16. junho 2008 · 7 comments · Categories: Igreja

 

O saudoso D. Estevão Bettencourt, falecido neste ano, se referia muitas vezes ao que chamava de “Os Quatro Naõs da história”, que segundo ele foram responsáveis pela situação de descrença, materialismo, ateísmo, relativismo moral e religioso que   vivemos hoje.  

Segundo o mestre de muitos anos, o primeiro golpe foi o “Não à lgreja Católica”, dito pela Reforma protestante (séc. XVI).  Muitos homens continuaram a crer no Evangelho e em Jesus Cristo; não, porém, na Igreja fundada por Cristo. Os princípios subjetivos do “livro exame”, “sola Scriptura”, não à Igreja e ao Papa, não à Tradição Apostólica, estabelecidos por Lutero e seus seguidores, promoveu um esfacelamento crescente da Cristandade pela multiplicação de novas “igrejas”. Cristo foi mutilado. Segundo Teilhard de Chardin, “sem a Igreja Cristo se esfacela”.  A  túnica inconsútil do Mestre foi estraçalhada. 

Até esta época da História, o mundo Ocidental girava em torno do ensinamento da Igreja, assistida e guiada pelo Espírito Santo. A Reforma “quebrou o gelo”, e inaugurou a contestação `a doutrina ensinada pela Igreja, depois de quinze séculos. A partir daí muitas outras contestações foram inevitáveis. É preciso lembrar que após o início da Reforma, a Igreja realizou o mais longo Concílio Universal, o de Trento (1545-1563), por dezoito anos, e nada mudou da doutrina que recebeu de Cristo e dos Apóstolos. 

O segundo golpe foi dado no século XVIII:  foi dito um “Não a Cristo”. Não à religião Revelada por Cristo. Surgiu por parte do Racionalismo, que teve a sua expressão mais forte na Revolução Francesa (1789). Os iluministas, positivistas, introduziram a deusa da razão na Catedral de Notre Dame de Paris. Muitos pensadores passaram a professar o deísmo (crença em Deus como ser reconhecido pela razão natural apenas), em lugar do teísmo (crença em Deus que se revelou pelos profetas bíblicos e por Jesus Cristo). Depois do Não `a Igreja, veio o Não a Cristo. 

O  terceiro golpe foi dado no século XIX:  o “Não ao próprio Deus” oriundo do ateísmo em suas diversas modalidades ateístas. A tomada de consciência da história e da sua influência, tal como Darwin e os evolucionistas a propuseram, contribuiu para disseminar o historicismo que coloca a história acima de Deus. Daí surgiu o relativismo e o ceticismo, que impregnaram muitas correntes de pensamento de então até os nossos dias. Hoje o Papa Bento XVI fala de uma “ditadura do relativismo”; que tenta negar a verdade objetiva.  

Infelizmente assistimos hoje o triste espetáculo de  pesquisadores que escrevem livros ensinando o ateísmo; difundindo isso nas universidades e afastando os jovens de Deus, como se crer fosse um subdesenvolvimento cultural ou mental.  

A mudança de mentalidade foi se realizando em velocidade crescente, principalmente a partir de meados do século passado (1850): o desenvolvimento das ciências e da técnica deixou os homens mais ou menos atordoados diante de perspectivas inéditas, sem que soubessem, de imediato, fazer a síntese dos novos valores com os clássicos. 

O quarto Não é dito ao homem. Depois do Não à Igreja, à Cristo, `a Deus, agora, como consequência, assistimos ao triste Não dito ao homem. São Tomás de Aquino dizia que “quanto mais o homem se afasta de Deus, mais se aproxima do seu nada”. É o que acontece hoje. Sem Deus o homem é um nada. O Papa João Paulo II disse na  primeira encíclica que escreveu – “Jesus Cristo Redentor do Homem” – afirmou que “o homem sem Jesus Cristo permanece para si mesmo um desconhecido, um enigma indecifrável, um mistério insondável”. Quer dizer, sem Deus, sem Jesus Cristo, o homem é um desorientado; não sabe de onde veio, não sabe quem é, não sabe o que faz nesta vida, não sabe o sentido da vida, da morte, do sofrimento. E na agonia desse mistério insondável vive muitas vezes no desespero, como muitos filósofos ateus que desorientaram a muitos.  

Esse Não dito  ao homem, conseqüência dos Não anteriores,  se manifesta hoje na perda dos valores transcendentes da pessoa humana, o desprezo pela sua dignidade humana, o desaparecimento do seu valor intrínseco. Isto se manifesta nas aprovações aberrantes de tudo que há 20 séculos ninguém tinha dúvida em condenar: aborto, eutanásia, manipulação e destruição de embriões, “camisinhas”, sexo livre, “família alternativa”, “casamentos alternativos”, e tudo o mais que a Igreja continua a condenar como práticas ofensivas a Deus e ao homem.  

Mas em nossos dias nota-se um retorno aos valores eternos, que a Igreja guardou fielmente através das tempestades. Muitos se dão por desiludidos do cientificismo e do tecnicismo, e procuram de novo no transcendental os grandes referenciais do seu pensar e viver. A busca do ateísmo cede lugar de novo à consciência de Deus e dos valores místicos, sem os quais a vida humana se auto-destrói. O homem moderno percebe que os frutos da tecnologia por si só não lhe satisfazem;  a prova disso é que crescem as mazelas humanas: depressão, guerras, injustiças, imoralidade… 

A sociedade moderna decaiu. O Modernismo,  o Relativismo e o Indiferentismo Religioso dominaram o mundo. Os dogmas foram desprezados; a fé e a moral calcados aos pés. Em lugar de Deus  o homem idolatra-se a si mesmo, o dinheiro, a Ciência, o prazer da carne, … o pecado.  

O mundo moderno não deu atenção ao Papa Pio IX quando este apontou os erros que lhe levariam ao caos em seu Syllabus; não quis ouvir a voz da Igreja no Concílio Vaticano I, quando este mostrou a harmonia entre fé e razão e a suprema autoridade do Papa. Não ouviu também o apelo dos Papa Leão XIII, Pio X, Pio XI, Bento XV, Pio XII…  quando eles  apontaram os males do mundo moderno em suas encíclicas de fundo moral e social.  

O resultado de tudo isso é a decadência moral, ética e sobretudo religiosa que assistimos hoje, razão de tantas desordens, crises e sofrimentos. Tudo nos faz lembrar a máxima de São Paulo: “O salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). Por tapar os ouvidos à voz de Deus anunciada ao mundo pelos últimos Papas, o mundo experimentou duas terríveis guerras mundiais com mais de 60 milhões de mortos, e depois a tragédia do nazismo e comunismo com mais de 100 milhões de vítimas,  

A sociedade moderna, enfim, rejeitou a voz da Igreja e dos Papas e preferiu dar ouvidos aos hereges. Hoje querem destruir a Igreja com um programa laicista em escala mundial.   

Por isso tudo, o homem moderno mergulha no caos do pecado e nas sombras da desesperança e da morte. Eis que surge mais uma vez o Vigário de Cristo a falar da Esperança que nasce em Deus (Salvi Spes). Será que será ouvido? 

Somente abandonando os “valores” modernistas e deixando-se guiar pela Igreja é que a nossa Civilização poderá superar suas  crises e dores. Está na hora da Civilização Ocidental voltar-se novamente a  Jesus Cristo, que a espera de braços abertos.  

A Igreja terá novamente de salvar a nossa Civilização, que começa a desabar,  como há 13 séculos quando ela desabou com o Império Romano. Estejamos preparados. 

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br  

 

 

 

 

7 Comentários

  1. Demétrius

    Muitos ´desgarrados´, em meio as consequências desses “Nãos”, já vêem na Igreja Caólica o único caminho seguro a ser seguido, caminho coeso e coerente.

  2. Justiça proibe missa na TVE
    Após o episódio dos livros do pe jonas Abib serem recolhidos…a justiça aparece outra vez.

    Desta vez a justiça baiana proibe as missas na TVE, por considerar uma emissora pública. José Medrado(espírita) é o protagonista da ação no Ministério Público.

    http://64.233.169.104/search?q=cache:plQe7QtCe1gJ:bahiapress.com.br/wordpress/%3Fcat%3D12+justi%C3%A7a+baiana+proibe+missa+tve&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=2&gl=br

    O programa católico “Chão e Paz” é a próxima vítima.

    http://64.233.169.104/search?q=cache:0NnnmjJvvTcJ:bahiapress.blogspot.com/2008/05/mediu-esprita-quer-comer-o-bolo-sozinho.html+justi%C3%A7a+ch%C3%A3o+e+paz+tve&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=2&gl=br

    Diz Prof.Felipe Aquino: “O país é laico mas não é laicista!”

  3. PARA O AMIGO ALBERI E AOS DEMAIS

    Laico é um nome bonito que inventaram para ateu,pois
    o próprio Cristo diz:´´Quem não está comigo está contra mim“.Não há como se manter neutro nessa guerra entre o
    Bem e o Mal.Como posso dizer:“Deus existe mas cada um cada um?´´.Isso é errado,devemos estar do lado de Deus,e
    não procurar agradar a gregos e troianos com um Estado Ateu(ou laico para escrever mais bonito).Vocês encontrarão no blog http://catolicismosemsegredo.spaceblog.com.br um artigo se referindo à perseguição contra os cristãos no mundo.Mas verifiquem antes nesse blog na categoria Perseguição Religiosa.

  4. Camila Reifonas

    O pior de tudo isso é a dificuldade em evangelizar as pessoas que não acreditam em nada. Eu quase perdi meu emprego porque procuro sempre dar testemunhos de fé, não com discursos, mas com meu estilo de vida. Sofri e ainda sofro perseguição religiosa no meu local de trabalho. Estou tendo que me manter praticamente calada o dia todo, para não gerar discussões a respeito de religião, pois toda vez que surgem assuntos como aborto, células tronco,união homossexual, eu tenho obrigação de me colocar em defesa da vida e da moral, e isto quase causou minha demissão. Uma colega de trabalho quase me agrediu fisicamente, após proferir inúmeros insultos contra minha fé.Paciência. Rezemos pela conversão dos que ainda são descrentes, e rezemos para Deus pedindo forças para seguirmos no amor a Cristo, defendendo nossa fé, sem medo.

  5. Gostaria de parabenizar a Camila. Também no meu local de trabalho todas estas teses de aborto, homossexualismo etc. existem. Agradeço, porém, o clima respeitoso pela minha posição, que externo poucas vezes, até porque todos são filhos de Deus e é o pecado e não o pecador contra o que não comungamos. Afinal, todos pecamos.
    Num paralelo, gostaria de citar que, para mim, os católicos são a minoria. No meu local de trabalho, de doze pessoas, só duas são católicas. Temos que aceitar este fato. As minorias sofrem. As pesquisas que indicam que 80% dos brasileiros se declaram católicos é um dado diferente, o qual deve ser lido em sentido diferente. Está correto, mas é preciso dizer que a maioria não significa por si só um valor. O que importa é a qualidade dos argumentos. E, apesar de minoria, os católicos, inspirados nos exemplos dos santos etc., dão mostra de qualidade.
    Que bom pensarmos diferentes. A sociedade valoriza isto em geral: não as massas, mas os que pensam diferentes. E nós somos assim: acreditamos em Cristo, amamos Maria, temos os santos, os sacramentos, o papa. Deus nos ajude a sermos mais aceitos, a sermos mais amados e respeitados. E, principalmente, que O amemos mais e mais em nossos irmãos.

  6. Professor Felipe, quero crer que entre os “nãos” denunciados pela santa figura de D. Estêvão Bettencourt, se insere atitudes de cientistas como a de Albert Einstein, que em carta divulgada recentemente ataca Deus (Vd. link: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u402056.shtml).
    Einstein habitualmente é citado quando se quer defender a crença na existência de Deus. Todavia, um de meus cunhados, professor de filosofia no Exterior, sempre chama a atenção para o fato de o grande cientista, na verdade, falar de um Deus impessoal, o que, quando de sua morte, levou autoridades do Vaticano a fazer-lhe restrições de ordem ideológica.
    Não é por menos que Einstein elogiou seguidas vezes as religiões do Oriente e seus mestres, pois sempre mostrou-se extremamente simpático ao panteísmo e a seu maior representante, o filósofo Baruch Espinoza. Embora, justamente por seu panteísmo, Einstein nunca ter sido seguidor do judaísmo religioso, de seu povo, não obstante, ele herdou a descrença num Jesus Cristo filho de Deus. Não é de se admirar, portanto, nas vezes em que ele elogiou Cristo, o fez igualando-O a outras figuras terrenas, como Sócrates e Gandhi. Em tal contexto, faz sentido o ataque dele a Deus na carta mencionada acima.

  7. Coragem Camila!

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