Entrevista completa do Monsenhor Jonas Abib para a Revista Canção Nova

Em entrevista para edição especial da Revista Canção Nova de dezembro, Monsenhor Jonas conta fatos marcantes de sua vida, nestes 78 anos de vida e 50 de ministério sacerdotal.

Entrevista completa do Monsenhor Jonas Abib para a Revista Canção Nova

Na entrevista para a Revista Canção Nova, monsenhor compartilha conosco sobre a celebração de seu jubileu de ouro sacerdotal e fala sobre as renúncias que teve de fazer para concretizar a missão de Deus na sua vida. Nesta entrevista, o padre também comenta a profecia que se cumpriu na Canção Nova: o Santuário do Pai das Misericórdias.

Revista Canção Nova – Qual a expectativa do senhor para a celebração de seu jubileu de ouro sacerdotal?

Monsenhor Jonas – Estou vivendo uma “ansiedade tranquila”. Ansiedade, porque é muita coisa, são 50 anos de sacerdócio, é uma vida inteira de preparação para minha ordenação. Então é muita coisa, muita vida.

Revista CN – O senhor sempre olhou diferente para as coisas, com um olhar de fé, com a sensibilidade de enxergar coisas que pudessem ser ensinamentos para o nosso dia a dia.

Monsenhor – A primeira vez que encontrei, na Bíblia, a passagem em que Moisés “ia como se visse o invisível” (Hb 11,27), identifiquei-me totalmente, porque a minha visão não é como a de um empresário, um empreendedor, mas de quem “vê o invisível”. Assim aconteceu com todas as coisas que Deus fez na Canção Nova. Era como se eu “visse o invisível” e, graças a Deus, tudo se concretizava. Para mim, a mais linda concretização de Deus é o Centro de Evangelização. O lugar era uma espécie de lago onde a Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo] soltava o restante de sua água e outros detritos.

Eu olhava para aquilo, para o formato daquela região, e dizia para as pessoas: “Isso aqui vai ser um estádio”. Sem dúvida, hoje, este espaço de eventos é uma concretização daquela visão que Deus me deu.

Revista – Foi difícil para o senhor deixar os salesianos para fundar a comunidade Canção Nova?

Monsenhor Jonas – Foi muito doloroso, porque eu sou salesiano, meu coração é totalmente salesiano. Inclusive, quando eu tive de conversar com o padre Fernando Legal – que depois se tornou bispo – sobre minha situação canônica, eu disse a ele: “Padre Legal, o trabalho que eu faço é totalmente salesiano”. Ele respondeu: “Eu vejo que seu trabalho é totalmente salesiano, mas não encontro lugar na estrutura salesiana”. Então, ele me aconselhou a não ficar na congregação, mas vir para o clero diocesano. E essa passagem para mim foi muito difícil. Foi como um “parto forçado”, antes do tempo, porque eu amava profundamente Dom Bosco e sua congregação. Porém, era preciso fazer isso para chegarmos ao que temos hoje.

Revista – Como foi para o senhor o retorno, quando a Canção Nova foi considerada Família Salesiana?

Monsenhor Jonas – Vou lhe contar mais um fato: quando fui, pela primeira vez, à Casa Mãe dos salesianos, em Roma, lá estava o padre Antônio Carlos Ferreira, que trabalhava com os escritos de Dom Bosco. Encontrando-me, perguntou: “Como vai a Canção Nova?”. E eu lhe dei uma resposta normal: “Ela vai bem”. Então, ele disse: “Não! A Canção Nova vai muito bem!”. E começou a descrever a comunidade como eu nunca imaginaria. Já no fim da conversa, ele me disse: “A Canção Nova não nasceu no ‘tronco’ da Família Salesiana; ela nasceu da raiz do carisma de Dom Bosco. Vocês são da Família Salesiana. Só que não depende de vocês querer isso, mas haverá um dia em que o reitor-mor (superior máximo dos salesianos) vai reconhecer isso. E mediante um decreto de reconhecimento, vocês se tornarão Família Salesiana. Palavras proféticas do padre Ferreira que veio a acontecer!

Revista CN – O senhor tem dito que tudo o que a Canção Nova viveu até hoje foi uma “introdução”, uma preparação para o que vai acontecer com o Santuário do Pai das Misericórdias. O que mudará?

Monsenhor Jonas – Vai mudar tudo e não vai mudar nada. O Pai das Misericórdias vai atrair muitos filhos. Muitos virão ao Santuário e, claro, à Canção Nova. Crescerá muito o número de pessoas que virão para cá, atraídos pelo Pai das Misericórdias. E virão principalmente as pessoas necessitadas, doentes, aflitas, que estão passando por tribulações. Não faremos nada de muito especial, não faremos uma propaganda: “Venha ao Santuário Pai das Misericórdias!”. Não! Ele vai atrair as pessoas para agraciá-las, atendê-las nas suas necessidades. Principalmente os “filhos pródigos”, aqueles que vivem em pecado, que estão fora da Igreja, que vivem uma vida errada. Pessoas virão, e o mais lindo é que elas serão atendidas, acolhidas e reconciliadas. Então, nós veremos acontecer o Santuário, a casa do Pai das Misericórdias que acolherá Seus filhos.

"Pai das Misericórdias, Deus de toda Consolação: ouvi-nos"!

“Pai das Misericórdias, Deus de toda Consolação: ouvi-nos”!

Revista CN – Falar dos 50 anos de sacerdócio sem falar da experiência que o senhor teve com a Renovação Carismática Católica (RCC) seria impossível!

Monsenhor Jonas – Impossível sim.

Eu quero ser cada vez mais Jesus
para o povo, porque este precisa
não de mim, mas de Jesus;
o povo precisa de Jesus em mim.

Revista CN – O senhor testemunhou, certa vez, que até seu jeito de ser mudou, tornou-se mais simpático, sorridente, um padre muito próximo das pessoas. Isso tudo tem a ver, realmente, com essa experiência com a RCC?

Monsenhor Jonas – Tem realmente. Eu digo, inclusive, que era um padre antipático, mas a experiência do “batismo no Espírito Santo” fez com que tudo isso mudasse dentro de mim. A vivência do sacerdócio tornou-se totalmente outra, tornei-me pastor, próximo das pessoas, alegre, alguém que acolhe. Vou ser ousado: tenho muito ainda a conquistar, mas meu ingresso na Renovação Carismática Católica fez com que eu fosse um pouco mais de Jesus. Ela foi uma alavanca que me empurrou para frente. Eu quero ser cada vez mais Jesus para o povo, porque este precisa não de mim, mas de Jesus; o povo precisa de Jesus em mim.

icone-2-

 <<—-Baixe o APP no seu Smartphone.

Revista CN – A Canção Nova tem uma maneira muito concreta de viver a devoção a Nossa Senhora. Como o senhor vê a presença de Maria em seu jubileu sacerdotal?

Monsenhor Jonas – Em minha vida, Maria sempre foi muito discreta, mas muito presente. Eu não encontro um momento da minha vida em que ela não estivesse presente. Eu diria que especialmente nos momentos de doença. Nestes últimos anos, quando vivi uma enfermidade inexplicável, a presença de Maria era nítida para mim. Pode parecer exagero, mas não é: eu podia tocá-la com a mão, tão presente ela se fazia.

Desde meu nascimento, Maria se faz muito presente, especialmente nos momentos de dor, sofrimento e de doença, que é uma característica da minha vida. Quanto à Canção Nova, preciso dizer: foi ela quem tudo fez. Desde a primeira casa que nós usamos para realizar encontros, em Areias (SP), a primeira construção que nós fizemos – a Canção Nova Casa de Maria, em Queluz (SP) – tudo, todas as coisas que fizemos e temos foi ela quem fez. Quem alicerçou e fez crescer a nossa comunidade foi Nossa Senhora.

Maria foi ela quem tudo fez na Canção Nova

Revista CN – O senhor sempre foi muito ativo. Como tem sido, com o passar da idade, e mesmo durante a doença que citou, esse “recolhimento” e o “silêncio”?

Monsenhor Jonas – Eu agradeço a Deus, porque é época da maturidade. Passado o tempo mais difícil da doença, agora estou ativo, mas sem me expor demais. Estou onde posso estar, como no Conselho Geral da comunidade, com nossos padres, e também quando posso pregar – não continuamente como eu pregava, mas tenho pregado em momentos “chaves”. Quando tenho a oportunidade de estar com os nossos membros da comunidade, percebo que minha presença tem sido formativa.

Revista CN – Quer dizer alguma coisa a quem possa estar passando por um momento parecido com o que o senhor enfrentou de enfermidade?

Monsenhor Jonas – Quero sim. Este é um momento de calma, é preciso que fiquemos calmos, pois parece que, nesta hora, se “perde o chão”. A tendência é irmos ao desespero: “O que eu faço? O que eu digo? Como vou proceder? Eu não consigo!…” É uma hora em que é preciso acalmar-se.

Em segundo lugar, e é o mais importante, é ter os olhos fixos em Deus, porque Ele está presente na “noite escura”. O Senhor está presente neste momento de vazio. Mas é um vazio fecundo, que não percebemos na hora; só depois, por isso é preciso que tenhamos os olhos fixos em Deus. Ele está na nossa crise. Eu compararia com aquilo que Jacó enfrentou, lutando com Deus no deserto (Gênesis 32). É algo semelhante, mas o bonito é isso: O Senhor está [junto de nós] e, por isso, superamos. Eu superei, graças a Deus, e estou colhendo os frutos.

“O mais importante: ter os olhos fixos em Deus, porque Ele está presente na ‘noite escura’.”

Revista CN – Como foi seu encontro com o Papa Francisco?

Monsenhor Jonas – Quando o encontrei pela primeira vez, na Praça de São Pedro, disse que tínhamos nascido da Evangelli Nuntiandi. Os olhos dele ficaram brilhantes e ele me disse em português: “Este documento é totalmente atual e a Igreja precisa retomá-lo e colocá-lo em prática, porque ele é da atualidade”. E realmente: nós estamos, graças a Deus, realizando a Evangelii Nuntiandi na sua totalidade, com o nosso modo de evangelizar, o nosso trabalho com os jovens e o nosso trabalho pelos meios de comunicação.

Revista CN – Uma palavra aos sócios, que são atuantes desde o início da Canção Nova.

Monsenhor Jonas – Os nossos sócios são a coisa mais importante que nós temos, porque eles são um povo simples, que contribui com o seu pouco; e, com este pouco, nós avançamos para águas mais profundas. Não se explica a Canção Nova sem a providência de Deus que age por meio dos associados. Eles são as mãos do Senhor para que a Canção Nova exista.

Revista CN – Se o senhor tivesse de fazer um pedido a Deus, o que pediria? E à família Canção Nova?

Monsenhor Jonas – Peço a Deus fidelidade. Que eu seja fiel, muito fiel, cada vez mais fiel, e que continue ativo – dentro das minhas possibilidades –, que eu não arrefeça, não perca o entusiasmo. Que mesmo com o corpo alquebrado, eu esteja com o coração cheio de fogo e ponha fogo nos outros. E quanto à Canção Nova – e aqui eu abraço todos os membros da comunidade –, eu lhes digo: vivamos o carisma, porque ele é muito importante, e vivamos a missão. Assim como eu peço a Deus, que eu não arrefeça, que ninguém arrefeça. Pelo contrário, mesmo nos cansaços próprios de quem trabalha ativamente, que tenhamos o coração ardendo, para que esta obra de Deus continue e se perpetue.

Fonte: ( Revista Canção Nova )

Evite nomes e testemunhos muito explícitos, pois o seu comentário pode ser visto por pessoas conhecidas.