Ainda lembro bem o momento em que uma pequena rachadura surgiu no ovo e atrás dela um bico bem pequenino e amarelo. Foi a primeira vez que vi um pintinho lutar para nascer. Eu era um menino e na minha primeira infância tive a grata alegria de conviver com aves e bichos desse tipo. Meu papai fazia questão de me colocar em sintonia com passarinhos, galinhas, galos e pintinhos. E uma coisa que sempre me chamava a atenção era o nascimento de uma pequena ave, que depois de conseguir recortar a casca, conseguia vir pra fora e começar um novo tempo em sua vida. Mas naqueles 21 dias de expectativa, em que a galinha aquecia a prole o tempo todo, eu sabia que havia possibilidade de alguns dos 10 ou 15 ovos não completarem o ciclo. Meu pai dizia que os ovos que não nasciam pintinhos estavam gorados!  Era uma frustração muito grande ver que alguns não conseguiam vencer a luta pela vida e morriam no meio do caminho. Meu avô dizia que era por causa da trovoada que bradava nas tardes e madrugadas de verão. Minha vó dizia que a galinha não tinha dado conta de chocar todos os ovos e alguns esfriavam. E sem o calor materno eles não conseguiam se desenvolver e o ovo se estragava. O detalhe é que a galinha empurrava pra fora do ninho o ovo que gorava. Ela enchia o peito e dava pequenos cacarejos anunciando que o primeiro passeio dos pintinhos iria começar. Em cada minhoca descoberta a mãe chamava os filhos, que correndo vinham dividir a iguaria em partes quase iguais. Vez em quando tinha um mais guloso que saia correndo com o inseto no bico sem querer dividir com ninguém. Recordo esse tempo só pra lembrar o quanto a vida é repleta de pequenos e grandes milagres! Se quebramos o ovo assim que é posto pela galinha, encontramos clara, gema e muita proteína. Mas se ele é chocado com o calor ideal que o bicho naturalmente tem, o líquido vira sólido, e a expectativa vira vida. Algumas perguntas pra fechar essa conversa. Por que não deixamos Deus ser Deus em nossas vidas, assim como Ele é nos ovos que viram pintos e naqueles que goram?  Por que é cada vez mais difícil ter calor humano pelos filhos e ajudá-los a quebrarem as cascas e crescerem em amor e afetividade? Por que muita mãe prefere jogar todos os ovos pra fora do ninho, antes mesmo de comprovar se eles vão gorar ou não? As marcas do meu passado comprovam o quanto foi importante ter família, com toda simplicidade e carestia que forjaram pessoas com têmpera e capazes de suportar as trovoadas de verão sem deixar que elas gorassem nossos corações. E como os pintinhos e seus papais, sempre existe a possibilidade de matar a sede. E em cada novo gole de água, sobra um tempinho para olhar para o céu e agradecer o milagre da vida.

Deus abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova


Jornalista, missionário da Comunidade Canção Nova, escritor, casado com Valeria Martins Andrade e pai de Davi Andrade, natural de Campos dos Goytacazes-RJ.

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