Retorno ao catolicismo

Filed under: Religiões, Igreja — Prof. Felipe Aquino at 6:57 pm on Wednesday, May 9, 2007

Presidente da Sociedade Teológica Evangélica retorna à Igreja Católica

WASHINGTON DC, 08 Mai. 07 (ACI).- Francis Beckwith renunciou esta semana a seu cargo de Presidente da Sociedade Teológica Evangélica (ETS). O motivo: retornou à Igreja a Católica onde cresceu e que abandonou para abraçar o protestantismo.

Conforme sustenta em um blog, “não acredito que seja possível que a ETS conduza seu negócio e seus assuntos de forma que impulsione o Evangelho de Cristo, enquanto eu seja seu presidente. Por isso, desde em 5 de maio renuncio ao cargo de presidente da ETS e membro de seu comitê executivo”.

Beckwith relata que começou sua volta à fé em que cresceu, quando decidiu ler a alguns bispos e teólogos dos primeiros séculos da Igreja. “Em janeiro, por sugestão de um amigo querido, comecei a ler aos Padres da Igreja assim como alguns trabalhos mais sofisticados sobre a justificação em autores católicos. Comecei a convencer-me que a Igreja primitiva é mais católica que protestante e que a visão católica da justificação, corretamente compreendida, é bíblica e historicamente defensável”.

O perito estava disposto a retornar à Igreja Católica quando terminasse seu serviço como presidente em novembro do próximo ano. Entretanto, seu sobrinho de 16 anos pediu para ser seu padrinho de confirmação no próximo dia 13 de maio e por isso reconsiderou sua decisão.

Segundo Beckwith, “não podia dizer ‘não’ a meu sobrinho querido, que credita na renovação de sua fé em Cristo a nossas conversas e correspondência. Mas para fazê-lo, devo estar em total comunhão com a Igreja. Por isso, em 28 de abril passado recebi o sacramento da Confissão”.

Beckwith espera que sua partida permita à Sociedade Teológica Evangélica estudar a tradição da Igreja em uma forma que não seria possível com ele de presidente.

“Há uma conversa que deve realizar-se na ETS, uma conversa sobre a relação entre Evangelismo e o que se chama ‘Grande Tradição’, uma tradição da qual todos os cristãos podem traçar sua paternidade espiritual e eclesiástica. É uma conversação que eu recebo com agrado, e na espero ser participante. Mas minha presença na ETS como presidente, concluí, diminui as possibilidades de que ocorra esta conversa. Só exacerbaria a desunião entre cristãos que precisa ser remediada”.

O ex-presidente também enfatizou seu agradecimento a ETS. “Sua tenaz defesa e prática da ortodoxia cristã é que sustentou e nutriu a quem tenho encontrado nosso caminho de volta à Igreja de nossa juventude”.

Embriões congelados

Filed under: Bioética — Prof. Felipe Aquino at 3:32 pm on Wednesday, May 9, 2007

Adotar embriões congeladosDr. FRANCESCO SCAVOLINI - FRANCESCO SCAVOLINI, 51, doutor em jurisprudência pela Universidade de Urbino (Itália), é especialista em direito canônico.

f.scavo@uol.com.br

Usar embriões humanos para supostamente curar equivale a matar idosos doentes para aproveitar seus órgãos em favor de jovens

OS CASAIS espanhóis, italianos e americanos que há pouco mais de dois anos adotaram embriões congelados destinados à destruição são hoje pais felizes por terem salvo vidas humanas. O primeiro “floco de neve” que veio à luz se chama Gerard. Sua história traz importantes ensinamentos.
Quando foi implantado no ventre de Eva Tarrida, mulher espanhola de 41 anos, Gerard era um embrião congelado havia sete anos. A salvação de Gerard foi um projeto da clínica Marqués (Barcelona, Espanha), que visa unir mulheres que desejam ter filhos com embriões produzidos a mais em processos de fertilização in vitro e rejeitados pelos pais “naturais” -logo, destinados à destruição e à morte.
No Brasil, vários cientistas, em suas declarações na mídia, não se cansam de definir os embriões congelados como “material inviável” que deveria ser sacrificado nas pesquisas para a suposta obtenção das “milagrosas” células-tronco embrionárias (células cuja aplicação só produziu, no mundo inteiro, teratomas, isto é, tumores).
Gostaria de ver um eventual encontro desses cientistas com Eva Tarrida e o ex-embrião Gerard, congelado por sete anos, para ver se teriam coragem de chamá-lo de “material inviável”!
Talvez tais cientistas ignorem que um dos mais ferrenhos defensores da pesquisa com embriões, o cientista Robin Lovell-Badge, teve de admitir que o único modo de averiguar a morte e, portanto, a inviabilidade de um embrião, é transferi-lo para seu ambiente ideal, o útero, pois já ocorreu que embriões julgados inviáveis em laboratório se desenvolvessem no ventre materno e nascessem. A imprensa internacional relatou, inclusive, nascimentos fruto de embriões congelados por mais de 11 anos!
Na verdade, usar -portanto, matar- os embriões humanos para supostamente curar doentes equivale a matar idosos doentes com a justificativa de aproveitar seus órgãos para curar doentes jovens (uma lógica digna do pior pensamento nazista!). Por isso, esperamos que o Supremo Tribunal Federal julgue inconstitucional o artigo 5º da Lei de Biossegurança, que autoriza o uso e a destruição de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro, acolhendo o “grito” de seres humanos inocentes -os embriões- levado à nossa Suprema Corte pelo então procurador-geral da República Claudio Fonteles.
De fato, nossa Constituição, em seu artigo 5º, garante “a inviolabilidade do direito à vida”. Essa norma é uma das cláusulas pétreas da nossa ordem jurídica, fundamentando inclusive o artigo 2º do novo Código Civil, o qual afirma que “a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”.
É urgente que as competentes autoridades permitam a adoção dos embriões congelados e rejeitados pelos pais “naturais”. Ao mesmo tempo, é preciso que o poder público reconsidere a fertilização in vitro de óvulos humanos, vetando-a, pois a possibilidade de fazer nascer embriões congelados não pode absolutamente ser uma justificativa para continuar ou, pior, para incentivar a “produção” ou a “fabricação” de seres humanos.
A vida humana pertence exclusivamente a Deus, e os esposos são chamados a viver como fiéis intérpretes do Seu desígnio, sabendo que a vida dos seres humanos e a missão de transmiti-la não se confinam ao tempo presente nem se podem medir ou entender só por esse tempo, mas estão relacionadas com o destino eterno de cada homem e de cada mulher.
A ciência e a técnica são dons de Deus à humanidade, para que esta possa melhorar a qualidade da vida e torná-la mais humana, respeitando os limites éticos e morais, sem os quais corre o risco de aniquilar a si mesma e à própria natureza.
Recentemente, um dos mais importantes e respeitados jornais da Itália publicou uma reportagem assustadora sobre a incidência de algumas formas de doença -especialmente o autismo- nas crianças fruto da inseminação in vitro (”Corriere della Sera”, 14/8/06).
Tudo isso representa um sinal evidente de que o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus, não pode ser reduzido a objeto. Dizia o saudoso papa João Paulo 2º que “o caminho ensinado por Cristo é aquele do respeito pelo ser humano”. Certamente, para o cristão, o mistério de ser humano e de tudo o que existe é tão profundo que se torna inesgotável para a investigação humana.
Ao contrário, quando o homem, como um novo Prometeu, constituindo-se presunçosamente em único juiz do bem e do mal, faz do progresso o seu ideal absoluto, acaba sendo esmagado pelo mesmo progresso. O século que acaba de se encerrar, por meio das ideologias que marcaram tristemente sua história e das guerras que o feriram profundamente, está diante dos olhos de todos para mostrar qual é o resultado dessa presunção.


Entrevista com o Presidente da CNBB

Filed under: Entrevistas, Educação, Igreja — Prof. Felipe Aquino at 3:23 pm on Wednesday, May 9, 2007

08 de maio, 2007 - 09h41 GMT (06h41 Brasília)Para presidente da CNBB, educação sexual induz à promiscuidade

 
O cardeal dom Geraldo Majella
Dom Geraldo Majella diz que Igreja fará campanha contra aborto se houver plebiscito

O presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal dom Geraldo Majella, diz que o programa de educação sexual do governo federal induz à promiscuidade, ao promover a distribuição de preservativos.

“Favorecer uma educação, para quê? Para estimular a precocidade da criança, do adolescente, como no caso da camisinha. Será que isso é educativo? Isso é induzir todos à promiscuidade”, afirmou dom Geraldo em entrevista à BBC Brasil, poucos dias antes de encerrar seu mandato à frente da CNBB, nesta quarta-feira, e transmitir o cargo ao arcebispo de Vitoria da Conquista, dom Geraldo Lyrio Rocha, eleito na semana passada.

Mas ele diz que “é difícil” orientar um casal casado a não usar preservativo para prevenir doenças. “É difícil orientar. Mas nós não temos suficiente possibilidade de dizer faça assim ou faça de outro modo”, afirmou dom Geraldo.

Dom Geraldo também criticou a iniciativa do ministro da Saúde, José Ramos Temporão, de promover um debate sobre o aborto, e disse que se houver um plebiscito para legalizar a prática, a Igreja fará uma grande campanha para incentivar os fiéis a votarem contra.

O cardeal disse ainda que está decepcionado com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em quem depositou esperanças por seu passado de trabalhador e líder sindical.

“Não estou satisfeito plenamente. Já se passou um mandato inteiro. Privilegiou sempre o capital e não o trabalho”, afirmou.

BBC Brasil - Dom Geraldo, duas questões surgiram nas últimas semanas envolvendo de alguma maneira convicções da Igreja. O ministro da Saúde quer fazer um debate e até propor um plebiscito para a população brasileira sobre o aborto. A Igreja Católica é contra, nós sabemos, mas o que a Igreja pretende fazer para influenciar esse debate ou até evitar que ele aconteça?

Dom Geraldo Majella - Se for confirmado o plebiscito, vamos fazer uma campanha grande de esclarecimento para levar nossos fiéis a assumirem com responsabilidade uma resposta negativa a este plebiscito.

BBC Brasil - O argumento do Ministério da Saúde é que milhares de mulheres morrem de complicações decorrentes de abortos feitos sem segurança. Este argumento de alguma maneira sensibiliza a Igreja?

Dom Geraldo - Não, a gente sabe que a Saúde deve socorrer todos os casos de acidentes. E até mesmo de quem procurou (o aborto), contrariando todo o mandamento de não matar, e teve conseqüências. Claro que nós não vamos deixar de socorrer, isso é uma necessidade.

BBC Brasil - A outra questão são as pesquisas com células-tronco, onde a situação é inversa, já que elas são permitidas e podem vir a ser proibidas pelo Supremo Tribunal Federal. Como a Igreja está agindo neste caso?

Dom Geraldo - Nós não somos contra as pesquisas. Há tantos modos de buscar aquilo que é tanto noticiado em toda parte, que as células-tronco são milagrosas, quase. Primeiro, as pesquisas ainda estão bastante longe. Não é de hoje para amanhã, como a opinião pública, que não é informada suficientemente, pode pensar. Não é usar aí um feto, um embrião, e já está resolvido.

BBC Brasil - Mas a igreja é totalmente contra essas pesquisas da maneira que elas são permitidas atualmente?

Dom Geraldo - Claro, porque não se pode fazer morrer alguém para pesquisa. Nós não concordamos que sejam sacrificados embriões. Não se pode matar um para que o outro viva.

BBC Brasil - Outro ponto polêmico é o uso de preservativos. Há pouco tempo, surgiu a possibilidade de a Igreja vir a permitir o uso da camisinha entre casais casados para evitar a Aids. Qual é a orientação que um padre brasileiro deve dar a um casal quando um dos dois tem a doença, que não tem cura, e cuja contaminação pode ser evitada com o uso do preservativo?

Dom Geraldo - Se é que vão vir novas orientações da Santa Sé - nós não recebemos nada. Nós procuramos não ter saídas fáceis para todos os problemas que acontecem. É importante levar as pessoas a tomar uma consciência de que é preciso ter sempre os cuidados para não dizer simplesmente o único remédio é este.

BBC Brasil - E como os padres são orientados na base. O que eles devem dizer para um casal nesta situação nas paróquias?

Dom Geraldo - É difícil orientar. Mas nós não temos suficiente possibilidade de dizer faça assim ou faça de outro modo. A própria Santa Sé tem muito cuidado em levar aos bispos uma orientação que seja decisiva, muito fácil. Nós seguimos os ensinamentos do papa. Nenhum bispo nem padre está autorizado a fazer qualquer concessão se ele não tem orientação da Santa Sé.

BBC Brasil - A Igreja no Brasil enfrenta dois problemas: a redução do número de fiéis e também a falta de padres. A igreja está preocupada com isso? E o que está fazendo para mudar a situação?

Dom Geraldo - Ela não está preocupada com o número. Está preocupada com o cristão, se ele é realmente cristão, se quer seguir a Cristo totalmente. Hoje, numa época de subjetivismo, de relativismo, as pessoas querem fazer a religião a seu modo. Não é fácil ser cristão, não é fácil cumprir todos os deveres, todos os mandamentos. Ou nós aceitamos o Evangelho totalmente ou não aceitamos. Pela metade não se é cristão, não se é verdadeiramente filho de Deus.

BBC Brasil - Um setor da Igreja Católica que cresceu muito nos últimos anos é a Renovação Carismática. É uma maneira de se contrapor ao crescimento das igrejas evangélicas?

Dom Geraldo - Não. É uma coisa que veio da nossa época, uma maneira que se encontrou, digamos assim. E muitos se sentem bem, e que Deus abençoe. O importante é que nenhum desses movimentos pense que é melhor do que os outros. O importante é que seja fiel ao Evangelho.

BBC Brasil - O senhor acha que a visita do papa Bento 16 pode reaproximar os fiéis das igrejas, ou ele pode ser visto apenas como personalidade por esses católicos que estão afastados?

Dom Geraldo - A figura do papa sempre foi muito querida no Brasil. Já o papa João Paulo II, que nos visitou três vezes, e andou por esse Brasil todo, sempre foi muito acolhido. O papa atual também é desejado aqui, ainda que a gente saiba que ele não tem o projeto de fazer visitas pastorais. A sua presença é bem-quista e nós desejamos e pedimos a Deus que ela suscite o desejo de conhecer melhor a sua fé. Se alguém está fechado à sua formação, procurar saber porque é católico, aprofundar o conhecimento da palavra de Deus e se abrir para a conversão.

BBC Brasil - Como o senhor avalia o governo Lula?

Dom Geraldo - Ele foi uma grande promessa para o povo, sendo um trabalhador, um metalúrgico que chegou ao poder. Ele naturalmente tem muito boas intenções, ainda que todas as escolhas de governo sejam muito discutíveis. Não há uma unanimidade de dizer que tudo vai bem. Há problemas que são problemas muito sérios, e a base é esta: primeiro, o respeito à dignidade da pessoa humana, em todos os sentidos, e sobretudo, o respeito à vida.

BBC Brasil - E o senhor acha que isso não está acontecendo?

Dom Geraldo - Ah, está aí se discutindo, no parlamento e tudo, ministérios que são da responsabilidade do governo e que promovem certas medidas que não vão na direção da defesa da vida.

BBC Brasil - Como esta discussão sobre o aborto?

Dom Geraldo - Como o aborto. E também eu vejo que a educação, não é só promover a pessoa, é algo mais profundo. Não só passar informações científicas, mas formar a pessoa para a vida. Isso deve ser desde pequeno. Uma educação que seja de qualidade, com bons professores. Porque, como aconteceu, favorecer uma educação, para quê? Para estimular a precocidade da criança, do adolescente, como no caso da camisinha. Será que isso é educativo? Isso é mau educativo, isso é mau informativo, é induzir todos à promiscuidade. Isso não é respeito à vida, nem ao verdadeiro amor. Isso é fazer com que o homem se torne um animal.

BBC Brasil - O senhor acha que as políticas do governo para educação incentivam só educação sexual e deveriam ter talvez algum aspecto de educação religiosa?

Dom Geraldo - Os verdadeiros valores que contam para a vida. Se não houver o respeito à justiça, o respeito à dignidade, à fraternidade, à solidariedade, nós não vamos formar pessoas que queiram construir uma sociedade de respeito umas com as outras. Veja as preocupações do nosso parlamento. Estão preocupados com os seus salários, que podem crescer sempre, e para aumentar um real que seja no salário minimo fazem tanta conta. É preciso dar trabalho para que todos possam cuidar de sua casa, de sua família, dignamente. Não receber esmola, mas receber trabalho.

BBC Brasil – Pode-se dizer que senhor está decepcionado com este governo?

Dom Geraldo - Não estou satisfeito plenamente. Ele fala tanto que quer, quer, mas já se passou um mandato inteiro. Privilegiou sempre o capital e não o trabalho.

BBC Brasil – A Igreja ficou muito irritada com esta discussão sobre o aborto?

Dom Geraldo - Existe um lobby muito grande. É difícil construir o bem. Você encontra logo aqueles que ajudam a levar pelo caminho que pode parecer mais largo. Mas pelo caminho que tem dificuldade, por isso precisa de dedicação, aí nós não encontramos facilmente os aliados.

 

 

Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/05/070507_domgeraldodb.shtml

EU VOS EXPLICO O QUE É A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Filed under: Teologia — Prof. Felipe Aquino at 8:42 am on Wednesday, May 9, 2007

Resumo: O Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, quando Prefeito da S. Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu uma exposição sobre a Teologia da Libertação em sua forma extremada, em 18/03/84; partindo das respectivas premissas e realçando os conceitos característicos do sistema, o autor mostra que a Teologia da Libertação não trata apenas de desenvolver a ética social cristã em vista da situação sócio-econômica da América Latina, mas revolve todos as concepções do Cristianismo: doutrina da fé, constituição da igreja, Liturgia, catequese, opções morais, etc. É de crer que “a gravidade da Teologia da Libertação não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente”; é a subversão radical do Cristianismo, que torna urgente “o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela”.É importante que o público esteja consciente de que a Teologia da Libertação não é a extensão das promessas do Cristianismo aos problemas morais suscitados pelas condições sócio-econômicas da América Latina, mas é uma nova versão do racionalismo de Rudolf Bultmann e do marxismo, que utiliza a linguagem dogmática e ascética do patrimônio antigo da fé e se reveste de aspectos de mística cristã. Aos o Cardeal Joseph Ratzinger, fez uma explanação do que é a Teologia da Libertação. Tal documento é de notável importância, pois se deriva de um sábio teólogo encarregado, em Roma, precisamente da Congregação que acompanha a fé e os desvios da fé em nossos dias. (D. Estevão Bettencourt)(Fonte: Pergunte e Responderemos - Ano XXV - No 276 - 1984 )

EU VOS EXPLICO A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Cardeal Joseph Ratzinger

Para esclarecer a minha tarefa e a alinha intenção, com relação ao tema, parecem-me necessárias algumas observações preliminares: 1) A teologia da libertação é fenômeno extraordinariamente Complexo. É possível formar-se um conceito da teologia da libertação segundo o qual ela vai das posições mais radicalmente marxistas até aquelas que propõem o lugar apropriado da necessária responsabilidade do cristão para com os pobres e os oprimidos no contexto de uma carreta teologia eclesial, como fizeram os documentos do CELAM, de Medellin a Puebla._________________

1O presente número já estava impresso quando foi publicado o documento da Santa Sé sabre a Teologia da Libertação. Será objeto de estudos no próximo número. Neste nosso texto, usaremos o conceito “teologia da libertação” em sentido mais restrito: sentido que compreende apenas aqueles teólogos que, de algum modo, fizeram própria a opção fundamental marxista. Mesmo aqui existem, nos particulares, muitas diferenças que é impossível aprofundar nesta reflexão geral. Neste contexto posso apenas tentar pôr em evidência algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer as diversas matrizes, são muito difundidas e exercem certa influência mesmo onde não existe teologia da libertação em sentido estrito. 2) Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental paro a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida. Além disso, o erro não se poderia apropriar daquela parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada ali onde é o seu lugar, isto é, na fé da Igreja. Por isso, ao lado da demonstração do erro e do perigo da teologia da libertação, é preciso sempre acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recupera-la plenamente?

3) A teologia da libertação é um fenômeno universal sob três pontos de vista:

a) Essa teologia não pretende constituir-se como um novo tratado teológico ao lado dos outros já existentes; não pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da ética social da Igreja. Ela se concebe, antes, como uma nova hermenêutica da fé cristã, quer dizer, como nova forma de compreensão e de realização do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo muda todas as formas da vida eclesial: a constituição eclesiástica, a liturgia, a catequese, as opções morais;

b) A teologia da libertação tem certamente o seu centro de gravidade na América Latina, mas não é, de modo algum, fenômeno exclusivamente latino-americano. Não se pode pensá-la sem a influência determinante de teólogos europeus e também norte-americanos. Além do mais, existe também na Índia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na África - embora nesta última esteja em primeiro plano a busca de uma “teologia africana”. A união dos teólogos do Terceiro Mundo é fortemente caracterizada pela atenção prestada aos temas da teologia da libertação;

c) A teologia da libertação supera os limites confessionais. Um dos mais conhecidos representantes da teologia da libertação, Hugo Assman, era sacerdote católico e ensina hoje como professor
em uma Faculdade protestante, mas continua a se apresentar com o pretensão de estar acima das fronteiras confessionais. A teologia da libertação procura criar, já desde as suas premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separações clássicas da Igreja devem perder a sua Importância,
I. O Conceito de Teologia da Libertação e os Pressupostos de sua Gênese

Essas observações preliminares, entretanto, já nos introduziram no núcleo do tema. Deixam aberta, porém, a questão principal: o que é propriamente o teologia da libertação? Em uma primeira tentativa de resposta, podemos dizer: a teologia da libertação pretende dar nova interpretação global do Cristianismo; explica o Cristianismo como uma práxis de libertação e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal práxis. Mas assim como, segundo essa teologia, toda realidade é política, também a libertação é um conceito político e o guia rumo à libertação deve ser um guia para a ação política. “Nada resta fora do empenho político. Tudo existe com uma colocação política” (Gutierrez). Uma teologia que não seja “prática (o que significa dizer “essencialmente política”) é considerada “idealista” e condenada como irreal ou como veículo de conservação dos opressores no poder, Para um teólogo que tenha aprendido a sua teologia na tradição clássica e que tenha aceitado a sua vocação espiritual, é difícil imaginar que seriamente se possa esvaziar a realidade global do Cristianismo em um esquema de práxis sócio-político de libertação. A coisa é, entretanto, mais difícil, já que os teólogos da libertação continuam a usar grande parte da linguagem ascética e dogmática da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que lêem e que escutam partindo de outra visão, podem ter a impressão de reencontrar o patrimônio antigo com o acréscimo apenas de algumas afirmações um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, não poderiam ser tão perigosas. Exatamente a radicalidade da teologia da libertação faz com que a sua gravidade não seja avaliada de modo suficiente; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente, A sua colocação, já de partida, situa-se fora daquilo que pode ser colhido pelos tradicionais sistemas de discussão. Por isto tentarei abordar a orientação fundamental da teologia da libertação em duas etapas: primeiramente é necessário dizer algo acerca dos pressupostos que a tornaram possível; a seguir, desejo aprofundar alguns dos conceitos base que permitem conhecer algo da estrutura da teologia da libertação. Como se chegou a esta orientação completamente nova do pensamento teológico, que se exprime na leolog1a da libertação? Vejo principalmente três: fatores que a tornaram possível.

1) Após o Concílio, produziu-se uma situação teológica nova:a) Surgiu a opinião de que a tradição teológica existente até então não era mais aceitável e, por conseguinte, se deviam procurar, o partir da Escritura e dos sinais dos tempos, orientações teológicas e espirituais totalmente novas;

b) A idéia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se freqüentemente em uma fé ingênua nas ciências; uma fé que acolheu as ciências humanas como um novo evangelho, sem querer ,reconhecer os seus limites e problemas próprios. A psicologia, a sociologia e a interpretação marxista da história foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como instâncias não mais contestáveis do pensamento cristão;

c) A critica da tradição por parte da exegese evangélica moderna, especialmente o de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma, instância teológica inamovível que barrou a estrada às formas até então válidas da teologia, encorajando assim também novas construções.

2) A situação teológica assim transformada coincidiu com uma situação da historia espiritual também ela modificada. Ao final da fase de reconstrução após a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o término do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sensível vazio de significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga não estava em condições de dar alguma resposta. Nesta situação, as diferentes formas do neo-marxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que parecia quase irresistível à juventude universal. O marxismo, com as acentuações religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de rigor científico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos de ação com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio da miséria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da mensagem bíblica.

3) O desafio moral da pobreza e da opressão não se podia mais ignorar, no momento em que a Europa e a América do Norte atingiam uma opulência até então desconhecida. Este desafio exigia evidentemente nova respostas, que não se podiam encontrar na tradição existente até aquele momento. A situação teológica e filosófica mudada convidava expressamente a buscar o resposta em um cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperança, aparentemente fundados cientificamente, das filosofias marxistas,

II. A Estrutura Gnoseológica Fundamental do Teologia do Libertação

Esta resposta se apresenta totalmente diversa nas formas particulares de teologia da libertação, teologia da evolução, teologia política, etc. Não pode, pois, ser apresentada globalmente, Existem, no entanto, alguns conceitos fundamentais que se repetem continuamente nas diferentes variações e exprimem comuns intenções de fundo. Antes de passar aos conceitos fundamentais do conteúdo, é necessário fazer uma observação a cerca dos elementos estruturais do teologia da libertação. Paro tal, podemos retomar o que já afirmamos acerca da situação teológica mudada após o Concilio. Como já disse, leu-se a exegese de Bultmann e da sua escola como um enunciado da “ciência” sobre Jesus, ciência que devia obviamente ser considerado como válida. O “Jesus histórico” de Bultmann, entretanto, apresentava-se separado por um abismo (o próprio Bultmann fala de Graben, fosso) do Cristo da fé. Segundo Bultmann, Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo. porém, encerrado no mundo do judaísmo. O resultado final dessa exegese consistiu em abalar a credibilidade histórica dos Evangelhos: o Cristo da tradição eclesial e o Jesus histórico apresentado pela ciência pertencem evidentemente a dois mundos diferentes. A figura de Jesus foi erradicada da sua colocação na tradição por ação da ciência, considerada como instância suprema; deste modo, por um lado, a tradição pairava como algo de irreal no vazio, e, por outro, devia-se procurar para a figura de Jesus uma nova interpretação e um novo significado. Bultmann, portanto, adquiriu importância não tanto pelas suas afirmações positivas quanto pelo resultado negativo da sua crítica: o núcleo da fé, a cristologia, permaneceu aberto a novas interpretações porque os seus enunciados originais tinham desaparecido, na medida em que eram considerados historicamente insustentáveis. Ao mesmo tempo desautorizava-se o magistério da Igreja, na medida em que o consideravam preso a uma teoria cientificamente insustentável e, portanto, sem valor como instância cognoscitiva sobre Jesus. Os seus anunciados podiam ser considerados somente como definições frustadas de uma posição cientificamente superada.

Além disso, Bultmann foi importante para o desenvolvimento posterior de uma segunda palavra-chave. Ele trouxe à moda o antigo conceito de hermenêutica, conferindo-lhe uma dinâmica nova. Na palavra “hermenêutica” encontra expressão a idéia de que uma compreensão real dos textos históricos não acontece através de uma mera interpretação histórica; mas toda interpretação histórica inclui certas decisões preliminares. A hermenêutica tem a função de “atualizar”, em conexão com a determinação de dado histórico. Nela, segundo o terminologia clássica, se trata de um “fusão dos horizontes” entre “então” [“naquele tempo”] e o “hoje”. Por conseguinte, ela suscita a pergunta: o que significa o então (“naquele tempo”), nos dias de hoje? O próprio Bultmann respondeu a esta pergunta servindo-se da filosofia de Heidegger e interpretou, deste modo, a Bíblia em sentido existencialista. Tal resposta, hoje, não apresenta mais algum interesse; neste sentido Bultmann foi superado pela exegese atual. Mas permaneceu a separação entre a figura de Jesus da tradição clássica e a idéia de que se pode e se deve transferir essa figura ao presente, através de uma nova hermenêutica.

A este ponto, surge o segundo elemento, já mencionado, da nossa situação: o novo clima filosófico dos anos sessenta. A análise marxista do história e da sociedade foi considerada, nesse ínterim, conto a única dotada de caráter “cientifico”, isto significa que o mundo é interpretado à luz do esquema da luta de classes e que a única escolha possível é entre capitalismo e marxismo. Significa, além disso, que toda a realidade é política e que deve ser justificada politicamente. O conceito bíblico do “pobre” oferece o ponto de partida para a confusão entre a imagem bíblica da história e a dialética marxista; esse conceito é interpretado com a idéia de proletariado em sentido marxista e justifica também o marxismo como hermenêutica legitima para a compreensão da Bíblia. Ora, Segundo essa compreensão, existem, e só podem existir, duas opções; pai isso, contradizer essa interpretação da Bíblia não é senão expressão do esforço da classe dominante para conservar o próprio poder, Gutierrez afirma: “A luta de classes é um dado de fato e a neutralidade acerca desse ponto é absolutamente impossível”. A partir dai, torna-se impossível até a intervenção do magistério eclesiástico: no caso em que este se opusesse a tal interpretação do Cristianismo demonstraria apenas estar ao lado dos ricos e dos dominadores e contra os pobres e os sofredores, isto é, contra o próprio Jesus, e, na dialético da história, aliar-se-ia à parte negativo.

Essa decisão, aparentemente “científica” e “hermeneuticamente” indiscutível, determina por si o rumo da ulterior interpretação do Cristianismo, seja quatro às instancias interpretativas, seja quatro aos conteúdos interpretados. No que diz respeito as instâncias interpretativas, os conceitos decisivos são: povo, comunidade, experiência, história. Se até então a Igreja, isto é, a Igreja Católica na Sua totalidade, que, transcendendo tempo e espaço, abrange os leigos (sensus fidei) e a hierarquia (magistério), fora a instância hermenêutica fundamental, hoje tornou-se a “comunidade” tal instância. A vivência e as experiências da comunidade determinam agora a compreensão e a interpretação da Escritura. De novo pode-se dizer, aparentemente de maneira muito científica, que a figura de Jesus, apresentada nos Evangelhos, constitui uma síntese de acontecimentos e interpretações da experiência de comunidades particulares, onde no entanto a interpretação é muito mais importante do que o acontecimento, que, em si, não é mais determinável. Essa síntese original de acontecimento e interpretação pode ser dissolvida e reconstruída sempre de novo: a comunidade “interpreta” com a sua “experiência” os acontecimentos e encontra assim sua “práxis”. Esta idéia, podemos encontra-la em modo um tanto diverso do conceito de povo, com o qual se transformou a acentuação conciliar da idéia de “povo de Deus” em mito marxista. As experiências do “povo” explicam a Escritura. “Povo” torna-se assim um conceito aposto ao de “hierarquia” e em antítese a todas as instituições indicadas como forças da opressão.

Afinal, é “povo” quem participa da “lula de classes”; a “igreja popular” acontece em oposição à Igreja hierárquica. Por fim, o conceito de “história” torna-se instância hermenêutica decisiva. A opinião, considerada cientificamente segura e irrefutável, de que a Bíblia raciocine em termos exclusivamente de história da salvação, e portanto de maneira anti-metafísica. permite a fusão do horizonte bíblico com a idéia marxista da história que procede dialeticamente como autêntica portadora de salvação; a história é o autêntica revelação e portanto a verdadeira instância hermenêutica da interpretação bíblica. Tal dialético é apoiado, algumas vezes, pela pneumatologia. Em todo caso, também esta última, no magistério que insiste em verdades permanentes, vê uma instância inimiga do progresso, dado que pensa “metafisicamente” e assim contradiz a “história”. Pode-se dizer que o conceito de história absorve o conceito de Deus e de revelação. A “historicidade” da Bíblia deve justificar o seu papel absolutamente predominante e, portanto, deve legitimar, ao mesmo tempo, a passagem para a filosofia materialista-marxista, na qual a história assumiu a função de Deus.

III. Conceitos Fundamentais da Teologia da Libertação

Com isto, chegamos aos conceitos fundamentais do conteúdo da nova interpretação do Cristianismo. Uma vez que os contextos nos quais aparecem os diversos conceitos são diferentes, gostaria de citar alguns deles, sem a pretensão de esquematiza-los. Comecemos pela nova interpretação da fé, da esperança e da caridade. Com relação a fé, por exemplo, J. Sobrinho afirma: a experiência que Jesus tem de Deus é radicalmente histórica. “A sua fé converte-se em fidelidade”. Por isso Sobrinho substitui fundamentalmente o fé pela “fidelidade à história” (fidelidad a la historia, 143-144). Jesus é fiel à profunda convicção de que o mistério da vida do homem … é realmente o último … (144). Aqui produz-se aquela fusão entre Deus e história que dá a Sobrinho a possibilidade de conservar para Jesus a fórmula de Calcedônia, ainda que com um sentido completamente mudado; pode-se ver como os critérios clássicos da ortodoxia não são aplicáveis à análise dessa teologia, Ignacio Ellacuria, na capa do livro sobre este assunto, afirma: Sobrinho “diz de novo … que Jesus é Deus, acrescentando, porém, imediatamente, que o Deus verdadeiro é somente aquele que se revela historicamente em Jesus e nos pobres, que continuam a sua presença. Somente quem mantém unidas essas duas afirmações, é ortodoxo …“.

A esperança é interpretada como “confiança no futuro” e como trabalho pelo futuro; com isso elo é subordinado novamente ao predomínio da história das classes. “Amor” consiste na “opção pelos pobres”, isto é, coincide com a opção pela luta de classes. Os teólogos da libertação sublinham com força, diante do “falso universalismo”, a parcialidade e o carater partidário da opção cristã; tomar partido é, segundo eles, requisito fundamental de uma correta hermenêutica dos testemunhos bíblicos. Na minha opinião, aqui se pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma verdade fundamental do Cristianismo e uma opção fundamental não cristã, que torna o conjunto tão sedutor: o sermão da montanha é, na verdade, a escolha por parte de Deus a favor dos pobres. Mas a interpretação dos pobres no sentido da dialética marxista da histórla e a interpretação da escolha partidária no sentido da lula de classes é um salto “eis allo genos” (grego: para outro gênero), no qual as coisas contrarias se apresentam como idênticas.

O conceito fundamental da pregação de Jesus é o de “reino de Deus”. Este conceito encontra-se também no centro das teologia da libertação, lido porém no contexto da hermenêutica marxista. Segundo J. Sobrinho, o reino não deve ser compreendido espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva escatogicamente abstrata. Deve ser compreendido em forma partidária e voltado para a práxis. Somente a partir da práxis de Jesus, e não teoricamente, é possível definir o que seria o reino: trabalhar na realidade histórica que nos circunda para transformá-la no reino (166). Aqui ocorre mencionar também uma idéia fundamental de certa teologia pós-conciliar que impulsionou nessa direção. Muitos apregoaram que, segundo o Concílio, se deveriam superar todas as formas de dualismo: o dualismo de corpo e alma, de natural e sobrenatural, de imanência e transcendência, de presente e futuro. Após o desmantelamento desses duolismos, resta apenas a possibilidade de trabalhar por um reino que se realize nesta história e em sua realidade político-econômica.

Mas justamente dessa forma deixou-se de trabalhar pelo homem de hoje e se começou a destruir o presente, a favor de um futuro hipotético: assim produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo.

Neste contexto gostaria de mencionar também a interpretação, impressionante e definitivamente espantosa, que Sobrinho dá da morte e da ressurreição. Antes do mais, ele estabelece, contra as concepções universalistas, que a ressurreição é, em primeiro lugar, uma esperança para aqueles que são crucificados; estes constituem a maioria dos homens: todos aqueles milhões aos quais a injustiça estrutural se impõe como uma lenta crucifixão (176 e seguintes). O crente, no entanto, participa também do senhorio de Jesus sobre a história, através da edificação do reino, isto é, na luta pela justiça e pela libertação integral, na transformação das estruturas injustas em estruturas mais humanas. Esse senhorio sobre o história é exercitado ao se repetir o gesto dê Deus que ressuscita Jesus, isto é, dando novamente vida aos crucificados da história (181). O homem assumiu o gesto de Deus e aqui a transformação total da mensagem bíblica se manifesta de maneiro quase trágica, se se pensa em como essa tentativa de imitação de Deus se desenvolveu e se desenvolve ainda.

Gostaria de citar apenas alguns outros conceitos: o êxodo se transforma em uma imagem central da história da salvação; o mistério pascal é entendido como um símbolo revolucionário e, portanto, a Eucaristia é interpretada como uma festa de libertação no sentido de uma esperança político-messiânica e da sua práxis. A palavra redenção é substituída geralmente por libertação, a qual, por sua vez, é compreendida, no contexto da história e da luta de Classes, como processo de libertação que avança, por fim, é fundamental também a acentuação da práxis: a verdade não deve ser compreendido em sentido metafísico; trata-se de “idealismo”. A verdade realiza-se na história e na práxis, A ação é a verdade. Por conseguinte, também as idéias que se usam para ação, em última instância são intercambiáveis. A única coisa decisiva é a práxis. A práxis torna-se, assim, o única .e verdadeira ortodoxia. Desta forma justifica-se um enorme afastamento dos textos bíblicos: a crítica histórica liberta da interpretação tradicional, que aparece como não-científica. Com relação ó tradição, atribui-se importância ao máximo rigor cientifico na linha de Buftmann. Mas os conteúdos da Bíblia, determinados historicamente, não podem, por sua vez, ser vinculantes de modo absoluto. O instrumento para a interpretação não é, em última análise, a pesquisa histórica, mas, sim, a hermenêutica da história, experimentada na comunidade, isto é, nos grupos políticos, sobretudo dado que a maior parte dos próprios conteúdos bíblicos deve ser considerada como produto de tal hermenêutica comunitária.

Quando se tenta fazer um julgamento geral, deve-se dizer que, quando alguém procura compreender as opções fundamentais da teologia da libertação não pode negar que o conjunto contém uma lógica quase incontestável. Comi as premissas da critica bíblica e da hermenêutica fundada na experiência, de um lado, e da análise marxista da história, de outro, conseguiu-se criar uma visão de conjunto do cristianismo que parece responder plenamente tanto às exigências da ciência, quanto aos desafios morais dos nossos tempos. E, portanto, impõe-se aos homens de modo imediato o tarefa de fazer do Cristianismo um instrumento da transformação concreta do mundo, o que pareceria uni-lo a todas as forças progressistas da nossa época. Pode-se, pois, compreender como esta nova interpretação do Cristianismo atraia sempre mais teólogos, sacerdotes e religiosos, especialmente no contexto dos problemas do terceiro mundo. Subtrair-se a ela deve necessariamente aparecer aos olhos deles como uma evasão da realidade, como uma renúncia à razão e à moral. Porém, de outra parte, quando se pensa o quanto seja radical a interpretação do Cristianismo que dela deriva, torna-se ainda mais urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela.

* * *

À guisa de comentário, parece oportuno salientar os seguintes pontos:

1) A Teologia da Libertação não é um novo tratado teológico ao lado de outros já existentes, mas é uma nova interpretação do Cristianismo, que revira radicalmente as verdades da fé, a constituição da Igreja, a Liturgia, a catequética e as opções morais.

2) Todos os valores e toda a realidade são considerados do ponto de vista político. Uma teologia que não seja essencialmente política, é encarada como fator de conservação dos apressares no poder.

3) A dificuldade de se perceber esse caráter subversiva da Teologia da Libertação está, em grande parte, no fato de que os seus arautos continuam a usar a linguagem ascética e dogmática da Igreja, embora em chave nova. Isto dá aos observadores a impressão de que estão diante do patrimônio da fé acrescido de algumas afirmações religiosas que não podem ser perigosas.

4) A gravidade da Teologia da Libertação não é suficientemente avaliada; não entra em nenhum esquema de heresia até hoje existente.

5) O cristão não pode ser, de forma alguma, insensível à miséria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia, para acudir cristãmente a tal situação, não lhe é necessário adotar um sistema de pensamento que é anticristão como a Teologia da Libertação; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde Leão XIII até João Paulo II de maneira cada vez mais incisiva e penetrante. Se fosse posta em prática, eliminaria graves males de que sofrem os homens, sem disseminar o ódio e a luta de classes. (D. Estevão Bettencourt)

A verdadeira libertação

Filed under: Teologia — Prof. Felipe Aquino at 8:18 am on Wednesday, May 9, 2007

A VERDADEIRA LIBERTAÇÃO ACONTECE
EM NOSSO INTERIOR

Frei Giribone MVC  

 

 

Gostaria de aproveitar o convite de nosso querido Professor Aquino para dar um pequeno testemunho sobre minha vida sacerdotal e sobre a mudança que a Efusão do Espírito Santo ocasionou em minha vida no primeiro ano de minha ordenação sacerdotal.

 Minha formação teológica foi profundamente marcada pela Filosofia e Teologia da Libertação. Parecia que nos anos 80 quem não pensasse desta forma estava em outro planeta. Eu me voltei muito para a área intelectual. Estudei muito a Sagrada Escritura e participei de muitos movimentos sociais da época, inclusive manifestações do MST, PT, etc. Sentia no fundo de meu coração um grande vazio, mas era moda e tínhamos que concordar com tudo, pois do contrário éramos taxados de “conservadores”. Eu sempre gostei muito da opção pelos pobres sempre amei trabalhar com eles. Inclusive trabalhamos três anos numa periferia de Porto Alegre RS. Não concordava com os exageros e pensava muitas vezes nas coisas que nos falavam que na realidade nos enchiam mais de ódio no coração do que de amor. Havia um grande desprezo pelos sacramentos o que muito me entristecia.

Graças a Deus que fui convidado por um grupo da Renovação Carismática Católica de Passo Fundo RS para celebrar em uma vigília de oração em 1990 recentemente ordenado. Ao final da vigília o grupo de leigos me fez um convite para rezarem por mim para que eu experimentasse a graça do Espírito Santo. No momento algo me dizia para que eu aceitasse e prontamente me prostrei no chão e todos rezaram por mim. Não sei como isto aconteceu, pois era muito orgulhoso e achava que sabia tudo e o que eram aqueles leigos que considerava um grupo de fanáticos.

Quando voltei para o seminário onde morava senti durante a noite a força do Divino Espírito Santo transformando todo o meu ser. De teórico da Fé passei a ter um grande amor por Jesus e Nossa Senhora. Tudo se modificou em minha vida. Deus seja louvado.

Hoje me encontro aqui no extremo sul do Brasil na fundação da Obra Missionária Virgem do Carmo Peregrina que tem como um de seus carismas ajudar as crianças necessitadas e os irmãos encarcerados. Tenho certeza que a verdadeira libertação acontece de dentro para fora. É a partir da vida no Espírito é que nos tornamos agentes de libertação.

Não podemos esquecer os pobres, mas precisamos ser ricos em Deus para libertarmos os mais empobrecidos. O sacramento da Eucaristia, a Reconciliação e todas as graças dadas por meio da Igreja são os meios mais eficazes que temos para que nossa ação não seja vazia.

Muitos colegas desistiram até mesmo do ministério sacerdotal, porque quiseram somente defender Jesus e não amá-lo de todo coração. Hoje necessitamos de sacerdotes que busquem uma verdadeira conversão para se tornarem agentes da verdadeira libertação que nosso povo precisa. 

Frei Giribone MVC freigiribone@vetorial.net Visite o nosso site  www.obramissionaria.org.br 

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