A história que trago hoje é bem interessante. Diz de um galo “garnizé” que foi dado de presente ao meu filho. Imediatamente fui lançado ao final dos anos 70 quando tive a chance de aprender um pouco mais sobre esse bicho, que habitava meu quintal. Então me veio a certeza de que meu menino teria belas experiências com a ave. Até porque no pacote não veio só o galo, mas também a galinha. O casal rapidamente se adaptou ao meu quintal. Terra, milho, sombra e água fresca. E já no primeiro dia de reconhecimento do terreno, o malando já soltou um canto afinado. Uma sequência repetida várias vezes. Fiquei cheio de satisfação, porque já projetava algumas experiências que meu garoto iria fazer, por exemplo quando fosse comer um dos ovos, colhidos no quintal de casa. Ou quem sabe até ver a ninhada de pintinhos caminhando com a galinha pra lá e prá cá. Então veio a primeira noite e lá pelo fim da madrugada, por volta das 5h15min, acordei com o galo enchendo os pulmões e mandando ver no canto. E logo imaginei que esse bendito iria acabar incomodando mais do que agradando a família e os vizinhos. Mas insisti com a aventura e fiz até um galinheiro pro bonito ficar mais a vontade, e quem sabe até resolver acordar um pouco mais tarde. Ledo engano! Os dias foram passando e os cantos cada vez mais executados madrugada a dentro. Até que um dia ouvi o primeiro cacarejo antes das 4h da madrugada. Aí eu vi que o caldo iria engrossar de verdade. E no mesmo dia ouvi de um vizinho que a esposa estava muito incomodada. E até busquei entender um pouco mais essa loucura do galo de interromper o sono pra cantar a plenos pulmões. Descobri que alguns estudos revelam que o canto do galo antes do amanhecer é na verdade uma forma de demonstrar  às outras aves quem é que domina aquele território. Ou seja, o bichão tava se sentindo o dono do pedaço. Então fizemos uma reunião de família e com muito custo, meu filho aceitou devolver o galo para o sítio onde ele nasceu. Duro foi pegar o casal, que me deu mais olé que Garrincha frente aos marcadores. Então deixei a noite cair e fiz o resgate das duas aves. Mais duro ainda foi ver o meu menino chorar aos prantos, que não queria ficar sem o galo. Mas depois de uns dez minutos de choro, resolveu ir comigo ao sítio e se despedir daquela criação que durou menos de um mês e nem deu tempo de colher um ovo sequer do “casal”. E ainda ouvi piada do ex-dono, que voltou a ser dono, dizendo que eu devia era ter colocado os dois penosos na panela e feito um belo ensopado. Mas a grande moral de toda essa pequena confusão é a seguinte: Nosso direito só vai até onde o direito do outro, no caso os vizinhos, começa. Se faço uma opção de forma egoísta e sem pensar no próximo, corro o risco de transformar amigos em grandes inimigos e não fazer valer a máxima: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, encontrou um tesouro.” (Eclesiástico 6,14).

Deus abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova

 

Carpinteiro dos bons, num tempo em que as portas eram feitas no formão e sob medida, o jovem barbudo e cabeludo era a cópia fiel do talento do pai que lhe ensinou o ofício. Ele nem imaginava que um dia ao dizer bata e a porta se abrirá, seria mal interpretado por alguns que preferem abrir outros tipos de portas, em vez da porta do coração. Até porque só se abre a porta do coração para quem realmente se ama. Vale lembrar que coração só tem uma porta: a da frente. 

Mas hoje as grandes mansões têm portas largas e variadas. Não só de madeira, mas de metal, vidro e até plástico. Na década de 1970 toda grande casa tinha porta da frente, porta lateral e porta dos fundos. Lembro da dona Berenice, uma vovó de descendência portuguesa, que gerou 12 filhos e deles nasceram mais de 40 netos.

A matriarca, sempre muito respeitada e querida por todos da família e da vizinhança, tinha um costume tradicional daquela época. Só abria a porta da frente em datas de celebrações importantes. Natal e Páscoa eram as mais esperadas. Era a porta com a melhor e mais moderna maçaneta da casa. A criançada vivia esperando a oportunidade de passar por ela, só pra ter o gostinho de mexer na maçaneta e sentir o estalo suave que ela fazia.

E sempre que a porta da frente era aberta, a sala estava impecável, com tacos bem encerados e reluzentes. Numa parede um quadro oval e fotos em preto e branco de dona Berenice e o esposo Francisco. Em outro canto da sala a marca de fé e respeito às coisas que são do alto. Um quadro do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, que impactava todos, tamanha serenidade e divindade que representava.

Em domingos de almoço em família, era a porta lateral que se abria. Ela dava acesso à chamada copa da casa, com uma mesa, várias cadeiras e muita conversa pra botar em dia, enquanto o som dos talheres fazia o arranjo de fundo. Ali também dona Berenice acompanhava as radionovelas, com histórias dramáticas que arrancavam suspiros e as vezes lágrimas, tamanha imaginação que aquelas ondas radiofônicas causavam. Era por aquela porta lateral também que os netos mais próximos entravam correndo pra trazer a carta da filha mais velha que morava na capital. E mais uma vez a mesa amparava as lágrimas da senhora com óculos de graus elevados. Só que agora os olhos embaçavam de saudade mesmo!

A porta dos fundos era usada todo dia. Era a porta mais larga da casa e a que sempre estava aberta o dia todo. Nela ficava o fogão a lenha que cozinhava o feijão de cada dia. O problema era a fumaça, que nem sempre seguia o caminho da chaminé e em vez disso infestava o espaço com cheiro insuportável. Outro problema era a sujeira insistente, que deixava o piso vermelhão, quase cinza de tanta poeira trazida pelos calçados de pessoas que só entravam pela porta dos fundos.

A porta dos fundos era lugar de acesso a todo tipo de gente. Entregadores mal-humorados, vizinhos interesseiros ou fofoqueiros e patos e frangos, que vez em quando resolviam carimbar o piso vermelho sextavado, com estrumes. Pela porta dos fundos também entrava o odor dos porcos, que ficavam no quintal da casa, lambuzados de lama e fezes geradas pela sobra de comida da casa e da vizinhança, também chamada de “lavagem”. Todo dia a lavagem depositada no cocho, ajudava a engordar o bicho. E no dia 24 de dezembro, o porco, já obeso de tanta porcaria, acordava todos com seu grito agonizante, gerado pelo punhal que atravessava seu “sovaco” e ia direto no coração, o transformando em ceia de Natal.

Mas quando as trevas de cada noite escura chegavam, a pequenina lâmpada incandescente, de 40 velas ajudava a encontrar o trinco da porta dos fundos, que era fechada. Afinal, nenhuma imundície dura pra sempre. E mais uma vez dona Berenice passava o rodo com pano úmido e água sanitária, pra eliminar todo o germe, mau cheiro e podridão, trazidos por quem andou lá fora e não soube tirar as sandálias dos pés para entrar no lar de sua cozinha e de seu coraçãozinho.

Afinal, nem todos tem capacidade de entender o amor de quem se dedica integralmente aos habitantes dessa casa comum e por isso estão encharcados no egoísmo e no sarcasmo da vida que os lambuza por fora e por dentro, sem que haja Berenice e água sanitária que os limpe e os façam lembrar da casa original, onde o amor nasceu e com ele o respeito e a dignidade.

Fotos: Wallace Andrade CN

A vida tem sempre caminhos e pessoas surpreendentes! Ao dar os primeiros passos numa estrada desconhecida, geramos em nossos pensamentos expectativas que fazem o coração disparar. E na medida em que avançamos pelo trecho, surgem boas e nem tão boas surpresas. Toda rota tem buracos, pedras, espinhos e troncos que atravessam o percurso. E em cada obstáculo que aparece, não dá pra parar, sentar e chorar até morrer! Preciso buscar meios de tapar os buracos, arrancar as pedras, espanar os espinhos e arrastar os troncos. Afinal a viagem precisar continuar.

E na rotina dessa estrada tem sempre alguém que ajuda a empurrar o carro de sua vida. Tem sempre aquele que pega a pá contigo e tapa os buracos. E aquele que aparece e arranca os espinhos que te causa tanta dor? E o cara que agarra a pedra ao teu lado e te motiva a fazer força? Surpresa mesmo é quando você ouve a motosserra chegando e cortando em fatias o tronco de seu caminho. Essas pessoas já estão em sua estrada, como fragmentos importantes na trilha, como anjos que nos fazem entender que Deus tem muito carinho por nós!

O problema é quando nessa estrada tem os que abrem mais buracos, lançam mais espinhos, despejam mais pedras e derrubam muitas árvores para impedir que você prossiga em sua rota de harmonia e felicidade, de certeza e esperança! Para esses é melhor não dar crédito. É louvável não darmos títulos, pois podemos ser injustos com o Senhor. Afinal, a providência Divina, que rege todas as coisas, é cercada de mistérios e permissões do Criador.

As pessoas que dificultam nosso prosseguir, podem estar até nos atrapalhando e nos atrasando, mas não serão nunca capazes de nos fazer desistir, se em suas provocações, nos encontrar dispostos e acompanhados daquelas outras pessoas que já mostraram que estão ali para nos ajudar. Pessoas em quem podemos contar sempre.

E como ponto final desse texto, é sempre bom lembrar que nas estradas desse mundo, existirão sempre pessoas prontas pra nos dizer: FAÇA O QUE EU DIGO! Difícil é ver que nem sempre são capazes de nos dizer: FAÇA O QUE EU FAÇO! Afinal a vida é feita de testemunhos reais e verdadeiros. O resto são só palavras ao vento… e pérolas aos porcos!! E no tempo de Deus, elas vão passar em nossas vidas, como os buracos, as pedras, os espinhos e os troncos que já ficaram para trás em nossa viagem terrena, rumo ao céu!!

Deus abençoe!

Wallace Andrade 
Comunidade Canção Nova
wallace.andrade@cancaonova.com

Sete dias se passaram, desde que a primavera chegou. O vento frio e a chuva dão o tom da renovação das cores e flores. As montanhas ressecadas e queimadas já encontram forças para substituir o cinza, deixado pelo fogo, pelo verde que trás a esperança de que agora vamos mudar nossa consciência e cuidar melhor daquilo que ganhamos de presente do Criador.   Será que ainda teremos quantas oportunidades para ver a natureza reverter esse triste retrato que reúne na mesma moldura, o solo desgastado, a mata queimada, as nascentes agoniadas, e as aves sem alimento e morada?  Em meio a tudo isso existem pequenos refúgios, onde o mato cresce sem medo do fogo, as folhas secam e forram o chão sem pressa de ser varrida pelo vento e as aves se alimentam o ano todo com frutos de cada época. Um desses pequenos refúgios é o meu quintal, que já teve acerola e laranja. Agora tem abacate e manga.  O legal é que no meio do mato existem ervas e sementes a alimentar os “biquinhos de lata” e o abacate que nasce nas alturas e se quebra quando cai, alimenta as sabiás. Era nela que queria chegar, mas resolvi fazer um caminho longo no texto. E o foco precisa ser na sabiá-laranjeira, muito comum na América do Sul.  O peito pintado com cor de ferrugem ilumina a terra ainda seca do inverno que partiu. Mas o canto melodioso anuncia que com a estação das flores, também inicia o tempo de reprodução desse passarinho considerado símbolo do estado de São Paulo desde o ano em que eu nasci, em 1966.  A sabiá já foi inspiração de diversos poetas, por cantar sempre o amor e a primavera. Dizem que ela migrou da Europa para a América há 20 milhões de anos. Achei muito tempo pra caber na minha cabeça, mas acho melhor você ficar com o que a pesquisa revela.  Outra curiosidade é que o nome sabiá é derivado da língua tupi, que chamava a ave de haabi’á. E o mais impressionante é saber que a sabiá não frequenta a Bacia Amazônica. Talvez seja por isso que ela não está na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, que a classificou como espécie em condição pouco preocupante de extinção.  A sábia sabia tem 23 cm de comprimento, tem o bico reto de cor amarelo-oliva, as patas cinzas, o olho negro circundado finamente de amarelo e a penugem do dorso de um tom uniforme marrom-acinzentado. Ela gosta de viver nas florestas abertas, beiras de campos e áreas de lavoura e cidades, como meu pequeno quintal.  Desde que nesses lugares exista água por perto.   Gonçalves Dias na abertura de seu célebre poema Canção do Exílio, demonstrava uma saudade especial da sabiá. Talvez porque seu canto inconfundível seja uma sinfonia única que anuncia as surpresas que sempre chegam com a primavera.

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.”

Num tempo como hoje seria até mais fácil, Gonçalves Dias matar saudade do pássaro e seu canto, tamanha quantidade de vídeos e áudios existentes nos meios eletrônicos. Mas os verdadeiros admiradores precisam vislumbrar essa criatura a futucar a banda do abacate, ou os fiapos da manga. E acima de tudo, purificar os ouvidos com uma sinfonia completa. Afinal a sabiá é só um pequenino fragmento da grandiosidade do nosso Criador, que sempre se faz presente.

“Seu som ressoa e se espalha em toda terra!” (Sl, 18)

Deus abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
wallace.andrade@cancaonova.com

Wallace Andrade é missionário da comunidade católica Canção Nova, jornalista e autor dos livros “Mãe de Milagres – Nossa Senhora Aparecida” e “Mãe de Milagres – experiência e carinho de mãe vivenciadas nos santuários da Mãe Rainha”, publicados pela editora Canção Nova. 

Um dia desses uma amiga me contava o drama que estava vivendo, por causa da visita exótica na sacada de seu apartamento. Uma coruja estava tirando o sono dela e de todos de sua casa. Hoje caminhava eu perto de sua casa e constatei a morte da ave. Creio eu que o óbito do animal foi provocado por uma descarga elétrica, pois vi seu corpo estendido no chão, próximo a um poste de alta tensão. E ao dar a notícia a minha amiga, percebi que seus olhos brilharam e deu até pra sentir um suspiro de alívio. Daí nasceu a inspiração para escrever esse post.

Sabia que uma parte da população brasileira não tem nenhuma admiração ou simpatia pelas corujas? E muitas dessas pessoas estão contribuindo para o fim de muitas dessas aves, exterminadas de forma covarde e injusta. Até hoje não se comprovou nenhuma das histórias associadas a tal ave de rapina. Só não existe coruja em algumas ilhas isoladas e em pontos extremamente frios da Terra.

Sabia também que existem registros de corujas retratadas em pinturas rupestres na França de 15 a 20 mil anos? O animal é associado a prosperidade, sabedoria e filosofia. Em muitas vezes também a coruja foi vinculada ao misterioso, desconhecido, associando-as a sinais de azar, morte e infortúnio e a entidades amaldiçoadas, como bruxas, magos e demônios.

Sabia que na Europa, o folclóre é tanto que esse tipo de ave é visto como bruxas disfarçadas? Algumas pessoas, para espantar o mal que supostamente as corujas pudessem causar, eram amarradas em árvores, pelos pés, e assim abandonadas até morrer.

Sabia que na Escócia e na Irlanda, muita gente acreditava que se uma coruja pousasse em uma janela três vezes em noites seguidas era um aviso de morte? Isso sem falar que na Roma antiga, as mortes de Júlio César, Augusto, Aurélio e Agripa são associadas ao o pio de uma coruja. Até porque a lenda dizia que ouvir o pio da coruja era presságio de morte iminente.

Na verdade estamos sempre preparados e armados contra tudo e todos. Supertições e inseguranças são sinais claros de que nossa fé não tem um nível elevado como a de santos como São Bento, por exemplo.

Sabia que durante as refeições, num penhasco onde viveu em solidão e oração por 3 anos, São Bento era visitado por um corvo? A ave de plumagem negra se alimentava das migalhas que o santo comia e foi esse corvo que pegou um pão envenenado, que o santo tinha recebido, e o levou para longe.

E as supertições associadas ao preconceito têm feito muitos recusarem ou se negarem aos dons que Deus nos concede. A ação de admirar a beleza de uma ave como a coruja, o colorido de sua plumagem, entender sua natureza e hábitos, não pode ser impedida pelo simples fato de algumas informações que chegam aos nossos ouvidos e impedem de escutar o pio único do animal. Temos medo de morrer ao ouví-lo, mas não temos medo de perder a sensibilidade para tudo que Deus criou, desde as aves e a natureza, aos dons de cura interior.

Seguimos nessa rota de colisão, abraçando tantos entulhos que os aparelhos eletrônicos vão nos fornecendo e trocamos os sons sinfônicos das matas pelos ruídos “bate-estaca” de trilhas que aceleram o pensamento, ensurdecem nossos ouvidos e cegam nossos olhos para a amplitude desse mundo criado por Deus e que tantos insistem em limitá-lo às janelas de pequenas polegadas ou supertelas da sala de estar.

“O jardim nos diz que a realidade em que Deus colocou o ser humano não é uma floresta selvagem, mas lugar que protege, alimenta e sustenta; e o homem deve reconhecer o mundo não como propriedade a ser saqueada e explorada, mas como dom do Criador, sinal de Sua vontade salvífica, dom a cultivar e proteger, de fazer crescer e desenvolver no respeito, na harmonia, seguindo os ritmos e a lógica, segundo o desígnio de Deus (cf. Gn 2,8-15)”.

Deus Abençoe! 

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
wallace.andrade@cancaonova.com

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