24. maio 2009 · 7 comments · Categories: Ateísmo

Por: Carlos Valverde


30 DE MAIO DO ANO 1778: A investigação de documentos antigos sempre mostra surpresas. A última me veio ao folhear o tomo XII de uma velha revista francesa, Correspondance Littérairer, Philosophique et Critique (1753-1793), monumento riquíssimo para conhecer o século do Iluminismo e o começo da Grande Revolução.

 

Todos sabemos quem foi Voltaire: o pior inimigo que teve o cristianismo naquele século XVIII, em que emitia críticas cruéis. Com os anos crescia seu ódio ao cristianismo e a Igreja. Era nele uma obsessão. Cada noite cria haver afastado a infâmia e cada manhã sentia a necessidade de voltar a declarar: o Evangelho só havia trazido desgraças sobre a Terra.

 

Manejou como ninguém a ironia e o sarcasmo em seus inúmeros escritos, chegando até o inominável e o degradante. Lhe chamaram de o anticristo. Foi o mestre de gerações inteiras incapazes de compreender os valores superiores do cristianismo, cujo desaparecimento prejudica e empobrece a humanidade.

 

Pois bem, no número de abril de 1778 da revista francesa acima citada (páginas 87-88) se encontra nada menos que a cópia da profissão de fé de M. Voltaire. Literalmente diz assim:

 

«Eu, o que escreve, declaro que havendo sofrido um vômito de sangue faz quatro dias, na idade de oitenta e quatro anos e não havendo podido ir à igreja, o pároco de São Suplício quis de bom grado me enviar a M. Gautier, sacerdote. Eu me confessei com ele, se Deus me perdoava, morro na santa religião católica em que nasci esperando a misericórdia divina que se dignará a perdoar todas minhas faltas, e que se tenho escandalizado a Igreja, peço perdão a Deus e a ela.

Assinado: Voltaire, 2 de março de 1778 na casa do marqués de Villete, na presença do senhor abade Mignot, meu sobrinho e do senhor marqués de Villevielle. Meu amigo».

Assinam também: o abade Mignot, Villevielle. Acrescenta:

«Declaramos a presente cópia conforme a original, que foi entregue às mãos do senhor abade Gauthier e que ambos confirmamos e que ambos temos firmado, como firmamos o presente certificado. Paris, 27 de maio de 1778. Abate Mignot, Villevielle».

 

Que a relação pode estimar-se como autêntica o demonstram outros documentos que se encontram no número de junho da mesma revista – nada clerical, por certo -, pois estava editada por Grimm, Diderot e outros enciclopedistas.

 

Voltaire morreu em 30 de maio de 1778. A revista lhe exalta como “o maior, o mais ilustre e talvez o único monumento desta época gloriosa em que todos os talentos, todas as artes do espírito humano pareciam haver se elevado ao mais alto grau de sua perfeição”.

 

A família quis que seus restos repousassem na abadia de Scellieres. A 2 de junho, o bispo de Troyes, em uma breve nota, proíbe severamente ao prior da abadia que enterre no sagrado o corpo de Voltaire. A 3 o prior responde ao bispo que seu aviso chega tarde, porque – efetivamente – já tinha sido enterrado na abadia.

 

A carta do prior é longa e muito interessante pelos dados que contêm. Eis o que mais nos interessa agora: a família pede que ele seja enterrado na cripta da abadia até que possa ser trasladado ao castelo de Ferney. O abade Mignot apresenta ao prior o consentimento firmado pelo pároco de São Suplício e uma cópia – assinada também pelo pároco – “da profissão de fé católica, apostólica e romana que M. Voltaire tem feito nas mãos de seu sacerdote, aprovado na presença de duas testemunhas, das quais uma é M. Mignot, nosso abade, sobrinho do penitente e outro, o senhor marquês de Villevielle (…) Segundo estes documentos, que me pareceram e ainda me parecem autênticos – continua o prior – penso que faltaria com meu dever de pastor se lhe houvesse recusado os recursos espirituais. (…) Nem me passou pelo pensamento que o pároco de São Suplício houvesse podido negar a sepultura a um homem cuja profissão de fé havia legalizado (…). Creio que não se pode recusar a sepultura a qualquer homem que morra no seio da Igreja (…) Depois do meio-dia, o abade Mignot tem feito na igreja a apresentação solene do corpo de seu tio. Cantamos as vésperas dos defuntos; o corpo permaneceu a noite toda rodeado de círios. Pela manhã, todos os eclesiásticos dos arredores (…) tem dito uma missa na presença do corpo e eu celebrei uma missa solene às onze, antes da inumação (…) A família de M. Voltaire partiu esta manhã contente das honras rendidas a sua memória e das orações que temos elevado a Deus pelo descanso de sua alma. Eis aqui os fatos, monsenhor, na mais exata verdade”.

 

Assim me parece que passou deste mundo ao outro aquele homem que empregou seu temível e fecundo gênio em combater ferozmente a Igreja. A Revolução Francesa (1789) trouxe em triunfo os restos de Voltaire ao panteão de Paris – antiga igreja de Santa Genoveva – , dedicada aos grandes homens. Na escura cripta, frente a de seu inimigo Rosseau, permanece até hoje a tumba de Voltaire com este epitáfio:

 

«Aos louros de Voltaire. A Assembléia Nacional decretou em 30 de maio de 1791 que havia merecido as honras dadas aos grandes homens”.

 

 

7 Comentários

  1. È lindo ver a conversão de um pecador. Deus com certeza fica muito mais feliz com a alma convertida do que daquele que sempre se confiou. Isto nos mostra que verdadeiramente a Igreja é pecadora, mas é também “Santa”.
    Felizes são aqueles que tem misericordia, porque as misericórdias de Deus estarão sôbre ele.

  2. Professor Felipe, essa é uma notícia muita animadora! Saber que um dos mais formidáveis inimigos da Igreja se arependeu no final da vida mostra como a luz da verdade e a misericórida de Deus são invencíveis. Mas qual é a origem desse texto que o senhor postou?

    Obrigado,
    Moisés

  3. Márcio Ricardo

    Olá professor! A paz!

    Acompanho sempre seu blog. Gostaria de ler algum comentário seu a respeito de um livro chamado “A Cabana”. Tem sido bastante comentado, mas creio que muito mais no meio evangélico e secular do que propriamente no meio católico. No entanto gostaria de saber se há uma opinião da Igreja sobre o material.

    Grande abraço! Fique em paz!

  4. Também gostaria de um comentário do Mestre Prof. Felipe sobre o livro “A Cabana” de William P. Young

    Grande Abraço

    Deus o ilumine sempre

  5. Filipe Neri

    Boa tarde Professor!

    É ilustre e de grande valor a revelação,até então desconhecida por mim, da conversão de Voltaire ao catolicismo. Embora fosse visível a sua feição por Deus em seu livro o Ateu e o Sábio, Voltaire deixa bem claro que sua “rixa” se dá apenas à igreja e seus atos. Se o filósofo morreu salvo pela fé e pela graça, resta-me comemorar, pois, de fato, é o que mais admiro. Independente de religião escolhida, vale ressaltar

  6. Hilton Barros Nunes

    Sou católico praticante, e, como tal, me esforço diuturnamente para ter um comportamento conforme ditam os princípios de minha fé. E assim tenho educado minha família. Todavia, não me filio aos que demonizam os ateus. Há ateus e ateus. Conheço alguns, entre aqueles com os quais me relaciono, possuidores de uma ética de fazer inveja a muita gente que se diz cristã, ou de qualquer outra confissão religiosa.
    Igualmente, há cristãos e cristãos. Conheço alguns deles que são simplesmente lamentáveis, péssimas testmunhas de nossa fé cristã. Penso aqui, principalmente, na questão do aborto. Anteontem,ouvi uma entrevista radiofônica de um professor da USP,titular de história das religiões. Ele informou que as estatísticas mais recentes dão um total de 93% de pessoas, no Brasil, que se dizem seguidoras de alguma religião. Desse total, 97% se declarararam cristãs. Pesquisas de opinião, cravam 65%, no mínimo, de brasileiros contrários ao aborto. Mas, vejam a ironia. A parada do chamado orgulho gay levou neste ano de 2010, segundo número dos organizadores, 3,5 milhão de pessoas à Avenida Paulista; segundo a PM, 3 milhões. Agora, que manifestação pública contra o aborto, promovida por grupos pró-vida, conseguiu levar mais de 3 mil pessoas ao evento?

  7. Boa noite Prof.

    A paz.

    Queria saber se há algum comentario da igreja sobre o livro “a cabana” se é uma leitura validada ou nao?

    obrigada

    att,

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