a mensagem de Cristo vai em sentido oposto: todos podem entrar na vida, mas para todos a porta é “estreita”. Não tem privilegiados. A passagem à vida eterna é aberta para todos, mas é “estreita” porque é exigente, nos pede um empenho, renúncia, mortificação do próprio egoísmo.

Ainda uma vez, como nos domingos passados, o Evangelho nos convida a considerar o futuro que nos espera e ao qual devemos preparar durante a nossa peregrinação aqui na Terra. A salvação, que Jesus operou com a sua morte e ressurreição, é universal. Ele é único Redentor e convida todos ao banquete da vida imortal. Mas com uma única e igual condição: aquela de esforçar em seguir e imitá-lo, tomando sobre si, como Ele fez, a própria cruz e dedicar-se a vida ao serviço dos irmãos.

Única e universal, portanto, esta é a condição para entrar na vida celeste, no último dia – recorda ainda Jesus no Evangelho- não é em base a supostos privilégios que seremos julgados, mas segundo as nossas obras. Os “operadores de iniqüidade” se encontrarão exclusos, enquanto serão acolhidos aqueles que cumpriram o bem e procuraram a justiça, a custo de sacrifícios. Não bastará, portanto declarar-se “amigos” de Cristo exaltando-se de falsos méritos: “Nos comíamos e bebíamos à sua presença e tu ensinaste nas nossas praças” (Lc 13,26). A verdadeira amizade com Jesus se exprime no modo de viver: se exprime com a bondade de coração, com humildade, brandura e misericórdia, amor para com a justiça e a verdade, compromisso sincero e honesto para a paz e a reconciliação. Esta podemos dizer, é a “identidade” que nos qualifica como seus autênticos “amigos”; isto é o “passaporte” que nos permitirá entrar na vida eterna.

Queridos irmãos e irmãs, se queremos também passar pela porta estreita, devemos empenhar-nos em ser pequenos, isto é, humildes de coração como Jesus. Como Maria, sua mãe e nossa Mãe. Ela é a primeira depois de seu Filho,  que percorreu pelo caminho da cruz e foi assunta na glória do céu, como recordamos uns dias atrás. O povo cristão a invoca como Ianua Caeli, Porta do Céu. Pedimos, portanto a ela, para nos guiar nas nossas escolhas quotidianas, na estrada que conduz a “porta do Céu”. 

Quarta-feira, 22 agosto 2007São Gregório Nazianzeno

Queridos irmãos e irmãs,

No ciclo dos relatos dos grandes Padres e Doutores da Igreja que procuro oferecer nestas catequeses, na ultima falei do grande Gregório Nazianzeno, bispo do século IV e gostaria hoje ainda completar este relato de um grande maestro. Procuraremos hoje colher alguns de seus ensinamentos. Refletindo sobre a missão que Deus lhe confiou, São Gregório Naziannzeno concluía: “Fui criado para subir até Deus com as minhas ações”.

De fato, ele colocou a serviço de Deus e da Igreja o seu talento de escritor e pregador. Compôs numerosos discursos, varias homilias, muitas cartas e obras poéticas (quase 18 mil versos). Compreendeu que esta era a missão que Deus lhe confiou: “Servo da palavra, eu aderi ao ministério da Palavra; que eu nunca me permita de negligenciar este bem. Esta vocação eu prezo e agradeço, e trago muitas alegrias de todas as outras coisas que colhi juntas”.

Nazianzeno era um homem tranqüilo, e na sua vida procurou sempre fazer obras de paz na Igreja de seu tempo, dilacerada pelas discórdias e heresias. Com audácia evangélica se esforçou de superar a própria timidez de proclamar a verdade da fé. Sentia profundamente o desejo de aproximar-se e uni-se a Deus. Exprime ele mesmo em uma de suas poesias: “entre as grandes ondas do mar da vida, de cá e de lá dos impetuosos ventos agitados,… uma coisa só me è preciosa, só minha riqueza, conforto e obras de fadiga, a luz da Santíssima Trindade”.

Gregório fez resplandecer a luz da Trindade, defendendo a fé proclamada no Concilio de Nicéia: um só Deus em três pessoas iguais e distintas-Pai, Filho e Espírito Santo- “tripla luz em um, esplendor que se une”. Portanto, afirma sempre Gregório sobre a Carta de São Paulo (I Cor 8,6) “Para nós é um Deus, o Pai do qual é tudo; um Senhor, Jesus Cristo, por meio dele é tudo; e um Espírito Santo, que é tudo”.

Gregório colocou em grande destaque a plena humanidade de Cristo: para redimir o homem na sua totalidade de corpo, alma e espírito, Cristo assume todos os componentes da natureza humana, de outra forma o homem não seria salvo. Contra a heresia de Apollinare, o qual sustentava que Jesus Cristo havia assumido a alma racional, Gregório afronta o problema à luz do mistério da salvação: “Aquilo que não é afirmação, não é curado” e se Cristo não fosse dotado de intelecto racional, como haveria podido ser homem?

É próprio do nosso intelecto, da nossa razão que precisa de relacionamento, de encontro com Deus e com Cristo. Tornando-se homem, Cristo que nos deu a possibilidade de tornarmos a nossa volta com ele. O Nazianzeno exorta: “Procuremos de ser como Cristo, porque antes Cristo é retornado a nós: de tornarmos deuses por meio d’Ele, a partir do momento que Ele mesmo, por meio de nós, se tornou homem. Tomou o pior de nós sobre si, para presentear-nos com o melhor.

Maria, que deu a natureza humana a Cristo, é Verdadeiramente a Mãe de Deus e em vista da sua altíssima missão foi “pré-purificada” quase um distante prelúdio do Maria foi colocada como modelo aos cristãos, sobretudo às virgens, e como aquela que socorre ao ser invocada nas necessidades.

Gregório recorda que, como pessoas humanas, devemos ser solidários uns aos outros. Escreve: “nós somos todos uma só coisa no Senhor”, ricos e pobres, escravos e livres, sãos e enfermos; e única é a base da qual tudo deriva: Jesus Cristo. E como trabalham os membros de um só corpo, cada um se ocupe de cada um, e todos de todos”.

Pois, referindo-se aos enfermos e às pessoas com dificuldades, conclui: “esta é a única salvação para a nossa carne a para a nossa alma: a caridade para com o outro”. Gregório destaca que o homem deve imitar a bondade e o amor de Deus, e ainda recomenda: “Se estás são e és rico, alivie as necessidades dos enfermos e pobres; se estás em pé, socorre aqueles que caíram e vivem no sofrimento; se estás alegre, console os tristes; se estás feliz, ajuda quem vive na desgraça.

Dá a Deus uma prova de reconhecimento, porque és um daqueles que podem beneficiar, e não daqueles que desejam ser beneficiados… Sejas rico não somente de bens, mas também de piedade; não somente de ouro, mas de virtudes, ou melhor, desta somente. Supera a fama do teu próximo, mostrando-te o melhor de todos; rende-te a
Deus nas desventuras, imitando a misericórdia de Deus”.

Gregório ensina, antes de tudo, a importância e a necessidade da oração. Ele afirma que “é necessário recordar-se de Deus intensamente quanto se respira” porque a oração é o encontro da sede de Deus com a nossa sede. Deus tem sede de que tenhamos sede Dele. Na oração nós devemos voltar o nosso coração a Deus, para obter Dele a oferta de purificação e transformação. Na oração nós vemos tudo à luz de Cristo, deixamos cair as nossas máscaras e se emergem na verdade e na escuta de Deus, alimentando o foco do amor.

Em uma poesia, que é ao mesmo tempo, uma meditação sobre o fim da vida e requer a invocação a Deus, Gregório escreve: “Há uma tarefa, alma minha, uma grande tarefa, se requer. Perscruta seriamente a si mesma, o teu ser, o teu destino; de onde vem e de onde dever estar; busca conhecer se é vida aquilo que se vive ou se é qualquer coisa de mais. Há uma tarefa, alma minha, purifica, então, a tua vida: considera, por favor, Deus e seus mistérios, indaga então o que era antes deste universo e o que isso é para ti, de onde veio, e qual será seu destino. Eis aí tua tarefa, alma minha, purifica, então, a tua vida”

Continuamente o santo Bispo pede ajuda a Cristo, para se levantar e retomar o caminho: “Fui iludido, ó meu Cristo, por ser muitas vezes presunçoso: das alturas caí muito para baixo. Mas me levantaste novamente, uma vez que vejo que por mim mesmo fui enganado; se ainda confio muito em mim mesmo, ainda cairei, e a queda será fatal”

Além disso, Gregório sentiu o desejo de aproximar-se de Deus para superar o cansaço do próprio eu. Experimentou o desabrochar da alma, a vivacidade de um espírito sensível e a instabilidade da felicidade passageira. Para ele, no drama de uma vida sobre a qual pesava a consciência da própria fraqueza e da própria miséria, a experiência do amor de Deus sempre teve uma vantagem.

“Há um dever da alma, – diz são Gregório também para nós -, o dever de encontrar a verdadeira luz, a verdadeira grandeza da tua vida. E a tua vida é encontrar-te com Deus, que tem sede da nossa sede”.

Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

São Gregório Nazianzeno

Queridos irmãos e irmãs!
Na passada quarta-feira falei de um grande mestre da fé, o Padre da Igreja São Basílio. Hoje gostaria de falar do seu amigo Gregório de Nazianzo, também ele, como Basílio, originário da Capadócia. Teólogo ilustre, orador e defensor da fé cristã no século IV, foi célebre pela sua eloquência, e teve também, como poeta, uma alma requintada e sensível.
Gregório nasceu de uma família nobre. A mãe consagrou-o a Deus desde o nascimento, que aconteceu por volta de 330. Depois da primeira educação familiar, frequentou as mais célebres escolas da sua época: primeiro foi a Cesareia da Capadócia, onde estreitou amizade com Basílio, futuro Bispo daquela cidade, e deteve-se em seguida noutras metrópoles do mundo antigo, como Alexandria do Egipto e sobretudo Atenas, onde encontrou de novo Basílio (cf. Oratio 14-24: SC 384, 146-180). Reevocando a sua amizade, Gregório escreverá mais tarde: “Então não só eu me sentia cheio de veneração pelo meu grande Basílio devido à seriedade dos seus costumes e à maturidade e sabedoria dos seus discursos, mas induzia a fazer o mesmo também a outros, que ainda não o conheciam… Guiava-nos a mesma ansiedade de saber… Esta era a nossa competição: não quem era o primeiro, mas quem permitisse ao outro de o ser. Parecia que tínhamos uma só alma em dois corpos” (Oratio 43, 16.20: SC 384, 154-156.164). São palavras que representam um pouco o auto-retrato desta alma nobre. Mas também se pode imaginar que este homem, que estava fortemente projectado para além dos valores terrenos, tenha sofrido muito pelas coisas deste mundo.
Tendo regressado a casa, Gregório recebeu o Baptismo e orientou-se para uma vida monástica: a solidão, a meditação filosófica e espiritual fascinavam-no. Ele mesmo escreverá: “Nada me parece maior do que isto: fazer calar os próprios sentidos, sair da carne do mundo, recolher-se em si mesmo, não se ocupar mais das coisas humanas, a não ser das que são estritamente necessárias; falar consigo mesmo e com Deus, levar uma vida que transcende as coisas visíveis; levar na alma imagens divinas sempre puras, sem misturar formas terrenas e erróneas; ser verdadeiramente um espelho imaculado de Deus e das coisas divinas, e tornar-se tal cada vez mais, tirando luz da luz…; gozar, na esperança presente, o bem futuro, e conversar com os anjos; ter já deixado a terra, mesmo estando na terra, transportado para o alto com o espírito” (Oratio 2, 7: SC 247, 96).
Como escreve na sua autobiografia (cf. Carmina [historica] 2, 1, 11 De vita sua 340-349: PG 37, 1053), recebeu a ordenação presbiteral com uma certa resistência, porque sabia que depois teria que ser Pastor, ocupar-se dos outros, das suas coisas, e portanto já não podia recolher-se só na meditação. Contudo aceitou depois esta vocação e assumiu o ministério pastoral em total obediência, aceitando, como com frequência lhe aconteceu na sua vida, ser guiado pela Providência aonde não queria ir (cf. Jo 21, 18). Em 371 o seu amigo Basílio, Bispo de Cesareia, contra o desejo do próprio Gregório, quis consagrá-lo Bispo de Sasima, uma Cidade extremamente importante da Capadócia. Mas ele, devido a várias dificuldades, nunca tomou posse dela e permaneceu na cidade de Nazianzo.
Por volta de 379, Gregório foi chamado a Constantinopla, a capital, para guiar a pequena comunidade católica fiel ao Concílio de Niceia e à fé trinitária. A maioria aderia ao contrário ao arianismo, que era “politicamente correcto” e considerado pelos imperadores útil sob o ponto de vista político. Deste modo ele encontrou-se em condições de minoria, circundado por hostilidades.
Na pequena igreja de Anastasis pronunciou cinco Discursos teológicos (Orationes 27-31: SC 250, 70-343) precisamente para defender e tornar também inteligível a fé trinitária, a habilidade do raciocínio, que faz compreender realmente que esta é a lógica divina. E também o esplendor da forma os torna hoje fascinantes. Gregório recebeu, devido a estes discursos, o apelativo de “teólogo”. Assim é chamado na Igreja ortodoxa: o “teólogo”. E isto porque para ele a teologia não é uma reflexão meramente humana, ou muito menos apenas o fruto de especulações complicadas, mas deriva de uma vida de oração e de santidade, de um diálogo assíduo com Deus. E precisamente assim mostra à nossa razão a realidade de Deus, o mistério trinitário. No silêncio contemplativo, imbuído de admiração diante das maravilhas do mistério revelado, a alma acolhe a beleza e a glória divina.
Enquanto participava no segundo Concílio Ecuménico de 381, Gregório foi eleito Bispo de Constantinopla, e assumiu a presidência do Concílio. Mas desencadeou-se imediatamente contra ele uma grande oposição, e a situação tornou-se insustentável. Para uma alma tão sensível estas inimizades eram insuportáveis. Repetia-se o que Gregório já tinha lamentado anteriormente com palavras ardentes: “Dividimos Cristo, nós que tanto amávamos Deus e Cristo! Mentimos uns aos outros devido à Verdade, alimentámos sentimentos de ódio devido ao Amor, dividimo-nos uns dos outros!” (Oratio 6, 3: SC 405, 128). Chega-se assim, num clima de tensão, à sua demissão. Na catedral apinhada Gregório pronunciou um discurso de despedida com grande afecto e dignidade (cf Oratio 42: SC 384, 48-114). Concluía a sua fervorosa intervenção com estas palavras: “Adeus, grande cidade, amada por Cristo… Meus filhos, suplico-vos, guardai o depósito [da fé] que vos foi confiado (cf. 1 Tm 6, 20), recordai-vos dos meus sofrimentos (cf. Cl 4, 18). Que a graça do nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós” (cf. Oratio 42, 27: SC 384, 112-114).
Regressou a Nazianzo, e por cerca de dois anos dedicou-se ao cuidado pastoral daquela comunidade cristã. Depois retirou-se definitivamente em solidão na vizinha Arianzo, a sua terra natal, dedicando-se ao estudo e à vida ascética. Nesse período compôs a maior parte da sua obra poética, sobretudo autobiográfica: o De vita sua, uma releitura em versos do próprio caminho humano e espiritual, um caminho exemplar de um cristão sofredor, de um homem de grande interioridade num mundo cheio de conflitos. É um homem que nos faz sentir a primazia de Deus e por isso fala também a nós, a este nosso mundo: sem Deus o homem perde a sua grandeza, sem Deus não há verdadeiro humanismo. Por isso, ouçamos esta voz e procuremos conhecer também nós o rosto de Deus. Numa das suas poesias escrevera, dirigindo-se a Deus: “Sê benigno, Tu, o Além de tudo” (Carmina [dogmatica] 1, 1, 29: PG 37, 508). E em 390 Deus acolheu nos seus braços este servo fiel, que com inteligência perspicaz tinha defendido nos escritos, e com tanto amor o tinha cantado nas suas poesias.