Uma vez fui escalado para cobrir a invasão de uma propriedade, feita por famílias sem teto. A cena era no mínimo assustadora. Via pessoas completamente transtornadas, se apossando de um local que não pertencia a elas. Os olhares eram de profunda revolta e exaltação. Todos estavam dispostos a lutar até a morte, para permanecer no local. A medida em que entrávamos no “acampamento”, encontrávamos mais e mais pessoas revoltadas e dispostas a colocar toda a raiva pra fora, diante das câmeras. Foi quando um homem veio correndo em nossa direção e aos gritos dizia: “ela vai matar os cinco filhos, façam alguma coisa!.” Fomos até um espaço improvisado aos pés de uma grande caixa d’água. Encontramos uma mãe desesperada e disposta a tirar a vida dos cinco filhos pequenos, porque não tinha o que comer e nem tinha onde dormir. Ela tinha sido despejada da casa onde morava e seguiu os manifestantes, na esperança de encontrar um lugar para criar os filhos. Seu olhar era de revolta e desesperança. Conversamos com aquela mãe e pedimos que nos desse um tempo para localizar a secretária de Promoção Social. Liguei para a secretária e expus o problema. Disse que se ela deixasse aquela mãe matar os filhos, iríamos denunciar o descaso da prefeitura, que tinha projetos de moradia para a população de baixa renda. Imediatamente a secretária foi ao local e logo em seguida providenciou um aluguel social e bolsas de alimento para a mãe e as cinco crianças. Isso foi há uns 15 anos atrás, mas certamente existem situações atuais tão difíceis ou até mais duras que essa que relatei. A pergunta é: por que as autoridades não fazem sua parte no processo social? Por que é preciso gerar situações de desespero para que alguém tome a providência, que poderia ter tomado muito tempo antes? A palavra do Senhor diz que seremos cobrados por tudo aquilo que poderíamos fazer, e não fizemos. Fazer a nossa parte no processo é só uma obrigação e não precisa de promoções, publicidades e reconhecimentos. Somos um povo que se acostumou com o glamur e com o status e só queremos sucesso. Esquecemos que tudo isso é momentâneo e passageiro e quando chegarmos ao ponto, onde não somos mais lembrados, veremos que só valeu apena o que de bom deixamos. Essas coisas nunca serão esquecidas por quem um dia contou com seu empenho e você não o negou. Mesmo quando só se vê aridez e descuido com o homem e com o meio em que vive, é preciso fazer sua parte. Se pelo menos eu plantar a minha árvore, estarei garantindo a sombra que poderá abrigar, além de mim, outras pessoas que certamente vão precisar dela.
Deus abençoe!
Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
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