Cerimônia de Sepultamento de Dom Estevão Bettencourt

Filed under: Avisos — Prof. Felipe Aquino at 6:07 pm on Wednesday, April 16, 2008

Magda Ishikawa
Canção Nova Notícias, Rio de Janeiro

Na madrugada de [ante]ontem, 14, faleceu Dom Estevão Bettencourt, monge beneditino, exegeta e teólogo brasileiro, no Rio de Janeiro aos 89 anos, em decorrência de um infarto agudo no miocárdio. Na parte da tarde, o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Oscar Scheid, celebrou missa de corpo presente. Após a cerimônia o corpo de Dom Estevão foi sepultado em local reservado no pátio interno do mosteiro de São Bento.

Veja abaixo a reportagem: 

“TERMINEI A CARREIRA, GUARDEI A FÉ” (2Tm 4,7)

Filed under: Morte — Prof. Felipe Aquino at 2:22 pm on Wednesday, April 16, 2008

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”D. Estevão Bettencourt, osb.Nº 265 – Ano 1982 – Pág. 421. 

 

O ano vai chegando ao fim e nos incita a um retrospecto… Ao fazer tal revisão em seu contexto próprio, o Apóstolo escrevia: “Terminei a minha carreira, guardei a fé” (2Tm 4,7).

 

Guardei a fé… Estas palavras têm sentido enfático. Significam, de certo modo, uma vitória. Com efeito, a fé é a adesão a Deus que se revela ao homem por palavras e feitos. A palavra de Deus é vida segundo o Apóstolo; é portadora de saúde espiritual… Quem percorre as epístolas pastorais (1/2Tm, Tt), não pode deixar de ficar impressionado pela freqüência com que ocorrem a expressão hygiainousa didaskalía (doutrina sadia) e semelhantes (cf. 1Tm 1,10; 6,3; 2Tm 1,13; 4,3; Tt 1,9.13…) São Paulo usa a locução palavra da salvação (At 13, 26); São João, palavra  da vida (1Jo 1,1). – No tempo do Apóstolo, como em outras épocas, serpeavam heresias, hairéseis, isto é, doutrinas seletas que mutilavam e deterioravam o patrimônio da fé; ora o Apóstolo não hesita em chamá-las gangraina, gangrena (2Tm 2, 17); esta é algo de pútrido que se alastra e vai extinguindo a vida; o mesmo autor sagrado compara as heresias à doença, nosos (1Tm 6,4), à cauterização da consciência mediante o ferro em brasa, que se opõe à saúde e à vida (cf. 1Tm 4,2). 

É a consciência do valor capital das verdades da fé que leva os cristãos a respeitá-las ciosamente. Elas vêm de Deus; podem ser ilustradas pela razão humana, embora esta não as abarque plenamente; jamais podem ser tratadas como verdades filosóficas, cujas únicas credenciais são a evidência maior ou menor com que se imponham à  razão; posso retocar a meu modo o sistema de qualquer filósofo, pois estou igualmente credenciado pela razão para propor-lhe meus retoques. O mesmo porém, não ocorre com as verdades reveladas por Deus; compete ao cristão aprofundá-las, sim, todavia guardando absoluta fidelidade ao significado original. O cristão sabe outrossim que qualquer desvio infligido a tais proposições não tem conseqüências apenas no plano acadêmico, mas repercute no da vida do povo de Deus, que poder ser assim afetada por doença e gangrena! 

“Guardei a fé…” Isto quer dizer também: soube corajosamente colocar minha razão a serviço da palavra que às vezes é cruz, escândalo e loucura, mas que, em última instância, vem a ser fator de vida e plenitude. 

“Guardei a fé…” neste fim de ano, possa a Igreja dizê-lo em cada um dos seus fiéis! 

E.B.  

DEUS, A HORA DA MORTE E O SOFRIMENTO

Filed under: Morte — Prof. Felipe Aquino at 2:18 pm on Wednesday, April 16, 2008

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”D. Estevão Bettencourt, Osb.,Nº 506, Ano 2004, Página 367. 

 

 

A Redação de PR recebeu a seguinte indagação: 

“As perguntas que faço são as seguintes: 

1. Deus determina o dia e a hora em que vamos morrer Digo isso, porque, dois dias antes de meu avô morrer, eu fui tocada a levar uma água benta para benzê-lo. Não o fiz. No dia seguinte, 25/12, fui tocada de novo e, na visita à UTI, passei a água benta na sua testa e no coração pedindo a Deus que tivesse misericórdia dele. Ao sair, a médica disse que ele estava se recuperando e que em breve poderia ir para o quarto. No entanto, ele faleceu no dia seguinte. Fiquei intrigada com isto e me perguntei se Deus quis que eu realmente tivesse feito aquilo. Quanto ao rapaz que foi assassinado, nós perguntamos: por quê? Não só ele, mas tantos que hoje morrem pela situação de violência na qual nos encontramos. 

2. Quando a pessoa morre, muitos dizem: foi à vontade de Deus. Será que Deus quer a morte por assassinato, por acidente,…? 

3. Quando há sofrimento na nossa vida, até que ponto podemos dizer que Deus permite isso para nos amadurecer? Se Deus é amor, permitiria que um filho seu sofresse? Crianças pequenas que não tem noção do que está acontecendo, Deus permitiria isso?” 

Nossa resposta compreenderá duas partes: 1) Deus e a hora da morte; 2) Deus e o sofrimento. 

1) Deus e a hora da morte. Deus permite que as criaturas procedam de acordo com as suas capacidades naturais, de modo que a hora da morte de cada um se deve a fatores naturais: desgaste das forças físicas por moléstia ou por velhice ou também violência e maldade dos homens. No caso atrás citado Deus não lavrou um decreto antecipando a hora da morte que a médica julgava poder postergar, mas houve simplesmente o desencadeamento de um processo natural. A medicina pode, às vezes, enganar-se. 

Com outras palavras: Deus sabe tudo de antemão; Ele prevê todas as coisas, mas não retira das criaturas a sua capacidade própria de agir ou não agir… de agir desde ou daquele modo. Não se diga portanto: “Tinha que ser… tinha que morrer naquela hora”, como se houvesse uma força misteriosa, um destino ou um desígnio de Deus entravando ou impelindo a ação das criaturas. 

No caso de morte violenta por assassinato, ocorre algo que Deus não quer, mas permite porque respeita a liberdade da criatura. Ele nunca o permitiria se, como diz S. Agostinho, não tivesse recursos para tirar do mal bens maiores. Nós nem sempre vemos esses bens, mas temos a certeza de que a Providência Divina não pode falhar. 

2)  Deus e o sofrimento.  Observamos que o sofrimento decorre da índole mesma das criaturas. Com efeito, subindo na escala dos seres, verificamos que a pedra não sofre, o cão sofre e mais sofre ainda a criatura humana; mesmo dentro desta categoria mais sofrem os mais humanos e nobres, menos sofrem os tarados. As pessoas retas sofrem moralmente ao considerar a desordem do mundo; sofrem por efeito das limitações das criaturas. 

Vê-se assim que o sofrimento não é um castigo de Deus, mas é algo inerente à condição humana. Eis por que as criaturas o compartilham. Deus não quer um mundo de marionetes ou artificial, em que haveria tantas exceções quantas nós imaginássemos. 

O fato de que Deus é amor não implica que Ele deva dispensar do sofrimento os filhos bem-amados. A epístola aos Hebreus trata do assunto lembrando que o sofrimento educa e faz amadurecer; só o filho bastardo, pelo qual o pai não se interessa, é deixado solto sem ser corrigido pelo pai, cf. Hb 12, 5-13. Mais ainda: o sofrimento que nos faz amadurecer, o próprio Deus o quis transfigurar, assumindo-o sobre si na Cruz e fazendo-o passagem para a vida eterna. 

Para aprofundamento ver PR 502/2004, pp. 160-163.  

Sobre a morte de D. Estevão

Filed under: Morte — Prof. Felipe Aquino at 2:17 pm on Wednesday, April 16, 2008

Caros amigos e amigas,

Realmente a morte de D. Estevão, como muitos já expressaram neste blog, foi uma perda enorme para a Igreja militante, mas, sem dúvida uma alegria para a Igreja triunfante, então, para toda a Igreja. Agradeço sensibilizado os comentários de todos os que escreveram neste blog. Que a vida e a morte deste Gigante da Igreja, qual um novo Santo Tomás dos dias de hoje, nos estimule ainda mais a lutar pelo Reino de Deus e pela Igreja que tanto D. Estevão defendeu. Em honra e homenagem a ele, trancrevo aqui no blog duas matérias suas sobre a morte, que ele jamais temeu. Obrigado

Prof. Felipe Aquino - www.cleofas.com.br

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”D. Estevão Bettencourt, osb.Nº 354 – Ano 1991 – Pág. 481. 

 

“Ó MORTE, SEREI A TUA MORTE!”                                      (Os 13, 14) 

O mês de novembro lembra aos homens em geral o inexorável fato da morte, que a muitos causa apreensão. Ora nas Escrituras encontram-se palavras que reconfortam enormemente o cristão:

 

“Uma vez que os filhos têm em comum sangue e carne, por isso  também o Filho participou da mesma condição, a fim de destruir pela morte o dominador da morte, isto é, o diabo, e libertar os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte” (Hb 2, 14s).

 

Este texto recorda, em primeiro lugar, que “Deus não fez a morte nem se compraz com a morte dos viventes” (Sb 1, 13): “a morte entrou no mundo por inveja do diabo” (Sb 2, 23).

 

Com efeito; diz-nos a fé que a morte, violenta como é, decorrer do primeiro pecado, que Satanás instigou (cf. Gn 2,3; Jo 8, 44). 

A morte, em conseqüência, suscita nos homens o medo ou o horror, medo de que falavam freqüentemente os filósofos antigos. Escrevia, por exemplo, Sêneca a um amigo: “Livra-te, antes do mais, do medo da morte; ela nos impõe o primeiro de todos os jugos” (Ep LXXX5). 

Eis, porém, que o próprio Deus quis redimir os homens do jugo e do temor da morte… E o fez de maneira muito sábia: sim, houve por bem matar a morte mediante a morte ou matar a morte do gênero humano mediante a de Cristo; cumpriu assim a profecia de Oséias: “Ó morte, serei a tua morte!” (Os 13, 14). 

E como se deu isto? – O Filho de Deus assumiu a natureza mortal e quis sofrer a morte, embora fosse inocente. A morte o abocanhou, a Ele que nada lhe devia; assim derrotou a morte, ressuscitando para a Vida. Após Jesus Cristo todos os homens são chamados a vencê-la, passando para a plenitude da vida através do vale da morte. 

Por isto Cristo é chamado pelos medievais Mors Mortis, a Morte da Morte. É Ele quem possui as chaves da morte e da região dos mortos (cf. Ap 1,18) e tem o poder de arrebatar da morte os homens que ela ainda tenta devorar. 

Estas verdades, pertencentes ao bê-a-bá da fé cristã, renovam o ânimo do cristão; este, sendo criatura frágil, pode sentir o arrepio da morte. Todavia Cristo quis santificar ou transfigurar a morte, fazendo dela uma passagem para a Vida definitiva. Em conseqüência, o grande mal já não é a morte, mas, sim, o pecado, pois só este pode afastar do Senhor da Vida o Homem, devotando-o à perda do único bem que não passa, ou seja, da comunhão com Deus. 

“Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está o teu aguilhão?” (Os 13, 14). 

E.B.