Igreja obscurantista e reacionária?
Este artigo de Dom Fernando Mason, Bispo diocesano de Piracicaba - SP, é muito oportuno e esclarecedor; explica um pouco mais o que o Papa Bento XVI tem condenado: ” a ditadura do relativismo”; por isso o publicamos aqui.
’Há pessoas que gostam de definir as posições defendidas pela Igreja Católica (e, conseqüentemente, a própria Igreja) como reacionárias, obscurantistas, medievais, atrasadas, fora do tempo. Dizem que, defendendo estas posições, a Igreja se aliena à opinião pública, perde fiéis ou pelo menos sua simpatia, caminha contra a história. Dizem ainda que a Igreja deveria se modernizar, caminhar com o nosso tempo. Trata-se de uma “técnica” barata que, antes de atacar alguém, busca desmoralizá-lo.
Para nós católicos, ouvir isso com tanta insistência não traz nenhuma alegria. Pode até acontecer que alguém recue, sinta-se inferior ou que paire a dúvida de que de fato sejamos conservadores, reacionários, do passado. E fique bem claro que se nós fôssemos de fato reacionários, obscurantistas e do passado, deveríamos admiti-lo, deveríamos dar-nos uma sacudida e tomar um “banho de modernidade”.
O problema é que, decididamente, nós não o somos! Nós, Igreja, somos os únicos que defendem certos valores substanciais da existência humana; que assumem o desafio de um matrimônio indissolúvel; o respeito radical à vida desde a sua concepção; a família fundada sobre o amor de homem e mulher; a sexualidade humanizada e responsável; o direito de cada criança de ter pai e mãe; a grata conservação da vida até seu desfecho natural; o amor com que devem ser acolhidos e amparados os portadores de deficiências, os anciãos e os doentes. Por que isso seria obscurantista, reacionário, do passado? E por que separação e divórcio; aborto e experiências com embriões; uniões homossexuais; pansexualismo; adoções por casais homossexuais; eutanásia e eugenia seriam progressistas, iluminados, “modernos”? Não se trata de desconhecer ou negar dramas vividos em situações limite no relacionamento esponsal, na identidade sexual, na doença terminal, etc, casos singulares que merecem e têm da Igreja o maior respeito, mas entre profundo respeito e a imposição de ter que achar normais certas soluções propostas há muita diferença.
O dicionário etimológico diz que a palavra “moderno” vem do latim tardio “modus hodiernos”, que pode ser traduzido como “modo de hoje” ou “modismo, onda de hoje”. O “modo de hoje” é o vir à tona e o manifestar-se de vigores, tendências, posturas, gostos, articulações que caracterizam uma época. É o que chamamos de “cultura”. Este “modo de hoje” é espontâneo, isto é, vem à tona por impulso próprio.
É necessário que o ser humano, individual e socialmente, analise criticamente seu “modo de hoje”, seu ser moderno e se posicione responsavelmente. A onda de hoje, o modismo impregnam nossa cultura. A utilidade como utilitarismo e a funcionalidade como funcionalismo do sujeito, seja ele uma pessoa, um grupo ou uma idéia são as forças dominadoras, exasperadas e dogmatizadas de nossa época, do nosso “modo de hoje”; são elas que estão por trás do processo de desumanização e desertificação do nosso viver.
É uma bela notícia que, em nome da utilidade e da ciência, alguns cientistas ingleses tenham pedido autorização para realizar implantes de embriões humanos em animais! Nós “modernos”, que nos consideramos iluminados e críticos com o passado, não podemos falhar na urgente e decisiva tarefa de sermos responsavelmente críticos diante de nossa própria época.
Desta tarefa, a Igreja dá conta com muita competência e iluminação, a partir da grande herança recebida de Jesus Cristo. A Igreja precisa se modernizar se entende-se que ela, a partir do Evangelho, para ser fiel ao ser humano e para participar sadiamente deste nosso tempo, deve crescer sempre mais no seu vigor crítico de nossa modernidade. Mas, longe de modernizar-se no sentido de pura e simplesmente se alinhar àquilo que todo mundo diz e faz para participar da onda acrítica do utilitarismo e funcionalismo de hoje.”
Fonte: Diocese de Piracicaba-SP
