O teólogo P. Sequeri identifica a figura mitológica de Prometeu como representativa do homem e da mulher modernos, aquele que rouba o fogo aos deuses para o dar aos homens. Desafia o limite, violando a proibição e rompendo o encantamento de divindades ciumentas. O resultado é o castigo. Também Dionísio poderia avançar traços marcantes do ideal moderno, mas pela faceta da celebração da força da vida e das forças vitais da natureza. Assim, vai, também ele, ao encontro da sua destruição. Fica-lhe, porém, o prazer de se jogar na vertigem sem limites, o gozo da auto­nomia radical, bebido até à última gota.

Outra é a figura do homem e da mulher pós-modernos, Narciso, aquele que «vive do seu próprio encantamento: não suporta o incómodo dos afetos e o trabalho do reconhecimento, as expectativas do outro distraem-no do cuidado de si mesmo». Na realidade, vive mal, fechado no cuidado de si, no reflexo da sua imagem, ora exuberante, ora deprimida, tornando-se «perfeitamente insensível e afetivamente indiferente». Narciso vive fazen­do-se adorar, mas não repara em ninguém nem ama ninguém. «O mito, justamente, assinala a diferença. Prometeu deve sofrer a sua transgressão, mas permanece vivo. Narciso, pelo contrário, afoga-se no seu tédio, como um farrapo na água». O mundo encantado de Narciso, alimentado pelas inúmeras possibilidades da técnica e pelos muitos recursos da sociedade de consumo, vive obcecado pela imagem e pela realização de si. Mas, antes ou depois, esta acaba em frustração. Narciso não reconhece o amor. Narciso não ama. Na contemplação solitária de si, afoga-se em sim mesmo. Fechando-se, morre. Sozinho. Estéril.

Movidos por tal narcisismo auto-referencial, sem sonho nem rasgo, sem apreço nem disponibili­dade a pagar o preço por aquilo que se aprecia, sem criação nem geração, poderia acontecer que imaginássemos Deus, também Ele, como autorreferencialidade absoluta e apática, de facto, um Narciso Absoluto, sem afetos que o co-movam nem laços que o liguem. Mas estaríamos muito longe do traço bíblico do amor que se realiza como apreço e como dom que cria e recria, que gera e regenera. Nesse ídolo, a perfeição e a santidade viveriam protegidas de qualquer relação de afeto, de todo o laço livremente correspondido. Mas que perfeição e que santidade seriam?

Estas e outras imagens do divino e do humano encontram-se e embatem no juízo do Evangelho. Chegar a reconhecer a verdade de Deus na justiça da dedicação de Jesus e chegar a reconhecer, aí, a verdade e a justiça da nossa humanidade exige superar escândalos, não apenas aqueles criados pelo imaginário individual e cultural do divino, mas, também, aqueles cultivados por ritos sagra­dos, argumentados por teologias e protegidos por poderes religiosos. O amor do Filho encarnado, quando aceita ser identificado com a impotência humana, para que não seja confundido com a prepotência divina, assume distância clara do Deus ab-soluto, separado e apático, que não fala com mulheres samaritanas nem se deixa tocar por leprosos, que não entra em casa de publicanos, mas que, para preservar a própria ordem e o seu direito, é capaz de fazer cair torres para punir pecadores. Por isso e com a mesma tenacidade, se impede que a inteligência da fé possa identificar o amor revelado em Jesus como complemento sentimental do ser de Deus ou apêndice acidental da liberdade divina. Do mesmo modo, na revelação que Deus é amor e que sem amor, nós, não somos nada, não se joga uma afirmação simpática e agradável a ouvidos delicados, sentimental e culturalmente correta, mas, antes, a conversão à identificação do Ser com o Amor. Como também frisa P. Sequeri, no horizonte do dogma cristão, a palavra originária do ser não é a substância que se causa a si mesma (causa sui) e que sub-siste ab-soluta, isolada na sua riqueza e auto-suficiente em todas as suas perfeições. Tendo tudo, não precisa de ninguém. A palavra ori­ginária do ser não é o amor que se ama a si mesmo, mas é «a geração do Filho», o amor que faz ser o diferente de si e se alegra nele. Desde sempre, Deus é amor-que-gera, Pai que gera o Filho, não Pai que se causa a si mesmo e sub-siste sozinho. Com o primeiro Concílio Ecuménico de Ni­ceia, em 325, contra Ário, a ortodoxia da Igreja reviu-se na confissão de que não houve momento algum em que Deus não fosse Pai que gera o Filho e Filho gerado pelo Pai. Desde sempre, Deus é amor-gerado, Filho gerado pelo Pai, não Filho que se gera a si mesmo. Desde sempre Deus é amor-que-gera-e-que-é-gerado, Espírito Santo que não procede de si mesmo nem é anulado pelo Pai e pelo Filho, mas é o Respiro fecundo da Paternidade e da Filiação, a força e a forma vital do amor que circula entre Pai e Filho. Cada um é o que é, porque se recebe de outro, porque é para o outro. Nenhum vive separado do outro. Nenhum se funde ou se confunde com o outro. Diferença e relação dão forma à perfeição, na «perfeita aceitação recíproca, até à identidade: um só Deus». Aqui, na intimidade da vida trinitária, onde há lugar afetivo e efetivo para o diferente, sem defesa nem ciúme, existir segundo a lei do amor encontra a sua origem primeira, a sua medida perma­nente, o seu destino último. É o amor que «sustenta a eterna geração do Logos e a criatividade do Espírito» (à palavra amor, Sequeri prefere o termo grego agápe ou pró-afeição, dada a desvitalização sentimentalista a que a palavra amor, hoje, está sujeita). É, pois, o amor que diz, agindo, a palavra que tudo cria e que traz Adão e Eva à vida. É ele que estabelece a aliança que jamais passará. É o amor que gera o Verbo no ventre de Maria. É o amor que salva a vida de leprosos e de mulheres e de homens de má vida e que leva Jesus à entrega da própria vida na cruz. Assim nos resgata de todas as formas de mal, a maior de todas, a morte pelo pecado. É o amor derramado nos nossos corações pelo Espírito que nos foi dado que nos santifica. É ele que sustenta o testemunho da Igreja. Interessa, assim, relembrar que o amor de Deus se apresenta e se representa como apreço que faz ser-em-ação-de- -gerar, desde logo «a partir do ato de criar (e de recriar e de redimir e de realizar para lá de toda a expectativa imaginada) o habitat para o humano e o humano [criado] à sua imagem, inscrevendo o seu sopro nele». O amor é este ser-assim, a razão primeira e a lei constituinte de cada homem, mulher e grupo humano e de todas as coisas saídas das mãos do Criador. No amor que nos gera à vida e no amor que nos faz gerar a vida na vida de qualquer outro, todos, somos salvos. Deste amor, nada se perderá, porque é desde sempre e é para a eternidade

Por José Frazão Correia

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