Cristo, o maior socialista?

Arquivado em: Politica e Igreja — Prof. Felipe Aquino at 4:35 pm on domingo, janeiro 21, 2007

Em complemento ao nosso artigo sobre Jesus Cristo e o Socialismo, publicamos o artigo do Bispo de San Cristóbal de las Casas, Dom Felipe Arizmendi Esquivel respondendo  a Hugo Chaves. (Fonte: SAN CRISTÓBAL DE LAS CASAS, quinta-feira, 18 de janeiro de 2007 (ZENIT.org).
CRISTO, O MAIOR SOCIALISTA?
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Em 11 de janeiro, o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao fazer o juramento para um terceiro mandato de seis anos, com a possibilidade de promover uma reeleição sem limite, disse que o fazia em nome de «Cristo, o maior socialista da história».
Na tarde do mesmo dia, Daniel Ortega, ao assumir a presidência da Nicarágua para os próximos cinco anos, sustentou que «deve imperar o reino de Cristo e não o reino das guerras, do empobrecimento ou da destruição da natureza». É o mesmo comandante que, há anos, quando os bispos começaram a criticar os desvios marxistas do sandinismo, afirmou: «Eu creio em Cristo, mas não nos bispos».
Não faltaram pessoas, na época em que o marxismo estava vigente, que sustentavam: «Cristo foi o primeiro marxista da história».
O que dizer a respeito? Estas afirmações têm fundamento, segundo a doutrina católica?
JULGAR

Antes de tudo, é preciso distinguir o que se entende por socialismo. Se for considerado equivalente ao marxismo, que é um materialismo fechado à transcendência, centrado na economia e na boa intenção de fazer a todos iguais, obstruindo as liberdades individuais e a iniciativa pessoal, é óbvio que este socialismo já está superado pela história. Se se pretende pôr Cuba como modelo deste sistema, seria necessário perguntar aos cubanos por que tantos deles fazem angustiosas tentativas de fugir de seu país. São inegáveis algumas conquistas em saúde, alfabetização, instrução escolar, trabalho, ainda que mal remunerado, e um mínimo de alimentos, racionados, mas a custo de direitos humanos fundamentais, sobretudo da liberdade religiosa. É óbvio, portanto, que se o sistema socialista for identificado com o marxismo, Cristo não é socialista.
Ao contrário, se por socialismo se entende a luta para que o sistema social, político e econômico seja justo e solidário, sobretudo para que os pobres vivam com a dignidade que Deus quer, isso está muito de acordo com o que Cristo veio ensinar. Sua maior preocupação foi que aprendêssemos a amar-nos como irmãos, com uma opção solidária pelos marginalizados. Essa é a prova de que realmente o compreendemos e de que somos discípulos seus. Pelo que tenhamos feito a favor dos excluídos, seremos avaliados no final de nossa história, e mereceremos o céu ou o inferno.
Os primeiros cristãos se distinguiam por compartilhar fraternalmente seus bens, de forma que entre eles não havia quem passasse necessidade. Se isso é o que se pretende pôr em prática quando se fala de socialismo, bem-vindo seja! E todos teremos de comprometer-nos em pô-lo em prática, pois nisso se vê nossa identidade cristã. Contudo, isso não se pode conseguir pisoteando direitos inalienáveis das pessoas e das sociedades.
A respeito disso, é ilustrativo o que acaba de expressar o Presidente da Conferência Episcopal da Venezuela, Dom Ubaldo Santana: «O presidente anunciou sua decisão de impulsionar a Venezuela pelo caminho do “socialismo do século XXI”. Este tema não deve deixar ninguém indiferente. A Igreja tem uma palavra a oferecer a respeito e está disposta a dar sua contribuição no desenho deste projeto, mantendo-se fiel aos postulados do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja: o reconhecimento da unidade da pessoa, de sua transcendência e de sua liberdade em suas múltiplas dimensões, defesa e garantia de seus direitos humanos, independência e equilíbrio dos poderes. Bem conhecida é a posição da Igreja, que considera contrários ao verdadeiro desenvolvimento humano tanto o sistema fundamentado no neoliberalismo selvagem, como os sistemas socialistas que se fundamentem no marxismo-leninismo. Ao falar de socialismo do século XXI, pode-se entender que se quer deslindar, ou pelo menos diferenciar, dos socialismos reais do século passado, que tanto sofrimento, dor e morte trouxeram à humanidade».

A que se deve que propostas como as de Hugo Chávez tenham tantos seguidores? Sigamos escutando Dom Santana: «As utopias de diversos cortes revolucionários retornaram depois de um longo eclipse na América Latina, montadas na onda do desencanto provocado pelo fracasso de democracias representativas, fundamentadas em modelos capitalistas neoliberais que não foram capazes de eliminar as flagrantes desigualdades sociais e superar a grave pobreza… Algumas das mudanças políticas que estão se produzindo levam em suas entranhas uma poderosa aspiração de edificar uma ordem mais justa da sociedade e do Estado. Tentam dar voz e poder aos excluídos do mundo. A causa é legítima, mas como saber se estão sendo utilizadas as estratégias adequadas? O Estado não pode se encarregar só de tão complexa e ingente tarefa. O que falta não é um Estado que regule e domine tudo, mas que generosamente reconheça e apóie, de acordo com o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que surgem das diversas forças sociais». AGIR

Sejamos críticos ante quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, as guerras, os sistemas exploradores dos pobres, os totalitarismos inumanos, as repressões indevidas. De igual maneira, saibamos discernir os fatos reais, não os discursos, de quem invoca Cristo para implantar distintos ou opostos. Jesus é muito claro: «Nem todo o que diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus» (Mt 7, 21). E a vontade de Deus Pai é a justiça, a opção pelos pobres, o amor mútuo; não os insultos, a vaidade, a confiança nos recursos econômicos, a obstrução da justa liberdade. † Felipe Arizmendi Esquivel Bispo de San Cristóbal de Las Casas 

Dom e Coragem

Arquivado em: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 8:49 am on domingo, janeiro 21, 2007

 

D. Orani João Tempesta, O. Cist.Arcebispo de Belém do Pará 

Atualmente temos tido uma certa orquestração para tentar discutir a questão da fé, da razão e do ateísmo.É interessante ver os vários tipos de revistas e mesmo jornais e livros que vêm levantando a questão.Os que se dizem “ateus” estão reclamando como se estivessem sem o direito de liberdade para se expressar. Lendo algumas reportagens sobre essa “nova onda” que ora aumenta, fico a pensar o que realmente existe com relação à questão da “não crença”.De um lado não podemos negar que a questão dos fundamentalismos e fanatismos nos conduzem a um certo questionamento sobre o papel da pessoa religiosa no mundo hodierno. Infelizmente, muitas vezes a confissão de uma religião leva pessoas a ódios, rancores, discriminações.Porém, não é essa a regra. Na realidade, a verdadeira religião leva a pessoa a amar o seu semelhante que vê porque ama, e é amado por Deus que não vê. Os benefícios pessoais e sociais da fé estão espalhados a olhos vistos por todos os cantos do mundo. Os testemunhos de situações que foram transformados por causa da fé são inúmeros e levaram pessoas a viverem verdadeiramente a sua vida e a construir a paz ao seu redor.Se fizéssemos um levantamento sobre o pensamento humano iluminado pela fé e as atividades sociais das pessoas religiosas no decorrer da história, até mesmo antes da existência do Estado, e agora para suprir as suas deficiências, iríamos ver que as conseqüências do crer se concretizam em atividades que ajudam a pessoa a viver melhor.Aquilo que as pessoas que dizem que não crêem reclamam é o que na realidade acontece com aqueles que professam uma fé. Quantas vezes os que crêem são perseguidos e torturados! Quantas situações de exclusão com relação aos próprios direitos civis que não são concedidos a quem tem uma religião!Basta ver as leis em nosso país que, para que alguém possa fazer o bem, trabalhar tanto no social ou na educação, nem sempre pode ser em nome de uma entidade religiosa e, muitas vezes, tem que constituir uma associação ou sociedade para que assuma tal responsabilidade. Os preconceitos que existem com relação às pessoas de fé, mesmo em países como o nosso, onde aparentemente existe a liberdade religiosa, estão nas entrelinhas das dificuldades em se conseguir algo que mesmo sem nenhum óbice acabam não acontecendo por ser uma entidade religiosa.Quando os cientistas reclamam da falta de liberdade de dizer-se “ateu”, vejo que a questão é exatamente ao contrário. Aqui no Ocidente não existe essa questão. Aliás, quando querem discutir a “questão” de Deus nas ciências, basta lembrar a Aula Magna do Papa Bento XVI na Alemanha, que foi justamente esse o seu pedido. Infelizmente, esse belo momento foi explorado por uma frase que chamou mais a atenção do que toda a sólida argumentação papal.Parece que todos nós lutamos pela possibilidade e liberdade de nos expressarmos, e não queremos ser cerceados em nossos direitos civis pelo fato de professarmos ou não uma religião.Tempos interessantes esses que vivemos! Seria muito importante descobrir para onde os caminhos da verdadeira fé nos têm conduzido enquanto humanidade, pois a Revelação do Plano de Deus coincide exatamente com os anseios mais profundos do ser humano, porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Quer creiamos ou não, os nossos anseios por felicidade, paz, amor, harmonia estão presentes no coração da pessoa, embora nem sempre elas conseguem discernir os caminhos corretos para conquistar tudo isso.Também é tempo de todos os que cremos refletirmos sobre a importância do respeito mútuo à liberdade de cada pessoa, procurando testemunhar em que e em quem cremos, sem fazer proselitismos e nem conduzir às separações e ódios por causa da fé.Nós cremos na vida eterna, mas, enquanto vida humana, só temos este planeta para viver e somos chamados a conservá-lo bem não só com relação à ecologia, mas principalmente no relacionamento entre as pessoas, tornando possível a convivência entre os diferentes.Neste tempo de tantas críticas às religiões e tantas necessidades de tentar provar a não existência de Deus, a nossa alegria de poder crer deve nos levar a testemunhar sem preconceitos a nossa vida iluminada pela fé, assim como as razões de nossa fé. Será do respeito mútuo com a colaboração intensa de todos os cidadãos, em suas diversas circunstâncias, que iremos construindo a “civilização do amor”.