Ser profeta: a força de Deus na fraqueza humana

O que significa ser profeta hoje? Na Bíblia, o profeta é alguém que permite à Palavra de Deus atravessar sua vida e alcançar o mundo. A missão profética nasce justamente na fraqueza humana e se manifesta quando homens e mulheres deixam Deus falar através de suas palavras, escolhas e atitudes. Por isso, compreender o que é ser profeta e como a Palavra de Deus se encarna na vida ajuda-nos a perceber que a vocação profética não pertence apenas aos grandes personagens bíblicos — ela continua viva na história e também nos chama hoje.

A força de Deus na fraqueza humana

Os portadores da Palavra de Deus, muitas vezes, não pertencem às personalidades mais fortes. Ao contrário, seu caráter aparece marcado pela fraqueza, por limites ou até por contradições humanas.

É nesse contexto que compreendemos melhor quem são os profetas na história da salvação. Na Palavra de Deus, encontramos figuras surpreendentes: o proprietário de terras ou criador de gado que Deus tira do seu ofício para enviá-lo a profetizar em terra estrangeira (Amós); o marido traído que descobre Deus em sua própria humilhação (Oseias); o profeta que vai se consumindo, página após página, nos fracassos de sua missão (Jeremias); o profeta contra a própria vontade (Jonas); e, para que nada falte, até mesmo um profeta que permanece em silêncio (Ezequiel).

Mas o cenário não termina aí. Junto aos verdadeiros profetas também surgem os falsos profetas, que, com palavras agradáveis, confundem o povo, desacreditam o profeta autêntico e tentam neutralizar a Palavra de Deus.

Isso mostra que a profecia nunca acontece em terreno neutro: ela sempre nasce no meio de tensões, discernimentos e escolhas.

João Batista acolhendo um pecador para batizar

A Palavra que provoca decisão

Também é preciso considerar as muitas fraquezas e resistências daqueles que escutam: autoridades e povo.

Alguns dizem aos profetas:

“Não nos mostreis o que é reto; falai-nos de coisas agradáveis, mostrai-nos ilusões” (Is 30,10).

Outros adiam o cumprimento das advertências (Ez 12,21-28), tratam o profeta como um simples influencer da moda (Ez 33,31-33), proíbem-no de falar (Am 7), acusam-no de falsidade e chegam a persegui-lo até a morte (Jeremias).

Mesmo assim, chamados por Deus de mensageiros e testemunhas, sentinelas e purificadores, os profetas vivem muitas vezes em tensão. Alguns chegam a sentir-se “seduzidos por Deus” (Jr 20), enquanto outros são rotulados como profetas da desgraça.

Ainda assim, a Palavra que carregam não perde sua força:

“Será que minha palavra não é como fogo ou como marreta de quebrar pedras?” (Jr 23,29).

Olhando para a história, poderíamos até dizer que a palavra profética, muitas vezes. parece não se cumprir, e que os profetas acabam sendo vistos como tolos ou fracassados:

“Por que fui eu saí do seu ventre, para só ver tormento e dor, para terminar os meus dias na vergonha?” (Jr 20,18).

Eis o mistério da Palavra de Deus: aquilo que parece fragilidade é, na verdade, o caminho pelo qual Deus manifesta o Seu poder.

Quando a própria vida se torna profecia

Deus chama os profetas de um modo muito concreto: Ele entra na sua história, interrompe suas atividades e toma suas vidas para o Seu serviço. Escolhe-os no meio da vida comum e os prepara desde antes de nascerem.

Isso não significa que o profeta passe o tempo todo anunciando. Certa vez, São Francisco disse ao seu irmão: “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras.” 

O essencial é estar disponível. O profeta vive atento, pronto para responder quando Deus chama:

“Não digas: ‘Sou apenas um menino’, pois irás a todos a quem enviar, e dirás tudo que eu te mandar dizer” (Jr 1,7).

É dessa forma que algo mais profundo acontece: não é apenas a palavra do profeta que se torna mensagem, é a própria vida.

Em um mundo atravessado por conflitos que alcançam todos os cantos do planeta, todos nós somos chamados a despertar do torpor da “impotência”, daquela resignação que nos leva a desacreditar na possibilidade de um mundo sem guerras, na paz e no amor entre irmãos.

É justamente neste momento da história que o profeta profetiza em carne viva.

Começando pelo que está ao nosso alcance: promovendo a harmonia e o diálogo em nossas famílias, em nossas comunidades paroquiais e em nossas cidades; assumindo um compromisso concreto com a reconciliação e a paz entre as pessoas, ultrapassando diferenças, tradições e culturas e, sobretudo, assumindo o compromisso com a oração.

Comunicar é mais que falar de Deus

É por isso que Padre Jonas Abib afirma em Nossos Documentos (n. 756):

Evangelizar é mais do que falar do Evangelho, é mais do que pregar o Kerigma. Evangelizar é comunicar Jesus Cristo, é comunicar a vida nova que Ele nos trouxe: o Seu Evangelho.

E continua:

Dizemos “comunicar” porque o que se faz é transmitir Vida. Transmitir o que somos, o que vivemos. Estamos “ligados” no Deus que comunicamos, na vida que comunicamos, e “ligados” nas pessoas a quem comunicamos Deus pela nossa Missão. Nossa Missão é evangelizar. É comunicar o Cristo com quem vivemos. É comunicar a vida que com Ele vivemos. (ND 757)

Homens e mulheres a serviço da Palavra

O profeta é um homem e uma mulher da Palavra. Isso significa colocar à disposição de Deus, sobretudo, a própria linguagem.

É como se entregassem a carne e o sangue, a vida e a expressão da sua língua, para que nela se encarne a Palavra de Deus.

Deus se encarna em nossa palavra a partir de dentro: Ezequiel precisa comer e assimilar o rolo; Jeremias sente a palavra de Deus como uma lava ardente em seu interior. Por isso o profeta precisa trabalhar a palavra com fidelidade e esforço, como um verdadeiro artesão, dentro de si mesmo.

Pe. Jonas estudando a Palavra de DeusPadre Jonas chamava esse trabalho interior de ruminação. É preciso ruminar a Palavra como os animais fazem com o alimento.

Na natureza, os animais ruminantes — como o boi ou a ovelha — mastigam o alimento, engolem e depois o trazem de volta à boca para mastigá-lo novamente, até que ele seja totalmente assimilado.

Padre Jonas usava essa imagem para explicar nossa relação com a Palavra de Deus. Não basta apenas ler ou escutar a Palavra uma vez. É preciso voltar a ela, meditá-la, guardá-la no coração e permitir que ela ilumine nossa vida.

Assim, a Palavra deixa de ser apenas algo que ouvimos e passa a tornar-se vida dentro de nós.

Como Padre Jonas costumava dizer: em nossa vida, 90% é transpiração e 10% inspiração.

Quando a Palavra assume uma linguagem

Padre Jonas também nos ensina que a Canção Nova possui uma linguagem própria. Encarnamos a missão de Jesus, de Paulo e de Dom Bosco, que certamente estariam hoje utilizando todos os meios de comunicação para evangelizar.

Mas, como afirma a Evangelii Nuntiandi (n.19), para a Igreja não se trata apenas de pregar o Evangelho a espaços cada vez maiores ou a multidões, mas de transformar, pela força do Evangelho, os critérios de julgamento, os valores, os centros de interesse e os modelos de vida da humanidade.

Os profetas nos ensinam que, em suas palavras, consagra-se a própria história da salvação. Nelas encontramos a experiência concreta de homens e de um povo que encontram Deus no meio da vida e da própria história.

Por isso, a Evangelii Nuntiandi recorda que é preciso evangelizar não de maneira superficial ou decorativa, mas de maneira vital e profunda, até as raízes das culturas humanas (EN 20).

Poucas linguagens na história foram tão fecundas quanto a dos profetas bíblicos.

E é justamente nessas palavras humanas que se encarna e se comunica a Palavra de Deus, dirigida aos homens por meio de homens.

Diante disso, a pergunta permanece: em que parte da nossa vida Deus quer hoje fazer ecoar a sua Palavra?

Campanha Vocacional 2026–2027

Preparai o Caminho do Senhor

João preparou a Primeira Vinda.

A Canção Nova existe para preparar a Segunda.

Essa voz ainda ecoa.

Vamos juntos preparar o caminho do Senhor?

Faça inscrição no Vocacional Canção Nova – https://linktr.ee/vocacionalcancaonova

Graziele, escritora do artigoGraziele R. Lacquaneti é missionária da Comunidade Canção Nova há mais de 30 anos, celibatária consagrada e formada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda. Atualmente, é pós-graduanda em Sagradas Escrituras e coordena o setor de Produção Digital de Conteúdos Formativos da Comunidade Canção Nova, atuando na evangelização e formação cristã por meio das mídias digitais.

 

Comments

comments