FURDÚNCIO NA CASA VIRTUAL

Estou aqui na recepção de um consultório, a espera da doutora, que ainda não chegou. Então comecei um questionamento interior.  Por que as pessoas hoje estão assim? Não se preocupam mais com hora marcada e acham que todos vão ficar se distraindo com seu celular enquanto esperam o atrasado da história. E olha que a maioria, nem nota o tempo passar e a vida se embaraçar. Já pensou que a sua vida e a minha vida estão mais embaraçadas que há um ano atrás? Já pensou que passamos mais tempo com essa “coisinha” eletrônica na mão do que com livros e a própria Escritura Sagrada? Aí alguém pode se defender dizendo: “mas eu olho a bíblia no meu aplicativo de celular!” E a resposta não pode ser outra. Olhar não é mesmo que vê! O olhar é desatento e se distrái com a sequência incessante de mensagens que seu whats recebe e estampa no meio do versículo digital que você tenta ler. Ver é outra coisa. É dar 100% de atenção ao que se está lendo. Em um lugar apropriado, onde nada vai distrair sua atenção porque existe uma decisão pessoal de se informar e crescer intelectualmente com aquela formação. Ver é parar tudo que está se fazendo e olhar nos olhos de quem está tentando chamar sua atenção para vida aqui, fora de sua janelinha eletrônica. Tenho ouvido relatos de quem viu sua casa se transformar num “furdúncio” (pronúncia plagiada da amiga e jornalista Letícia Gava),  simplesmente porque nem um e nem outro da casa consegue mais deixar os afazeres eletrônicos em troca das tarefas domésticas.  É sim uma inversão de papéis. O lazer virou obrigação porque não se consegue mais deixar de fazer postagens diárias e de verificar o tempo todo se o número de visualizações aumentou. Isso sem contar com o veneno da curiosidade que aguça o desejo de saber o que estão falando nas redes e o que eu ainda não sei. Ninguém quer ficar de fora da última “fofoca” do momento, da nova dica do influencer digital, ou a grande descoberta da medicina popular. Isso tudo só pra dizer que está por dentro de tudo que acontece. E vivendo desse jeito, conectado o tempo todo, a obrigação real, virou algo exporádico. Faço as obrigações de casa, quando sobrar tempo. Isso é sério e muito grave. Tem dona de casa deixando o pó se acumular nos quartos e na sala, a cozinha está cheia de panelas encardidas, porque deixar tudo brilhando toma muito tempo. E aos domingos então? Tem muitos pais e filhos que não têm mais aquele almoço saboroso e prazeroso em família. Não dá tempo né?  Simplesmente as vovós estão em extinção e as mamães estão em conexão. E muitas querem ter um milhão de amigos virtuais. Por isso não conseguem mais fazer como as vovós faziam. Será que ainda dá tempo do pai regular a torneira que pinga insessantemente no banheiro? Ou ele prefere ficar controlando suas postagens, porque acha isso mais importante? Será que dá tempo de retomar a vida real em família, com missa dominical, almoço com pudim de leite moça de sobremesa e aquela prosa gostosa e cheia de histórias divertidas do passado? Ou até isso a vida virtual vai levar pra sempre de nossas casas?  Sei que os questionamentos são muitos, mas creio que a resposta certa é sempre uma só. Que eu e minha casa continuemos a desejar um ao outro, em vez de postagens e conexões o tempo todo. E que juntos continuemos a servir o Senhor. E que nenhum robô seja capaz de roubar a cena que revela todos os dias para mim e para os meus, “como é linda a nossa família!!!”

Deus abençoe!

 

 

 

 

 

 

 

Wallace Manhães de Andrade
Missionário, Jornalista e Escritor
Comunidade Canção Nova 
e-mail: wallace.andrade@cancaonova.com


Jornalista, missionário da Comunidade Canção Nova, escritor, casado com Valeria Martins Andrade e pai de Davi Andrade, natural de Campos dos Goytacazes-RJ.