A restauração das forças resulta de uma dádiva, bebe numa fonte – o amor de Deus – que a mensagem de Fátima conclui nas aparições cordimarianas com a visão da graça e da misericórdia. Mas se há preocupação quer por parte dos profetas no Antigo Testamento quer por parte de Jesus nos evangelhos é a de não reduzir o reino à pura interioridade.

Na verdade, a palavra de Deus, a mensagem da salvação e a releitura profética desta história que é a mensagem de Fátima apresentam, como não poderia deixar de ser, uma incidência pública desta palavra. Dito de outro modo, a palavra de Deus não está destinada para ser apenas acolhida intimisticamente de maneira sentimental ou privada. Antes, ela apresenta consequências sociais e públicas reverberadas muito bem na Doutrina Social da Igreja. Do mesmo modo, a reparação não é uma questão privada da relação pessoal de fé, mas tem repercussão pública, necessariamente.

A privatização da fé a que a modernidade conduziu quis e quer reduzir a fé apenas a uma questão pessoal ou sentimental, extirpando-a da sua força política e social. Assim sendo, a reparação também passa pela reconstrução do tecido social e político. A reparação não se preocupa apenas em reparar, em restaurar a nossa relação de aliança com Deus, mas pretende também incidir na realidade humana de forma abrangente, pois por aí também passa o crivo da nossa relação a Deus.

Não é possível separar a reparação do mundo, pois é para o mundo que ela existe e é dirigida. Ao repararmos o mundo estamos e repor o projeto genesíaco dilacerado pelo pecado. Não podemos dissociar a relação com Deus da relação com os irmãos, pois uma não existe sem a outra. Nesta não dissociação há um trabalho de casa a fazer: é necessário parar para olhar, reparar, notar, observar, apontar para si para depois apontar para os outros. Reparar no olhar dos outros, reparar o olhar dos outros corrigindo-o fraternalmente abrange todas as dimensões da vida humana. Por isso, a reparação não se fica pela reposição de um bem material, mas vai até àquilo que é mais específico e humano da pessoa – a sua dignidade fundamental, o seu valor imaterial.

Estamos aqui no âmbito da (re)construção da civilização do amor, na edificação de um mundo melhor, pelo que não nos ficamos apenas pela recompensa a alguém quando se deu a lesão de algum bem material.

O que está em causa é o esforço de tentar compensar por um bem imaterial perdido, danificado, lesado, destruído, algo não mensurável. Esse bem imaterial (mas que depois se materializa) é o amor de Deus, é a beleza e a bondade de Deus. Como diz o nosso povo “amor com amor se paga”, linguagem que a tradição espiritual traduziu com a oferta do amor ao amor de Deus, a re damatio , um “weitergeben derselben Liebe”, uma (re)doação.

De facto, é a resposta resultante do amor primeiro de Deus que desde a criação viu que tudo era “tôb” em Gen 1, viu que tudo estava bem, era belo e bom. Estas três traduções são possíveis. Nesta perspetiva, «tornando-se intrinsecamente reparador, o amor integra todos os atos da vida cristã (e não só o domínio do sacrifício oferecido): se a sensualidade é reparada pela ascese, a blasfêmia é pelo louvor, a ingratidão pela ação de graças, a profanação pela adoração, o ateísmo pela confissão da fé… a reparação só é autêntica se incluir o serviço do pobre, o ecumenismo, o respeito pela vida, o combate pela justiça… coextensiva à história da Igreja, a praxis reparadora não é redutível a nenhuma das figuras contingentes na quais por vezes foi encerrada caricaturalmente».

O empenho por um mundo bom e belo desadamiza a condição humana para a tornar participante do projeto de Deus. É preciso então reparar nas fragilidades do nosso mundo para ajudar a “consertá-lo”, a repará-lo. Isto supõe um grande amor, tudo isto é feito no amor, com caridade para que a cidade dos Homens se vá tornando a cidade de Deus, para que a Babilônia de Ap 18 se vá esfumando na noiva do alto de Ap 21,9.

Por José Carlos Carvalho

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