Tempo de recalcular a rota no deserto

Quaresma é tempo de parada, de olhar para si, de recalcular a rota

Quaresma, tempo de parada, de olhar para si, de recalcular a rota, de tomar consciência neste deserto, e se questionar se estou caminhando para a vida ou para a morte, de se preparar para comemorar a ressurreição de Jesus, mas também a vida nova que Ele veio nos trazer.Tempo de pensar na finitude da nossa vida, de ter humildade em reconhecer que somos pó e ao pó voltaremos. Tempo de devolver a realeza a nossa alma, de deixar Deus ocupar o devido lugar, e refinar nossos valores, rever as condições de pecado que nos encontramos, bem como nossos hábitos e vícios, enfim, tudo o que não tem extraído o nosso melhor.

Somos criaturas finitas revestidas de eternidade, logo, não podemos titubear em nossa vivência, seria incoerência com Deus, mas também conosco mesmo, estaríamos nos anulando em meio aos bons propósitos abraçados em nossa vida cristã.“Minha vida é um brevíssimo segundo, um sopro”, mas segundo Padre Clóvis, é um sopro revestido de dignidade, logo, é preciso dar conta do nada que somos para reconhecer a grandeza de Deus em nós.Fazer penitência, jejum e mortificações, nos ajudam a reconhecer este nada que somos, a dar espaço para que Deus seja o tudo. Tornando-se possível controlar os apetites da carne, seus desejos e paixões, direcionando-os tudo para Deus, adquirindo assim o autodomínio.

Foto de FAICAL Zaramod no Pexels

A quaresma nos convida ao avanço nas virtudes e na busca pela santidade

Quando me abstenho de algo em prol de um bem maior renova-se o sentido em mim, e prioriza-se dentro do próprio ser o que é realmente necessário. Diante de uma comida que fiz o compromisso em não consumi-la, qual seria a posição mais coerente? Entregar-me? O desafio é olhar para aquilo não só pelo que explicitamente ali se representa, mas para além disso, o significado que lhe foi atribuído, e o que se espera alcançar com todo este propósito. “Se eu controlo o que entra, eu controlo o que sai”, a quaresma nos convida ao avanço nas virtudes e na busca pela santidade, que é uma graça de Deus, mas que exige a nossa parte, o nosso esforço pessoal, pois, a medida que se adquirem posturas construtivas, a nossa qualidade biopsicosocioespiritual é adquirida. 

Desse modo, a nossa humanidade bem trabalhada permite com que a graça de Deus haja livremente, e isso contribui no meu progresso pessoal, espiritual e relacional com o outro. Contudo, a quaresma também é um tempo de deserto, de afinar os nossos ouvidos para escutar a voz de Deus.Com base na homilia do Padre Francisco da comunidade Canção Nova, o deserto é lugar de solidão, humilhação, dúvidas, perseguições, tentações, provações, renúncias e purificações; nós somos impelidos ao deserto pelo próprio Deus que sempre levou seus profetas ao deserto, inclusive seu próprio filho Jesus.

No deserto ou se caminha, ou morre de sede

Ao caminhar pelo deserto, a têmpera é forjada em nós, neste local de solidão suprema e profunda que foram submetidos os profetas de Deus.Não podemos generalizar o deserto como algo ruim, atribuindo um peso que não é necessário. Há uma beleza particular no deserto que, diz de um lugar de intimidade, lugar de encontro com Deus, lugar onde Deus nos conduz para nosso próprio bem, para tocarmos na sua graça divina que potencializa nossa capacidade humana de lidar com o sofrimento, sacrifícios e intempéries da vida. No deserto gritam as nossas fragilidades, limitações e vícios, mas também os nossos dons e virtudes, e a oportunidade que temos de silenciar para acolher as respostas que Deus nos dá pessoalmente.

Esta experiência nos leva a sermos melhores e nos santificam de modo ímpar, “no deserto ou se caminha, ou morre de sede”.Após o deserto sempre há algo grande à nossa frente, uma beleza particular a ser encontrada que só será possível contemplar se houver a constância nos passos. “O deserto não é acidente de percurso”, é rota que prepara a chegada da promessa, e nos faz valorizar mais a espera da conquista final.Desistir agora? Não! Parar como muitos fizeram ao longo da sagrada escritura? Não! É PRECISO OLHAR O HORIZONTE E AMPLIAR A VISÃO!”Porque entre o sonho e a conquista há sempre um deserto”, e o deserto não é lugar de moradia, estadia, mas de passagem, é preciso confiar e prosseguir.

Leia também: 

:: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”

:: Quaresma

É preciso trabalhar bem nossa humanidade para viver bem a graça de Deus em nós.

É preciso ser estratégico e usar dos meios que Deus nos dá, inclusive neste tempo, praticar o jejum, a esmola e a oração. “Assim como Ester rezou de frente com o Leão que é o Rei, ela rezou para saber se posicionar diante do Rei, e assim passar bem pelo deserto” (Est 4,17). Neste tempo é preciso redobrar a atenção, pois no deserto há animais peçonhentos que costumam se esconder durante o dia e sair a noite, tais como, cobras, escorpiões etc; e isso tudo pode sair de nós mesmos. Precisamos aprender com tudo que vivemos e nos conhecer, não parar no caminho, se comportar como adulto, e não como criança birrenta e mimada que ao ser confrontada se revolta, ou quer voltar atrás. É preciso trabalhar bem nossa humanidade para viver bem a graça de Deus em nós.

Eu concluo lhe fazendo um pedido, intensifique suas orações no deserto e deixa Deus ir na frente te conduzindo, e esteja atento as árvores que fazem a sombra, que são os momentos e pessoas que Deus envia para você encontrar, descansar e repousar um pouco antes de prosseguir.Por fim, “quando o mistério é grande demais a gente silencia”, e apenas vive. Neste caminho árido e exigente, neste tempo de quaresma, deixa Deus se revelar, e revelar você à você mesmo, bem como, o que é preciso ser recalculado em sua rota! Seja santo, a santidade é para todos!