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Do Logos ao Dabar

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            Na atualidade dos tempos é fato deparar-se cada vez mais com um “apartheid” típico da época moderna. A diferença é que não se trata somente de uma segregação de raças, mas uma separação de si mesmo, das relações com os outros, da integração com o cosmos e do relacionamento com Deus. Atitudes com fundamentos enraizados no logos grego, insuficientes frente o dabar hebraico.

Atitudes como estas se tornam cada vez mais comuns, fazendo com que não se perceba mais tais sutilezDo Logos ao Dabaras e imagina-se que agindo dessa forma, pensando de maneira egoísta contribui-se com a humanidade. Individualmente até se cresce intelectualmente e profissionalmente, muitos chegam a se tornarem homens de qualidades, contudo essas qualidades de nada ou de quase nada servem para o bem comum.

            Precisa-se sair de um logos grego que significa palavra e passar para o dabar hebraico que também significa palavra, contudo a diferença gritante entre estas duas alocuções é que para o grego esse logos é no sentido contemplativo e para o hebreu o dabar é no sentido de ação criativa. Necessita-se de homens e mulheres que saiam de uma contemplação estéril e mergulhem numa ação criadora, capazes de mudar as realidades nas quais se encontram. Que com o uso de suas palavras possam ser “co-criadores”, criando vida onde a morte se torna contemplável, gerando esperança onde o sentido já não existe mais, levando luz onde a treva habitava. Dessa forma se entende quando Hurley escreve:

As palavras são ao mesmo tempo indispensáveis e fatais. Tratadas como hipóteses de trabalho, as proposições sobre o mundo são instrumentos por meio dos quais somos capacitados progressivamente a entender o mundo. Tratadas como verdades absolutas, como dogmas que devem ser engolidos, como ídolos que devem ser adorados, as proposições sobre o mundo torcem nossa visão da realidade e nos conduzem a todo tipo de conduta imprópria. (Os Demônios da Loucura, p. 308).

             O dabar vem acompanhado de uma força capaz de criar, de gerar a partir do nada, de entrar em relação com todas as realidades existentes e de transformar o ser. A palavra é dialógica, ninguém a possui é ela que nos possui; cabe somente ao portador fazer com que ela entre numa verdadeira relação tornando-se reciprocidade na vida dos que com ela entram em contato. É urgente a necessidade de se atravessar as fronteiras que estão em nós mesmos e invadir o mais íntimo do ser para poder encontrar o que ainda está intacto desde a criação e que ao pronunciar o dabar fará com que o novo aconteça, as vidas valham a pena serem vividas.

“No princípio era o Verbo” (João 1,1)…

Fábio Nunes

Referências

BUBER, Martin. Eu e Tu. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2006.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 2008.

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