O caso Jon Sobrino

Filed under: D. Estevão, Teologia — Prof. Felipe Aquino at 2:15 pm on Tuesday, July 24, 2007

D. Estevão Bettencourt, OSB

Revista “Pergunte e Responderemos”

Ano XLVII - Julho 2007 – nº 541

Em síntese: As obras teológicas do Pe. Jon Sobrino contêm afirma­ções que não se coadunam com a fé professada pela Igreja. Daí uma Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, que aponta seis mo­mentos em que se dá a dissonância: 1) Pressupostos metodológicos; 2) A Divindade de Jesus Cristo; 3) A Encarnação do Filho de Deus; 4) A rela­ção entre Jesus Cristo e o Reino de Deus; 5) A autoconsciência de Jesus; 6) O valor salvífico da morte de Jesus.

Jon Sobrino é um jesuíta, teólogo espanhol, que mora em EI Salva­dor (América Central). É um dos mais exponenciais autores da Teologia da Libertação. Escreveu várias obras, cujo conteúdo contraria a doutrina católica. Em conseqüência, em outubro de 2001 começou um processo da Congregação para a Doutrina da Fé a fim de averiguar os pontos dis­cutíveis e ouvir a respeito o autor. Visto que este, repetidamente interro­gado, manteve suas concepções, a mesma Congregação houve por bem publicar uma Notificação, que explica ao público o que é inaceitável nas obras do teólogo. O povo de Deus tem o direito de saber exatamente o que a fé católica professa, e à Igreja toca o dever de lho indicar com exatidão.

Vamos, a seguir, expor os seis pontos de Jon Sobrino censurados pela Igreja, que é Mãe e Mestra.

1. Pressupostos metodológicos

“A Cristologia latino-americana determina que o seu lugar são os pobres deste mundo” (Jesu Cristo libertador). Isto quer dizer que a Cristologia tem que ser cultivada na ótica dos pobres ou tomando como referencial permanente a categoria dos pobres - o que traz conotações políticas. O teólogo professa aprofundar a fé que a Igreja ensina a todos os fiéis, sejam ricos, sejam pobres. Toca à Doutrina Social da Igreja enca­rar os problemas de ordem social.

Sobrino, além disto, julga que os grandes Concílios da Igreja antiga se afastaram progressivamente do conteúdo do Novo Testamento. - A propósito deve-se notar que os quatro primeiros Concílios da Igreja (Nicéia I 325; Constantinopla I 381; Efeso 431 e Calcedônia 451) utilizaram con­ceitos e vocábulos da cultura do seu tempo, não para se conformar a essa cultura; não foi uma helenização do Cristianismo, mas precisamente o contrário. O progresso da mensagem cristã fez que a cultura grega sofresse, e uma transformação, tornando-se instrumento para a defesa dq ver­dade bíblica.

2. A Divindade de Jesus Cristo

Sobrino afirma que nos primeiros tempos não se falava de Jesus como Deus. Esta concepção provavelmente só apareceu após a queda de Jerusalém em 70.

A propósito, porém, podem-se citar passagens do Novo Testamento que professam a Divindade de Jesus; assim Jo 1, 1; 20, 28; 1 Ts 1, 10; FI 2, 5­11; 1 Cor 12, 3; Rm 1, 3s; 10,9; CI 2, 9 … 1. Os escritores e Concílios da Igreja continuaram a professar esta mesma fé. Sobrino porém replica que no Novo Testamento se tratava de uma fé em gérmen e não explícita, A réplica não resiste à evidência dos textos citados do Novo Testamento. A confissão da Divindade de Jesus Cristo é um ponto essencial da fé da Igreja desde as suas origens, ponto este que o Novo Testamento professa claramente.

3. A Encarnação do Filho de Deus

“O Filho faz a experiência da humanidade, da vida, do destino e da morte de Jesus”, escreve Sobrino em Jesucristo, p. 308.

O autor assim estabelece uma distinção entre o Filho e Jesus, que leva a pensar na existência de dois sujeitos em Cristo: o Filho e a realida­de de Jesus; o Filho faz a experiência do humano existente em Jesus. Não se saberia dizer com firmeza que o Filho é Jesus e Jesus é o Filho. Isto renova a heresia antiga do homo assumptus (homem assumido).

Outra é a fé da Igreja formulada pelo Concílio de Calcedônia nos seguintes termos: “Ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e perfeito na hu­manidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, de alma racional e corpo, consubstancial ao Pai segundo a Divindade e consubstancial a nós conforme a humanidade”.

Dessa noção de Encarnação resulta o que se chama “communicatio idiomatum” (comunicação de propriedades), ou seja, a possibilidade de atribuir as propriedades da humanidade à Divindade, e vice-versa. Pode-se dizer: “Jesus, como Deus, ressuscitou Lázaro” e “Jesus, como homem, mor­reu na Cruz”. Há um só sujeito de tudo que Jesus faz; tal sujeito é Deus Filho que age ora através do poder divino, ora através da fragilidade humana.

Ora Sobrino destoa desta concepção ao dizer: “A compreensão adequada da comunicação de propriedades é a seguinte: o humano, limi­tado como é, pode ser atribuído a Deus, mas o Divino, ilimitado como é, não pode ser atribuído a Jesus” (La fe, p. 408).

Em Cristo há uma só Pessoa, um só sujeito e duas naturezas (a divina e a humana). Tal é a fé da Igreja.

4. Jesus Cristo é o Reino de Deus

Jon Sobrino considera o Reino de Deus como algo distinto do pró­prio Jesus.

O autor distingue entre mediador e mediação com certa sutileza. - Ora a fé da Igreja ensina que Jesus é o próprio Reino de Deus inaugurado na terra. Não basta atribuir a Jesus uma certa intimidade com o Reino. Jesus Cristo e o Reino se identificam na pessoa de Jesus: nele o Reino já se faz presente. O Reino de Deus não é um conceito, uma dou­trina, um programa, mas é, acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem de Deus Invisível.

Pode e deve dizer-se que Jesus Cristo tem, para o gênero humano e para a sua história, um significado e um valor singulares e únicos, só a Ele próprios, exclusivos, universais e absolutos. Jesus é de fato o Verbo de Deus feito homem para a salvação de todos.

5. A autoconsciência de Jesus Cristo

Segundo Sobrino, Jesus foi um crente extraordinário, a fé foi a artéria central de toda a vida de Jesus; Ele teve fé como qualquer outro ser humano.

A estas afirmações respondemos, citando textos do Novo Testa­mento, como Mt 11,25-27, em que se lê:

“Tudo me foi dado por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar” (cf. Lc 10, 21s).

Os Evangelhos manifestam a única e singular intimidade de Jesus com o Pai.

Jesus, Filho de Deus feito carne, tem um conhecimento oriundo e imediato do seu Pai, ou seja, uma visão que vai além dos parâmetros da

fé. A união hipostática e a sua missão de Mestre e Redentor requerem a visão do Pai e o conhecimento do seu plano de salvação. É o que indicam os textos do Evangelho.

Se Jesus fosse um crente como nós, não poderia introduzir os ho­mens no mistério do amor divino. Para cumprir sua missão, ele necessita­va da intimidade com o Pai, que decorria do conhecimento direto e imedi­ato do Pai.

6. O valor salvífico da morte de Jesus

Segundo Sobrino, Jesus não atribuiu à sua morte um valor salvífico.

Foram os escritores do Novo Testamento que lhe deram o valor de sacri­fício expiatório, satisfação vigária (em favor dos homens). A morte de Jesus tem apenas um valor moral, isto é, vem a ser um exemplo de cora­gem e coerência para todos os homens. Esse exemplo eloqüente deve atrair os homens à entrega total ao Pai.

Ora quem assim escreve, não está levando em conta os textos do Novo Testamento em que o próprio Jesus atribui à sua morte um valor redentor e expiatório. Tenha-se em vista, por exemplo, Mc 10, 45:

“O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.

Nas fórmulas de instituição da S. Eucaristia ressoa o mesmo moti­vo da expiação salvífica. Assim em Lc 22, 19s:

“Isto é o meu corpo, que é dado por vós … Este cálice é a nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós”; Ct. Mt 26,26­28; Mc 14, 23s; 1Cor 11, 23-25.

Com outras palavras: Jesus não foi somente causa exemplar, mas foi também causa eficiente da nossa salvação. O Concílio de Trento (séc. XVI), retomando palavras de São Paulo, declara: “A Ele (Cristo) propôs Deus como Propiciador pela fé no seu sangue (Rm 3, 25) pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro (1 Jo 2, 2)”.

O Catecismo da Igreja Católica diz por sua vez:

“Este plano divino de salvação pela entrega à morte do Servo, o Justo, tinha sido de antemão anunciado nas Escrituras como um mistério de redenção universal, ou seja, de resgate que liberta os homens da es­cravidão do pecado” (nQ 60i).

Conclusão

A Conclusão da Notificação propõe em síntese o papel do teólogo católico.

A Teologia é a fé que procura compreender. Por conseguinte o teó­logo parte da fé da Igreja e procura aprofundá-Ia. Essa fé da Igreja leva em conta os dados da Revelação, que valem igualmente para ricos e pobres de maneira objetiva e imparcial. Portanto não é determinada por alguma categoria social que oriente o trabalho do teólogo:

A investigação teológica dará frutos tanto mais abundantes, para o bem de todo o povo de Deus e de toda a humanidade quanto mais se inserir na corrente viva que, graças à ação do Espírito Santo, procede dos Apósto­los e foi enriquecida pela reflexão das gerações que nos precederam.

Até aqui vai o texto da Notificação. Deus julgará a consciência de Jon Sobrino. O que interessa à Igreja no seu pronunciamento sobre as obras dele, é esclarecer o povo de Deus, a fim de que este não tome o erro por verdade e guarde a pureza da fé. Referindo-se às heresias, São Paulo utiliza eloqüente comparação: “A palavra deles (hereges) é como uma gangrena que corrói” (2Tm 2, 17). A heresia é gangrena!

Tal Notificação foi assinada aos 13 de outubro de 2006 pelo Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé William Levada, com a aprovação do Papa Bento XVI.

 

1 Eis alguns textos mais significativos:

Jo 1, 1: “No princípio era o Lagos e o Lagos era Deus … O Lagos se fez carne e habitou entre nós”.

Jo 20, 28: Tomé exclama: “Meu Senhor e meu Deus!”.

FI 2, 65: “Ele (Jesus Cristo) tinha a condição divina e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo e assu­miu a condição de servo, tomando a condição humana”,

C12, 9: “Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. Mt 16, 16: ‘Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”.

A Teologia da Libertação

Filed under: Teologia — Prof. Felipe Aquino at 5:06 pm on Friday, June 29, 2007

Por D. Fernando Arêas Rifan

Fonte: Jornal Folha da Manhã em 23/05/2007 - Campos/RJ

Com a visita do Santo Padre, alguns remanescentes da Teologia da Libertação levantaram de novo a voz, o que nos obriga a recordar o ensinamento do Magistério da Igreja sobre o assunto.

A Teologia da Libertação surgiu como reação às escravidões sociais e econômicas, que todos lamentamos, mas enfatizando demasiadamente a linha social em detrimento da espiritual, tentando reduzir o Evangelho da salvação a um evangelho terrestre e, pior, dentro de uma análise marxista, com rejeição da doutrina social da Igreja. Daí partem para uma releitura essencialmente política da Sagrada Escritura, baseada no racionalismo e no modernismo.

Na verdade, o Evangelho de Jesus Cristo é mensagem de liberdade e força de libertação. Mas a libertação é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado. Seu objetivo e seu termo é a liberdade dos filhos de Deus, que é dom da graça divina. Ela exige, por uma conseqüência lógica, a libertação de muitas outras escravidões de ordem cultural, econômica, social e política, que, em última análise, derivam todas do pecado e constituem outros tantos obstáculos que impedem os homens de viver segundo a própria dignidade.

Jesus viveu num tempo de opressão social do povo de Deus pelos romanos, mas não adotou o método da teologia da libertação e sim da teologia da salvação. A sua pregação das virtudes e o combate aos vícios da alma terminaram por criar uma sociedade mais justa e solidária, sem necessidade de se imiscuir na política e nas lutas sociais.

Na Profissão de Fé do Povo de Deus, Paulo VI exprimiu bem a fé da Igreja: “Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização (…) mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens (…) suas necessidades, alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços”.

Dom Fernando Arêas Rifan
Bisbo Titular de Cedamusa
Administrador Apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney




Para citar este artigo:

RIFAN, D Fernando Arêas. Apostolado Veritatis Splendor: A Teologia da Libertação. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4286. Desde 29/6/2007.

PAPA JOÃO PAULO II - A VERDADEIRA LIBERTAÇÃO

Filed under: Teologia — Prof. Felipe Aquino at 3:26 pm on Friday, May 18, 2007

Quando se discute mais uma vez em Aparecida, na V Conferência do CELAM, também o tema “libertação”, vale a pena colocar aqui um trecho da alocução proferida pelo S. Padre João Paulo II na audiência geral de 21/02/79, em alusão ao tema “libertação”. Ele salientava índole clássica e perene deste vocábulo, que sempre esteve presente nos escritos da teologia e, por conseguinte, não é algo de novo nem de específico em nossos dias ou na América Latina. A libertação tem a sua fonte na verdade ensinada por Cristo. As palavras do Papa João Paulo II, enfatizando a libertação como conversão interior de todo homem, apresentam a autêntica maneira de se abordar o tão controvertido tema da “libertação”. 

Prof. Felipe Aquino – 18 de maio de 2007 

Palavras do Papa 

“Foi para que ficássemos livres que Cristo nos libertou (Gl 5,11). Assim a libertação é certamente uma realidade de fé, um dos fundamentais temas bíblicos, inscritos profundamente na missão salvífica de Cristo, na obra da Redenção e no seu ensinamento. Este tema nunca deixou de constituir o conteúdo da vida espiritual dos cristãos. A conferência do Episcopado Latino-Americano [Puebla, 1978] testemunha que este tema volta em novo contexto histórico; por isto deve ele retomar-se na sua profundidade própria e na sua autenticidade evangélica… 

A “teologia da libertação” é freqüentemente relacionada (algumas vezes demasiado exclusivamente) com a América Latina; é necessário, porém, dar razão a um dos grandes teólogos contemporâneos (Hans Urs von Balthasar), que justamente exige uma teologia da libertação de dimensão universal. Só são diversos os contextos, mas a realidade mesma da liberdade para a qual nos libertou Cristo, é universal. A missão da teologia é encontrar o seu verdadeiro significado nos diversos e concretos contextos históricos contemporâneos. 

O próprio Cristo relaciona, de modo especial, a libertação com a consciência da verdade: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Esta frase garante sobretudo o significado íntimo da liberdade para a qual nos liberta Cristo. Libertação significa transformação interior do homem, que é conseqüência do conhecimento da verdade. A transformação é, portanto, processo espiritual, em que o homem se aperfeiçoa na justiça e na santidade verdadeira (cf. Ef 4,24). O homem, assim amadurecido internamente, torna-se representante e porta-voz dessa justiça e santidade verdadeira nos diversos meios da vida social. A verdade tem importância não só para o crescimento da consciência humana, aprofundando deste modo a vida interior do homem; a verdade tem ainda significado e força profética. Constitui o conteúdo do testemunho e requer um testemunho. Encontramos esta força profética da verdade no ensinamento de Cristo. Como Profeta, como testemunha da Verdade, Cristo opõe-se repetidamente à não-verdade; fá-lo com grande força e decisão e muitas vezes não hesita em deplorar o que é falso. Tornemos a ler cuidadosamente o Evangelho; nele encontraremos não poucas expressões severas, como, por exemplo, sepulcros caiados, guias cegos, hipócritas, expressões que pronuncia Cristo, consciente das conseqüências que O esperam” (L’Osservatore Romano, ed. Portuguesa, 25/02/1979, p. 12). 

 

Papa fala da teologia da libertação

Filed under: Teologia — Prof. Felipe Aquino at 4:17 pm on Thursday, May 10, 2007

Aparecida 2007

Bento XVI: A Teologia da Libertação foi um “milenarismo” que não se justifica hoje

.- Em declarações concedidas hoje aos jornalistas durante o vôo rumo ao Brasil, o Papa Bento XVI assinalou que a Teologia da Libertação foi uma forma do Milenarismoque não tem justificação na atual realidade latino-americana, especialmente ante a difusão da autêntica preocupação social da Igreja.

Ao explicar que “a missão da Igreja é religiosa, mas se abre às soluções dos grandes problemas sociais“, o Pontífice disse durante a improvisada conferencia de imprensa no avião que “há sempre espaço para um debate legítimo sobre como criar as condições para a libertação humana e sobre como fazer eficaz a doutrina da Igreja e indicar as condições humanas e sociais, as grandes linhas nas quais os valores podem crescer”.

Entretanto, o Papa esclareceu que hoje “mudou profundamente a situação na qual a teologia da libertação nasceu”. “É evidente que as fáceis promessas que faziam acreditar que podem conseguir de uma revolução as condições para uma vida completa estavam equivocados; isto agora sabem todos e o ponto é como a Igreja deve estar presente na luta pela justiça: sobre isto se dividem teólogos e sociólogos”, adicionou.

O Santo Padre explicou que antes de ser Pontífice, “na Congregação para a Doutrina da Fé tratamos de fazer uma ação de discernimento para nos liberar dos falsos milenarismos e da politização”.

Bento XVI se referiu também à Teologia da Libertação como um “fácil Milenarismo, que acreditou melhorar as condições de vida com a revolução”. O Milenarismo é a heresia que acreditava na iminência do fim do mundo e o advento de um reino terreno de paz e justiça perfeitas que duraria mil anos.

As idéias da Teologia da Libertação, acrescentou o Papa, “eram errôneas, mas isto todos já sabem“.

O Santo Padre explicou também que “a mudança da situação política na América Latina propiciou também a mudança substancial da doutrina que prega” a Teologia da Libertação; e esclareceu que “o magistério da Igreja não pretendeu destruir o sentido de justiça social, mas sim reconduzi-lo pelo caminho justo”.

EU VOS EXPLICO O QUE É A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Filed under: Teologia — Prof. Felipe Aquino at 8:42 am on Wednesday, May 9, 2007

Resumo: O Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, quando Prefeito da S. Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu uma exposição sobre a Teologia da Libertação em sua forma extremada, em 18/03/84; partindo das respectivas premissas e realçando os conceitos característicos do sistema, o autor mostra que a Teologia da Libertação não trata apenas de desenvolver a ética social cristã em vista da situação sócio-econômica da América Latina, mas revolve todos as concepções do Cristianismo: doutrina da fé, constituição da igreja, Liturgia, catequese, opções morais, etc. É de crer que “a gravidade da Teologia da Libertação não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente”; é a subversão radical do Cristianismo, que torna urgente “o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela”.É importante que o público esteja consciente de que a Teologia da Libertação não é a extensão das promessas do Cristianismo aos problemas morais suscitados pelas condições sócio-econômicas da América Latina, mas é uma nova versão do racionalismo de Rudolf Bultmann e do marxismo, que utiliza a linguagem dogmática e ascética do patrimônio antigo da fé e se reveste de aspectos de mística cristã. Aos o Cardeal Joseph Ratzinger, fez uma explanação do que é a Teologia da Libertação. Tal documento é de notável importância, pois se deriva de um sábio teólogo encarregado, em Roma, precisamente da Congregação que acompanha a fé e os desvios da fé em nossos dias. (D. Estevão Bettencourt)(Fonte: Pergunte e Responderemos - Ano XXV - No 276 - 1984 )

EU VOS EXPLICO A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Cardeal Joseph Ratzinger

Para esclarecer a minha tarefa e a alinha intenção, com relação ao tema, parecem-me necessárias algumas observações preliminares: 1) A teologia da libertação é fenômeno extraordinariamente Complexo. É possível formar-se um conceito da teologia da libertação segundo o qual ela vai das posições mais radicalmente marxistas até aquelas que propõem o lugar apropriado da necessária responsabilidade do cristão para com os pobres e os oprimidos no contexto de uma carreta teologia eclesial, como fizeram os documentos do CELAM, de Medellin a Puebla._________________

1O presente número já estava impresso quando foi publicado o documento da Santa Sé sabre a Teologia da Libertação. Será objeto de estudos no próximo número. Neste nosso texto, usaremos o conceito “teologia da libertação” em sentido mais restrito: sentido que compreende apenas aqueles teólogos que, de algum modo, fizeram própria a opção fundamental marxista. Mesmo aqui existem, nos particulares, muitas diferenças que é impossível aprofundar nesta reflexão geral. Neste contexto posso apenas tentar pôr em evidência algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer as diversas matrizes, são muito difundidas e exercem certa influência mesmo onde não existe teologia da libertação em sentido estrito. 2) Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental paro a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida. Além disso, o erro não se poderia apropriar daquela parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada ali onde é o seu lugar, isto é, na fé da Igreja. Por isso, ao lado da demonstração do erro e do perigo da teologia da libertação, é preciso sempre acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recupera-la plenamente?

3) A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de vista:

a) Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão e de realização do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo muda todas as formas da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese, as opções morais;

b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na América Latina, mas não é, de modo algum, fenômeno exclusivamente latino-americano. Não se pode pensá-la sem a influência determinante de teólogos europeus e também norte-americanos. Além do mais, existe também na Índia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na África - embora nesta última esteja em primeiro plano a busca de uma “teologia africana”. A união dos teólogos do Terceiro Mundo é fortemente caracterizada pela atenção prestada aos temas da teologia da libertação;

c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Um dos mais conhecidos representantes da teologia da libertação, Hugo Assman, era sacerdote católico e ensina hoje como professor
em uma Faculdade protestante, mas continua a se apresentar com o pretensão de estar acima das fronteiras confessionais. A teologia da libertação procura criar, já desde as suas premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separações clássicas da Igreja devem perder a sua Importância,
I. O Conceito de Teologia da Libertação e os Pressupostos de sua Gênese

Essas observações preliminares, entretanto, já nos introduziram no núcleo do tema. Deixam aberta, porém, a questão principal: o que é propriamente o teologia da libertação? Em uma primeira tentativa de resposta, podemos dizer: a teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas assim como, segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política. “Nada resta fora do empenho político. Tudo existe com uma colocação política” (Gutierrez). Uma teologia que não seja “prática (o que significa dizer “essencialmente política”) é considerada “idealista” e condenada como irreal ou como veículo de conservação dos opressores no poder, Para um teólogo que tenha aprendido a sua teologia na tradição clássica e que tenha aceitado a sua vocação espiritual, é difícil imaginar que seriamente se possa esvaziar a realidade global do Cristianismo em um esquema de práxis sócio-político de libertação. A coisa é, entretanto, mais difícil, já que os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas. Exatamente a radicalidade da teologia da libertação faz com que a sua gravidade não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente, A sua colocação, já de partida, situa-se fora daquilo que pode ser colhido pelos tradicionais sistemas de discussão. Por isto tentarei abordar a orientação fundamental da teologia da libertação em duas etapas: primeiramente é necessário dizer algo acerca dos pressupostos que a tornaram possível; a seguir, desejo aprofundar alguns dos conceitos base que permitem conhecer algo da estrutura da teologia da libertação. Como se chegou a esta orientação completamente nova do pensamento teológico, que se exprime na leolog1a da libertação? Vejo principalmente três: fatores que a tornaram possível.

1) Após o Concílio, produziu-se uma situação teológica nova:a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não era mais aceitável e, por conseguinte, se deviam procurar, o partir da Escritura e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais totalmente novas;

b) A idéia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se freqüentemente em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências humanas como um novo evangelho, sem querer ,reconhecer os seus limites e problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista da história foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão;

c) A critica da tradição por parte da exegese evangélica moderna, especialmente o de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma, instância teológica inamovível que barrou a estrada às formas até então válidas da teologia, encorajando assim também novas construções.

2) A situação teológica assim transformada coincidiu com uma situação da historia espiritual também ela modificada. Ao final da fase de reconstrução após a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o término do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sensível vazio de significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga não estava em condições de dar alguma resposta. Nesta situação, as diferentes formas do neo-marxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que parecia quase irresistível à juventude universal. O marxismo, com as acentuações religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de rigor científico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos de ação com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio da miséria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da mensagem bíblica.

3) O desafio moral da pobreza e da opressão não se podia mais ignorar, no momento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até então desconhecida. Este desafio exigia evidentemente nova respostas, que não se podiam encontrar na tradição existente até aquele momento. A situação teológica e filosófica mudada convidava expressamente a buscar o resposta em um cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperança, aparentemente fundados cientificamente, das filosofias marxistas,

II. A Estrutura Gnoseológica Fundamental do Teologia do Libertação

Esta resposta se apresenta totalmente diversa nas formas particulares de teologia da libertação, teologia da evolução, teologia política, etc. Não pode, pois, ser apresentada globalmente, Existem, no entanto, alguns conceitos fundamentais que se repetem continuamente nas diferentes variações e exprimem comuns intenções de fundo. Antes de passar aos conceitos fundamentais do conteúdo, é necessário fazer uma observação a cerca dos elementos estruturais do teologia da libertação. Paro tal, podemos retomar o que já afirmamos acerca da situação teológica mudada após o Concilio. Como já disse, leu-se a exegese de Bultmann e da sua escola como um enunciado da “ciência” sobre Jesus, ciência que devia obviamente ser considerado como válida. O “Jesus histórico” de Bultmann, entretanto, apresentava-se separado por um abismo (o próprio Bultmann fala de Graben, fosso) do Cristo da fé. Segundo Bultmann, Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo. porém, encerrado no mundo do judaísmo. O resultado final dessa exegese consistiu em abalar a credibilidade histórica dos Evangelhos: o Cristo da tradição eclesial e o Jesus histórico apresentado pela ciência pertencem evidentemente a dois mundos diferentes. A figura de Jesus foi erradicada da sua colocação na tradição por ação da ciência, considerada como instância suprema; deste modo, por um lado, a tradição pairava como algo de irreal no vazio, e, por outro, devia-se procurar para a figura de Jesus uma nova interpretação e um novo significado. Bultmann, portanto, adquiriu importância não tanto pelas suas afirmações positivas quanto pelo resultado negativo da sua crítica: o núcleo da fé, a cristologia, permaneceu aberto a novas interpretações porque os seus enunciados originais tinham desaparecido, na medida em que eram considerados historicamente insustentáveis. Ao mesmo tempo desautorizava-se o magistério da Igreja, na medida em que o consideravam preso a uma teoria cientificamente insustentável e, portanto, sem valor como instância cognoscitiva sobre Jesus. Os seus anunciados podiam ser considerados somente como definições frustadas de uma posição cientificamente superada.

Além disso, Bultmann foi importante para o desenvolvimento posterior de uma segunda palavra-chave. Ele trouxe à moda o antigo conceito de hermenêutica, conferindo-lhe uma dinâmica nova. Na palavra “hermenêutica” encontra expressão a idéia de que uma compreensão real dos textos históricos não acontece através de uma mera interpretação histórica; mas toda interpretação histórica inclui certas decisões preliminares. A hermenêutica tem a função de “atualizar”, em conexão com a determinação de dado histórico. Nela, segundo o terminologia clássica, se trata de um “fusão dos horizontes” entre “então” [“naquele tempo”] e o “hoje”. Por conseguinte, ela suscita a pergunta: o que significa o então (“naquele tempo”), nos dias de hoje? O próprio Bultmann respondeu a esta pergunta servindo-se da filosofia de Heidegger e interpretou, deste modo, a Bíblia em sentido existencialista. Tal resposta, hoje, não apresenta mais algum interesse; neste sentido Bultmann foi superado pela exegese atual. Mas permaneceu a separação entre a figura de Jesus da tradição clássica e a idéia de que se pode e se deve transferir essa figura ao presente, através de uma nova hermenêutica.

A este ponto, surge o segundo elemento, já mencionado, da nossa situação: o novo clima filosófico dos anos sessenta. A análise marxista do história e da sociedade foi considerada, nesse ínterim, conto a única dotada de caráter “cientifico”, isto significa que o mundo é interpretado à luz do esquema da luta de classes e que a única escolha possível é entre capitalismo e marxismo. Significa, além disso, que toda a realidade é política e que deve ser justificada politicamente. O conceito bíblico do “pobre” oferece o ponto de partida para a confusão entre a imagem bíblica da história e a dialética marxista; esse conceito é interpretado com a idéia de proletariado em sentido marxista e justifica também o marxismo como hermenêutica legitima para a compreensão da Bíblia. Ora, Segundo essa compreensão, existem, e só podem existir, duas opções; pai isso, contradizer essa interpretação da Bíblia não é senão expressão do esforço da classe dominante para conservar o próprio poder, Gutierrez afirma: “A luta de classes é um dado de fato e a neutralidade acerca desse ponto é absolutamente impossível”. A partir dai, torna-se impossível até a intervenção do magistério eclesiástico: no caso em que este se opusesse a tal interpretação do Cristianismo demonstraria apenas estar ao lado dos ricos e dos dominadores e contra os pobres e os sofredores, isto é, contra o próprio Jesus, e, na dialético da história, aliar-se-ia à parte negativo.

Essa decisão, aparentemente “científica” e “hermeneuticamente” indiscutível, determina por si o rumo da ulterior interpretação do Cristianismo, seja quatro às instancias interpretativas, seja quatro aos conteúdos interpretados. No que diz respeito as instâncias interpretativas, os conceitos decisivos são: povo, comunidade, experiência, história. Se até então a Igreja, isto é, a Igreja Católica na Sua totalidade, que, transcendendo tempo e espaço, abrange os leigos (sensus fidei) e a hierarquia (magistério), fora a instância hermenêutica fundamental, hoje tornou-se a “comunidade” tal instância. A vivência e as experiências da comunidade determinam agora a compreensão e a interpretação da Escritura. De novo pode-se dizer, aparentemente de maneira muito científica, que a figura de Jesus, apresentada nos Evangelhos, constitui uma síntese de acontecimentos e interpretações da experiência de comunidades particulares, onde no entanto a interpretação é muito mais importante do que o acontecimento, que, em si, não é mais determinável. Essa síntese original de acontecimento e interpretação pode ser dissolvida e reconstruída sempre de novo: a comunidade “interpreta” com a sua “experiência” os acontecimentos e encontra assim sua “práxis”. Esta idéia, podemos encontra-la em modo um tanto diverso do conceito de povo, com o qual se transformou a acentuação conciliar da idéia de “povo de Deus” em mito marxista. As experiências do “povo” explicam a Escritura. “Povo” torna-se assim um conceito aposto ao de “hierarquia” e em antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão.

Afinal, é “povo” quem participa da “lula de classes”; a “igreja popular” acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o conceito de “história” torna-se instância hermenêutica decisiva. A opinião, considerada cientificamente segura e irrefutável, de que a Bíblia raciocine em termos exclusivamente de história da salvação, e portanto de maneira anti-metafísica. permite a fusão do horizonte bíblico com a idéia marxista da história que procede dialeticamente como autêntica portadora de salvação; a história é o autêntica revelação e portanto a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica. Tal dialético é apoiado, algumas vezes, pela pneumatologia. Em todo caso, também esta última, no magistério que insiste em verdades permanentes, vê uma instância inimiga do progresso, dado que pensa “metafisicamente” e assim contradiz a “história”. Pode-se dizer que o conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação. A “historicidade” da Bíblia deve justificar o seu papel absolutamente predominante e, portanto, deve legitimar, ao mesmo tempo, a passagem para a filosofia materialista-marxista, na qual a história assumiu a função de Deus.

III. Conceitos Fundamentais da Teologia da Libertação

Com isto, chegamos aos conceitos fundamentais do conteúdo da nova interpretação do Cristianismo. Uma vez que os contextos nos quais aparecem os diversos conceitos são diferentes, gostaria de citar alguns deles, sem a pretensão de esquematiza-los. Comecemos pela nova interpretação da fé, da esperança e da caridade. Com relação a fé, por exemplo, J. Sobrinho afirma: a experiência que Jesus tem de Deus é radicalmente histórica. “A sua fé converte-se em fidelidade”. Por isso Sobrinho substitui fundamentalmente o fé pela “fidelidade à história” (fidelidad a la historia, 143-144). Jesus é fiel à profunda convicção de que o mistério da vida do homem … é realmente o último … (144). Aqui produz-se aquela fusão entre Deus e história que dá a Sobrinho a possibilidade de conservar para Jesus a fórmula de Calcedônia, ainda que com um sentido completamente mudado; pode-se ver como os critérios clássicos da ortodoxia não são aplicáveis à análise dessa teologia, Ignacio Ellacuria, na capa do livro sobre este assunto, afirma: Sobrinho “diz de novo … que Jesus é Deus, acrescentando, porém, imediatamente, que o Deus verdadeiro é somente aquele que se revela historicamente em Jesus e nos pobres, que continuam a sua presença. Somente quem mantém unidas essas duas afirmações, é ortodoxo …“.

A esperança é interpretada como “confiança no futuro” e como trabalho pelo futuro; com isso elo é subordinado novamente ao predomínio da história das classes. “Amor” consiste na “opção pelos pobres”, isto é, coincide com a opção pela luta de classes. Os teólogos da libertação sublinham com força, diante do “falso universalismo”, a parcialidade e o carater partidário da opção cristã; tomar partido é, segundo eles, requisito fundamental de uma correta hermenêutica dos testemunhos bíblicos. Na minha opinião, aqui se pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma verdade fundamental do Cristianismo e uma opção fundamental não cristã, que torna o conjunto tão sedutor: o sermão da montanha é, na verdade, a escolha por parte de Deus a favor dos pobres. Mas a interpretação dos pobres no sentido da dialética marxista da histórla e a interpretação da escolha partidária no sentido da lula de classes é um salto “eis allo genos” (grego: para outro gênero), no qual as coisas contrarias se apresentam como idênticas.

O conceito fundamental da pregação de Jesus é o de “reino de Deus”. Este conceito encontra-se também no centro das teologia da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo J. Sobrinho, o reino não deve ser compreendido espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva escatogicamente abstrata. Deve ser compreendido em forma partidária e voltado para a práxis. Somente a partir da práxis de Jesus, e não teoricamente, é possível definir o que seria o reino: trabalhar na realidade histórica que nos circunda para transformá-la no reino (166). Aqui ocorre mencionar também uma idéia fundamental de certa teologia pós-conciliar que impulsionou nessa direção. Muitos apregoaram que, segundo o Concílio, se deveriam superar todas as formas de dualismo: o dualismo de corpo e alma, de natural e sobrenatural, de imanência e transcendência, de presente e futuro. Após o desmantelamento desses duolismos, resta apenas a possibilidade de trabalhar por um reino que se realize nesta história e em sua realidade político-econômica.

Mas justamente dessa forma deixou-se de trabalhar pelo homem de hoje e se começou a destruir o presente, a favor de um futuro hipotético: assim produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo.

Neste contexto gostaria de mencionar também a interpretação, impressionante e definitivamente espantosa, que Sobrinho dá da morte e da ressurreição. Antes do mais, ele estabelece, contra as concepções universalistas, que a ressurreição é, em primeiro lugar, uma esperança para aqueles que são crucificados; estes constituem a maioria dos homens: todos aqueles milhões aos quais a injustiça estrutural se impõe como uma lenta crucifixão (176 e seguintes). O crente, no entanto, participa também do senhorio de Jesus sobre a história, através da edificação do reino, isto é, na luta pela justiça e pela libertação integral, na transformação das estruturas injustas em estruturas mais humanas. Esse senhorio sobre o história é exercitado ao se repetir o gesto dê Deus que ressuscita Jesus, isto é, dando novamente vida aos crucificados da história (181). O homem assumiu o gesto de Deus e aqui a transformação total da mensagem bíblica se manifesta de maneiro quase trágica, se se pensa em como essa tentativa de imitação de Deus se desenvolveu e se desenvolve ainda.

Gostaria de citar apenas alguns outros conceitos: o êxodo se transforma em uma imagem central da história da salvação; o mistério pascal é entendido como um símbolo revolucionário e, portanto, a Eucaristia é interpretada como uma festa de libertação no sentido de uma esperança político-messiânica e da sua práxis. A palavra redenção é substituída geralmente por libertação, a qual, por sua vez, é compreendida, no contexto da história e da luta de Classes, como processo de libertação que avança, por fim, é fundamental também a acentuação da práxis: a verdade não deve ser compreendido em sentido metafísico; trata-se de “idealismo”. A verdade realiza-se na história e na práxis, A ação é a verdade. Por conseguinte, também as idéias que se usam para ação, em última instância são intercambiáveis. A única coisa decisiva é a práxis. A práxis torna-se, assim, o única .e verdadeira ortodoxia. Desta forma justifica-se um enorme afastamento dos textos bíblicos: a crítica histórica liberta da interpretação tradicional, que aparece como não-científica. Com relação ó tradição, atribui-se importância ao máximo rigor cientifico na linha de Buftmann. Mas os conteúdos da Bíblia, determinados historicamente, não podem, por sua vez, ser vinculantes de modo absoluto. O instrumento para a interpretação não é, em última análise, a pesquisa histórica, mas, sim, a hermenêutica da história, experimentada na comunidade, isto é, nos grupos políticos, sobretudo dado que a maior parte dos próprios conteúdos bíblicos deve ser considerada como produto de tal hermenêutica comunitária.

Quando se tenta fazer um julgamento geral, deve-se dizer que, quando alguém procura compreender as opções fundamentais da teologia da libertação não pode negar que o conjunto contém uma lógica quase incontestável. Comi as premissas da critica bíblica e da hermenêutica fundada na experiência, de um lado, e da análise marxista da história, de outro, conseguiu-se criar uma visão de conjunto do cristianismo que parece responder plenamente tanto às exigências da ciência, quanto aos desafios morais dos nossos tempos. E, portanto, impõe-se aos homens de modo imediato o tarefa de fazer do Cristianismo um instrumento da transformação concreta do mundo, o que pareceria uni-lo a todas as forças progressistas da nossa época. Pode-se, pois, compreender como esta nova interpretação do Cristianismo atraia sempre mais teólogos, sacerdotes e religiosos, especialmente no contexto dos problemas do terceiro mundo. Subtrair-se a ela deve necessariamente aparecer aos olhos deles como uma evasão da realidade, como uma renúncia à razão e à moral. Porém, de outra parte, quando se pensa o quanto seja radical a interpretação do Cristianismo que dela deriva, torna-se ainda mais urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela.

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À guisa de comentário, parece oportuno salientar os seguintes pontos:

1) A Teologia da Libertação não é um novo tratado teológico ao lado de outros já existentes, mas é uma nova interpretação do Cristianismo, que revira radicalmente as verdades da fé, a constituição da Igreja, a Liturgia, a catequética e as opções morais.

2) Todos os valores e toda a realidade são considerados do ponto de vista político. Uma teologia que não seja essencialmente política, é encarada como fator de conservação dos apressares no poder.

3) A dificuldade de se perceber esse caráter subversiva da Teologia da Libertação está, em grande parte, no fato de que os seus arautos continuam a usar a linguagem ascética e dogmática da Igreja, embora em chave nova. Isto dá aos observadores a impressão de que estão diante do patrimônio da fé acrescido de algumas afirmações religiosas que não podem ser perigosas.

4) A gravidade da Teologia da Libertação não é suficientemente avaliada; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente.

5) O cristão não pode ser, de forma alguma, insensível à miséria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia, para acudir cristãmente a tal situação, não lhe é necessário adotar um sistema de pensamento que é anticristão como a Teologia da Libertação; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de que sofrem os homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes. (D. Estevão Bettencourt)

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