A Dor do Coração de um Pai

Arquivado em: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 2:33 pm on Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Recebi essa carta de um pai de três filhos, e que me pede para alertar os pais para o mesmo problema que enfrenta com os seus filhos. Com sua devida autorização a divulgo, sem mencionar os nomes das pessoas. Penso que é um alerta importante aos pais contra o ateísmo reinante hoje em nossas universidades; até em algumas ditas católicas.

Por fatos como este é que acabei de escrever o livro UMA HISTÓRIA QUE NÃO É CONTADA (lançamento em fevereiro), mostrando como a Igreja Católica salvou e construiu a nossa civilização ocidental com todos os seus valores e riquezas: arte, música, arquitetura, universidades, cultura, ciência, etc. Leia a Carta:

Professor Felipe Aquino,

Primeiramente, almejo que a paz do Senhor esteja convosco.
Escrevo-lhe para dar conta de uma situação que acredito muitos pais devem estar passando. Sou de família católica, criado dentro dos ensinamentos da reta doutrina e passei-os, juntamente com minha esposa, a nossos 3 filhos.

Já ministrei aulas de religião em cursos de catequese de nossa paróquia. Criei meus filhos buscando dar exemplos da fé cristã, fazendo-os ler a literatura católica tratando de nossa fé. Quando pequenos, eu e minha esposa líamos, diariamente, passagens bíblicas.

Fiz com que os filhos lessem a História Sagrada de S. João Bosco, entre outros muitos livros. Meu filho mais velho, de 21 anos, está no 3º ano do curso de Física, na USP. O outro, de 19, está cursando a 2ª série de Economia, na mesma Universidade.
Ambos rebelaram-se contra a doutrina católica ou outra qualquer forma de crença religiosa. Declaram-se ateus e dizem que o homem pode ser bom, correto e agir moralmente sem precisar acreditar em Deus ou na vida eterna. Há canalhas, dizem os dois, tanto entre ateus como entre religiosos, sendo esses últimos piores, porque falam uma coisa e agem diferentemente. Os EUA, eles falam, massacraram os negros durante 200 anos, embora um país cristão.
Mostraram-me um artigo do falecido jornalista Paulo Francis, um ateu, publicado na Folha de S. Paulo, onde ele escreve que depois de ter estudado em colégio jesuíta, lamentava ter perdido a fé católica, porque ser católico é fácil, pois depois de pecar, basta se arrepender, se confessar, comungar, e depois cometer os mesmos pecados. Paulo Francis escreveu que se Hitler se arrependeu de seus crimes e rezou, deve estar lá no Céu.
Meus filhos decidiram fazer aqui em casa reuniões com professores de física, economia e filosofia, todos ateus. Quando eu proibi esses encontros, eles ameaçaram sair de casa. Tive que ceder. Eles dizem que por conta da educação que tiveram permaneceram alienados. Só na universidade, com acesso a outras leituras e autores, perceberam que a Bíblia é um livro de lendas, que o fato de Jesus Cristo ter existido isso não quer dizer que existe um Deus, que Cristo é Deus feito homem, que há uma vida eterna, que Jesus ressuscitou. Eles me dizem que, como todo religioso, eu não leio nada que tenha sido escrito fora de minha fé, que se eu lesse seria, pelo menos, acometido pela dúvida.

Quando eu pedi que eles lessem o livro que o sr. escreveu sobre razão e religião, eles me disseram que não iriam perder tempo com um livro que não vai além do que diz o Catecismo da Igreja, onde não há liberdade de pensar fora dos dogmas. Para meus filhos, cientistas que se dizem cristãos o fazem com o direito que cada um tem de acreditar no que lhe apetece, mas que nenhum pode sustentar, empiricamente, suas crenças.

Meu filho mais velho diz que as crenças religiosas, como o amor, são cegas. Dizem que há cientistas que acreditam em horóscopos. Eles dizem respeitar a fé católica dos pais, mas não a aceitam. O mais velho dá aulas de física e matemática num curso pré-vestibular e o outro aulas particular de alemão. Pois os dois gastaram suas economias de quase 3 mil reais com a compra de livros de autores ateus.
O pior é que a irmã, de 15 anos, também vem se rebelando por influência dos irmãos. Eu não posso nem falar na Canção Nova, pois ela diz que é uma gente fanática, igual a dos seguidores do pastor Jim Jones. Se o Monsenhor Jonas mandar seus seguidores se suicidarem, todos o seguirão.
Que fazer, Professor Felipe?

Comentário:

Esta Carta mostra bem o perigo que a Universidade hoje representa para a fé dos jovens cristãos, mesmo aqueles que receberam boa formação religiosa em casa. Nota-se nas palavras dos jovens filhos do autor da Carta, que na Universidade só é mostrado o ateísmo, e nem mesmo têm o cuidado de examinar as razões que unem a fé à ciência; isto é uma terrível discriminação contra a fé e contra Deus.

O que fazer? Penso que os pais precisam continuar dando boa formação catequética a seus filhos em casa, ensinando-os a rezar também; pois a oração sustenta a fé; especialmente o Terço rezado todos os dias em casa. Nossa Senhora guarda a fé dos filhos.

E, quando eles forem para as escolas e universidades, continuar o diálogo religioso com eles; continuando a rezar juntos, conversar sobre as coisas da fé; dar-lhes bons livros; convida-los a participar de Encontros religiosos, etc. Enfim, nunca desistir de levar os filhos para Deus. Mas os pais precisam conquistar os filhos para si mesmos antes de conquista-los para Deus.

Estado laico não é Estado ateu e pagão

Arquivado em: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 8:26 pm on Quinta-feira, Junho 14, 2007

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS e ANTONIO CARLOS RODRIGUES DO AMARAL

DESDE A Constituição de 1824, os Textos Magnos pátrios consagram o princípio da liberdade religiosa, o que se dá amplamente a partir da Carta Republicana de 1891.
O Estado laico, longe de ser um Estado ateu -que nega a existência de Deus-, protege a liberdade de consciência e de crença de seus cidadãos, permitindo a coexistência de vários credos. Aliás, é princípio fundamental do cristianismo e muito precioso aos católicos, que compreendem a parcela maior dos brasileiros, o profundo respeito à liberdade religiosa de cada um, como bem se afirma na declaração “Dignitatis Humanae”, do Concílio Vaticano II.
As Constituições brasileiras fazem expressa menção, em seus preâmbulos, à confiança depositada em Deus (1934), colocando-se sob sua proteção (1946) ou afirmando o amparo divino, como pouco humildemente se fez em 1988.
Essa percepção da importância de Deus como fundamento de uma sociedade fraterna radica na indissociável conexão entre a história, a cultura e o próprio Criador, o que é imprescindível à elaboração de políticas públicas que não colidam com a liberdade religiosa nem desrespeitem a profunda religiosidade dos brasileiros. Daí a enorme distância entre o pluralismo religioso do Estado laico e um Estado ateu ou pagão, que nega a existência de Deus ou prega a divinização do ocupante do poder.
Nero lançou no ano 64 feroz perseguição aos cristãos, que se seguiu ao longo do século dois para a preservação do culto pagão aos imperadores. Hitler, com políticas de extermínio do povo judeu -e de cristãos, ciganos e deficientes físicos- sustentou um Estado ateu em que o “führer” era o senhor supremo da vida e da morte.
Por outro lado, Bento 16, o papa do amor e da paz da encíclica “Deus Caritas Est”, ao abrir a 5º Celam, em Aparecida, considerando “a realidade urgente dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo”, afirmou: “O que é a “realidade’? O real? São “realidade” só os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos? Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século, erro destrutivo, como demonstram os resultados dos sistemas marxistas e dos capitalistas.
Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus de seu horizonte falsifica o conceito de “realidade” e, em conseqüência, só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas. A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte: Só quem reconhece Deus conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano. A verdade dessa tese é evidente ante o fracasso de todos os sistemas que colocam Deus entre parênteses”.
Para se evitarem “caminhos equivocados e com receitas destrutivas”, é indispensável que o Estado laico também dialogue com a ciência, que, quando busca a verdade e é conduzida com vistas à preservação da dignidade humana em plenitude, não contradiz verdades da fé.
Nos temas de proteção à vida, a ciência moderna comprova que ela se dá a partir da concepção, o que já impõe substancial amparo jurídico do Estado. A proteção constitucional e legal à vida -única e irrepetível- a partir de seu início confirma, pois, o que algumas das maiores religiões já afirmam desde tempos imemoriais.
Assim, quando nos defrontamos com temas como aborto, pesquisas destrutivas com células-tronco embrionárias, comercialização de embriões humanos por clínicas de fertilização artificial, não se pode calar a manifestação de cristãos, judeus, muçulmanos e até mesmo de ateus como expressão da rica realidade dos que compõem a sociedade brasileira.
Quando se sustenta que o Estado deve ser surdo à religiosidade de seus cidadãos, na verdade se reveste esse mesmo Estado de características pagãs e ateístas que não são e nunca foram albergadas pelas Constituições brasileiras. A democracia nasce e se desenvolve a partir da pluralidade de idéias e opiniões, e não da ausência delas. É direito e garantia fundamental a livre expressão do pensamento, inclusive para a adequada formação das políticas públicas.
Pretender calar os vários segmentos religiosos do país não apenas é antidemocrático e inconstitucional mas traduz comportamento revestido de profunda intolerância e prejudica gravemente a saudável convivência harmônica do todo social brasileiro.


IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 72, advogado tributarista, é professor emérito da Universidade Mackenzie, da UniFMU, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. ANTONIO CARLOS RODRIGUES DO AMARAL, 45, mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA) e mestre em educação pela USP, é professor de direitos e garantias fundamentais da Universidade Mackenzie e presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-SP.

Sobre a retirada dos Crucifixos dos locais públicos

Arquivado em: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 4:23 pm on Sábado, Junho 2, 2007

Uma nefasta campanha está sendo movida para se retirar os Crucifixos dos locais públicos, esquecendo-se de que a grande maioria do povo  brasileiro é católica e se sente ofendida e magoada com esta medida.  

O Papa Bento XVI disse que os sinais religiosos do povo não devem ser retirados dos locais públicos porque quando se retira Deus da vida pública a sociedade se encaminha para o vazio e o mal.

 

 Aqueles que pensam que têm o direito de decidir pela maioria (católica) do povo brasileiro propuseram isto ao Conselho Nacional de Justiça, órgão do Poder Judiciário que controla a sua atuação administrativa e financeira, bem como o cumprimento dos deveres funcionais dos juízes. 

Felizmente no dia 29 de maio  foram julgados quatro pedidos de providência sobre o assunto dos símbolos religiosos, e o CNJ decidiu que tais símbolos não ferem a laicidade do Estado. ( cf. www.cnj.gov.br)

 

O  grande jurista católico Dr. Ives Gandra Martins definiu muito bem a matéria em termos jurídicos:

            “Sou um respeitador da Constituição - embora muitas vezes a critique - e, sem a retirada da expressão “sob a proteção de Deus”, que consta do preâmbulo do texto supremo, o movimento que pretendem iniciar parece inconstitucional”.

 

“Se faz necessário, de uma vez por todas, deixar clara uma coisa: “Estado laico” não significa que aquele que não acredita em Deus tenha direito de impor sua maneira de ser, de opinar e de defender a democracia. Não significa, também, que a democracia só possa ser constituída por cidadãos agnósticos ou ateus. Não podem, ateus e agnósticos, defender a tese de que a verdade está com eles e, sempre que qualquer cidadão, que acredita em Deus, se manifeste sobre temas essenciais - como, por exemplo, direito à vida, eutanásia, família - sustentar que sua opinião não deve ser levada em conta, porque é inspirada por motivos religiosos. A recíproca, no mínimo, deveria ser também considerada, por tal lógica conveniente e conivente, e desqualificada a opinião de agentes ateus e agnósticos, precisamente porque seus argumentos são inspirados em sentimentos anti-Deus”.

           

“Numa democracia, todos têm o direito de opinar, os que acreditam em Deus e os que não acreditam. Mas, na democracia brasileira, foram os representantes do povo, reunidos numa Assembléia Constituinte considerada originária, que definiram que todo o ordenamento jurídico nacional, toda a Constituição, todas as leis brasileiras devem ser veiculadas “sob a proteção de Deus“, não podendo, pois, violar princípios éticos da pessoa humana e da família”.

            “Parece-me que os ateus e agnósticos - que se auto-outorgaram o direito de ser os únicos a opinar na democracia brasileira - teriam que começar por mudar o preâmbulo da Lei Maior. Para serem mais fiéis a seus princípios, o preâmbulo poderia dizer: “Nós, representantes do povo brasileiro, ….. promulgamos, sem a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”.

(Fonte: JB on line – 02 junho 2007)

            Com esta decisão clara do CNJ não cabe mais qualquer movimento ou ação no sentido de banir Deus da nossa querida sociedade brasileira construída sobre a civilização cristã. O povo brasileiro é majoritariamente católico e tem o direito de viver segundo sua fé. E isto em nada fere a dignidade dos demais.

 

Prof. Felipe Aquino

 

CIENTISTA DESCOBRE DEUS

Arquivado em: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 6:59 pm on Terça-feira, Abril 3, 2007

   

Pai do Projeto Genoma Humano diz, em obra que acaba de ser lançada no Brasil, que ser ateu é anticientífico         03/04/2007  - Diário da Manhã, Goiânia Ton AlvesDiretor de Redação 

No mundo Ocidental, desde sempre, Ciência e Religião se enfrentaram. Ao ponto de se estabelecer o preconceito imbecil de que cientistas e religiosos são, por natureza de suas vocações, inimigos naturais. Se papas, bispos, pastores e padres olham com desconfiança os que buscam a verdade nos laboratórios, no mundo da pesquisa científica a fé é vista, no mínimo, como sinal de ingenuidade e ignorância. 

Nas últimas décadas, as pesquisas no campo da genética se tornaram o ponto mais sensível desse enfrentamento. Apressadinhos de ambos os lados começaram a comemorar, antecipadamente, que a descoberta do código genético do ser humano daria aos laboratórios a condição de se igualarem a Deus, criando gente sob encomenda como as montadores de veículos produzem carros segundo as tendências do mercado. 

E foi justamente no ambiente dessas pesquisas que apareceu alguém com coragem para dizer que um cientista pode crer em Deus, professar a sua fé, sem deixar de ser respeitado pelo seu valor como pesquisador e estudioso: Francis Collins. 

Biólogo respeitadíssimo, Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças em todo o mundo.  

Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. “Ignorância, superstição e falta de bom senso é negar a existência de Deus a priori, sem pensar de forma séria e metódica sobre o assunto. Nada é mais anticientífico do que ser ateu.” 

E para explicar direitinho essa sua convicção, o cientista publicou, ano passado, nos Estados Unidos, um livro que causou a maior polêmica. Agora, acaba de chegar às livrarias brasileiras a tradução do polêmico best-seller de Francis Collins, com o título “A Linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe”, publicado no Brasil pela Editora Gente.  

CONVERSÃO 

Até seus 27 anos, Collins era um ateu convicto. Foi somente na faculdade de Medicina que começou a perceber o verdadeiro poder da fé religiosa entre seus pacientes. Então, começou a mudar. Hoje, Collins é considerado um cientista religioso que defende a existência de Deus e a importância da ciência para a humanidade. 

Collins, que nas horas livres gosta de pilotar sua motocicleta, escrever paródias e tocar violão, por mais de 12 anos liderou o Projeto Genoma Humano. Com o apoio de Bill Clinton, empenhou-se em revelar a seqüência do DNA. Levou um susto quando o então presidente dos EUA afirmou, no dia da conclusão do projeto, que “hoje estamos aprendendo a linguagem com a qual Deus criou a vida”. Pensou em discordar de Clinton na hora, mas resolveu refletir sobre o assunto.  

No livro, Collins explica que a experiência de mapear o genoma humano, além de ser um mergulho no mais notável dos textos – o DNA –, pode ser encarada tanto como uma conquista científica quanto também uma descoberta digna de veneração. Ao combinar sua fé cristã à experiência adquirida na área de estudos genéticos, Collins se debruçou sobre questões de caráter científico e espiritual simultaneamente, e afirma que “a ciência não deve se sentir ameaçada por Deus, mas sim reforçada. E Deus certamente não está ameaçado pela ciência; foi Ele quem tornou tudo isso possível”. 

Para ele, “é nosso dever levar em consideração todo o poder das perspectivas científica e espiritual para entendermos tanto aquilo que enxergamos quanto aquilo que não enxergamos. E a sacada desse livro é a soberba integração entre essas duas perspectivas”. O pesquisador afirma que há uma base racional para crer na existência de um Criador e que todas as descobertas científicas “aproximam o homem de Deus”. E, por isso, acredita que uma das grandes tragédias do nosso tempo é a impressão que se criou de que ciência e religião devam estar em guerra. 

Partindo de sua experiência, Collins afirma que decifrar o genoma humano não criou um conflito em sua mente; porém, lhe permitiu verificar os trabalhos de Deus. “O problema é que nos últimos 20 anos, com muita freqüência, as vozes que são ouvidas nos debates públicos sobre esses temas são aquelas que defendem posições extremas”, afirma. O livro de Collins chega ao Brasil sob a luz dos holofotes da polêmica. Pena que por aqui a maioria das pessoas não vai se preocupar em debater o assunto, seja no mundo científico seja no mundo religioso.  

Uma bela entrevista

Arquivado em: Ateísmo — Prof. Felipe Aquino at 5:04 pm on Sábado, Fevereiro 3, 2007

 

A revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” (Nº 329 – Ano 1989 – Pág. 457) publicou uma entrevista esclarecedora com o  Cardeal Paul Poupard, ex-Presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo com os Não Crentes, dada ao repórter Angelo Bertani, da revista JESUS (edição de maio 1989, pp. 74s): 

Repórter: “Afirma o Cardeal Daneels¹ que a alternativa para a fé não é necessariamente o ateísmo, mas pode ser a  idolatria. Que diz V. Em.cia?” 

Paul Poupard: “De fato; o ateísmo puro é extremamente raro. Sartre diz em uma de suas obras, “Les Mots”, aliás uma obra-prima literária: “O ateísmo é um empreendimento difícil e de longo fôlego. Creio tê-lo realizado até o fim”. Sim; Sartre, Marx, Engels tinham uma certa inteligência cientificista ou niilista. Mas a questão se põe para Nietzsche: que é a sua exaltação da vida e do super-homem senão  uma série de ídolos feitos absolutos no lugar de Deus? E Lênin, com o mito do proletariado, da revolução, do comunismo… Não seriam ídolos tudo isto?  E não falamos da grande multidão daqueles que se dizem não-crentes com os seus ídolos mais terra-a-terra: sexo, dinheiro, drogas, esporte, sucesso econômico e social, prazeres estéticos e de outra ordem meramente terrena. 

A idolatria conheceu um desenvolvimento extraordinário e adquiriu o caráter de culto do Estado nos países socialistas. Por exemplo, assistimos na União Soviética ao ressurgimento dos mitos arcaicos, como o culto dos heróis, dos quais o primeiro é Lênin, do fogo eterno, símbolo da vida, dos ritos do batismo (imposição do nome), da iniciação da juventude (Confirmação), do casamento e das exéquias socialistas. Aliás, é preciso dizer que essas formas de idolatria socialistas não são senão um infeliz plágio dos ritos cristãos, plágio um pouco ridículo e que desagrada ao povo”. 

R.: “Por conseguinte, os “novos crentes” não têm muita segurança. E os “novos ateus” não deixam de ter esperanças…” 

P.P.: “Os novos crentes, os adoradores dos ídolos, encontram-se em posição insustentável. E isto, porque, após Jesus Cristo, os ídolos, os verdadeiros ídolos, são simplesmente impossíveis. Os  velhos deuses não podem mais ressuscitar, não podem ser levados a sério. É impossível crer sinceramente em Vênus, Mercúrio, Dionísio, etc. Ao homem europeu que fez a experiência de Cristo e teve o conhecimento da Revelação, não resta senão uma alternativa: ou Cristo ou o nada. Os deuses pagãos morreram realmente. 

Os “novos ateus”, os verdadeiros ateus, podem ter esperança? Sim, porque a esperança é a virtude dos tempos trágicos. E os dados são inequívocos: adesão a Deus, que se revelou
em Jesus Cristo, ou a escolha do nada. É diante desta prospectiva séria que Dostoievskij põe nos lábios de seus personagens: “O ateísmo pleno se encontra no alto da escada, no penúltimo degrau que leva à fé plena”.
 

R.: “Que diria hoje V. Em.cia a um ateu que lhe afirmasse: “Eu sou ateu!?” 

P.P.: “Eu o contemplaria profundamente nos olhos (como Jesus) e lhe diria: “Que maravilha! Tu, com o teu semblante iluminado pelo Espírito, com os teus olhos em que se lê uma individualidade imortal, com todo o teu corpo, obra-prima da criação, tu, com aquilo que és, tu és a prova mais estupenda de uma evolução criadora do universo, que, logicamente, não pôde ser orientada senão por uma inteligência amorosa, que os homens, há milênios, chamam Deus”. E, se ele me dissesse ainda: “Não creio em Deus”, eu lhe responderia: “Mas Deus crê em ti”. 

R.: “E que diria V. Em.cia a quem afirmasse: “A nós o fato religioso não interessa em absoluto?” 

P.P.: “Eu lhe diria: “É porque vives na superfície de ti mesmo, na distração e no divertimento. E negligencias a dimensão mais profunda, mais bela, mais interessante do teu ser. A vida provavelmente tem, em certos momentos (e tu o sabes bem!), um sabor de fastio; talvez em certas ocasiões um sentimento de desespero te acometa, e isto te leva a uma procura insaciável de prazeres. Mas sabes que se trata de um beco sem saída. Entra, pois, de novo dentro de ti mesmo, descobre as tuas profundidades, a dimensão total do teu ser e então descobrirás dentro de ti algo de sagrado, inviolável, uma santidade que tu mesmo não pudeste poluir, uma fome do além, uma nostalgia de beleza”. 

R.: “Enfim, como enfrentar aqueles que dizem: “Fiz uma experiência à altura das minhas necessidades em tal ou tal grupo ou seita, no(a) qual me sinto realizado e seguro?” 

P.P.: “Dir-lhe-ia: “Uma experiência religiosa que não seja senão a satisfação de necessidades íntimas e um meio de realizar-se, só pode ser uma ilusão, uma procura de si mesmo, o arbitrário elevado à categoria do absoluto, uma falsa segurança. Quem a faz, não sai deste mundo nem do seu eu mais ou menos turvo e egoísta. É preciso renunciar à auto-suficiência, à auto-suficiência deste mundo, e aceitar uma verdade que vem de outra fonte, abrir-se ao absolutamente outro. Aceitar esse absolutamente outro que nos põe radicalmente em foco, é uma via para nos libertarmos do mundo e de nós mesmos. Esse Outro é Jesus Cristo e o seu Evangelho, vivo na sua Igreja”. 

R.: “Portanto, que é que ainda ensinam os “novos crentes”, os “ateus” ou os “indiferentes”? 

P.P.: “Os novos crentes, para os cristãos, são figuras do passado, “os velhos deuses que dormem em mortalhas de ouro” (Renan), que nada pode ressuscitar: uma posição impossível e falsa. Os indiferentes, por princípio, nada têm a dizer. “Boh!” não é uma resposta. Os “novos ateus” que levaram o seu ateísmo até o extremo, os ateus coerentes consigo mesmos, os ateus heróicos e trágicos, são os que ficam mais próximos de nós e paradoxalmente nos podem ensinar algo: um mundo de total ausência de Deus, escolhido de maneira consciente e vivido de modo trágico. Eles nos dizem o que é a ausência real e, conseqüentemente, nos fazem saber o que é a presença real de Deus entre nós:  luz do coração, sentimento de liberdade, alegria e esperança”. 

Comentário: 

Eis como o cardeal Poupard vê o ateísmo contemporâneo; julga que é algo de artificial ou violento demais para o homem, a tal ponto que os ateus mais radicais parecem fadados a ter pouca estabilidade na sua posição atéia; experimentando o vazio e o trágico de um mundo sem Absoluto e sem plenitude de valores, estão perto de passar para o campo da fé  ou do reencontro do homem consigo e com os mais profundos anseios da alma humana. 

O caso mais doloroso e lamentável é o dos indiferentes ou o dos que ficam descomprometidos com qualquer ideal, ainda que errôneo. Já o Apocalipse comenta a hediondez de tal atitude, atribuindo a Cristo as palavras: “Conheço tua conduta; não é nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque é morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca” (Ap 3,15s).O cristão, portanto, ao ver um ateu sincero, honesto, fiel aos seus deveres, alimenta esperanças a seu respeito. Sim; Deus está no termo de chegada da retidão e lealdade de consciência. 

 

 

¹ Arcebispo de Malines-Bruxelas (Bélgica).       

Próxima Página »