Igreja obscurantista e reacionária?

Filed under: Igreja — Prof. Felipe Aquino at 8:45 pm on Friday, October 26, 2007

Este artigo de Dom Fernando Mason, Bispo diocesano de Piracicaba - SP, é muito oportuno e esclarecedor; explica um pouco mais o que o Papa Bento XVI tem condenado: ” a ditadura do relativismo”; por  isso o publicamos aqui.

   ’Há pessoas que gostam de definir as posições defendidas pela Igreja Católica (e, conseqüentemente, a própria Igreja) como reacionárias, obscurantistas, medievais, atrasadas, fora do tempo. Dizem que, defendendo estas posições, a Igreja se aliena à opinião pública, perde fiéis ou pelo menos sua simpatia, caminha contra a história. Dizem ainda que a Igreja deveria se modernizar, caminhar com o nosso tempo. Trata-se de uma “técnica” barata que, antes de atacar alguém, busca desmoralizá-lo. 

Para nós católicos, ouvir isso com tanta insistência não traz nenhuma alegria. Pode até acontecer que alguém recue, sinta-se inferior ou que paire a dúvida de que de fato sejamos conservadores, reacionários, do passado. E fique bem claro que se nós fôssemos de fato reacionários, obscurantistas e do passado, deveríamos admiti-lo, deveríamos dar-nos uma sacudida e tomar um “banho de modernidade”.  

O problema é que, decididamente, nós não o somos! Nós, Igreja, somos os únicos que defendem certos valores substanciais da existência humana; que assumem o desafio de um matrimônio indissolúvel; o respeito radical à vida desde a sua concepção; a família fundada sobre o amor de homem e mulher; a sexualidade humanizada e responsável; o direito de cada criança de ter pai e mãe; a grata conservação da vida até seu desfecho natural; o amor com que devem ser acolhidos e amparados os portadores de deficiências, os anciãos e os doentes. Por que isso seria obscurantista, reacionário, do passado? E por que separação e divórcio; aborto e experiências com embriões; uniões homossexuais; pansexualismo; adoções por casais homossexuais; eutanásia e eugenia seriam progressistas, iluminados, “modernos”? Não se trata de desconhecer ou negar dramas vividos em situações limite no relacionamento esponsal, na identidade sexual, na doença terminal, etc, casos singulares que merecem e têm da Igreja o maior respeito, mas entre profundo respeito e a imposição de ter que achar normais certas soluções propostas há muita diferença. 

O dicionário etimológico diz que a palavra “moderno” vem do latim tardio “modus hodiernos”, que pode ser traduzido como “modo de hoje” ou “modismo, onda de hoje”. O “modo de hoje” é o vir à tona e o manifestar-se de vigores, tendências, posturas, gostos, articulações que caracterizam uma época. É o que chamamos de “cultura”. Este “modo de hoje” é espontâneo, isto é, vem à tona por impulso próprio.  

É necessário que o ser humano, individual e socialmente, analise criticamente seu “modo de hoje”, seu ser moderno e se posicione responsavelmente. A onda de hoje, o modismo impregnam nossa cultura. A utilidade como utilitarismo e a funcionalidade como funcionalismo do sujeito, seja ele uma pessoa, um grupo ou uma idéia são as forças dominadoras, exasperadas e dogmatizadas de nossa época, do nosso “modo de hoje”; são elas que estão por trás do processo de desumanização e desertificação do nosso viver.  

É uma bela notícia que, em nome da utilidade e da ciência, alguns cientistas ingleses tenham pedido autorização para realizar implantes de embriões humanos em animais! Nós “modernos”, que nos consideramos iluminados e críticos com o passado, não podemos falhar na urgente e decisiva tarefa de sermos responsavelmente críticos diante de nossa própria época.  

Desta tarefa, a Igreja dá conta com muita competência e iluminação, a partir da grande herança recebida de Jesus Cristo. A Igreja precisa se modernizar se entende-se que ela, a partir do Evangelho, para ser fiel ao ser humano e para participar sadiamente deste nosso tempo, deve crescer sempre mais no seu vigor crítico de nossa modernidade. Mas, longe de modernizar-se no sentido de pura e simplesmente se alinhar àquilo que todo mundo diz e faz para participar da onda acrítica do utilitarismo e funcionalismo de hoje.” 

 Fonte: Diocese de Piracicaba-SP  

O PURGATÓRIO NA BIBLIA

Filed under: Purgatório — Prof. Felipe Aquino at 5:41 pm on Friday, October 26, 2007

Muitos me perguntam onde está na Bíblia o Purgatório? Ele é uma exigência da razão e mesmo da caridade de Deus por nós. A palavra “Purgatório” não existe na Bíblia, foi criada pela Igreja, mas a realidade, o “conceito doutrinário” deste estado de purificação existe amplamente na Sagrada Escritura como vamos ver. A Igreja não tem dúvida desta realidade por isso, desde o primeiro século reza pelo sufrágio das almas do Purgatório.

1 - São Gregório Magno (†604), Papa e doutor da Igreja, explicava o Purgatório a partir de uma palavra de Jesus: “No que concerne a certas faltas leves, deve-se crer que existe antes do juízo um fogo purificador, segundo o que afirma aquele que é a Verdade, dizendo que se alguém tiver pronunciado uma blasfêmia contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado nem no presente século nem no século futuro (Mt 12,31). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas no século presente, ao passo que outras, no século futuro” (Dial. 41,3). O pecado contra o Espírito Santo, ou seja a pessoa que recusa de todas as maneiras os caminhos da salvação, não será perdoado nem neste mundo, nem no mundo futuro. Mostra o Senhor Jesus, então, neste trecho, implicitamente, que há pecados que serão perdoados no mundo futuro, após a morte.

2 - O ensinamento sobre o Purgatório tem raízes já na crença dos próprios judeus do Antigo Testamento; cerca de 200 anos antes de Cristo, quando ocorreu o episódio de Judas Macabeus. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados. “Então encontraram debaixo da túnica de cada um dos mortos objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, coisas proibidas pela Lei dos judeus. Ficou assim evidente a todos que haviam tombado por aquele motivos… puseram-me em oração, implorando que o pecado cometido encontrasse completo perdão… Depois [Judas] ajuntou, numa coleta individual, cerca de duas mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício propiciatório. Com ação tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado” (2Mc 12,39-45).

O autor sagrado, inspirado pelo Espírito Santo, louva a ação de Judas: “Se ele não esperasse que os mortos que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerasse que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormeceram piedosamente, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis porque ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, afim de que fossem absolvidos do seu pecado”. (2 Mac 12,44s) .Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé. Cometeram uma falta que não foi mortal.

Fica claro no texto de Macabeus que os judeus oravam pelos seus mortos e por eles ofereciam sacrifícios, e que os sacerdotes hebreus já naquele tempo aceitavam e ofereciam sacrifícios em expiação dos pecados dos falecidos e que esta prática estava apoiada sobre a crença na ressurreição dos mortos. E como o livro dos Macabeus pertence ao cânon dos livros inspirados, aqui também está uma base bíblica para a crença no Purgatório e para a oração em favor dos mortos.

3 - Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,10, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E S. Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “sofrerá detrimento”, isto é, uma pena; que não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo”, isto é, com sofrimentos.

4 - Na passagem de Mc 3,29, também há uma imagem nítida do Purgatório:”Mas, se o tal administrador imaginar consigo: ‘Meu senhor tardará a vir’. E começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar (…) e o mandará ao destino dos infiéis. O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes.” (Lc 12,45-48). É uma referência clara ao que a Igreja chama de Purgatório. Após a morte, portanto, há um “estado” onde os “pouco fiéis” haverão de ser purificados.

5 - Outra passagem bíblica que dá margem a pensar no Purgatório é a de (Lc 12,58-59): “Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele não te arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.”

O Senhor Jesus ensina que devemos sempre entrar “em acordo” com o próximo, pois caso contrário, ao fim da vida seremos entregues ao juiz (Deus), nos colocará na “prisão” (Purgatório); dali não sairemos até termos pago à justiça divina toda nossa dívida, “até o último centavo”. Mas um dia haveremos de sair. A condenação neste caso não é eterna. A mesma parábola está´ em Mt 5, 22-26: “Assume logo uma atitude reconciliadora com o teu adversário, enquanto estás a caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” . A chave deste ensinamento se encontra na conclusão deste discurso de Jesus: “serás lançado na prisão”, e dali não se sai “enquanto não pagar o último centavo”.

6 - A Passagem de São Pedro 1Pe 3,18-19; 4,6, indica-nos também a realidade do Purgatório:”Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados (…) padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito. É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos na prisão, aqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes (…).” Nesta “prisão” ou “limbo” dos antepassados, onde os espíritos dos antigos estavam presos, e onde Jesus Cristo foi pregar durante o Sábado Santo, a Igreja viu uma figura do Purgatório. O texto indica que Cristo foi pregar “àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes”. Temos, portanto, um “estado” onde as almas dos antepassados aguardavam a salvação. Não é um lugar de tormento eterno, mas também não é um lugar de alegria eterna na presença de Deus, não é o céu. È um “lugar” onde os espíritos aguardavam a salvação e purificação comunicada pelo próprio Cristo.

Do livro: Purgatório. O que a Igreja ensina.

Prof. Felipe Aquino - www.cleofas.comb.br

Capa O Purgatório

Uma resposta ao governador do Rio de Janeiro

Filed under: Aborto — Prof. Felipe Aquino at 12:50 am on Friday, October 26, 2007

“O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), pai de cinco filhos, defendeu a legalização do aborto como forma de conter a violência no Estado e afirmou que as taxas de fertilidade de mães faveladas são uma “fábrica de produzir marginal”.’ (Folha de São Paulo – 25 out 2007 - cotidiano). Lamentavelmente outros governadores e políticos pensam da mesma forma. 

De acordo com o Governador, parte das mães moradoras de áreas carentes “estão produzindo crianças, sem estrutura, sem conforto familiar e material”.

Recebi vários emails pedindo que desse uma resposta a esta proposta do Governador.

O mais lamentável de tudo na palavra do Governador é que ele diz: “Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves.” Isto foi o que mais me doeu.

É preciso dizer ao Governador que ele pode até ser católico, porque foi batizado na Igreja Católica, mas não está em comunhão com a Igreja. É um filho rebelde que precisa voltar ao seio da Igreja. Quem não obedece a Igreja não é católico de verdade. Jesus disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve a Mim ouve; quem vos rejeita a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que me enviou.” (Lc 10,26). Rejeitar a doutrina da Igreja é rejeitar Jesus Cristo e Deus Pai. 

É lamentável de todo a visão cega e pagã do Governador que não enxergar que o aborto é um crime. Se os seus cinco filhos, que hoje já nasceram, fossem abortados quando eram fetos, ele não os teria hoje. Se ele, graças a Deus não os abortou, por que agora convida os pobres favelados a abortarem os seus filhos? Então, a vida do pobre vale menos?   

Atraso Governador, é matar o próprio filho no ventre da mãe! Todos os que defendem o aborto já nasceram.

 Muitos infelizmente querem justificar o aborto como necessário para evitar ou solucionar problemas de ordem econômica ou social: fome, desemprego, baixo salário, moradia; motivos subjetivos da gestante (por exemplo: solteira ou, sendo casada, ter engravidado em um adultério; gravidez indesejada, estupro, etc.), e muitos outros motivos.      

Mas em qualquer situação é absurdo pretender solucionar os problemas mediante o aborto. Será que a morte pode ser solução para os problemas da vida? É um fracasso humano aceitar essa ótica desumana. Nem os animais fazem isto.  

Sabemos que não há solução fácil para um problema difícil. Propor o aborto para solucionar o problema social, é uma barbaridade; é uma “solução fácil” e irresponsável. Como podemos resolver os problemas da vida eliminando a vida? Que lógica é esta Governador? 

 Matar o ser humano no ventre da mãe jamais será uma solução correta e digna para resolver os problemas da humanidade. Os meios não justificam os fins; não se pode fazer o bem através do mal.  

As soluções para os difíceis problemas sociais ou pessoais, especialmente o combate ao crime, devem ser encontradas em providências governamentais, forte ação social, educação de base,  aliadas à participação privada, e muito mais.

Sr. Governador, propor o aborto para vencer o crime no Rio de Janeiro, ou em qualquer outro lugar, é dar um atestado de fracasso humano, de covardia diante da vida indefesa, de desrespeito ao ser humano em gestação; é falta gravíssima contra Deus, seu Criador.  

O crime se vence com educação dos jovens, emprego, promoção social, fortes programas de apoio à família, educação moral, cívica e religiosa,  polícia preparada, justiça rápida, etc., e não propor o aborto. Se Herodes tivesse conseguido matar Jesus, o que seria da humanidade? Conheço famílias numerosas, que criaram 10, 11 filhos  no campo, em situação de trabalho difícil, mas que não geraram marginais e não deixaram os filhos perecerem. Esses pais têm formação moral; amam seus filhos.  

O que precisamos é ensinar às adolescentes e jovens a viver o sexo somente no casamento, para que cada criança que vier a este mundo tenha um pai e uma mãe que o ame e o proteja para que amanhã ele não se torne um marginal. O nosso Brasil geme sob essas dores porque deixou quebrar a moral familiar, deixou que a instituição sagrada da família fosse destruída pelo divórcio, pelo “sexo livre” e tantas imoralidades. Há provas contundentes, inclusive dos Relatórios da ONU, que não é verdade que a fome seja devida à superpopulação. Os países ricos, porém, ao invés de partilhar seus benefícios  com os países pobres, e oferecer-lhes ajuda solidária, preferem impor-lhes controle da natalidade mediante contraceptivos, alguns dos quais abortivos, e mediante, também, esterilização.  

Na América Latina muitos governos sempre estiveram sob forte pressão para reduzir o crescimento populacional, como condição para receber empréstimos do exterior.  

A nossa sociedade tem sido, nos últimos tempos, atravessada por manifestações de grande contradição. De um lado, anuncia-se com júbilo o resgate de sobreviventes, depois de vários dias soterrados nos escombros de uma tragédia e noticia-se, com alegria, a descoberta de um bebê abandonado. A ciência genética abre novas esperanças à qualidade de vida e há já pais que congelam as células estaminais do cordão umbilical dos seus bebês. Mas simultaneamente ressuscita-se uma campanha violenta a favor da legalização do aborto. É uma enorme contradição; salvam-se as baleias e matam-se as crianças.   

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br