O convite à reparação atravessa os três ciclos de aparições marianas na mensagem de Fátima. Nas duas primeiras aparições angélicas da primavera e verão de 1916 o Anjo de Portugal pedia já a repara­ção no registo linguístico do sacrifício e da petição de perdão:

«não temais, sou o Anjo de Portugal, orai comigo… fez-nos repetir três vezes estas palavras: –“meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e Vos não amam”». Na segunda aparição no verão no poço chamado Arneiro acrescenta a este registo linguístico o vocabulário do sacrifício, da suportação e da súplica, próprios da piedade popular daquela época: «De tudo o que puderdes oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai, com submissão, o sofrimento que o Senhor vos enviar».

Na terceira aparição angélica no outono de 1916, o Anjo continua o convite à reparação, desviando sempre os Pastorinhos de «uma busca direta do sofrimento e do sacrifício, insistindo na aceitação dos aspetos aflitivos da vida», e lê a eucaristia como um sacrifício reparador, como que uma recompensa pelos ultrajes infligidos a Jesus: «… e faz–nos repetir três vezes: – Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espí­rito Santo, ofereço-Vos o preciocíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido… tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus».

Na primeira aparição mariana de 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pergunta aos Pastorinhos se que­rem oferecer-se a Deus «para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-[lhes], em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?». Na terceira aparição do dia 13 de julho desse mesmo ano, Nossa Senhora anunciou em Fátima que «para impedir a guerra [viria] pedir a consagração da Rússia ao [seu] Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados». Na aparição de 19 de agosto pedia o sacrifício reparador da ora­ção: «rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas».

A frase inspiradora para este ano de preparação do centenário é precisamente tirada da segunda me­mória da Irmã Lúcia onde relata o que a Senhora lhe pediu na terceira aparição de julho: «Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria». Esta última devoção veio pedi-la depois no ciclo cordimariano, apare­cendo à Irmã Lúcia a 10-12-1925 em Tuy, Espanha. Nessa altura concretizou-a em práticas muito sim­ples e pedagógicas como a consagração dos cinco primeiros sábados e a recitação do terço: «Olha, minha filha, o meu coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, procura consolar-me e diz que prometo assistir na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação, a todos os que, no Primeiro Sá­bado de cinco meses seguidos, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e me fizerem companhia durante quinze minutos, meditando nos quinze mistérios do Rosário com o fim de me desagravar». Estas práticas devocionais são reafirmadas nas visões de Jesus nos dois anos seguintes a 15 de fevereiro de 1926 e de 17 de dezembro de 1927. A 13 de junho de 1929 Maria pede a Lúcia: «são tantas as almas que a justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora».

Com esta chave, a Oração Eucarística IV desenha o movimento da revelação, expondo a dinâmica dos mistérios cristãos. Ainda que longa, valerá a pena recordá-la na íntegra.

«Nós Vos glorificamos, Pai santo, porque sois grande e tudo criastes com sabedoria e amor. Formastes o homem à vossa imagem e lhe confiastes o universo, para que servindo-Vos unicamente a Vós, seu Criador, exercesse domínio sobre todas as criaturas. E quando, por desobediência, perdeu a vossa ami­zade, não o abandonastes ao poder da morte, mas, na vossa misericórdia, a todos socorrestes, para que todos aqueles que Vos procuram Vos encontrem. Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito: feito homem pelo poder do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu a nossa condição humana, em tudo igual a nós, exceto no pecado; anunciou a salvação aos pobres, a libertação aos oprimidos, a alegria aos que sofrem. Para cumprir o vosso plano salvador, voluntariamente Se entregou à morte, e com a sua ressurreição destruiu a morte e restaurou a vida. E a fim de vivermos, não já para nós próprios mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou, de Vós, Pai misericordioso, enviou aos que n’Ele creem o Espírito Santo, como primícias dos seus dons, para continuar a sua obra no mundo e consumar toda a santificação».

É o-amor-que-Deus-Trindade-é que tudo traz à vida, que tudo restitui à vida e que tudo mantém em vida, até que, por Jesus e no Espírito, chegue a ser tudo em todos. Assim a criação. «YHWH-Deus modelou o homem do pó do solo, e soprou nas suas narinas um alento de vida, e o homem tornou-se um ser vivo» (Gn 2,7). «Descrição de sonho», regista A. Couto. «Eis o homem. Ser homem assim é nascer, viver e morrer “à boca de Deus” (Nm 33,38; Dt 34,5), sempre como um beijo de Deus, incrível intimidade com Deus». Eis a «força constitutiva do primeiro dom de Deus» sem a qual «não nos resta senão a natureza com os seus determinismos, a violência, o fatalismo, a idolatria, que é a recondução da existência humana para dentro do princípio natural, enfim, a vitalidade da morte»14. O dom que exprime a verdade do amor é a gramática da criação. Exprime a alegria de Deus por gerar o diferente de si e de estar entre os homens. A criação não é, por isso, emanação, exuberância de um ser narcisista que age para se olhar ao espelho. Não é produção funcional de umas tantas coisas que devem servir para alguma coisa. O poder criador de Deus não é o cálculo ou o interesse, mas o apreço que leva ao dom de si, dom que vive, também ele, de apreço, na forma da confiança reconhecida e correspondida, da generosidade de um afeto grato, capaz de gerar um laço de mútuo reconhecimento. Porque a resposta que o dom implica não tem a forma da posse, mas a do reconhecimento; potência tão humilde, a de Deus criador15! Potência do não possuir para si, mas do dar e do dar-se a si mesmo com o dom que se dá ao reconhecimento de um outro. «Deus deu-me por amor, para que eu receba por amor. Deu-me o mundo por amor, para que eu o receba por amor»16.

Nesta lei está, precisamente, a possibilidade do pecado. Como afirma P. Beauchamp, «existe uma lei do amor que leva Deus a deixar ao homem a possibilidade de pecar»17. O dom da criação tem o seu cume na liberdade do ser humano que pode perverter o dom. A inveja e o medo podem ocu­par o lugar vital da confiança. «Eu quero ser Deus porque Deus é definido como aquele que não quer que eu seja como ele»18 (cf. Gn 3,1-7). A voz da suspeita faz o seu caminho, fazendo ressoar a falsidade. «O homem, desde o início do esplendor do primeiro dia da criação, suspeitou, sem motivo, mas convenceu-se de que o motivo existia e, desde então, começou a vê-lo»19. Deus que cria por amor e que, por amor, concede ao ser humano a dádiva da liberdade, capaz de o reconhecer e de lhe corresponder, amando, passa a ser pre-sentido e entre-visto como poder que, se se perder, levará Deus a deixar de ser Deus. «Assim, o pecado apresenta-se como vontade de matar Deus, acusando-o de ser o inimigo da nossa vida»20. O amor reconhecido deixa de bastar para alimentar a confiança. Quer-se a prova que não pode ser conhecida, mas, apenas, acreditada: «que se é ama­do»21. Porque o amor vive de fé, o afeto de apreço e os laços de confiança. Só pode ser reconhecido e correspondido. Eis a sua força. Eis a sua humildade.

Admiravelmente, diante da suspeita e da inveja, Deus cose vestidos verdadeiros (Gn 3,21), para cobrir a nudez de Adão e Eva que se veem indefesos na sua fragilidade, envergonhados pelos seus limites, inseguros na sua relação. No quadro que este gesto desenha, contemplamos Deus como justiça que não cessa de justificar o ser humano. Neste amor dedicado e delicado está a verdade de Deus, o apreço que motiva a disposição a pagar o preço. Fora deste amor, Deus não está. Fora deste amor, o homem e a mulher não estão à altura de si mesmos, como não estão à altura da criação. Esta será a história da salvação. Recorrendo, ainda, às palavras de A. Couto, «Deus não abandona esta humanidade invejosa e pecadora, não espera por ela à porta da eternidade, mas vem ao seu encontro como ela é, respeitando-a e assumindo a imagem falsa que esta humanidade invejosa e mentirosa fez de Deus». É longa a viagem da condescendência de Deus, desde Abraão, passando pela lei e os profetas e tantos personagens, com as suas histórias de vida e de fé, até Jesus Cristo, em quem «tudo se vê melhor», porque é o Filho (Gl 4,4-6) «que radicalmente se recebe (Jo 10,18; Ap 2,28) e radicalmente se entrega (Jo 10,17; Gl 1,4; 2,20; Ef 5,2.25; Tt 2,14), constituindo assim o acontecimento decisivo da humanidade, “plenitude” (pleroma) do tempo e do mundo, ma­turação da “salvação” (sôteria)»22.

Descendo ao abismo da entrega do Filho amado, o amor do Pai pela humanidade inteira e pelo seu mundo alcança o seu cume. O mais alto no mais baixo. O mais íntimo no mais exposto. O mais digno no mais humilde. A todo aquele que reconhecer tal dom e, livremente, se lhe aban­done, este amor-que-salva comunica a plenitude da vida (cf. Jo 3,16). Como precisa C. Doglio, «o ser de Deus manifesta-se como agápe, fez-se conhecer como “pró-afeição originária” e, no laço da história de Jesus com a história do mundo, revelou a beleza originária deste laço afetivo como saída de si, abertura ao outro e destinação à familiaridade consigo mesmo»23. A perfeição de Deus coincide com o Seu afeto, um laço que liga pelo reconhecimento24. Afirma S. Paulo que Deus nos demonstrou o seu amor pelo facto de, quando ainda eramos pecadores, Cristo ter morrido por nós (cf. Rm 5,8). E S. João confirma que Deus manifestou o seu amor quando mandou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que tivéssemos a vida por meio dele (cf. 1Jo 4,9). É este apreço de Deus pelo ser humano e pelo seu mundo que dispõe Deus a pagar este preço. E recordemos com G. C. Pagazzi que «o mundo da carne do Filho não é só a humanidade, mas todas as coisas que viu, sentiu, gostou, tocou, cheirou», o mundo real com o qual esteve em con-tacto sensível, porque o «Redentor não é o Filho de Deus, mas o Filho de Deus encarnado»25. Neste sentido, «a nova lei do amor é tão antiga como a criação, quando Deus viu que todas as coisas eram boas, surpreen­dendo-se com a sua admirável honorabilidade, maravilhando-se com o seu valor». Esse é o apreço que, desde o início, dispõe Deus a oferecer-se no próprio Filho, só para não perder o homem e a mulher e o seu mundo que ninguém como o Filho encarnado amou tanto. «No originário a-preço de todas as coisas já vibrava o preço do Filho, do Mediador que em todas as coisas do Seu mundo via um tesouro, uma pérola digna de levar a vender todos os Seus bens (Mt 13,44-46), a Sua própria vida»26. Desta vida vivemos.

A experiência de ser amado e de amar restitui o homem e a mulher, seres sensivelmente espirituais e espiritualmente corpóreos, à graça da criação, à fecundidade das relações, ao gosto da vida a fa­zer-se em cada encontro, nas palavras e nos gestos de cada dia. Pelo amor e no amor aprendemos a ver mais e melhor, como quem entre-vê o sentido por entre linhas curvas; a tocar justamente cada coisa, acontecimento e pessoa, como quem é tocado por um dom surpreendente e sempre mais do que necessário; a escutar como quem pre-sente a promessa de cada palavra no timbre e na modelação justa dos sons que a anunciam e, claro, em cada silêncio; a apreciar melhor e em cada parcela da realidade o gosto e o perfume da bênção que as coisas, os acontecimentos e as pessoas são. Como a amada e o amado do Cântico dos Cânticos que re-entram no Jardim do Éden, não pela nostalgia das origens perdidas, mas pela vitória do amor sobre o egoísmo, da graça sobre o pecado, da confiança sobre o medo, do desejo ordenado em Deus sobre o desejo desordenado pelo próprio amor, querer e interesse. O amor recebido e retribuído permite reencontrar a dimen­são corpórea e relacional da nossa humanidade, com os seus ritmos quotidianos e os seus lugares comuns, onde se dá, de facto, a experiência de Deus. E permite reencontrar o mundo como casa onde sentimos ser de casa e nos sentimos em casa27, o espaço acolhedor e hospitaleiro, onde a posse cede, de novo, o lugar ao dom e o furto ao fruto28. Assim pode amar-se Deus em todas as coisas e amar todas as coisas em Deus. A história pode recomeçar, agora, com coisas novas e ain­da mais belas do que aquelas criadas no início29. Porque o amor é sempre novo e faz novas todas as coisas e não fica indiferente a quem dele se separa. «É um olhar “original” porque vê profundidade e significados que quem não ama não é capaz de entrever. Mas é “original”, também, porque reen­via para a experiência das “origens”, participando do olhar de Deus sobre a bondade e a beleza da criação», o tal apreço que diz a modelação originária do amor. «Se existe um pecado original […], também existe um olhar original sobre a realidade que deve ser absolutamente recuperado». E um escutar e um tocar e um saborear e um cheirar originais. E um estilo de encontros e de relações e de modos de habitar o mundo original. Assim, «só o amor, como fruto da ação do Espírito, está à altura de iluminar os sentidos e a mente, de conduzir a um discernimento autêntico e a uma ação consequente»30, inspirando e conformando, assim, o estilo “vivível” e visível de uma existência assinalada pela graça que salva.

Quem vive no amor, tão bem situado e tão grato, tão humilde e tão generoso, tão atento e tão ativo (não confunde a relação com Deus com alienação, nem o espiritual com o desencarnado), poderá dizer, em palavras e gestos, no corpo e na alma, «Ó Jesus, é por vosso amor». Professa a fé, declarando o amor, como Pedro: «Senhor, tu sabes tudo, bem sabes que te amo» (Jo 21,17), sabendo que, agora, permanecem a fé, a esperança e o amor, mas que maior que todas as coisas é o amor (cf. 1Cor 13,13). Não tendo outra casa onde sentir-se em casa, além desta pobreza alegre de viver, dia a dia, sob o olhar misericordioso do amor de Deus, ao qual co-responde em confiança, nem outra almofada onde descansar a cabeça do cansaço da vida, que não lhe será poupado, poderá rezar com as palavras de S. Inácio de Loiola, sugeridas como vértice do longo percurso dos seus Exercícios Espirituais.

«Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes; a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, segundo a vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta» (n. 234).

A oração nasce do amor e tende para o amor. Quem tudo recebe e se recebe com gratidão (ser assim, é chegar a ser filho) poderá oferecer o que tem e oferecer-se a si mesmo com grandeza de ânimo. Em Deus-amor-que-nos-faz-ser-no-amor, a história de vida de cada um e de cada co­munidade poderá desenhar-se como ato de apreço, de acolhimento e de entrega confiada – de intercessão, de mediação – aos homens e mulheres que existem (não àqueles que se idealizam ou que se gostaria que existissem), neste tempo concreto da nossa história coletiva. Assim se dirá o amor e se realizará a salvação, fazendo-se eucaristicamente corpo (um estilo de vida eucarístico), nas relações e na família, na política e na cultura, na economia e nas ciências, nos ofícios e nas artes, como o Verbo que se faz carne para alimentar a vida de cada um, sobretudo dos que vivem sem alimento e que, só por si, não o conseguem alcançar. Cume e fonte da vida con-formada à vida de Jesus Cristo (é assim que se torna humana), re-cria cada pessoa, coisa e lugar, bendizente e fecundo. O amor salva-guarda a vida. Para que floresça, amável, como amável é a sua Origem e o seu Destino. Ó Jesus, é por vosso amor e por amor de todos os que amais.

Por José Frazão Correia

O teólogo P. Sequeri identifica a figura mitológica de Prometeu como representativa do homem e da mulher modernos, aquele que rouba o fogo aos deuses para o dar aos homens. Desafia o limite, violando a proibição e rompendo o encantamento de divindades ciumentas. O resultado é o castigo. Também Dionísio poderia avançar traços marcantes do ideal moderno, mas pela faceta da celebração da força da vida e das forças vitais da natureza. Assim, vai, também ele, ao encontro da sua destruição. Fica-lhe, porém, o prazer de se jogar na vertigem sem limites, o gozo da auto­nomia radical, bebido até à última gota.

Outra é a figura do homem e da mulher pós-modernos, Narciso, aquele que «vive do seu próprio encantamento: não suporta o incómodo dos afetos e o trabalho do reconhecimento, as expectativas do outro distraem-no do cuidado de si mesmo». Na realidade, vive mal, fechado no cuidado de si, no reflexo da sua imagem, ora exuberante, ora deprimida, tornando-se «perfeitamente insensível e afetivamente indiferente». Narciso vive fazen­do-se adorar, mas não repara em ninguém nem ama ninguém. «O mito, justamente, assinala a diferença. Prometeu deve sofrer a sua transgressão, mas permanece vivo. Narciso, pelo contrário, afoga-se no seu tédio, como um farrapo na água». O mundo encantado de Narciso, alimentado pelas inúmeras possibilidades da técnica e pelos muitos recursos da sociedade de consumo, vive obcecado pela imagem e pela realização de si. Mas, antes ou depois, esta acaba em frustração. Narciso não reconhece o amor. Narciso não ama. Na contemplação solitária de si, afoga-se em sim mesmo. Fechando-se, morre. Sozinho. Estéril.

Movidos por tal narcisismo auto-referencial, sem sonho nem rasgo, sem apreço nem disponibili­dade a pagar o preço por aquilo que se aprecia, sem criação nem geração, poderia acontecer que imaginássemos Deus, também Ele, como autorreferencialidade absoluta e apática, de facto, um Narciso Absoluto, sem afetos que o co-movam nem laços que o liguem. Mas estaríamos muito longe do traço bíblico do amor que se realiza como apreço e como dom que cria e recria, que gera e regenera. Nesse ídolo, a perfeição e a santidade viveriam protegidas de qualquer relação de afeto, de todo o laço livremente correspondido. Mas que perfeição e que santidade seriam?

Estas e outras imagens do divino e do humano encontram-se e embatem no juízo do Evangelho. Chegar a reconhecer a verdade de Deus na justiça da dedicação de Jesus e chegar a reconhecer, aí, a verdade e a justiça da nossa humanidade exige superar escândalos, não apenas aqueles criados pelo imaginário individual e cultural do divino, mas, também, aqueles cultivados por ritos sagra­dos, argumentados por teologias e protegidos por poderes religiosos. O amor do Filho encarnado, quando aceita ser identificado com a impotência humana, para que não seja confundido com a prepotência divina, assume distância clara do Deus ab-soluto, separado e apático, que não fala com mulheres samaritanas nem se deixa tocar por leprosos, que não entra em casa de publicanos, mas que, para preservar a própria ordem e o seu direito, é capaz de fazer cair torres para punir pecadores. Por isso e com a mesma tenacidade, se impede que a inteligência da fé possa identificar o amor revelado em Jesus como complemento sentimental do ser de Deus ou apêndice acidental da liberdade divina. Do mesmo modo, na revelação que Deus é amor e que sem amor, nós, não somos nada, não se joga uma afirmação simpática e agradável a ouvidos delicados, sentimental e culturalmente correta, mas, antes, a conversão à identificação do Ser com o Amor. Como também frisa P. Sequeri, no horizonte do dogma cristão, a palavra originária do ser não é a substância que se causa a si mesma (causa sui) e que sub-siste ab-soluta, isolada na sua riqueza e auto-suficiente em todas as suas perfeições. Tendo tudo, não precisa de ninguém. A palavra ori­ginária do ser não é o amor que se ama a si mesmo, mas é «a geração do Filho», o amor que faz ser o diferente de si e se alegra nele. Desde sempre, Deus é amor-que-gera, Pai que gera o Filho, não Pai que se causa a si mesmo e sub-siste sozinho. Com o primeiro Concílio Ecuménico de Ni­ceia, em 325, contra Ário, a ortodoxia da Igreja reviu-se na confissão de que não houve momento algum em que Deus não fosse Pai que gera o Filho e Filho gerado pelo Pai. Desde sempre, Deus é amor-gerado, Filho gerado pelo Pai, não Filho que se gera a si mesmo. Desde sempre Deus é amor-que-gera-e-que-é-gerado, Espírito Santo que não procede de si mesmo nem é anulado pelo Pai e pelo Filho, mas é o Respiro fecundo da Paternidade e da Filiação, a força e a forma vital do amor que circula entre Pai e Filho. Cada um é o que é, porque se recebe de outro, porque é para o outro. Nenhum vive separado do outro. Nenhum se funde ou se confunde com o outro. Diferença e relação dão forma à perfeição, na «perfeita aceitação recíproca, até à identidade: um só Deus». Aqui, na intimidade da vida trinitária, onde há lugar afetivo e efetivo para o diferente, sem defesa nem ciúme, existir segundo a lei do amor encontra a sua origem primeira, a sua medida perma­nente, o seu destino último. É o amor que «sustenta a eterna geração do Logos e a criatividade do Espírito» (à palavra amor, Sequeri prefere o termo grego agápe ou pró-afeição, dada a desvitalização sentimentalista a que a palavra amor, hoje, está sujeita). É, pois, o amor que diz, agindo, a palavra que tudo cria e que traz Adão e Eva à vida. É ele que estabelece a aliança que jamais passará. É o amor que gera o Verbo no ventre de Maria. É o amor que salva a vida de leprosos e de mulheres e de homens de má vida e que leva Jesus à entrega da própria vida na cruz. Assim nos resgata de todas as formas de mal, a maior de todas, a morte pelo pecado. É o amor derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado que nos santifica. É ele que sustenta o testemunho da Igreja. Interessa, assim, relembrar que o amor de Deus se apresenta e se representa como apreço que faz ser-em-ação-de- -gerar, desde logo «a partir do ato de criar (e de recriar e de redimir e de realizar para lá de toda a expectativa imaginada) o habitat para o humano e o humano [criado] à sua imagem, inscrevendo o seu sopro nele». O amor é este ser-assim, a razão primeira e a lei constituinte de cada homem, mulher e grupo humano e de todas as coisas saídas das mãos do Criador. No amor que nos gera à vida e no amor que nos faz gerar a vida na vida de qualquer outro, todos, somos salvos. Deste amor, nada se perderá, porque é desde sempre e é para a eternidade

Por José Frazão Correia

De Deus, dizem-se tantas coisas. Por isso, como sugere E. Salmann, «deveremos ouvir o coro imen­so dos gritos, das orações e das blasfémias, das invocações e das conclusões filosóficas, a gaguez e a eloquência que acompanham esta palavra»: Deus.

Hoje, para muitos Deus é indiferente, vazio, irrelevante. Para outros, continua a ser imprevisível e ameaçador. Por Ele se morre e por Ele ainda se mata. Às crianças diz-se que é amigo. Há quem diga que, por ser Absoluto, é insensível a qual­quer afeto e desligado de qualquer laço. Já se disse que é motor imóvel – sem se mover, tudo põe em movimento. É possível que seja o Sumo bem e a Suma beleza, modelo perfeitíssimo e puro que fascina e que atrai, ainda que intocável e inalcançável. Ouvimos dizer, também, que é causa de si mesmo e que subsiste só por si. Que é espaço amorfo, ambiente materno, o nada onde seremos tudo ou o tudo onde seremos nada. Que é projeção das nossas ambições e dos nossos medos. Sendo tanto e tantas coisas, para uns, é demasiado. Para outros, é demasiado pouco. É abstrato e distraído, afastado e apático. É coisa sempre à mão e é fetiche. É fascinante e é tremendo.

Dito tudo isto, entre o muito mais que poderíamos dizer, há ainda perguntas que permanecem. Se Deus fosse mera explicação para o que ainda não sabemos, mereceria o melhor de nós mesmos? Se não fosse mais do que o resultado argumentativo da nossa inteligência ou do que a magia de um momento gratificante ou do que o fugaz arrepio da alma, mereceria que lhe entregássemos todo o nosso afeto? Se fosse a resposta predefinida para todos os problemas, o tapa-buracos da nossa incompreensão dos mistérios do universo e da existência, mesmo que animando a mente, poderia reconfortar a vida? E se fosse uma espécie de mãe galinha que abafa as suas crias, não lhes deixando espaço para o respiro e o crescimento, poderíamos sentir-nos livres na sua presença e confiar na gratuidade dos seus dons? Se fosse omnipotente como são os reis poderosos ou man­dão como são os pais tiranos, não nos levaria a fugir à primeira oportunidade? Se Deus não esti­vesse nos inícios como bênção e se não acompanhasse o caminho real dos homens e mulheres que existem, através dos abismos e das fraturas da sua humanidade, e se não abrisse a possibilidade de uma esperança que reconforte o coração, depois de uma difícil e longa jornada, como poderíamos confiar n’Ele e como poderíamos confiar-nos a Ele? Outra coisa é se Deus for dádiva de si e que, por isso, cria o mundo e o aprecia na sua diferença e gera a vida na vida de cada um, também na daqueles que o olham com indiferença e, até, com inimizade, e a aprecia ainda mais; se for ternura que deseja a alegria e que abençoa a inventividade humana; se for descrição da liberdade que dá tempo ao tempo de cada um, que dá a palavra para que cada um chegue dizer-se e as capacidades para que venha a ser o que pode ser; se for afeto que sacia o desejo mais íntimo de relações justas e que gera um laço ajustado de mútuo reconhecimento… Se for assim, então, Deus acabará por encontrar lugar no melhor de nós mesmos e o desejo de vida que há em nós chegará a reconhecer-se salva-guardado n’Ele e por Ele.

E o humano? Hoje, como no passado, direta ou indiretamente, continuamos a perguntar pela ver­dade da nossa humanidade e do desejo que nos move, pela razão da nossa origem e pelo sentido do nosso destino, pela forma ideal do bem e pelo sentido da liberdade. O diagnóstico, também aqui, seria múltiplo. Ainda assim, poderíamos destacar um traço do ambiente cultural que parti­lhamos, que, creio, é motivo bastante para nos deixar apreensivos.

 

O teólogo P. Sequeri identifica a figura mitológica de Prometeu como representativa do homem e da mulher modernos, aquele que rouba o fogo aos deuses para o dar aos homens. Desafia o limite, violando a proibição e rompendo o encantamento de divindades ciumentas. O resultado é o castigo. Também Dionísio poderia avançar traços marcantes do ideal moderno, mas pela faceta da celebração da força da vida e das forças vitais da natureza. Assim, vai, também ele, ao encontro da sua destruição. Fica-lhe, porém, o prazer de se jogar na vertigem sem limites, o gozo da auto­nomia radical, bebido até à última gota.

Outra é a figura do homem e da mulher pós-modernos, Narciso, aquele que «vive do seu próprio encantamento: não suporta o incómodo dos afetos e o trabalho do reconhecimento, as expectativas do outro distraem-no do cuidado de si mesmo». Na realidade, vive mal, fechado no cuidado de si, no reflexo da sua imagem, ora exuberante, ora deprimida, tornando-se «perfeitamente insensível e afetivamente indiferente». Narciso vive fazen­do-se adorar, mas não repara em ninguém nem ama ninguém. «O mito, justamente, assinala a diferença. Prometeu deve sofrer a sua transgressão, mas permanece vivo. Narciso, pelo contrário, afoga-se no seu tédio, como um farrapo na água». O mundo encantado de Narciso, alimentado pelas inúmeras possibilidades da técnica e pelos muitos recursos da sociedade de consumo, vive obcecado pela imagem e pela realização de si. Mas, antes ou depois, esta acaba em frustração. Narciso não reconhece o amor. Narciso não ama. Na contemplação solitária de si, afoga-se em sim mesmo. Fechando-se, morre. Sozinho. Estéril.

Movidos por tal narcisismo auto-referencial, sem sonho nem rasgo, sem apreço nem disponibili­dade a pagar o preço por aquilo que se aprecia, sem criação nem geração, poderia acontecer que imaginássemos Deus, também Ele, como autorreferencialidade absoluta e apática, de facto, um Narciso Absoluto, sem afetos que o co-movam nem laços que o liguem. Mas estaríamos muito longe do traço bíblico do amor que se realiza como apreço e como dom que cria e recria, que gera e regenera. Nesse ídolo, a perfeição e a santidade viveriam protegidas de qualquer relação de afeto, de todo o laço livremente correspondido. Mas que perfeição e que santidade seriam?

 Por José Frazão Correia

«“Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”» (1Jo 4,16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: “Nós conhe­cemos e cremos no amor que Deus nos tem”».

O pórtico de entrada da Encíclica Deus caritas est, de Bento XVI,enuncia o essencial. O amor diz ou, melhor, faz a verdade de Deus e a sua justiça. No amor, a nossa humanidade reencontra e realiza a sua verdade. E a sua justificação. Aí, só aí, se re-encontra, verdadeiramente e de modo ajustado, com o mistério da sua origem e a memória grata do recebido – o corpo e os seus senti­dos, os outros e a língua, a natureza e a cultura. E, também, como diria o poeta D. Faria, «a nota mais aguda de um oboé que late/E o uivar dos lobos/E a noite. E o dia depois dela…». Quando libertos da suspeita e salvos do orgulho, nas muitas experiências efetivas do amor, pode chegar-se a reconhecer que tudo é graça; por fim, até os limites, as perdas e o custo real da vida de cada dia e de cada relação. No amor, a humanidade reencontra-se com o húmus da sua terra, com a história feliz dos encontros que geram a vida e os momentos bons que tecem a vida de cada dia. De forma justa, aqui se reencontra, também, com o mistério do seu destino e com a responsabilidade da tarefa criativa de dar uma forma sensata à promessa que sustenta e move a existência. Criados à imagem e semelhança de Deus que é amor, trazemos no corpo e na alma a marca indelével desta origem que nos constitui e nos espera, resgatando-nos a partir do que ainda nos poderá fazer ser. Por isso, é na fecundidade do amor real, aquele que se vive quotidianamente como recebido e como dado, que o homem e a mulher se reconhecem e se reencontram em verdade, também com a natureza que habitam. Aí, só aí, podem desenhar e realizar um estilo de vida capaz de viver do reconhecimento do dom de Deus e da geração da vida na vida de outros, precisamente daquela vida que bebe do mistério originário do amor e a ele suspira como seu destino.

Modelados «da nossa terra pura e fecunda» e embalados pelas «mãos maternais de Deus» – são expressões felizes de A. Couto – «o beijo de Deus no rosto do homem» é «o sentido que nos habita e habita o mundo, que nos faz ser e faz ser o mundo», é «a razão boa e a intencionalidade boa que nos anima e anima o mundo, que nos ama e ama o mundo». Eis Deus e o mais elementar do ser humano e do mundo, o seu princípio e fundamento. É, sem equívoco, a dupla palavra da revelação. «Deus é amor» (1Jo 4,16). Sem amor, eu «não sou nada» (1Cor 13,2). Nesta verdade, que de abstrato nada tem, se decide, concretamente, o que somos e o que ainda poderemos vir a ser. Mas eis, também, o motivo mais íntimo da fé cristã quando, na trama da própria existência, alguém chega a re-conhecer e a decidir-se pelo amor incondicional que Deus lhe revela quando se lhe dá e, assim, se diz nas palavras e nos gestos de seu filho encarnado, Jesus de Nazaré. A linguagem da autorre­ferencialidade e a morte que esta traz consigo (o pecado que mata) converte-se à linguagem do Crucificado que se recebe do Pai e daqueles que encontra no caminho e se dá, até ao fim, pela vida de todos, nenhum excluído (a graça que salva).

Exposto a esta verdade crucificada, o crente chega ao reconhecimento de que é amado por Deus, desde sempre e quando ainda era pecador (cf. Rm 5,8). E assim reconhece que tal amor é a possibi­lidade originária do seu poder amar os outros e a vida e o mundo e o próprio Deus. Sabe que pode amar, porque reconhece, comovido e grato, que já é amado desde o seio materno. A declaração de amor que gera a sua profissão de fé, “Deus ama-te, por ti dá a vida”, não é letra morta, enunciado sem significado ou eco indistinto, porque a sua força regeneradora lhe vai tocando cada membro do corpo e os seus sentidos e as fibras mais íntimas da alma. Comove o afeto e alegra a inteligên­cia, sacia o desejo e move a liberdade que, libertando-se da suspeita e da falsidade (pecado), se dispõe a viver sob o olhar bendizente de Deus, no desejo e na disposição de o amar em todos e em todas as coisas e de amar, a todos e a todas as coisas, n’Ele, até que Deus chegue a ser «tudo em todos» (1Cor 15,28), toda a vida na vida de todos. Dispondo-se a esta verdade originária e decidin­do-se por ela, o homem e a mulher que vivem da fé em Jesus Cristo movem-se no reconhecimento de que Deus os ama desde sempre, antecipando a sua própria possibilidade de lhe co-responder amorosamente. Ainda que única e livre, sabem que a resposta que derem é, ela mesma, susten­tada pelo amor de Deus que precede e funda a possibilidade de lhe co-responderem. Reconhecem que, na verdade, podem amar, porque são amados. Poderão gerar, porque são gerados e perdoar, porque são perdoados. Poderão dar-se, porque são dados à luz e recebem o que são do que Deus e os outros são para eles. Este é, pois, o lugar primeiro e último onde a existência se decide. Quem confiar no amor que aprecia, gera e resgata a vida e a ele se confiar será salvo. Quem duvidar e dele se separar, defendendo a vida só para si, mesmo à custa da vida de outros, perder-se-á.

por José Frazão Correia

 

 

«Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei a Jesus, muitas vezes, em especial sempre que fizerdes al­gum sacrifício: Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pe­cados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria». Na manhã do dia 13 de julho, «a Senhora» reanima o «fervor decaído» de Lúcia e dos primos expostos às dúvidas próprias e às desconfianças alheias, sendo as mais duras, aquelas dos mais próximos. Nossa Senhora, confirma-os e ensina-os, assinalando-os com a palavra que deverá acompanhar cada seu futuro ato de entrega: «Ó Jesus, é por vosso amor». A simplicidade desta oração, que ressoa mais autêntica na boca de crianças ou de quem é como elas, expõe o essencial do que está a acontecer na vida dos pastorinhos – nos seus corpos, afetos, relações, imaginação, compreensão das coisas e ações. E tem como alcance o mistério de Deus, que não deixa de cuidar da vida de cada um, e o mistério do destino definitivo da existência humana, profundamente dramático se separado da fonte da vida. Joga-se, portanto, a realização plena do destino do ser humano e do mundo na justa relação com Deus: a salvação da morte e das suas muitas manifestações; a salvação para a vida e para as suas muitas realizações.
Uma declaração de amor que se desenha no espaço do reconhecimento impede que o sacrífico se baste a si mesmo e a mortificação se sobreponha ao sentido da entrega a Deus pelo bem dos pecadores. O amor, a re-conhecer e a co-responder nos pequenos momentos e encontros de cada dia, é o ambiente, o motivo e o alcance, a fonte, o caminho e o cume da intercessão a que os pastorinhos, radicalmente, se ligam. As crianças deixam de se poder compreender por si mesmas. E deixarão de poder viver para si mesmas. Extraordinária é a grandeza da autenticidade humana e da infância espiritual! As suas vidas passam a sentir radicalmente a vida de outros, a sentir a partir da vida de outros. O Outro que é Deus e os outros que são os pecadores passam a determinar a sua identidade.
No ambiente originário do olhar misericordioso de Deus, reafirmado pela «Senho­ra», aprendem a dizer, em palavras e gestos, não posso viver sem ti (não será esta confiança e este descentramento o lugar vital da fé?). Não poderão viver sem Jesus e sem ser para ele. Não poderão viver sem os pecadores e sem agir em seu favor. É o apreço por Jesus e pela conversão dos pecadores (a reorientação do conjunto da existência real, a partir do amor de Deus e do bem dos irmãos) que irá dispondo as três crianças a oferecerem e a oferecerem-se no preço desta mediação. Elas próprias, inteiras, corpo e alma, serão lugar de mediação. Por amor, reconhecem-se vitalmen­te ligadas à sorte dos pecadores, assumem-na como sua, oferecem-se pela mudança do seu curso (vêm à memória os gestos e as palavras do bom samaritano, narrados em Lc 10,25-37). Os gestos tornarão real o amor. A palavra explicitará o sentido. Assim estendem uma ponte – estendem-se, elas próprias, como ponte – entre Deus que não deixa de amar e aqueles que não se deixam amar e não amam. E não creem, não adoram, não esperam.
O espaço dramático da inimizade entre a graça-que-salva e o pecado-que-mata é habitado pela intercessão humilde do amor que deseja a vida para quem a perdera e, assim, quer consolar o coração de Deus, ferido de amor. Como força e forma da mediação, o amor desenhará cada gesto de entrega que a palavra «é por vosso amor» reafirmará.

por José Frazão Correia

João Paulo II, por sua vez, pediu o envelope com a terceira parte do « segredo », após o atentado de 13 de Maio de 1981, e dois envelopes: um branco, com o texto original da Irmã Lúcia em língua portuguesa; outro cor-de-laranja, com a tradução do « segredo » em língua italiana. No dia 11 de Agosto seguinte, o Senhor D. Martínez Somalo devolveu os dois envelopes ao Arquivo do Santo Ofício. Como é sabido, o Papa João Paulo II pensou imediatamente na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria e compôs ele mesmo uma oração para o designado « Ato de Entrega », que seria celebrado na Basílica de Santa Maria Maior a 7 de Junho de 1981, solenidade de Pentecostes, dia escolhido para comemorar os 1600 anos do primeiro Concílio Constantinopolitano e os 1550 anos do Concílio de Éfeso. O Papa, forçadamente ausente, enviou uma radiomensagem com a sua alocução. Transcrevemos a parte do texto, onde se refere exatamente o ato de entrega: « Ó Mãe dos homens e dos povos, Vós conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo, acolhei o nosso brado, dirigido no Espírito Santo diretamente ao vosso Coração, e abraçai com o amor da Mãe e da Serva do Senhor aqueles que mais esperam por este abraço e, ao mesmo tempo, aqueles cuja entrega também Vós esperais de maneira particular. Tomai sob a vossa proteção materna a família humana inteira, que, com enlevo afetuoso, nós Vos confiamos, ó Mãe. Que se aproxime para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança ». Mas, para responder mais plenamente aos pedidos de Nossa Senhora, o Santo Padre quis, durante o Ano Santo da Redenção, tornar mais explícito o ato de entrega de 7 de Junho de 1981, repetido em Fátima no dia 13 de Maio de 1982. E, no dia 25 de Março de 1984, quando se recorda o fiat pronunciado por Maria no momento da Anunciação, na Praça de S. Pedro, em união espiritual com todos os Bispos do mundo precedentemente « convocados », o Papa entrega ao Imaculado Coração de Maria os homens e os povos, com expressões que lembram as palavras ardorosas pronunciadas em 1981: « E por isso, ó Mãe dos homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos diretamente ao vosso Coração: Abraçai, com amor de Mãe e de Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. De modo especial Vos entregamos e consagramos aqueles homens e aquelas nações que desta entrega e desta consagração têm particularmente necessidade. “À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus”! Não desprezeis as súplicas que se elevam de nós que estamos na provação! ». Depois o Papa continua com maior veemência e concretização de referências, quase comentando a Mensagem de Fátima nas suas predições infelizmente cumpridas: « Encontrando-nos hoje diante Vós, Mãe de Cristo, diante do vosso Imaculado Coração, desejamos, juntamente com toda a Igreja, unir-nos à consagração que, por nosso amor, o vosso Filho fez de Si mesmo ao Pai: “Eu consagro-Me por eles — foram as suas palavras — para eles serem também consagrados na verdade” (Jo 17, 19). Queremos unir-nos ao nosso Redentor, nesta consagração pelo mundo e pelos homens, a qual, no seu Coração divino, tem o poder de alcançar o perdão e de conseguir a reparação. A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história e que, de facto, despertou nos nossos tempos. Oh quão profundamente sentimos a necessidade de consagração pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! Na realidade, a obra redentora de Cristo deve ser participada pelo mundo por meio da Igreja. A decisão tomada pelo Santo Padre João Paulo II de tornar pública a terceira parte do « segredo » de Fátima encerra um pedaço de história, marcado por trágicas veleidades humanas de poder e de iniquidade, mas permeada pelo amor misericordioso de Deus e pela vigilância cuidadosa da Mãe de Jesus e da Igreja. Ação de Deus, Senhor da história, e corresponsabilidade do homem, no exercício dramático e fecundo da sua liberdade, são os dois alicerces sobre os quais se constrói a história da humanidade. Ao aparecer em Fátima, Nossa Senhora faz-nos apelo a estes valores esquecidos, a este futuro do homem em Deus, do qual somos parte ativa e responsável. (Tarcisio Bertone, SDB Arcebispo emérito de Vercelli Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé)

Perante as dificuldades da conversão do mundo, perante as nossas próprias resistências interiores à ação da graça divina, poderemos ser tentados ao desanimo e ao conformismo, como se já não fora possível realizar a Mensagem transmitida pela Mãe de Deus. Nessa hora da tentação e da dúvida, há que ter presente a admoestação de Jesus aos discípulos perturbados pela tempestade do lago! «Porque temeis, homens de pouca fé?». Não existe realmente motivo para desalento e receio. Nos momentos mais difíceis, nós temos a certeza da vitória da fé que vence o mundo (cfr. 1 Jo. 5, 4).. Temos a confiança inabalável na intercessão eficaz do Coração Imaculado de Maria, tantas vezes claramente demonstrada, a ponto de a piedade cristã poder exclamar: «Nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à Vossa proteção e implorado o Vosso auxílio fosse por Vós desamparado».

E disso é testemunho não só a história das pessoas, mas também a História dos povos. Posso aduzir o exemplo concreto de Portugal. Nos destinos de Portugal, foi manifesta por mais de uma vez a presença protetora da Mãe de Deus. Para aludir apenas a fatos recentes, a consagração feita em Fátima pelos Bispos portugueses ao Imaculado Coração de Maria, no ano de 1931, foi que defendeu Portugal do perigo comunista, então bem próximo das suas fronteiras, na Espanha. Foi a mesma consagração, renovada em 1940, que poupou Portugal aos horrores da última guerra mundial, quando ela espalhava a destruição e a morte em tantos países da Europa. E foi, certamente, a grande devoção do povo português à Virgem Maria, de novo ratificada pela consagração ao Coração Imaculado de Maria, efetuada pelos Bispos em 1975, que deteve o avanço do comunismo ateu, quando ele já se tinha apoderado de muitas estruturas do governo e ameaçava submergir toda a vida pública e privada dos portugueses.

E esta esperança firme e a certeza inabalável na proteção de Maria, que vos convido a celebrar. Façamo-lo em ação de graças e em súplica: em ação de graças, por tudo o que a Virgem nos tem concedido em Portugal; em súplica fervorosa, para que pela intercessão do Seu Coração Imaculado, Deus conceda a grande graça de vos tornardes pedras vivas da Igreja de Jesus Cristo. Façamos também para que, por meio do Coração Imaculado de Maria desça a paz para o mundo inteiro e a conserve nos nossos países.

(+ Pe Kondor, SVD)

Segundo ex-reitor do Santuário de Fátima, Mons Luciano Guerra, pedir perdão e rezar o Rosário são a essência da mensagem de Fátima e o segredo de salvação para o século XXI.
A consagração ao Coração Imaculado de Maria, que é símbolo de um compromisso de fidelidade e de apostolado, está intimamente ligada à mensagem de Fátima, que apela à conversão permanente, à oração e à prática da reparação.
“Como a Santíssima Trindade, não podemos viver sozinhos. Os problemas da família trazem muitas pessoas a Fátima. Muitas lágrimas se choram e não é por a imagem de Nossa Senhora ser bonita. É porque as pessoas se lembram de outras que estão ausentes”.
A humanidade enfrenta atualmente,o tecnicismo, a globalização, a migração não controlada, o aquecimento global, os choques aos mais vários níveis, incluindo o choque de civilizações.
“Dá a impressão de que tudo está a chocar com tudo, uma espécie de tsunami”, não é de estranhar que as pessoas levantem interrogações e tenham muitas dúvidas acerca do seu próprio futuro e o da humanidade.
“Quanto tempo durará a humanidade?”, “O ser humano resignar-se-á, perderá a esperança”, “O que aconteceria numa situação de guerra massiva?”, “Não se poderão repetir outros casos como o de Hitler, o comunismo, o marxismo, o leninismo, o maoísmo, o polpotismo ou outros?”, “Será que Deus é a única solução para os problemas humanos?”, “O que faz as pessoas virem a Fátima?”, “Será que a Rússia se vai mesmo converter? Se sim, será que vai ter um papel importante no mundo, a nível religioso?”.
Mons. Luciano Guerra acredita que “a Igreja Católica é a instituição religiosa mais preparada para os problemas da realidade hodierna. Não querendo (com esta afirmação) diminuir de modo nenhum a ação positiva das outras religiões”.
Lendo a atualidade à luz da Mensagem de Fátima, o Reitor considera que esta esperança depositada na Igreja Católica pode também encontrar-se na Terceira parte do Segredo de Fátima. “O sangue dos mártires é a semente de novos cristãos. (…) A Igreja Católica tem milhões de mártires no século XX, esses milhões de mártires darão milhões de sementes”, afirmou.
“Nossa Senhora acaba por ser colocada em Fátima como exemplo e como protetora do século XXI”, disse o Reitor, interrogando-se se esta presença feminina terá também que ver com a crescente importância das mulheres na sociedade. Estamos a precisar que haja um bocadinho de bondade, simpatia, finura, de caridade e de solidariedade, muito próprias da mulher”, disse.
“Vamos esperar que na Igreja Católica Fátima seja uma força decisiva no mundo atual, pelos caminhos apontados na conclusão das aparições: arrepender-se, emendar-se, rezar o terço todos os dias”.

Temos que olhar para Aquele que veio para reparar os pecados do mundo: o Cordeiro de Deus. Pilatos apresentou ao povo Jesus, coroado de espinhos, como a revelação mais amável e mais ardente de Deus: Jesus, o homem, com profunda humildade e decidido a reparar os pecados da humanidade, porque Deus, com justa penitência, assim decretava: só o sangue de Jesus seria capaz de reparar os pecados de toda a humanidade.

«…o Seu aspecto não podia cativar-nos. Era desprezado. Era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos: como aqueles, diante dos quais se tapa o rosto, era menosprezado, nenhum caso faziam dele. Na verdade ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores!… Foi castigado pelos nossos crimes, e esmagado pelas nossas iniquidades: o castigo que nos salva pesou sobre ele, fomos curados nas suas chagas… morto pelos pecados do Seu povo… embora não haja cometido iniquidade… porque ele próprio entregou a Sua vida à morte… tomando sobre si os pecados de todos…»(Is 53,4-12)

Jesus aceitou livremente estes sofrimentos que a Seu respeito Isaías tinha anunciado. Ele várias vezes explicou também aos apóstolos, mesmo a Pedro que não gostou de tais notícias. No entanto Jesus sublinhava que desta Sua obra dependia a salvação do mundo.

Também as almas cristãs assim entenderam: Era necessário que Jesus sofresse, para realçar a gravidade do pecado. E este rosto sério e sofredor de Jesus deve comover as almas.

Porque queria meter Jesus tanto tormento, tanta energia, tanta força e heroísmo na Sua Paixão? Ele queria acender assim melhor também o nosso amor; testemunhando com o Seu sangue o Seu grande amor, queria que nós também pegássemos como Ele na nossa cruz, em espírito de reparação. Jesus confia na força da sua paixão para comover os corações humanos. «Deus quando ama, – diz S. Bernardo, – não quer outra coisa senão ser amado; isto é, não ama por outro motivo senão para ser amado, sabendo que o próprio amor torna felizes os que se amam entre si.»

O sofrimento, desde a entrada do pecado no mundo, é inevitável para os homens. Já outrora, sofreram Cristo e o ladrão, ao mesmo tempo: no entanto, enquanto Cristo rezava, um dos ladrões blasfemava; alma de Jesus manifestava o céu e a outra a escuridão. Hoje também nesta diferença se encontra a solução do problema.

A única causa do sofrimento do mundo é o pecado; e o bom ladrão reconheceu em Jesus o Rei imortal, que pela porta da morte entrava no Seu Reino, e abria o céu outros, para «justificá-los» e levá-los consigo. «Ainda hoje estarás comigo no Paraíso – disse Jesus ao bom ladrão. – Levar-te-ei comigo, tu serás já o fruto doce da minha amarga paixão.»

Junto da Cruz de Jesus encontrava-se ainda Sua Mãe, cujo Coração era traspassado de dor. Toda a Sagrada Escritura apresenta Maria estreitamente unida ao Seu Filho Divino, e sempre participante da sua sorte. Acima de tudo deve recordar-se que, desde o século segundo, a Virgem Maria é apresentada como a nova Eva, estreitamente unida ao novo Adão, embora a Ele sujeita. Mãe e Filho aparecem intimamente unidos na luta contra o inimigo infernal, luta essa que, como foi pré-anunciada no Protoevangelho, havia de terminar na vitória completa sobre o pecado e a morte, que o Apóstolo das gentes sempre associara nos seus escritos. Assim, o amor de Deus que não poupava o Filho, também não poupava a Mãe, e conduzia também a «serva» seguindo o Filho na amargura, infâmia, na vergonha. O Coração Imaculado sofria com O adorável Coração do seu Filho. E Jesus não mandou esculpir esta sua Paixão e morte em pedra ou madeira; os evangelistas descreveram-nas só com poucas palavras. Mas quis que Maria guardasse tudo no seu Coração; Ele confiou as Suas chagas, dores e súplicas ao Coração de Sua Mãe; ele depositou e guardou, e é este Coração que nos pode tudo transmitir; por isso, quem quer aprofundar-se nos sentimentos reparadores de Jesus, tem que procurar Sua Mãe.

Assim durante os séculos a Cristandade aprendeu da Mãe das Dores, como sofrer e como reparar com Jesus.