Embora se fale muito no terceiro segredo de Fátima, a verdade é que houve apenas um segredo, dividido em três partes. Conheça aqui o texto e as interpretações que lhe têm sido dadas.

No dia 13 de Julho de 1917 os três pastorinhos de Fátima, Lúcia, Francisco e Jacinta viram Nossa Senhora pela terceira vez em Fátima. Nessa altura ela revelou-lhes o que viria a ser conhecido como o segredo de Fátima.

O segredo é composto por três partes distintas, o que levou à ideia generalizada de que se tratava de três segredos, sobretudo porque a terceira parte ficou muitos anos por revelar e tornou-se conhecido precisamente como o terceiro segredo de Fátima.

1.ª PARTE: A VISÃO DO INFERNO

As três crianças viram “um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados neste fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros.”

Anos mais tarde um grupo dedicado à mensagem de Fátima encomendou a Salvador Dalí uma representação artística da visão do inferno. O artista aceitou a encomenda e, no processo da pintura, acabaria por regressar à prática do catolicismo.

Importa dizer que a Igreja reconhece a existência de visões sobrenaturais, mas diz que estas devem sempre ser interpretadas pelo contexto social e pessoal dos videntes. Assim, o Catecismo da Igreja Católica reconhece a existência real do inferno: “Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus, significa permanecer separado d’Ele para sempre, por nossa própria livre escolha. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra ‘Inferno’”, mas a visão que os pastorinhos tiveram não significa que no inferno existam literalmente chamas, pois essa poderá ter sido apenas a forma como elas, enquanto crianças, compreendiam o conceito. Assim, a Igreja sempre reconheceu nessa visão mais do que uma imagem literal, um sério aviso para a conversão e o arrependimento.

2.ª PARTE: DEVOÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA E CONVERSÃO DA RÚSSIA

Depois de ter mostrado o inferno e a sorte sofrida pelas almas que lá vão parar, Nossa Senhora disse-lhes qual o remédio para salvar as almas de se perderem.

Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior.”

Esta parte do segundo segredo tem sido alvo de alguma polémica e os cépticos sublinham que ela só foi revelada nas memórias da irmã Lúcia, publicadas já na década de 40, depois do início da II Guerra Mundial. Também não é claro se Nossa Senhora terá mencionado explicitamente Pio XI – o que na prática significaria profetizar o nome escolhido por esse Papa, eleito apenas em 1922, cinco anos depois das aparições.

Há ainda o facto de a data comummente indicada como o começo da II Guerra Mundial, 1 de Setembro de 1939 com a invasão da Polónia por parte da Alemanha, ter ocorrido já no reinado de Pio XII, que foi eleito precisamente em 1939. Contudo, essa data diz respeito apenas ao começo da guerra na Europa e não tem em conta a anexação da Áustria, por exemplo, que se deu em 1938 ainda no reinado de Pio XI, nem a guerra entre o Japão e a China, que começou em 1937 e também fez parte da Segunda Guerra Mundial.

A revelação de Nossa Senhora continuou: “Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo pelos seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.” Lúcia interpretou este sinal como sendo a Aurora Boreal que foi vista em muitos pontos do mundo em Janeiro de 1938, causando pânico entre as populações.

Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a Comunhão Reparadora nos Primeiros Sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará.”

Numa explicação teológica dos segredos de Fátima, publicada pelo Vaticanodepois de ter sido revelada a terceira parte do segredo, o então cardeal Joseph Ratzinger referiu-se à noção de “Imaculado coração”, admitindo que esta pode soar estranha sobretudo a pessoas de mentalidade não-latina. “O termo ‘coração’, na linguagem da Bíblia, significa o centro da existência humana, uma confluência da razão, vontade, temperamento e sensibilidade, onde a pessoa encontra a sua unidade e orientação interior. O ‘coração imaculado’ é, segundo o evangelho de Mateus, um coração que a partir de Deus chegou a uma perfeita unidade interior e, consequentemente, ‘vê a Deus’. Portanto, ‘devoção’ ao Imaculado Coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o “fiat” – ‘seja feita a vossa vontade’ – se torna o centro conformador de toda a existência.”

A referência à Rússia diz naturalmente respeito ao regime comunista que seria implantado alguns meses depois da revelação, mas no final desta segunda parte do segredo Maria apresentava uma solução: “O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.”

A consagração da Rússia levaria, porém, muitos anos a ser concluída. Sucessivos Papas fizeram algo aproximado, mas a irmã Lúcia foi-lhes dizendo que os seus gestos não correspondiam aos desejos de Nossa Senhora, ora porque não referiam a Rússia pelo nome, ora porque não tinham sido feitos em união com todos os bispos do mundo.

Quando finalmente João Paulo II o fez de forma satisfatória em 1984 os efeitos, segundo os devotos de Fátima, foram quase imediatos. A consagração foi feita em 25 de Março e menos de dois meses depois um acidente numa base naval na Rússia destruiu dois terços dos mísseis da Frota do Norte da União Soviética, incapacitando-a numa altura em que Moscovo se preparava para a usar para atacar a Europa Ocidental por ter aceite a presença de um sistema de defesa americano. O acidente de Severomorsk aconteceu precisamente no dia 13 de Maio. No espaço de um ano foi eleito Gorbatchev, que espoletaria a reforma do regime comunista, levando à rápida dissolução de todo o bloco soviético.

3.ª PARTE: O BISPO VESTIDO DE BRANCO

Poucas coisas motivaram mais teorias da conspiração à volta da Igreja do que a terceira parte do segredo de Fátima, ou o “terceiro segredo”, como ficou conhecido.

A terceira parte da visão foi mantida em segredo, conhecido apenas pelo bispo de Leiria-Fátima e o Papa, até ao ano 2000, altura em que João Paulo II a mandou revelar.

Esta parte da visão é descrita da seguinte forma por Lúcia: “E vimos numa luz imensa, que é Deus, algo semelhante a como se vêem as pessoas no espelho, quando lhe diante passa um bispo vestido de branco. Tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vimos vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz, de tronco tosco, como se fora de sobreiro como a casca. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade, meio em ruínas e meio trêmulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena. Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho.”

E continua: “Chegando ao cimo do monte, prostrado, de joelhos, aos pés da cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe disparavam vários tiros e setas e assim mesmo foram morrendo uns após os outros, os bispos, os sacerdotes, religiosos, religiosas e várias pessoas seculares. Cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da cruz, estavam dois anjos. Cada um com um regador de cristal nas mãos recolhendo neles o sangue dos mártires e com eles irrigando as almas que se aproximavam de Deus.”

João Paulo II identificou este “bispo vestido de branco” como sendo ele próprio, e os tiros como o atentado que sofreu em 1981, precisamente no dia 13 de Maio. Nessa altura considerou que foi salvo da morte por intervenção de Nossa Senhora, dizendo mesmo que “uma mão disparou a arma, outra guiou a bala”.

O segredo foi lido, sem que isso tivesse sido previamente anunciado, no final da missa de beatificação de Francisco e Jacinta no ano 2000, em Fátima, presidida pelo Papa João Paulo II.

Para muitos o assunto foi dado como encerrado, mas na oração que preparou para ser rezada na capelinha das aparições na sexta-feira, quando chegar a Portugal, Francisco surpreendeu ao descrever-se a si mesmo como um “bispo vestido de branco”, parecendo com isso dizer que a mensagem de Fátima, mais do que estar ligada diretamente a um Papa, está ligado ao papado em si e que mantém toda a sua relevância nos dias atuais.

Por  Filipe d’Avillez Rádio Renascença

Na Eslovénia, em 2013, foi celebrado o 70.º aniversário da consagração do nosso povo ao Imaculado Coração de Maria, feita pelo bispo Gregorij Rožman em 1943 e precedida pela celebra- ção nas paróquias dos cinco primeiros sábados do mês. Aceitando a proposta da Associação dos consagrados aos Corações de Jesus e de Maria, os bispos eslovenos convidaram todos os párocos e reitores dos santuários a celebrar nas igrejas que lhes foram confiadas os cinco primeiros sábados, de acordo com a mensagem de Fátima. Muitos dos fiéis, sacerdotes e bispos que abriram os seus corações a este convite alegraram-se pelos frutos abundantes, quer pelo número quer pelo fervor dos fiéis que participaram e não só: precisamente durante a realização da devoção (desde janeiro até maio de 2013), subitamente acalmaram-se as águas políticas e finalmente o bispo exilado e condenado pelo governo comunista, depois da segunda guerra mundial num processo inventado, Mons. Gregorij Rožman, que há 70 anos foi o promotor desta devoção, pôde voltar para casa para descansar na sua terra natal. Rožman foi um dos primeiros na Europa a responder ao apelo premente de Nossa Senhora à repara- ção pelas ofensas a Deus. Foi um dos primeiros na Europa, depois dos bispos portugueses, a consagrar o seu povo ao Imaculado Coração de Maria.

Depois de tantas graças recebidas era natural para a nossa Associação responder ao convite do Papa Francisco na Jornada Mariana no dia 13 de outubro de 2013, onde também esteve presente a imagem original de Nossa Senhora de Fátima, cuja intercessão materna salvou a vida do Papa no atentado na Praça de São Pedro, no dia 13 de maio de 1981. Além disso, como representantes de um povo tão pequeno, ficá- mos comovidos pela atenção que o organizador da Jornada Mariana, Mons. Fisichella, teve para com o nosso aniversário, apresentando ao Papa “os peregrinos da Eslovénia que, por ocasião do 70.º aniversário da consagração ao Imaculado Coração de Maria, pedem ao Santo Padre uma bênção especial para este povo”. Mas 2013 foi também o ano do 70.º aniversário do martírio do nosso bem- -aventurado Lojze Grozde. O martírio deste estudante de vinte anos de idade está intimamente ligado à devoção dos primeiros sábados que, na altura, em janeiro de 1943, estava para começar. Cheio de zelo para realizar o pedido de Nossa Senhora, acolhido e recomendado pelo seu bispo Gregorij Rožman, e trazendo na mala as mensagens de Fátima para distribuir na sua paróquia, Grozde cai nas mãos dos comunistas que, depois de o terem torturado cruelmente, o mataram e esconderam o seu corpo. Depois de alguns meses, uns meninos, em busca de campânulas-brancas na floresta, encontraram o corpo intacto, mas com sinais evidentes do martírio. “Os bons serão martirizados”, disse Nossa Senhora na segunda parte do segredo de Fátima, mas também disse: “Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará”. Sem dúvida, João Paulo II, Lojze Grozde e Gregorij Rožman fazem parte deste grupo que, após os horrores da segunda guerra mundial, tinha feito o possível para o triunfo do Coração Imaculado de Maria. De facto, como os três Pastorinhos, também estes três “Pastores” responderam positivamente ao pedido de Nossa Senhora: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”. Agora cabe-nos a nós invocar a sua intercessão e também seguir o seu exemplo.

Dragica Cepar

Depois de uma visão em Pontevedra, Espanha, a 17 de dezembro de 1927, a Irmã Lúcia escreveu algo mais sobre essa aparição de 13 de junho de 1917: “Ela pediu para os levar para o Céu. A Santíssima Virgem respondeu: ‘Sim, a Jacinta e o Francisco, levo-os em breve, mas tu, Lúcia, ficas cá mais algum tempo; Jesus quer servir-se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar, prometo a salvação, e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono’” (DCF V, 1, Doc. 370, de 11 de outubro de 1928, p. 737). Sobre esta última frase, na primeira edição da Quarta Memória da Irmã Lúcia, da Postulação dos Videntes (1976), e nas seguintes, foi acrescentada uma nota: “Lúcia, talvez pela pressa, omite o fim do parágrafo que, noutros documentos, diz assim: ‘Quem a aceita, prometer-lhe-ei a salvação, e estas almas serão amadas de Deus, como flores colocadas por Mim para enfeitar o Seu Trono”. Nesta versão, há variantes do texto escrito pela Irmã Lúcia, em 1927 ou 1928, desconhecendo-se quem as introduziu. O Padre Hubert Jongen, monfortino holandês (fevereiro de 1946), perguntou porque é que, “nos relatos posteriores, deixou de falar nesta promessa”. A Irmã Lúcia respondeu, sem mais explicações: “Quando redigi esses relatos posteriores, não pensei no caso” (S. M. Reis, A vidente de Fátima dialoga e responde pelas aparições, Braga, 1970, p. 81).

Na sua Segunda Memória, terminada a 21 de novembro de 1937, a Irmã Lúcia faz uma breve referência à aparição de junho e acrescenta uma reflexão: “A Jacinta, quando me via chorar, consolava-me, dizendo: ‘Não chores. Decerto são estes os sacrifícios que o Anjo disse que Deus nos ia enviar. Por isso, é para O reparar a Ele e converter os pecadores que tu sofres’” (Memórias da Irmã Lúcia, II, II, 4).

O Padre José Bernardo Gonçalves, S. J., encontrou-se com a Irmã Lúcia, a 24 de abril de 1941, em Tuy, e copiou uns apontamentos dela, entretanto desaparecidos. Sobre a aparição de junho de 1917: “Ao dizer estas últimas palavras, ‘eu nunca te deixarei, etc.’, foi a segunda vez que nos comunicou o reflexo” (ASF, Dossier Gonçalves, Doc. 4.7, fl. 6v, ed. em: A. M. Martins, Memórias e cartas da Irmã Lúcia, 1973, p. 460-461; Documentos de Fátima, 1976, p. 460-461).

Na Quarta Memória, concluída a 8 de dezembro de 1941, a Irmã Lúcia desenvolve o pensamento do apontamento de abril desse ano: “Foi no momento em que disse estas últimas palavras [‘o meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus’], que abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco parecia estarem na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora, estava um coração cercado de espinhos que parecia estarem-lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação. Eis ao que nos referíamos, quando dizíamos que Nossa Senhora nos tinha revelado um segredo em junho. Nossa Senhora não nos mandou, ainda desta vez, guardar segredo, mas sentíamos que Deus a isso nos movia” (Memórias da Irmã Lúcia, IV, II, 4).

Nos Processos informativos sobre a fama da santidade de vida, virtudes e milagres em geral da Jacinta e do Francisco, respetivamente a 21 de janeiro e a 13 de julho de 1955, a Irmã Lúcia prestou mais algumas informações sobre o dia 13 de junho. No Processo da Jacinta, não há novidades, em relação ao que já tinha referido anteriormente (“Processo informativo da Serva de Deus Jacinta Marto”, inédito, fls. 264v-266v). No Processo do Francisco, faz reflexões mais extensas: “Eu, parece-me que estava na luz que se derramava sobre a terra; o Francisco e a Jacinta estavam na luz que subia para o Céu. É que a luz que irradiava das mãos da Senhora, voltadas para nós, deslocava-se como a luz dum espelho, melhor, era uma luz tão intensa que iluminava a terra circunjacente e envolvia-nos a nós como que penetrando-nos […]. Vimos, instantes depois, que Ela deixou cair um pouco a mão esquerda e vimos em frente ao peito, para o lado da mão esquerda, um coração cercado de espinhos. Distanciava-se um pouco do peito, ficando um pouco, à frente da mão direita. Entendemos que era o Coração Imaculado de Maria que Ela nos mostrava, pedindo-nos reparação pelos ultrajes que recebe dos homens. Ficamos uns momentos a contemplar esta aparição. E, acto contínuo, começou a elevar-se e desapareceu para o lado do Oriente. […]. As pessoas que interrogavam o Servo de Deus, perguntando se tinha ouvido e visto Nossa Senhora. Respondeu: Que sim, que a tinha visto e que era muito linda. Mas não tinha ouvido nada do que Ela dissera. Que ouvia tudo o que eu lhe dizia e que bem via que a Senhora falava, porque bem lhe via mover os lábios, mas não ouvia o que Ela dizia. Ansiava o Servo de Deus por se encontrar sozinho com sua irmã e comigo, a fim de que lhe disséssemos tudo o que Nossa Senhora tinha dito. Ouvia com atenção e não se esquecia. Nesta aparição o que mais impressionou o Servo de Deus foi a luz imensa que Nossa Senhora nos comunicou e na qual nos víamos em Deus. ‘Que lindo é Deus, que lindo é Deus! – exclamava – mas está triste por causa dos pecados dos homens. Eu quero consolá-lo, quero sofrer por seu amor’. Quando as pessoas começaram a insultar-nos e, por vezes, a maltratar-nos, o Servo de Deus mostrava-se contente e dizia que, de certo, eram sofrimentos que Nossa Senhora tinha dito que nos ia enviar; por isso, queria sofrê-lo por seu amor. Dizia que, como Nossa Senhora tinha dito que o ia levar em breve para o Céu; já não lhe importava mais nada; só desejava ir para lá depressa. Notei que intensificou mais o espírito de oração e de recolhimento, retirando-se, cada vez mais, da companhia doutras pessoas” (Processo Informativo do Servo de Deus Francisco Marto, inédito, fls. 232-232v).

No seu último escrito, Como vejo a mensagem, redigido, uns anos antes de falecer, e publicado postumamente, em 2007, a Irmã Lúcia descreve, mais uma vez, o que aconteceu, no dia 13 de junho de 1917, e faz uma reflexão mais profunda sobre a mensagem desse dia: “Sentia-me já como que cansada de tantos importunos interrogatórios, atropelos e contradições. Não sabia, ainda, que era este o caminho por onde Deus me queria conduzir os passos para, por meio da Sua Mensagem, levar-me ao Céu e a tantos outros que queiram segui-la, indo após Ele, com fé, esperança e amor. Foi neste estado de ânimo que me atrevi a pedir à Celeste Mensageira que nos levasse para o Céu: ‘Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu’. Já de nada me importava a terra. O que desejava era que nos levasse com Ela para Céu. Mas não eram esses os desígnios de Deus; por isso, respondeu: ‘Sim; a Jacinta e

o Francisco, levo-os em breve, mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração’. Era a Missão que Deus me destinava; mas o ficar sem a companhia da Jacinta e do Francisco parecia-me o ficar só, neste mundo tão incerto e deserto, sem quem me possa seguir, compreender, ajudar e compartilhar, trilhando comigo os caminhos por onde Deus me quisesse levar, seja tropeçando nas pedras por onde passar, pisando cardos e abrolhos, caindo e levantando, sempre Deus me há-de dar a mão e ajudar a erguer para Ele o meu olhar. Pela vida fora, e hoje ainda, penso assim, mas então era muito ignorante e criança, para discorrer de tal forma; por isso, a celeste Mensageira respondeu: ‘Não, filha, e tu, sofres muito? Não desanimes; eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus’. Com esta promessa, senti-me confortada, cheia de confiança, certa de que a Senhora nunca me deixará só, seria Ela a conduzir-me e a guiar-me os passos pelos caminhos da vida, por onde Deus me quiser levar, e assim me abandonei nos braços paternais do nosso Deus, e a Seus cuidados de Mãe. Foi então que a celeste Mensageira, abrindo os braços com um gesto de maternal protecção, nos envolveu no reflexo da Luz do imenso Ser de Deus […]. Nesta aparição de 13 de junho de 1917, de que estou falando, digo nas “Memórias”: ‘À frente da palma da mão direita de Nossa Senhora, estava um coração, cercado de espinhos, que parecia estarem-lhe cravados.

Compreendemos que era o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que pedia reparação” (Como vejo a mensagem, através dos tempos e dos acontecimentos, 2.ª edição, Outubro de 2007, p. 42-44).

Pe Luciano Cristino

No dia 13 de junho de 1917, celebrava-se, em Fátima, a festa de Santo Antônio. Os pastorinhos, Lúcia de Jesus e seus primos Francisco e Jacinta Marto, preparavam-se para comparecer na Cova da Iria, ao meio-dia solar, como Nossa Senhora lhes tinha pedido, no dia 13 de maio anterior. As famílias procuraram demovê-los: a mãe da Lúcia não acreditava que a filha dissesse a verdade e queria que ela fosse à festa, em vez de ir à Cova da Iria; os pais do Francisco e da Jacinta partiram, muito cedo, para a feira das Pedreiras, Porto de Mós. A notícia da anunciada segunda aparição já tinha ultrapassado os limites da freguesia de Fátima e, por isso, logo de manhã, compareceram em Aljustrel várias pessoas de Boleiros, Fátima, e dos concelhos de Tomar e Torres Novas, para os acompanharem. A Lúcia tinha saído, de madrugada, com o rebanho, com intenção de regressar a casa, pelas 9 horas, ir à missa das 10, na igreja paroquial, e partir, logo a seguir, para a Cova da Iria. Mas, pouco depois do romper do sol, foi chamada a casa, onde se encontrou com as referidas pessoas e, depois de os três pastorinhos terem ido à missa das 10 horas, partiram todos, por volta das 11 horas, para a Cova da Iria. Juntaram-se ali cerca de sessenta pessoas (cfr. Memórias da Irmã Lúcia, Edições da Vice-Postulação, II, II, 4).

Num dos dias seguintes, a Lúcia contou ao pároco de Fátima o que tinha acontecido: momentos antes da aparição, estavam a rezar o terço, à sombra de uma azinheira grande; de repente, viram um relâmpago, e dirigiram-se todos à carrasqueira, onde aparecera Nossa Senhora, em maio; a Lúcia “fez uma vênia, dobrando um joelho e, ao mesmo tempo, chegou a Senhora, vindo em linha oblíqua, do lado nascente, e fez a pergunta: – Então, o que é que me quer? ‘– Quero-te dizer que voltes cá, no dia 13, e que aprendas a ler, para te dizer o que quero’. – Então, não quer mais nada? ‘– Não quero mais’” (Pároco de Fátima, em: Documentação Crítica de Fátima (= DCF) I, Doc. 2 de 14.06.1917, p. 11).

A estranha ordem dada à Lúcia, de aprender a ler, começou a correr, e até a imprensa adversa, de Lisboa, lhe deu eco: “A Senhora disse aos pastorinhos que deviam aprender a ler e a escrever” (“O Mundo”, DCF, 1, doc. 10, de 19 de agosto de 1917, p. 50-51); Carlos de Azevedo Mendes, em carta à sua noiva, a 8 de setembro de 1917, comentava: “Já te recordaste o que [Nossa Senhora] disse na 2.ª aparição? ‘Que aprendam a ler’. Dizia-me a Jacintita que já ia na carreira do A!!” (DCF I, doc. 55, p. 390); o Padre Dr. Manuel Nunes Formigão fez o seu primeiro interrogatório aos videntes, no dia 27 de setembro de 1917. Uma ideia mais tinha transparecido, entretanto, embora incorreta: a Senhora tinha dito “que era do Céu” e que os levaria para lá, de modo que o sacerdote perguntou à Lúcia: “Mas se a Senhora disse que te levaria para o Céu, no mês de Outubro próximo, para que te serviria aprenderes a ler? Não é verdade isso: a Senhora nunca disse que me levaria para o Céu, em outubro, e eu nunca afirmei que ela me tivesse dito tal coisa” (DCF I, doc. 7, p. 57 e 59). O mesmo sacerdote, no dia 11 de outubro de 1917, voltou a interrogar a Lúcia, sobre o cumprimento da ordem da Senhora, em junho: “– Sabes ler? – Não. – Andas a aprender? – Não. – Como cumpres a ordem da Senhora?” (DCF I, Docs. 11, p. 88, e 12, p. 112). Não ficou registada a resposta da Lúcia a esta pergunta. Mas, numa carta particular, de cerca de 19 de outubro de 1917, Leonor Constâncio, comentando essa recomendação de Nossa Senhora, diz que as crianças não a cumpriram logo, “porque não havia, nem nunca houve, professora em Fátima. Agora, sem que ninguém a reclamasse, aparece nomeada para ali, por dois anos, uma professora das escolas móveis, e as crianças começaram já a frequentar a escola com bastante aproveitamento, sobretudo da Lúcia” (DCF 3, 1, Doc. 129, p. 345).

Ainda no dia 11 de outubro, a Jacinta revelou que, na aparição de junho, “ouviu o segredo a Nossa Senhora”, e perguntada se o segredo era para serem ricos, disse que não; se era “para serem bons e felizes”, respondeu: ‘É. É para bem de todos os três’”; se era para irem para o Céu, respondeu: ‘não é’; não podia revelar o segredo “porque a Senhora disse que não disséssemos o segredo a ninguém” (DCF I, Doc. 11, p. 92, e Doc. 12, p. 114). Pode admitir-se que a Jacinta, criança de 7 anos, se tenha equivocado com o segredo de julho, mas é mais provável que se referisse àquilo que a Irmã Lúcia, nas “Memórias”, como veremos, chamará “segredo de junho”.

A 2 de Novembro, o Dr. Formigão voltou a interrogar a Lúcia, sobre as seis aparições: “– Quando foi que perguntaste à Senhora o que é que fazia para que o povo acreditasse que era ela que te aparecia? ‘– Perguntei-lhe umas poucas de vezes; a primeira que perguntei, cuido que foi em junho’”. E sobre o segredo: ‘– Quando te disse o segredo?’ ‘– Parece-me que foi da 2.ª vez’” (DCF I, Doc. 17, p. 168-169; 172). Também a Jacinta repetiu o que a Senhora tinha dito, em junho, e que a Lúcia “pediu pelos doentes e pecadores, e a Senhora disse que melhorava uns e os convertia, e outros não” (DCF I, Doc. 17, p. 173).

Cinco anos mais tarde, a 5 de janeiro de 1922, no Asilo de Vilar, Porto, a pedido do seu confessor, Padre Manuel Pereira Lopes, a Lúcia escreveu o seu primeiro relato autógrafo sobre os acontecimentos de 1917. No que respeita a 13 de junho, não há novidades, a não ser: “Pedi-lhe para curar um coxo e algumas pessoas que me tinham pedido, umas, doentes, outras, pela conversão de alguns pecadores. Resposta: ‘Daqui a um ano, serão curados’”(DCF III, 3, Doc. 685, de 5 de janeiro de 1922, p. 266).

Iniciado o Processo Diocesano sobre os acontecimentos de 1917, em maio de 1922, foram pedidas notícias e informações sobre eles a todas as pessoas, e deu-se início, a 13 de outubro desse ano, ao jornal mensal “Voz da Fátima”. No número do mês de dezembro, foi publicado um depoimento de Inácio Antônio Marques, da Chainça, Santa Catarina da Serra. Sobre a segunda aparição, ele conta: “Ajoelham-se junto da célebre azinheirinha e principiam a rezar o terço […]. Terminada a ladainha, a Lúcia diz: ‘Lá vem Ela’, e manda ajoelhar. Principia, interrogando e respondendo a alguém que os meus olhos não veem nem os ouvidos ouvem. É a segunda aparição e, mais uma vez, ali afirma, perante o reduzido número de espetadores – porque ainda se lhes não pode chamar crentes – que Ela lhe está dizendo que vem ali, todos os meses, e que, a 13 de outubro, será a última vez e, então, dirá um segredo” (“Voz da Fátima”, 13.12.1922 e DCF II, Aditamento, Doc. A, 23.11.1922, p. 150).

No decorrer da inquirição propriamente dita, a 28 de setembro de 1923, foram ouvidas várias testemunhas, que se pronunciaram sobre a aparição de 13 de junho de 1917. Manuel Pedro Marto, pai do Francisco e da Jacinta, declarou, entre outras coisas, que, ao chegarem da feira, já de noite, “ouviram dizer que os pequenos tinham ido ao local, e tinham dito que viram Nossa Senhora” (DCF III, Doc. 4, p. 65). A mãe, Olímpia de Jesus, disse o mesmo: “contaram-lhe que Nossa Senhora lhes tinha aparecido, outra vez, como em treze de maio, e que tinha dito à Lúcia que fossem lá, todos os meses, e que fizessem penitência […] e “que a Senhora lhe tinha recomendado que aprendesse a ler” (DCF II, Doc. 4, p. 74-75 e 82). Maria Rosa, mãe da Lúcia, depois da festa de Santo António, “perguntou-lhe o que tinha visto. Respondeu que tinha visto a mesma mulherzinha do outro dia. Perguntou-lhe o que ela tinha dito. Disse que tinha dito que continuassem a ir lá e que aprendessem a ler. Esta proposta tornou-a descrente, porque lhe parecia que Nossa Senhora não tinha vindo à terra para lhe dizer que aprendesse a ler” (DCF II, Doc. 4, p. 86-88). Maria dos Santos ou Maria Carreira, da Moita Redonda, Fátima, afirmou que a Lúcia perguntou à Aparição: “Vossemecê mandou-me aqui vir, faça favor de me dizer o que me quer”. Ouviu uma zunida que vinha da azinheira, não compreendendo uma só palavra da resposta. A Lúcia olhava para a azinheira, assim como as outras duas crianças, estando todos de mãos postas. A depoente não compreendeu bem o que ela, depois, disse à Aparição, mas as outras pessoas disseram–lhe que a pequena lhe tinha perguntado se lhe queria mais alguma coisa” (DCF II, doc. 4, p. 101-104).

A Lúcia também foi ouvida, oficialmente, a 7 de julho de 1924, no Porto, sobre os acontecimentos de 1917. “No dia treze de junho […], perguntei-lhe: ‘– O que me quer Vossemecê?’ A resposta dela foi: ‘– Quero que continuem a vir aqui, nos outros meses, que rezem o Terço todos os dias e que aprendam a ler’. Como me tinham recomendado, pedi à Senhora que curasse um entrevado, e ela respondeu que, se ele se convertesse, ficaria curado dentro dum ano” (DCF II, Doc. 8, p. 140).

Por Luciano Cristino

Data é evocada em todas as celebrações do programa oficial do Santuário

São Francisco Marto, cuja iconografia o apresenta de carapuço na cabeça e jaleca curta, com o cajado e o saco do farnel ao pescoço, nasceu em 11 de junho de 1908 e foi batizado em 20 de junho na Igreja Paroquial de Fátima. Hoje, em Fátima evoca-se o seu nascimento há 110 anos.

Com apenas 8 anos de idade, começou, com a sua irmã Jacinta, a pastorear o rebanho dos seus pais pela zona da Cova da Iria, local onde, juntamente com a prima Lúcia, viriam a testemunhar as Aparições, durante as quais podia apenas ver, sem ouvir ou falar.

Levado pelo desejo íntimo de consolar o coração de Jesus, pois  afirmava que queria dar alegria a um Deus que estava triste com os agravos ao Seu coração, Francisco viveu intensamente a oração contemplativa. Para isso, passava horas seguidas em oração em frente ao sacrário, na Igreja Paroquial de Fátima, quando a prima e a irmã iam para a escola.

A 18 de outubro de 1918, pouco mais de um ano depois da última Aparição, Francisco adoece, vítima da epidemia da gripe pneumónica que assolou o país, também conhecida por gripe espanhola, a doença que chegara a Portugal no meio desse ano e em pouco tempo causou a morte de dezenas de milhares de pessoas.

A 2 de abril do ano seguinte, confessa-se e recebe a comunhão pela última vez “com uma grande lucidez e piedade”, como escreve o pároco de Fátima no Livro de Óbitos, ao registar a sua morte, em 4 de abril, acrescentando: “E confirmou que tinha visto uma Senhora na Cova da Iria e Valinho”.

Foi sepultado no cemitério de Fátima, de onde os seus restos mortais foram exumados, em 17 de fevereiro de 1952, e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em 13 de março de 1952, repousando no braço direito do transepto.

Francisco e a irmã Jacinta foram canonizados no Santuário de Fátima, a 13 de maio, durante a Missa da primeira Peregrinação Internacional Aniversária do Centenário das Aparições, presidida pelo Papa Francisco, tornando-se assim nos mais jovens santos não-mártires da história da Igreja Católica.

A canonização tinha sido aprovada a 23 de março, quando o Vaticano anunciou que o Papa Francisco reconhecera o milagre atribuído a Francisco e Jacinta, última etapa do processo, iniciado há 65 anos.

O reconhecimento de um milagre realizado por sua intercessão depois da beatificação é um processo da competência da Congregação para a Causa dos Santos, regulado pela Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister , promulgada por João Paulo II em 1983.

No processo de Francisco e Jacinta Marto, foi aceite como milagre a cura milagrosa de Lucas, uma criança brasileira de cinco anos, que caíu de uma janela, a uma altura de 6,5 metros no dia 3 de março de 2013, ficando em coma, com perda de tecido cerebral no lóbulo frontal direito.

A oração da família e das irmãs do Carmelo de Campo Mourão, no Brasil, pedindo a intercessão de Francisco e Jacinta, resultou na cura total de Lucas, facto que os médicos não conseguem explicar.

fonte: fatima.pt

Faço memória que também para a Comunidade Canção Nova, Fátima, tem sua particular importância e um marco em nossa missão evangelizadora. Como testemunha pude acompanhar o Ato de Consagração que Mons Jonas fez no Altar do Mundo, de todo o o sistema de Comunicação Canção, de toda a família Canção Nova, e seus colaboradores ao Imaculado Coração de Maria. E te convido a renovar essa consagração no dia de hoje. Isso se deu a 11 de Maio de 2004, Na Capelinha das Aparições em Fátima – Portugal.

Ato de Consagração da Canção Nova ao Imaculado de Maria

Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, ao vosso Coração Imaculado nos consagramos, em ato de plena entrega e doação ao Senhor.
Por vós seremos levados a Cristo, vosso Filho e unigênito de Deus, e por Ele e com Ele a seu Eterno Pai. Caminharemos à luz da fé, da esperança e do amor, para que o mundo creia que Cristo é o enviado do Pai para nos transmitir a Sua palavra. E seremos nós os Seus enviados, a levar o Seu conhecimento e amor até os confins da Terra.
Assim, sob a maternal proteção do vosso Imaculado Coração, seremos um só povo com Cristo, conquistas de Sua morte e testemunhas da Sua Ressurreição. Virgem Mãe de Deus e Mãe nossa, ao vosso Coração Imaculado eu consagro a TV Canção Nova e, com ela, toda a nossa Comunidade, cada um dos seus membros consagrados, a grande família Canção Nova para a qual somos destinados, e em especial, os nossos sócios colaboradores, que sustentam esta obra.
Coloco em vossas mãos todo o Sistema Canção Nova para que ele realize os desígnios de Deus e, assim prepare e apresse o triunfo do vosso Imaculado Coração.
Tornai-nos sob vossa proteção, defendei-nos dos perigos, ajudai-nos a vencer as tentações que nos solicitam para o mal e a conservar a pureza do nosso corpo e da nossa alma. Seja o vosso Coração Imaculado o nosso refúgio e o caminho que nos conduz a Deus.
Concedei-nos a graça de orar e nos sacrificar por amor a Jesus, pela conversão dos pecadores e em reparação dos pecados cometidos contra o vosso Imaculado Coração.
Por meio de vós e em união como Coração do vosso Divino Filho, queremos viver para a Santíssima Trindade, em quem cremos e a quem adoramos, esperamos e amamos. Amém

Nilza Maia

A Comunidade  Canção Nova celebra o ano do chamado, e nesse mês de maio, mês de Maria, é significativo recordar a consagração da Comunidade ao Imaculado Coração de Maria. Monsenhor Jonas Abib, no dia 11 de Maio de 2004, em Fátima Portugal, o Altar do Mundo,  na presença do então Bispo de Leiria Fátima, Dom Serafim,  consagrou , a Comunidade Canção Nova: seus membros, todo o Sistema Canção Nova de Comunicação, a grande família Canção Nova, os benfeitores que sustentam esta obra e o povo a quem somos destinados, todos foram consagrados ao Imaculado Coração e Maria.

Nesse dia o saudoso Pe Luís Kondor, svd, (Vice Postulador pela Causa da Beatificação do Pastorinhos), nosso amigo, ele que dedicou grande parte da sua vida a difundir a Mensagem de Fátima, esteve por inúmeras vezes com Irmã Lúcia, durante a sua gestão, distribuiu pelo mundo a fora milhares exemplares do Livro: Memória de Ir Lúcia, principal edição sobre as Aparições de Nossa Senhora de Fátima e muitos outros livros editados pela Secretariado dos Pastorinhos. Tivemos a graça de ouvi-lo falar, a Comunidade Canção o que significa o Ato de Consagrar. Confira o texto original, importante e precioso para todos nós.

O Ato de Consagrar

Tenho uma enorme alegria no meu coração, em poder dizer algumas palavras nesta solene ocasião, ao celebrar a Canção Nova em Portugal o 3º aniversário da sua fundação, e hoje também ter consagrado a sua obra ao Coração Imaculado de Maria.

Foi o próprio Jesus, pendurado na cruz, poucos momentos antes de morrer, que nos ensinou e nos deu o primeiro bom exemplo, ao entregar toda a humanidade, na pessoa de S. João, a Sua Santíssima Mãe: «Eis o teu filho.»

Imitou-O o Papa João Paulo II, quando, ao «chegar a hora, em que Deus quis», na Praça de São Pedro em 25 de Março de 1984, diante desta mesma Imagem da Capelinha, entregou a Igreja e o mundo ao Coração de Maria.

Hoje o fez o fundador da obra da Canção Nova, aqui diante da mesma Virgem de Fátima: «Mãe, eis aqui a tua obra.»

A Consagração é o ato mais perfeito da devoção mariana, em que a Vossa Obra se entrega ao Coração Imaculado de Maria com tudo o que é e com tudo o que possui.

Por isso esse ato não pode ficar meramente exterior; deve ser ato interior. E Fátima tem riqueza e capacidade de encher a Vossa obra com alma.

Em Fátima, Deus manifestou a Sua Vontade e convidou toda a Igreja para isso. Que a Consagração seja animada deste espírito que a Virgem Santíssima aqui trouxe.

Fátima é solidária com o Evangelho, e também com esta missão da Igreja.

Acreditemos, acreditemos no amor de Maria para conosco, para abençoar e frutificar a Vossa missão. Pois Ela prometeu: «A quem abraçar esta devoção, será como uma flor privilegiada e posta por mim no trono de Deus».

Faço votos para que esta obra, agora toda de Maria, possa realizar os desígnios de Deus, não só em Portugal, mas em todo o mundo aonde o Espírito de Deus a levar. (+Pe Luís Kondor, svd)

Como poderá o perdão traduzir a reparação? Que tem uma realidade que ver com a outra? Mais uma vez, poderemos olhar esta relação nas duas direções que a compõem, e igualmente nos atores. Se re­parar supõe parar para refazer algo que foi desfeito, a reparação então começa no reparado enquanto reparador. Tenho de parar para olhar para mim mesmo, para reparar em mim. Só nessa altura es­tarei disposto e aberto ao olhar do Outro que desde sempre repara em mim e me quer reparar. Neste contexto é possível então falar de duas direções no processo de reparação, como foi afirmado, o que pressupõe dois pontos de partida: um de nós para Deus e outro de Deus para nós. No fundo, reabilita­mos aqui todo o processo de mediação sacerdotal no Antigo Testamento e na vida cristã. O mediador é aquele que está no meio, que leva o mundo até Deus e que traz Deus para habitar o mundo. Nestas duas direções podemos parar para olhar para Deus ou contemplar a paragem de Deus que olha, que repara em nós para reparar a nossa vida com a sua graça. Nestas duas direções é delineado um per­curso de reconhecimento do pecado como condição de perdão, porque ao reparar na nossa condição de pecado abro caminho para a reparação do mesmo através do perdão. Nesse momento desejo bus­car um perdão que é constante e que repara a minha relação ao mundo e a Deus. Sendo assim, tam­bém podemos então contemplar o perdão de Deus sempre prévio ao pecador para o reparar, para o reconstruir, pelo que podemos aí contemplar essa mesma condição que repara o meu pecado. Desta forma poderemos falar em duas direções delineadas neste percurso de reconhecimento: uma de nós que se inicia quando nos damos conta do nosso pecado, e outra da parte de Deus que desde sempre (re)conhece que somos pecadores e indigentes da sua misericórdia que repara o nosso pecado. Nes­tas duas direções, para ser reparado, para ser notado por Deus tenho de deixar que Ele me repare, é necessário reconhecer o mal cometido para, com essa consciência, construir um caminho outro. Isto supõe a anuência da liberdade, o consentimento, o reconhecimento da nossa condição de pecado­res. Só então o perdão de Deus será reparador, isto é, eficaz pois ao perdoar, ao dar por esse gesto de graça (gratuito) a sua graça e uma nova chance, está a reparar uma relação dilacerada, pelo que em última instância o Reparador acaba por ser Aquele que inicia e conclui o processo. Nós continuamos no meio como mediadores, e Deus só pode perdoar se efetivamente vir que nos arrependemos e que queremos mudar de vida, refazer as contas da história, recompor o que destruímos. É o que acontece também com os sacramentos que só são eficazes se não impusermos óbice, se a nossa liberdade con­sentir. Sem mostrarmos que queremos reconstruir o que desfizemos não há perdão eficaz. Ele existe em Deus mas a nossa liberdade impede-o de se tornar eficaz, é contumaz quando quer deixar tudo como estava antes.

Este processo que acontece na relação cristã entre o crente e Deus replica-se na relação fraterna e replica-se agora na reciprocidade das direções das relações interpessoais, pois se existe a violação de um dos mandamentos da lei de Deus, sobretudo a partir do quarto, só conseguimos manter a relação com base na confiança e na gratuidade. Isto acontece mesmo ao nível social. O mundo só funciona por causa da gratuidade nossa e de todos, que permanentemente está a “olear a máquina”, a reparar os atropelos e as injustiças. Para que a sociedade sobreviva é necessário o perdão para reparar as re­lações interpessoais, o que faz então com que o reconhecimento da necessidade de reparação seja a condição para o perdão e para a própria sobrevivência. Individual, comunitária e socialmente é ne­cessário refazer o que foi desfeito, é necessária a reparação do pecado cometido para que aconteça o perdão e para que consigamos continuar a viver em sociedade, não na base da violência e da compe­tição como pensaram os ideólogos do estado moderno como Hobbes (1588-1679)20. Esta é a condição de perdão, perdão que permanece sempre gratuito, mas que como gratuito que é precisa sempre do consentimento da liberdade. Isto abre sempre então o lugar à esperança, e deixa o futuro nas nossas mãos. Podemos mudar o caminho dos acontecimentos, o que torna a vida muito mais bela e livre, pois não há fatalismos nem destinos, mas graça e liberdade. Este é o jogo da vida, e este jogo torna a vida humana sempre reparável e sempre perdoável, primeiro por Deus e depois pelos irmãos.

Por José Carlos Carvalho

 

O convite à reparação atravessa os três ciclos de aparições marianas na mensagem de Fátima. Nas duas primeiras aparições angélicas da primavera e verão de 1916 o Anjo de Portugal pedia já a repara­ção no registo linguístico do sacrifício e da petição de perdão:

«não temais, sou o Anjo de Portugal, orai comigo… fez-nos repetir três vezes estas palavras: –“meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e Vos não amam”». Na segunda aparição no verão no poço chamado Arneiro acrescenta a este registo linguístico o vocabulário do sacrifício, da suportação e da súplica, próprios da piedade popular daquela época: «De tudo o que puderdes oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai, com submissão, o sofrimento que o Senhor vos enviar».

Na terceira aparição angélica no outono de 1916, o Anjo continua o convite à reparação, desviando sempre os Pastorinhos de «uma busca direta do sofrimento e do sacrifício, insistindo na aceitação dos aspetos aflitivos da vida», e lê a eucaristia como um sacrifício reparador, como que uma recompensa pelos ultrajes infligidos a Jesus: «… e faz–nos repetir três vezes: – Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espí­rito Santo, ofereço-Vos o preciocíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido… tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o vosso Deus».

Na primeira aparição mariana de 13 de maio de 1917, Nossa Senhora pergunta aos Pastorinhos se que­rem oferecer-se a Deus «para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-[lhes], em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?». Na terceira aparição do dia 13 de julho desse mesmo ano, Nossa Senhora anunciou em Fátima que «para impedir a guerra [viria] pedir a consagração da Rússia ao [seu] Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados». Na aparição de 19 de agosto pedia o sacrifício reparador da ora­ção: «rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas».

A frase inspiradora para este ano de preparação do centenário é precisamente tirada da segunda me­mória da Irmã Lúcia onde relata o que a Senhora lhe pediu na terceira aparição de julho: «Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria». Esta última devoção veio pedi-la depois no ciclo cordimariano, apare­cendo à Irmã Lúcia a 10-12-1925 em Tuy, Espanha. Nessa altura concretizou-a em práticas muito sim­ples e pedagógicas como a consagração dos cinco primeiros sábados e a recitação do terço: «Olha, minha filha, o meu coração cercado de espinhos que os homens ingratos a todos os momentos me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, procura consolar-me e diz que prometo assistir na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação, a todos os que, no Primeiro Sá­bado de cinco meses seguidos, se confessarem, receberem a Sagrada Comunhão, rezarem um terço e me fizerem companhia durante quinze minutos, meditando nos quinze mistérios do Rosário com o fim de me desagravar». Estas práticas devocionais são reafirmadas nas visões de Jesus nos dois anos seguintes a 15 de fevereiro de 1926 e de 17 de dezembro de 1927. A 13 de junho de 1929 Maria pede a Lúcia: «são tantas as almas que a justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora».

Com esta chave, a Oração Eucarística IV desenha o movimento da revelação, expondo a dinâmica dos mistérios cristãos. Ainda que longa, valerá a pena recordá-la na íntegra.

«Nós Vos glorificamos, Pai santo, porque sois grande e tudo criastes com sabedoria e amor. Formastes o homem à vossa imagem e lhe confiastes o universo, para que servindo-Vos unicamente a Vós, seu Criador, exercesse domínio sobre todas as criaturas. E quando, por desobediência, perdeu a vossa ami­zade, não o abandonastes ao poder da morte, mas, na vossa misericórdia, a todos socorrestes, para que todos aqueles que Vos procuram Vos encontrem. Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito: feito homem pelo poder do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu a nossa condição humana, em tudo igual a nós, exceto no pecado; anunciou a salvação aos pobres, a libertação aos oprimidos, a alegria aos que sofrem. Para cumprir o vosso plano salvador, voluntariamente Se entregou à morte, e com a sua ressurreição destruiu a morte e restaurou a vida. E a fim de vivermos, não já para nós próprios mas para Ele, que por nós morreu e ressuscitou, de Vós, Pai misericordioso, enviou aos que n’Ele creem o Espírito Santo, como primícias dos seus dons, para continuar a sua obra no mundo e consumar toda a santificação».

É o-amor-que-Deus-Trindade-é que tudo traz à vida, que tudo restitui à vida e que tudo mantém em vida, até que, por Jesus e no Espírito, chegue a ser tudo em todos. Assim a criação. «YHWH-Deus modelou o homem do pó do solo, e soprou nas suas narinas um alento de vida, e o homem tornou-se um ser vivo» (Gn 2,7). «Descrição de sonho», regista A. Couto. «Eis o homem. Ser homem assim é nascer, viver e morrer “à boca de Deus” (Nm 33,38; Dt 34,5), sempre como um beijo de Deus, incrível intimidade com Deus». Eis a «força constitutiva do primeiro dom de Deus» sem a qual «não nos resta senão a natureza com os seus determinismos, a violência, o fatalismo, a idolatria, que é a recondução da existência humana para dentro do princípio natural, enfim, a vitalidade da morte»14. O dom que exprime a verdade do amor é a gramática da criação. Exprime a alegria de Deus por gerar o diferente de si e de estar entre os homens. A criação não é, por isso, emanação, exuberância de um ser narcisista que age para se olhar ao espelho. Não é produção funcional de umas tantas coisas que devem servir para alguma coisa. O poder criador de Deus não é o cálculo ou o interesse, mas o apreço que leva ao dom de si, dom que vive, também ele, de apreço, na forma da confiança reconhecida e correspondida, da generosidade de um afeto grato, capaz de gerar um laço de mútuo reconhecimento. Porque a resposta que o dom implica não tem a forma da posse, mas a do reconhecimento; potência tão humilde, a de Deus criador15! Potência do não possuir para si, mas do dar e do dar-se a si mesmo com o dom que se dá ao reconhecimento de um outro. «Deus deu-me por amor, para que eu receba por amor. Deu-me o mundo por amor, para que eu o receba por amor»16.

Nesta lei está, precisamente, a possibilidade do pecado. Como afirma P. Beauchamp, «existe uma lei do amor que leva Deus a deixar ao homem a possibilidade de pecar»17. O dom da criação tem o seu cume na liberdade do ser humano que pode perverter o dom. A inveja e o medo podem ocu­par o lugar vital da confiança. «Eu quero ser Deus porque Deus é definido como aquele que não quer que eu seja como ele»18 (cf. Gn 3,1-7). A voz da suspeita faz o seu caminho, fazendo ressoar a falsidade. «O homem, desde o início do esplendor do primeiro dia da criação, suspeitou, sem motivo, mas convenceu-se de que o motivo existia e, desde então, começou a vê-lo»19. Deus que cria por amor e que, por amor, concede ao ser humano a dádiva da liberdade, capaz de o reconhecer e de lhe corresponder, amando, passa a ser pre-sentido e entre-visto como poder que, se se perder, levará Deus a deixar de ser Deus. «Assim, o pecado apresenta-se como vontade de matar Deus, acusando-o de ser o inimigo da nossa vida»20. O amor reconhecido deixa de bastar para alimentar a confiança. Quer-se a prova que não pode ser conhecida, mas, apenas, acreditada: «que se é ama­do»21. Porque o amor vive de fé, o afeto de apreço e os laços de confiança. Só pode ser reconhecido e correspondido. Eis a sua força. Eis a sua humildade.

Admiravelmente, diante da suspeita e da inveja, Deus cose vestidos verdadeiros (Gn 3,21), para cobrir a nudez de Adão e Eva que se veem indefesos na sua fragilidade, envergonhados pelos seus limites, inseguros na sua relação. No quadro que este gesto desenha, contemplamos Deus como justiça que não cessa de justificar o ser humano. Neste amor dedicado e delicado está a verdade de Deus, o apreço que motiva a disposição a pagar o preço. Fora deste amor, Deus não está. Fora deste amor, o homem e a mulher não estão à altura de si mesmos, como não estão à altura da criação. Esta será a história da salvação. Recorrendo, ainda, às palavras de A. Couto, «Deus não abandona esta humanidade invejosa e pecadora, não espera por ela à porta da eternidade, mas vem ao seu encontro como ela é, respeitando-a e assumindo a imagem falsa que esta humanidade invejosa e mentirosa fez de Deus». É longa a viagem da condescendência de Deus, desde Abraão, passando pela lei e os profetas e tantos personagens, com as suas histórias de vida e de fé, até Jesus Cristo, em quem «tudo se vê melhor», porque é o Filho (Gl 4,4-6) «que radicalmente se recebe (Jo 10,18; Ap 2,28) e radicalmente se entrega (Jo 10,17; Gl 1,4; 2,20; Ef 5,2.25; Tt 2,14), constituindo assim o acontecimento decisivo da humanidade, “plenitude” (pleroma) do tempo e do mundo, ma­turação da “salvação” (sôteria)»22.

Descendo ao abismo da entrega do Filho amado, o amor do Pai pela humanidade inteira e pelo seu mundo alcança o seu cume. O mais alto no mais baixo. O mais íntimo no mais exposto. O mais digno no mais humilde. A todo aquele que reconhecer tal dom e, livremente, se lhe aban­done, este amor-que-salva comunica a plenitude da vida (cf. Jo 3,16). Como precisa C. Doglio, «o ser de Deus manifesta-se como agápe, fez-se conhecer como “pró-afeição originária” e, no laço da história de Jesus com a história do mundo, revelou a beleza originária deste laço afetivo como saída de si, abertura ao outro e destinação à familiaridade consigo mesmo»23. A perfeição de Deus coincide com o Seu afeto, um laço que liga pelo reconhecimento24. Afirma S. Paulo que Deus nos demonstrou o seu amor pelo facto de, quando ainda eramos pecadores, Cristo ter morrido por nós (cf. Rm 5,8). E S. João confirma que Deus manifestou o seu amor quando mandou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que tivéssemos a vida por meio dele (cf. 1Jo 4,9). É este apreço de Deus pelo ser humano e pelo seu mundo que dispõe Deus a pagar este preço. E recordemos com G. C. Pagazzi que «o mundo da carne do Filho não é só a humanidade, mas todas as coisas que viu, sentiu, gostou, tocou, cheirou», o mundo real com o qual esteve em con-tacto sensível, porque o «Redentor não é o Filho de Deus, mas o Filho de Deus encarnado»25. Neste sentido, «a nova lei do amor é tão antiga como a criação, quando Deus viu que todas as coisas eram boas, surpreen­dendo-se com a sua admirável honorabilidade, maravilhando-se com o seu valor». Esse é o apreço que, desde o início, dispõe Deus a oferecer-se no próprio Filho, só para não perder o homem e a mulher e o seu mundo que ninguém como o Filho encarnado amou tanto. «No originário a-preço de todas as coisas já vibrava o preço do Filho, do Mediador que em todas as coisas do Seu mundo via um tesouro, uma pérola digna de levar a vender todos os Seus bens (Mt 13,44-46), a Sua própria vida»26. Desta vida vivemos.

A experiência de ser amado e de amar restitui o homem e a mulher, seres sensivelmente espirituais e espiritualmente corpóreos, à graça da criação, à fecundidade das relações, ao gosto da vida a fa­zer-se em cada encontro, nas palavras e nos gestos de cada dia. Pelo amor e no amor aprendemos a ver mais e melhor, como quem entre-vê o sentido por entre linhas curvas; a tocar justamente cada coisa, acontecimento e pessoa, como quem é tocado por um dom surpreendente e sempre mais do que necessário; a escutar como quem pre-sente a promessa de cada palavra no timbre e na modelação justa dos sons que a anunciam e, claro, em cada silêncio; a apreciar melhor e em cada parcela da realidade o gosto e o perfume da bênção que as coisas, os acontecimentos e as pessoas são. Como a amada e o amado do Cântico dos Cânticos que re-entram no Jardim do Éden, não pela nostalgia das origens perdidas, mas pela vitória do amor sobre o egoísmo, da graça sobre o pecado, da confiança sobre o medo, do desejo ordenado em Deus sobre o desejo desordenado pelo próprio amor, querer e interesse. O amor recebido e retribuído permite reencontrar a dimen­são corpórea e relacional da nossa humanidade, com os seus ritmos quotidianos e os seus lugares comuns, onde se dá, de facto, a experiência de Deus. E permite reencontrar o mundo como casa onde sentimos ser de casa e nos sentimos em casa27, o espaço acolhedor e hospitaleiro, onde a posse cede, de novo, o lugar ao dom e o furto ao fruto28. Assim pode amar-se Deus em todas as coisas e amar todas as coisas em Deus. A história pode recomeçar, agora, com coisas novas e ain­da mais belas do que aquelas criadas no início29. Porque o amor é sempre novo e faz novas todas as coisas e não fica indiferente a quem dele se separa. «É um olhar “original” porque vê profundidade e significados que quem não ama não é capaz de entrever. Mas é “original”, também, porque reen­via para a experiência das “origens”, participando do olhar de Deus sobre a bondade e a beleza da criação», o tal apreço que diz a modelação originária do amor. «Se existe um pecado original […], também existe um olhar original sobre a realidade que deve ser absolutamente recuperado». E um escutar e um tocar e um saborear e um cheirar originais. E um estilo de encontros e de relações e de modos de habitar o mundo original. Assim, «só o amor, como fruto da ação do Espírito, está à altura de iluminar os sentidos e a mente, de conduzir a um discernimento autêntico e a uma ação consequente»30, inspirando e conformando, assim, o estilo “vivível” e visível de uma existência assinalada pela graça que salva.

Quem vive no amor, tão bem situado e tão grato, tão humilde e tão generoso, tão atento e tão ativo (não confunde a relação com Deus com alienação, nem o espiritual com o desencarnado), poderá dizer, em palavras e gestos, no corpo e na alma, «Ó Jesus, é por vosso amor». Professa a fé, declarando o amor, como Pedro: «Senhor, tu sabes tudo, bem sabes que te amo» (Jo 21,17), sabendo que, agora, permanecem a fé, a esperança e o amor, mas que maior que todas as coisas é o amor (cf. 1Cor 13,13). Não tendo outra casa onde sentir-se em casa, além desta pobreza alegre de viver, dia a dia, sob o olhar misericordioso do amor de Deus, ao qual co-responde em confiança, nem outra almofada onde descansar a cabeça do cansaço da vida, que não lhe será poupado, poderá rezar com as palavras de S. Inácio de Loiola, sugeridas como vértice do longo percurso dos seus Exercícios Espirituais.

«Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes; a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, segundo a vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta» (n. 234).

A oração nasce do amor e tende para o amor. Quem tudo recebe e se recebe com gratidão (ser assim, é chegar a ser filho) poderá oferecer o que tem e oferecer-se a si mesmo com grandeza de ânimo. Em Deus-amor-que-nos-faz-ser-no-amor, a história de vida de cada um e de cada co­munidade poderá desenhar-se como ato de apreço, de acolhimento e de entrega confiada – de intercessão, de mediação – aos homens e mulheres que existem (não àqueles que se idealizam ou que se gostaria que existissem), neste tempo concreto da nossa história coletiva. Assim se dirá o amor e se realizará a salvação, fazendo-se eucaristicamente corpo (um estilo de vida eucarístico), nas relações e na família, na política e na cultura, na economia e nas ciências, nos ofícios e nas artes, como o Verbo que se faz carne para alimentar a vida de cada um, sobretudo dos que vivem sem alimento e que, só por si, não o conseguem alcançar. Cume e fonte da vida con-formada à vida de Jesus Cristo (é assim que se torna humana), re-cria cada pessoa, coisa e lugar, bendizente e fecundo. O amor salva-guarda a vida. Para que floresça, amável, como amável é a sua Origem e o seu Destino. Ó Jesus, é por vosso amor e por amor de todos os que amais.

Por José Frazão Correia