Sete dias se passaram, desde que a primavera chegou. O vento frio e a chuva dão o tom da renovação das cores e flores. As montanhas ressecadas e queimadas já encontram forças para substituir o cinza, deixado pelo fogo, pelo verde que trás a esperança de que agora vamos mudar nossa consciência e cuidar melhor daquilo que ganhamos de presente do Criador.   Será que ainda teremos quantas oportunidades para ver a natureza reverter esse triste retrato que reúne na mesma moldura, o solo desgastado, a mata queimada, as nascentes agoniadas, e as aves sem alimento e morada?  Em meio a tudo isso existem pequenos refúgios, onde o mato cresce sem medo do fogo, as folhas secam e forram o chão sem pressa de ser varrida pelo vento e as aves se alimentam o ano todo com frutos de cada época. Um desses pequenos refúgios é o meu quintal, que já teve acerola e laranja. Agora tem abacate e manga.  O legal é que no meio do mato existem ervas e sementes a alimentar os “biquinhos de lata” e o abacate que nasce nas alturas e se quebra quando cai, alimenta as sabiás. Era nela que queria chegar, mas resolvi fazer um caminho longo no texto. E o foco precisa ser na sabiá-laranjeira, muito comum na América do Sul.  O peito pintado com cor de ferrugem ilumina a terra ainda seca do inverno que partiu. Mas o canto melodioso anuncia que com a estação das flores, também inicia o tempo de reprodução desse passarinho considerado símbolo do estado de São Paulo desde o ano em que eu nasci, em 1966.  A sabiá já foi inspiração de diversos poetas, por cantar sempre o amor e a primavera. Dizem que ela migrou da Europa para a América há 20 milhões de anos. Achei muito tempo pra caber na minha cabeça, mas acho melhor você ficar com o que a pesquisa revela.  Outra curiosidade é que o nome sabiá é derivado da língua tupi, que chamava a ave de haabi’á. E o mais impressionante é saber que a sabiá não frequenta a Bacia Amazônica. Talvez seja por isso que ela não está na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, que a classificou como espécie em condição pouco preocupante de extinção.  A sábia sabia tem 23 cm de comprimento, tem o bico reto de cor amarelo-oliva, as patas cinzas, o olho negro circundado finamente de amarelo e a penugem do dorso de um tom uniforme marrom-acinzentado. Ela gosta de viver nas florestas abertas, beiras de campos e áreas de lavoura e cidades, como meu pequeno quintal.  Desde que nesses lugares exista água por perto.   Gonçalves Dias na abertura de seu célebre poema Canção do Exílio, demonstrava uma saudade especial da sabiá. Talvez porque seu canto inconfundível seja uma sinfonia única que anuncia as surpresas que sempre chegam com a primavera.

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.”

Num tempo como hoje seria até mais fácil, Gonçalves Dias matar saudade do pássaro e seu canto, tamanha quantidade de vídeos e áudios existentes nos meios eletrônicos. Mas os verdadeiros admiradores precisam vislumbrar essa criatura a futucar a banda do abacate, ou os fiapos da manga. E acima de tudo, purificar os ouvidos com uma sinfonia completa. Afinal a sabiá é só um pequenino fragmento da grandiosidade do nosso Criador, que sempre se faz presente.

“Seu som ressoa e se espalha em toda terra!” (Sl, 18)

Deus abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
wallace.andrade@cancaonova.com

Wallace Andrade é missionário da comunidade católica Canção Nova, jornalista e autor dos livros “Mãe de Milagres – Nossa Senhora Aparecida” e “Mãe de Milagres – experiência e carinho de mãe vivenciadas nos santuários da Mãe Rainha”, publicados pela editora Canção Nova. 


Jornalista, missionário da Comunidade Canção Nova, escritor, casado com Valeria Martins Andrade e pai de Davi Andrade, natural de Campos dos Goytacazes-RJ.

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