{"id":1,"date":"2022-07-07T21:32:25","date_gmt":"2022-07-08T00:32:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/santahildegarda\/?p=1"},"modified":"2022-07-11T10:04:32","modified_gmt":"2022-07-11T13:04:32","slug":"ola-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/santahildegarda\/2022\/07\/07\/ola-mundo\/","title":{"rendered":"Santa e Doutora Hildegarda de Binguen"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\"><strong><em>Santa Hildegarda de Bingen,<br \/>\nMonja Professa da Ordem de S\u00e3o Bento,<br \/>\n<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-61 aligncenter\" src=\"http:\/\/blog.cancaonova.com\/santahildegarda\/files\/2022\/07\/logo-vatican.png\" alt=\"\" width=\"63\" height=\"77\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\">PARA PE<\/span><span style=\"color: #663300;\">RP\u00c9TUA MEM\u00d3RIA<\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\"><strong><em>\u00e9 proclamada Doutora da Igreja universal<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"color: #663300;\"><strong>BENTO PP. XVI<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-62 alignleft\" src=\"http:\/\/blog.cancaonova.com\/santahildegarda\/files\/2022\/07\/Hildegarda-233x300.jpg\" alt=\"\" width=\"161\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/blog.cancaonova.com\/santahildegarda\/files\/2022\/07\/Hildegarda-233x300.jpg 233w, https:\/\/blog.cancaonova.com\/santahildegarda\/files\/2022\/07\/Hildegarda.jpg 236w\" sizes=\"(max-width: 161px) 100vw, 161px\" \/><\/p>\n<p>1. \u00abLuz do seu povo e do seu tempo\u00bb: com estas palavras o Beato Jo\u00e3o Paulo\u00a0II, Nosso venerado Predecessor, definiu Santa Hildegarda de Bingen em 1979, por ocasi\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/letters\/1979\/documents\/hf_jp-ii_let_19790908_800-ildegarda.html\">800\u00ba anivers\u00e1rio da morte da M\u00edstica alem\u00e3<\/a>. E verdadeiramente, no horizonte da hist\u00f3ria, esta grande figura de mulher se define com clareza l\u00edmpida por santidade de vida e originalidade de doutrina. Ali\u00e1s, como para qualquer experi\u00eancia humana e teologal aut\u00eantica, a sua import\u00e2ncia supera decididamente os confins de uma \u00e9poca e de uma sociedade e, n\u00e3o obstante a dist\u00e2ncia cronol\u00f3gica e cultural, o seu pensamento manifesta-se de actualidade perene.<\/p>\n<p>Em Santa Hildegarda de Bingen revela-se uma extraordin\u00e1ria harmonia entre a doutrina e a vida quotidiana. Nela a busca da vontade de Deus na imita\u00e7\u00e3o de Cristo expressa-se como uma pr\u00e1tica constante das virtudes, que ela exerce com suma generosidade e que alimenta nas ra\u00edzes b\u00edblicas, lit\u00fargicas e patr\u00edsticas \u00e0 luz da\u00a0<i>Regra<\/i>\u00a0de S\u00e3o Bento: resplandece nela de modo particular a pr\u00e1tica perseverante da obedi\u00eancia, da simplicidade, da caridade e da hospitalidade. Nesta vontade de perten\u00e7a total ao Senhor, a abadessa beneditina sabe englobar os seus dotes humanos \u00edmpares, a sua perspicaz intelig\u00eancia e a sua capacidade de penetra\u00e7\u00e3o das realidades celestes.<\/p>\n<p>2. Hildegarda nasceu em 1089 em Bermersheim, perto de Alzey, de pais de linhagem nobre e ricos propriet\u00e1rios de terras. Aos oito anos foi aceite como oblata na abadia beneditina de Disibodenberg, onde em 1115 emitiu a profiss\u00e3o religiosa. Com a morte de Jutta de Sponheim, por volta de 1136, Hildegarda foi chamada a suceder-lhe como\u00a0<i>magistra<\/i>. De sa\u00fade f\u00edsica fr\u00e1gil, mas vigorosa no esp\u00edrito, comprometeu-se profundamente por uma renova\u00e7\u00e3o adequada da vida religiosa. Fundamento da sua espiritualidade foi a regra beneditina, que indica o equil\u00edbrio espiritual e a modera\u00e7\u00e3o asc\u00e9tica como caminhos para a santidade. Depois do aumento num\u00e9rico das monjas, devido sobretudo \u00e0 grande considera\u00e7\u00e3o pela sua pessoa, por volta de 1150 fundou um mosteiro na colina chamada Rupertsberg, nas proximidades de Bingen, para onde se transferiu juntamente com vinte irm\u00e3s de h\u00e1bito. Em 1165 instituiu outro em Eibingen, na margem oposta do Reno. Foi abadessa de ambos.<\/p>\n<p>Dentro dos muros claustrais ocupou-se do bem espiritual e material das irm\u00e3s de h\u00e1bito, favorecendo de modo particular a vida comunit\u00e1ria, a cultura e a liturgia. Fora deles comprometeu-se activamente por robustecer a f\u00e9 crist\u00e3 e fortalecer a pr\u00e1tica religiosa, contrastando as tend\u00eancias her\u00e9ticas dos c\u00e1taros, promovendo a reforma da Igreja com os escritos e a prega\u00e7\u00e3o, contribuindo para melhorar a disciplina e a vida do clero. A convite primeiro de Adriano IV e depois de Alexandre III, Hildegarda exerceu um apostolado fecundo \u2014 na \u00e9poca n\u00e3o muito frequente para uma mulher \u2014 efectuando algumas viagens n\u00e3o sem inc\u00f3modos e dificuldades, para pregar at\u00e9 nas pra\u00e7as p\u00fablicas e em v\u00e1rias igrejas-catedrais, como aconteceu entre outras em Col\u00f3nia, Tr\u00e9veros, Liege, Mog\u00fancia, Metz, Bamberga e W\u00fcrzburg. A profunda espiritualidade presente nos seus escritos exerce uma influ\u00eancia relevante quer nos fi\u00e9is, quer em grandes personalidades da sua \u00e9poca, abrangendo numa renova\u00e7\u00e3o incisiva a teologia, a liturgia, as ci\u00eancias naturais e a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Atingida por uma doen\u00e7a no Ver\u00e3o de 1179, Hildegarda, circundada pelas irm\u00e3s de h\u00e1bito, adormeceu no Senhor em odor de santidade no mosteiro do Rupertsberg, perto de Bingen, a 17 de Setembro de 1179.<\/p>\n<p>3. Nos seus numerosos escritos Hildegarda dedicou-se exclusivamente a expor a revela\u00e7\u00e3o divina e a fazer conhecer Deus na limpidez do seu amor. A doutrina hildegardiana \u00e9 considerada eminente tanto pela profundidade e rectid\u00e3o das suas interpreta\u00e7\u00f5es, como pela originalidade das suas vis\u00f5es. Os textos por ela compostos est\u00e3o animados por uma aut\u00eantica \u00abcaridade intelectual\u00bb e evidenciam densidade e vigor na contempla\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade, da Encarna\u00e7\u00e3o, da Igreja, da humanidade, da natureza como criatura de Deus que se deve apreciar e respeitar.<\/p>\n<p>Estas obras nascem de uma \u00edntima experi\u00eancia m\u00edstica e prop\u00f5em uma reflex\u00e3o incisiva sobre o mist\u00e9rio de Deus. O Senhor tinha-a tornado part\u00edcipe, desde menina, de uma s\u00e9rie de vis\u00f5es, cujo conte\u00fado ela ditou ao monge Volmar, seu secret\u00e1rio e conselheiro espiritual, e a Richardis de Strade, uma irm\u00e3 monja. Mas \u00e9 particularmente iluminante o ju\u00edzo dado por S\u00e3o Bernardo de Claraval, que a encorajou, e sobretudo pelo Papa Eug\u00e9nio III, que em 1147 a autorizou a escrever e a falar em p\u00fablico. A reflex\u00e3o teol\u00f3gica permite que Hildegarda esquematize e compreenda, pelo menos em parte, o conte\u00fado das suas vis\u00f5es. Ela, al\u00e9m dos livros de teologia e de m\u00edstica, comp\u00f4s tamb\u00e9m obras de medicina e de ci\u00eancias naturais. S\u00e3o numerosas tamb\u00e9m as cartas \u2014 cerca de quatrocentas \u2014 que enviou a pessoas simples, comunidades religiosas, papas, bispos e autoridades civis do seu tempo. Foi tamb\u00e9m compositora de m\u00fasica sacra. O\u00a0<i>corpus<\/i>\u00a0dos seus escritos, pela quantidade, qualidade e variedade dos interesses, n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com nenhuma outra autora da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>As obras principais s\u00e3o o\u00a0<i>Scivias<\/i>, o\u00a0<i>Liber vitae meritorum<\/i>\u00a0e o\u00a0<i>Liber divinorum operum<\/i>. Todas narram as suas vis\u00f5es e o encargo recebido pelo Senhor de as transcrever. As\u00a0<i>Cartas<\/i>, na consci\u00eancia da autora, n\u00e3o revestem menor import\u00e2ncia e testemunham a aten\u00e7\u00e3o de Hildegarda \u00e0s vicissitudes do seu tempo, que ela interpreta \u00e0 luz do mist\u00e9rio de Deus. A elas devem acrescentar-se 58 serm\u00f5es, destinados exclusivamente \u00e0s suas irm\u00e3s. Trata-se das\u00a0<i>Expositiones Evangeliorum<\/i>, que cont\u00eam um coment\u00e1rio literal e moral a excertos evang\u00e9licos relacionados com as principais celebra\u00e7\u00f5es do ano lit\u00fargico. Os trabalhos de car\u00e1cter art\u00edstico e cient\u00edfico concentram-se de modo espec\u00edfico sobre a m\u00fasica com a\u00a0<i>Symphonia armoniae caelestium revelationum<\/i>; sobre a medicina com o\u00a0<i>Liber subtilitatum diversarum naturarum creaturarum\u00a0<\/i>e o\u00a0<i>Causae et curae<\/i>, sobre as ci\u00eancias naturais com a\u00a0<i>Physica<\/i>. Por fim observam-se tamb\u00e9m escritos de car\u00e1cter lingu\u00edstico, como a\u00a0<i>Lingua ignota<\/i>\u00a0e as\u00a0<i>Litterae ignotae<\/i>, nos quais est\u00e3o inclu\u00eddas palavras numa l\u00edngua desconhecida por ela inventada, mas composta prevalecentemente por fen\u00f3menos presentes na l\u00edngua alem\u00e3.<\/p>\n<p>A linguagem de Hildegarda, caracterizada por um estilo original e eficaz, recorre de bom grado a express\u00f5es po\u00e9ticas de grande carga simb\u00f3lica, com fulgurantes intui\u00e7\u00f5es, analogias incisivas e met\u00e1foras sugestivas.<\/p>\n<p>4. Com aguda sensibilidade sapiencial e prof\u00e9tica, Hildegarda fixa o olhar no evento da revela\u00e7\u00e3o. A sua averigua\u00e7\u00e3o desenvolve-se a partir da p\u00e1gina b\u00edblica, \u00e0 qual, nas fases sucessivas, permanece firmemente ancorada. O olhar da M\u00edstica de Bingen n\u00e3o se limita a enfrentar quest\u00f5es individuais, mas pretende oferecer uma s\u00edntese de toda a f\u00e9 crist\u00e3. Por conseguinte, nas suas vis\u00f5es e na reflex\u00e3o sucessiva, ela compendia a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, desde o in\u00edcio do universo at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica. A decis\u00e3o de Deus de fazer a obra da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a primeira etapa deste imenso percurso, que, \u00e0 luz da Sagrada Escritura, se desenvolve da constitui\u00e7\u00e3o da hierarquia celeste at\u00e9 \u00e0 queda dos anjos rebeldes e ao pecado dos progenitores. A este quadro inicial segue-se a encarna\u00e7\u00e3o redentora do Filho de Deus, a ac\u00e7\u00e3o da Igreja que continua no tempo o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o e a luta contra satan\u00e1s. O advento definitivo do reino de Deus e o ju\u00edzo universal ser\u00e3o o coroamento desta obra.<\/p>\n<p>Hildegarda apresenta a si mesma e a n\u00f3s a quest\u00e3o essencial se \u00e9 poss\u00edvel conhecer Deus: \u00e9 esta a tarefa fundamental da teologia. A sua resposta \u00e9 plenamente positiva: mediante a f\u00e9, como atrav\u00e9s de uma porta, o homem \u00e9 capaz de se aproximar deste conhecimento. Contudo Deus conserva sempre a sua aur\u00e9ola de mist\u00e9rio e de incompreensibilidade. Ele torna-se intelig\u00edvel na cria\u00e7\u00e3o, mas isto, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 compreendido plenamente se for separado de Deus. Com efeito, a natureza considerada em si fornece s\u00f3 informa\u00e7\u00f5es parciais, que com frequ\u00eancia se tornam ocasi\u00f5es de erros e abusos. Por isso, tamb\u00e9m na din\u00e2mica cognitiva natural \u00e9 necess\u00e1ria a f\u00e9, sen\u00e3o o conhecimento permanece limitado, incompleto e desviante.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de um acto de amor, gra\u00e7as ao qual o mundo pode emergir do nada: portanto toda a escala das criaturas \u00e9 atravessada, como a torrente de um rio, pela caridade divina. Entre todas as criaturas, Deus ama de modo particular o homem e confere-lhe uma extraordin\u00e1ria dignidade, doando-lhe aquela gl\u00f3ria que os anjos rebeldes perderam. Deste modo a humanidade pode ser considerada como o d\u00e9cimo coro da hierarquia ang\u00e9lica. Pois bem, o homem \u00e9 capaz de conhecer Deus em si mesmo, ou seja, a sua natureza indivisa na trindade das pessoas. Hildegarda aproxima-se do mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade na linha j\u00e1 proposta por Santo Agostinho: por analogia com a pr\u00f3pria estrutura de ser racional, o homem \u00e9 capaz de ter pelo menos uma imagem da realidade \u00edntima de Deus. Mas \u00e9 s\u00f3 na economia da encarna\u00e7\u00e3o e da vicissitude humana do Filho de Deus que este mist\u00e9rio se torna acess\u00edvel \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 consci\u00eancia do homem. A santa e inef\u00e1vel Trindade na suma unidade estava escondida aos servos da lei antiga. Mas na nova gra\u00e7a era revelada a quantos foram libertados da servid\u00e3o. A trindade revelou-se de modo particular na cruz do Filho.<\/p>\n<p>Um segundo \u00ablugar\u00bb no qual Deus se torna cognosc\u00edvel \u00e9 a sua palavra contida nos livros do Antigo e do Novo Testamento. Precisamente porque Deus \u00abfala\u00bb, o homem \u00e9 chamado a ouvi-lo. Este conceito oferece a Hildegarda a ocasi\u00e3o para expor a sua doutrina sobre o canto, de modo particular o lit\u00fargico. O som da palavra de Deus cria vida e manifesta-se nas criaturas. Tamb\u00e9m os seres privados de racionalidade, gra\u00e7as \u00e0 palavra criadora s\u00e3o envolvidos no dinamismo criatural. Mas, naturalmente, \u00e9 o homem aquela criatura que, com a sua voz, pode responder \u00e0 voz do Criador. E pode faz\u00ea-lo de dois modos principais:\u00a0<i>in voce oris<\/i>, ou seja, na celebra\u00e7\u00e3o da liturgia, e\u00a0<i>in voce cordis<\/i>, isto \u00e9, com uma vida virtuosa e santa. Por conseguinte, toda a vida humana pode ser interpretada como uma harmonia e uma sinfonia.<\/p>\n<p>5. A antropologia de Hildegarda tem in\u00edcio na p\u00e1gina b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o do homem (<i>Gn<\/i>\u00a01, 26), feito \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. O homem, segundo a cosmologia hildegardiana fundada na B\u00edblia, encerra todos os elementos do mundo, porque o universo inteiro se resume nele, que \u00e9 formado da pr\u00f3pria mat\u00e9ria da cria\u00e7\u00e3o. Por isso ele pode de modo consciente entrar em rela\u00e7\u00e3o com Deus. Isto acontece n\u00e3o por uma vis\u00e3o directa, mas, seguindo a c\u00e9lebre express\u00e3o paulina, \u00abcomo num espelho\u00bb (<i>1 Cor<\/i>\u00a013, 12). A imagem divina no homem consiste na sua racionalidade, estruturada em intelecto e vontade. Gra\u00e7as ao intelecto o homem \u00e9 capaz de distinguir o bem e o mal, gra\u00e7as \u00e0 vontade ele \u00e9 estimulado \u00e0 ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 visto como unidade de corpo e alma. Observa-se na M\u00edstica alem\u00e3 um apre\u00e7o positivo da corporeidade e, tamb\u00e9m nos aspectos de fragilidade que o corpo manifesta, ela \u00e9 capaz de captar um valor providencial: o corpo n\u00e3o \u00e9 um peso do qual se libertar e, at\u00e9 quando \u00e9 d\u00e9bil e fr\u00e1gil, \u00abeduca\u00bb o homem para o sentido da criaturalidade e da humanidade, protegendo-o da suberba e da arrog\u00e2ncia. Numa vis\u00e3o Hildegarda contempla as almas dos bem-aventurados do para\u00edso, que est\u00e3o \u00e0 espera de se unirem aos seus corpos. De facto, como para o corpo de Cristo, tamb\u00e9m os nossos corpos est\u00e3o orientados para a ressurrei\u00e7\u00e3o gloriosa, para uma profunda transforma\u00e7\u00e3o para a vida eterna. A mesma vis\u00e3o de Deus, na qual consiste a vida eterna, n\u00e3o se pode obter de modo definitivo sem o corpo.<\/p>\n<p>O homem existe na forma masculina e feminina. Hildegarda reconhece que nesta estrutura ontol\u00f3gica da condi\u00e7\u00e3o humana se radica uma rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade e uma substancial igualdade entre homem e mulher. Mas na humanidade habita tamb\u00e9m o mist\u00e9rio do pecado e ele manifesta-se pela primeira vez na hist\u00f3ria precisamente nesta rela\u00e7\u00e3o entre Ad\u00e3o e Eva. Ao contr\u00e1rio de outros autores medievais, que viam a causa da queda na debilidade de Eva, Hildegarda v\u00ea-a sobretudo na excessiva paix\u00e3o de Ad\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a ela.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na sua condi\u00e7\u00e3o de pecador, o homem continua a ser destinat\u00e1rio do amor de Deus, porque este amor \u00e9 incondicionado e, depois da queda, assume o rosto da miseric\u00f3rida. At\u00e9 a puni\u00e7\u00e3o que Deus inflige ao homem e \u00e0 mulher faz sobressair o amor misericordioso do Criador. Neste sentido, a descri\u00e7\u00e3o mais exacta da criatura humana \u00e9 a de um ser a caminho,\u00a0<i>homo viator<\/i>. Nesta peregrina\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 p\u00e1tria, o homem \u00e9 chamado a uma luta para poder escolher constantemente o bem e evitar o mal.<\/p>\n<p>A escolha constante do bem produz uma exist\u00eancia virtuosa. O Filho de Deus feito homem \u00e9 o sujeito de todas as virtudes, por isso a imita\u00e7\u00e3o de Cristo consiste precisamente numa exist\u00eancia virtuosa na comunh\u00e3o com Cristo. A for\u00e7a da virtude deriva do Esp\u00edrito Santo, infundido nos cora\u00e7\u00f5es dos crentes, que torna poss\u00edvel um comportamento constantemente virtuoso: \u00e9 esta a finalidade da exist\u00eancia humana. O homem, deste modo, experimenta a sua perfei\u00e7\u00e3o cristiforme.<\/p>\n<p>6. Para poder alcan\u00e7ar esta finalidade, o Senhor doou os sacramentos \u00e0 sua Igreja. A salva\u00e7\u00e3o e a perfei\u00e7\u00e3o do homem, de facto, n\u00e3o se realizam s\u00f3 mediante um esfor\u00e7o da vontade, mas atrav\u00e9s dos dons da gra\u00e7a que Deus concede na Igreja.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Igreja \u00e9 o primeiro sacramento que Deus coloca no mundo para que comunique aos homens a salva\u00e7\u00e3o. Ela, que \u00e9 a \u00abconstru\u00e7\u00e3o das almas viventes\u00bb, pode ser justamente considerada como virgem, esposa e m\u00e3e e, por conseguinte, \u00e9 estreitamente assimilada \u00e0 figura hist\u00f3rica e m\u00edstica da M\u00e3e de Deus. A Igreja comunica a salva\u00e7\u00e3o antes de tudo conservando e anunciando os dois grandes mist\u00e9rios da Trindade e da Encarna\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o como os dois \u00absacramentos prim\u00e1rios\u00bb, depois mediante a administra\u00e7\u00e3o dos outros sacramentos. O \u00e1pice da sacramentalidade da Igreja \u00e9 a eucaristia. Os sacramentos produzem a santifica\u00e7\u00e3o dos crentes, a salva\u00e7\u00e3o e a purifica\u00e7\u00e3o dos pecados, a reden\u00e7\u00e3o, a caridade e todas as outras virtudes. Mas, mais uma vez, a Igreja vive porque Deus nela manifesta o seu amor intratrinit\u00e1rio, que se revelou em Cristo. O Senhor Jesus \u00e9 o mediador por excel\u00eancia. Do seio trinit\u00e1rio ele vem ao encontro do homem e do seio de Maria ele vai ao encontro de Deus: como Filho de Deus \u00e9 o amor encarnado, como Filho de Maria \u00e9 o representante da humanidade diante do trono de Deus.<\/p>\n<p>O homem pode chegar at\u00e9 a experimentar Deus. De facto, a rela\u00e7\u00e3o com ele n\u00e3o se consome unicamente na esfera da racionalidade, mas envolve de modo total a pessoa. Todos os sentidos externos e internos do homem est\u00e3o interessados na experi\u00eancia de Deus: \u00abDe facto, o homem foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus para que aja mediante os cinco sentidos do seu corpo; gra\u00e7as a eles n\u00e3o se sente separado e \u00e9 capaz de conhecer, entender e realizar o que deve fazer (&#8230;) e exactamente por isso, pelo facto de que o homem \u00e9 inteligente, conhece as criaturas, e assim atrav\u00e9s das criaturas e das grandes obras, que com dificuldade consegue entender com os seus cinco sentidos, conhece Deus, aquele Deus que s\u00f3 pode ser visto com os olhos da f\u00e9\u00bb (<i>Explanatio Symboli Sancti Athanasii<\/i>:\u00a0<i>PL<\/i>\u00a0197, 1073). Este caminho experiencial, mais uma vez, encontra a sua plenitude na participa\u00e7\u00e3o dos sacramentos.<\/p>\n<p>Hildegarda v\u00ea tamb\u00e9m as contradi\u00e7\u00f5es presentes na vida de cada um dos fi\u00e9is e denuncia as situa\u00e7\u00f5es mais deplor\u00e1veis. De modo especial, ela ressalta como o individualismo na doutrina e na pr\u00e1tica por parte dos leigos assim como dos ministros ordenados seja uma express\u00e3o de soberba e constitua o obst\u00e1culo principal \u00e0 miss\u00e3o evangelizadora da Igreja em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00e3o crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Um dos \u00e1pices do magist\u00e9rio de Hildegarda \u00e9 a exorta\u00e7\u00e3o urgente a uma vida virtuosa que ela dirige a quem se compromete num estado de consagra\u00e7\u00e3o. A sua compreens\u00e3o da vida consagrada \u00e9 uma verdadeira \u00abmetaf\u00edsica teol\u00f3gica\u00bb, porque firmemente radicada na virtude teologal da f\u00e9, que \u00e9 a fonte e a constante motiva\u00e7\u00e3o para se comprometer profundamente na obedi\u00eancia, na pobreza e na castidade. Ao realizar os conselhos evang\u00e9licos a pessoa consagrada partilha a experi\u00eancia de Cristo pobre, casto e obediente e segue os seus passos na exist\u00eancia di\u00e1ria. Isto \u00e9 o essencial da vida consagrada.<\/p>\n<p>7. A eminente doutrina de Hildegarda faz ressoar o ensinamento dos ap\u00f3stolos, a literatura patr\u00edstica e os autores contempor\u00e2neos, enquanto encontra na\u00a0<i>Regola<\/i>\u00a0de S\u00e3o Bento de N\u00farcia um ponto de refer\u00eancia constante. A liturgia mon\u00e1stica e a interioriza\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura constituem as linhas-guia do seu pensamento, que, concentrando-se no mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, expressa-se numa profunda unidade de estilo e conte\u00fado que percorre intimamente todos os seus escritos.<\/p>\n<p>O ensinamento da santa monja beneditina coloca-se como uma guia para o\u00a0<i>Homo viator<\/i>. A sua mensagem \u00e9 extraordinariamente actual no mundo contempor\u00e2neo, de modo especial sens\u00edvel ao conjunto dos valores propostos e vividos por ela. Pensamos, por exemplo, na capacidade carism\u00e1tica e especulativa de Hildegarda, que se apresenta como um incentivo vivaz \u00e0 pesquisa teol\u00f3gica; na sua reflex\u00e3o sobre o mist\u00e9rio de Cristo, considerado na sua beleza; no di\u00e1logo da Igreja e da teologia com a cultura, a ci\u00eancia e a arte contempor\u00e2nea; no ideal de vida consagrada, como possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o humana, na valoriza\u00e7\u00e3o da liturgia, como celebra\u00e7\u00e3o da vida; na ideia de reforma da Igreja, n\u00e3o como est\u00e9ril mudan\u00e7a das estruturas, mas como convers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o; na sua sensibilidade pela natureza, cujas leis devem ser tuteladas e n\u00e3o violadas.<\/p>\n<p>Por isso a atribui\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de Doutor da Igreja universal a Hildegarda de Bingen tem um grande significado para o mundo de hoje e uma extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia para as mulheres. Em Hildegarda resultam expressos os valores mais nobres da feminilidade: por isso tamb\u00e9m a presen\u00e7a da mulher na Igreja e na sociedade \u00e9 iluminada pela sua figura, tanto na \u00f3ptica da pesquisa cient\u00edfica como na da ac\u00e7\u00e3o pastoral. A sua capacidade de falar a quantos est\u00e3o distantes da f\u00e9 e da Igreja fazem de Hildegarda uma testemunha cred\u00edvel da nova evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em virtude da sua fama de santidade e da sua eminente doutrina, a 6 de Mar\u00e7o de 1979 o Senhor Cardeal Joseph H\u00f6ffner, Arcebispo de Col\u00f3nia e Presidente da Confer\u00eancia Episcopal Alem\u00e3, juntamente com os Cardeais, Arcebispos e Bispos da mesma Confer\u00eancia, entre os quais est\u00e1vamos tamb\u00e9m N\u00f3s como Cardeal Arcebispo de Munique e Frisinga, submeteu ao Beato Jo\u00e3o Paulo II a S\u00faplica, para que Hildegarda de Bingen fosse declarada Doutora da Igreja universal. Na S\u00faplica, o Em.mo Purpurado ressaltava a ortodoxia da doutrina de Hildegarda, reconhecida no s\u00e9culo XII pelo Papa Eug\u00e9nio III, a sua santidade constantemente sentida e celebrada pelo povo, a import\u00e2ncia dos seus tratados. A esta S\u00faplica da Confer\u00eancia Episcopal Alem\u00e3, com os anos juntaram-se outras, primeira de todas a das Monjas do mosteiro de Eibingen, a ela intitulado. Portanto, ao desejo comum do Povo de Deus que Hildegarda fosse oficialmente proclamada santa acrescentou-se o pedido que seja tamb\u00e9m declarada \u00abDoutora da Igreja universal\u00bb.<\/p>\n<p>Com o nosso assentimento, portanto, a Congrega\u00e7\u00e3o para as Causas dos Santos diligentemente preparou uma\u00a0<i>Positio super Canonizatione et Concessione tituli Doctoris Ecclesiae universalis<\/i>\u00a0para a M\u00edstica de Bingen. Tratando-se de famosa mestra de teologia, que foi objecto de muitos estudos influentes, concedemos a dispensa de quanto disposto no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/apost_constitutions\/documents\/hf_jp-ii_apc_19880628_pastor-bonus-roman-curia.html\">art. 73 da Constitui\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<i>Pastor bonus<\/i><\/a>. Por conseguinte o caso foi examinado com \u00eaxito unanimemente positivo pelos Padres Cardeais e Bispos reunidos na Sess\u00e3o Plen\u00e1ria de 20 de Mar\u00e7o de 2012, sendo Ponente da Causa o Em.mo Card. Angelo Amato, Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para as Causas dos Santos. Na Audi\u00eancia de 10 de Maio de 2012 o mesmo Cardeal Amato informou-Nos pormenorizadamente sobre o\u00a0<i>status quaestionis<\/i>\u00a0e sobre os votos concordes dos Padres da mencionada Sess\u00e3o Plen\u00e1ria da Congrega\u00e7\u00e3o para as Causas dos Santos. A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/angelus\/2012\/documents\/hf_ben-xvi_reg_20120527_pentecoste.html\">27 de Maio de 2012<\/a>, Domingo de Pentecostes, tivemos a alegria de comunicar na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro \u00e0 multid\u00e3o dos peregrinos que vieram de todo o mundo a not\u00edcia do conferimento do t\u00edtulo de Doutora da Igreja universal a Santa Hildegarda de Bingen e a S\u00e3o Jo\u00e3o de \u00c1vila no in\u00edcio da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/synod\/index_po.htm#XIII_Assembleia_Geral%C2%A0Ordin%C3%A1ria_do_S%C3%ADnodo_dos_Bispos\">Assembleia do S\u00ednodo dos Bispos<\/a>\u00a0e na vig\u00edlia do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.annusfidei.va\/\">Ano da f\u00e9<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, hoje com a ajuda de Deus e a aprova\u00e7\u00e3o de toda a Igreja, isto \u00e9 realizado. Na pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, na presen\u00e7a de muitos cardeais e prelados da C\u00faria Romana e da Igreja cat\u00f3lica, confirmando o que foi realizado e satisfazendo de boa vontade os desejos dos suplicantes, durante o sacrif\u00edcio eucar\u00edstico pronunci\u00e1mos estas palavras:<\/p>\n<p>\u00abN\u00f3s, acolhendo o desejo de muitos Irm\u00e3os no Episcopado e de in\u00fameros fi\u00e9is do mundo inteiro, depois de ter recebido o parecer da Congrega\u00e7\u00e3o para as Causas dos Santos, depois de ter reflectido longamente e ter alcan\u00e7ado uma plena e segura convic\u00e7\u00e3o, com a plenitude da autoridade apost\u00f3lica declaramos S\u00e3o Jo\u00e3o de \u00c1vila, sacerdote diocesano, e Santa Hildegarda de Bingen, monja professa da Ordem de S\u00e3o Bento, Doutores da Igreja universal, em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u00bb.<\/p>\n<p>Isto decretamos e ordenamos, estabelecendo que esta carta seja e permane\u00e7a sempre certa, v\u00e1lida e eficaz, e que produza e obtenha os seus efeitos plenos e \u00edntegros; e assim convenientemente se julgue e se defina; e seja v\u00e3o e sem fundamento quanto diversamente sobre isto possa ser tentado seja por quem for com qualquer autoridade, cientemente ou por ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>Dado em Roma junto de S\u00e3o Pedro com o selo do Pescador a 7 de Outubro de 2012 oitavo ano do nosso Pontificado.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"style11\"><strong>PAPA BENTO XVI<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa Hildegarda de Bingen, Monja Professa da Ordem de S\u00e3o Bento, PARA PERP\u00c9TUA MEM\u00d3RIA \u00e9 proclamada Doutora da Igreja universal BENTO PP. 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