O EVANGELHO DE MARIA

Filed under: Evangelhos, Nossa Senhora — Prof. Felipe Aquino at 3:26 pm on Tuesday, July 8, 2008

Revista :    PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 533   - Ano : 2006  - Pág. 493

Já consideramos o chamado “Evangelho de Maria” em PR 529 pp. 290ss. Voltamos ao assunto a propósito do livro assim intitulado, que traz o texto de tal apócrifo com os comentários de Jean-Yves Leloup1.
O apócrifo Evangelho de Maria é de origem gnóstica e foi encontrado em nag Hammadi. Propõe em termos vivazes o relacionamento de Maria Madalena com Jesus como o de uma companheira privilegiada em convívio com o seu Amado.
Jean-Yves Leloup não distingue entre apócrifos de origem cristã e apócrifos de origem gnóstica. Por isto equipara uns e outros entre si como fontes fidedignas para reconstituir o surto do Cristianismo. Daí a afirmação:
“Trata-se do Evangelho de Maria, atribuído a Miriam de Magdala, primeira testemunha da ressurreição e, por causa disto, considerada pelo apóstolo João como sendo, bem antes de Paulo e de sua visão a caminho de Damasco, a fundadora do cristianismo” (p. 8).

Tal conclusão é gratuita; resulta de uma interpretação do texto apócrifo tendenciosa ou preconceituosa.
Madalena é quem transmite aos Apóstolos a doutrina que Jesus  lhe comunica:
“Jesus confia-lhe palavras que os outros discípulos ignoram; ela ocupa o lugar deixado vago por Jesus; ela comunica os segredos recebidos e os explica” (p. 11).

Esse papel eminente decorre da intimidade com Jesus de que Madalena gozava:
“Este papel de intermediária entre Jesus e os discípulos repousava sobre a crença na posição de Maria Madalena como companheira de Jesus durante sua vida e primeira testemunha da ressurreição” (p. 11).

Jean-Yves Leloup julga necessário atribuir a Jesus tal familiaridade com Madalena a fim de dissipar o conceito de que a sexualidade humana é pecaminosa. Se Jesus a vivenciou, como diz Leloup, não há por que a estigmatizar como algo de mau, embora este gesto liberal custe algum esforço ao cristão dado ao apreço da castidade e da vida uma e indivisa.

Pergunta-se: Que dizer?

Repita-se aqui o que foi dito neste fascículo à guisa do comentário do Evangelho de Felipe. Sejam enfatizados, porém, os três seguintes pontos:
1) Os Evangelhos gnósticos não procedem de fonte cristã, não representam o pensamento das primeiras gerações cristãs, datam do século II e provêm de escolas dualistas como foram as de Valentim, Basílides, Marcião. Por conseguinte não podem ser justapostos aos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que no século I procedem da genuína fonte “Apóstolos-Jesus”. Em conseqüência dir-se-á: Não podemos procurar reconstituir as origens do Cristianismo consultando os apócrifos gnósticos.

2) As teses que tais escritos propõem não tem respaldo nem em textos anteriores nem na literatura cristã posterior. Com efeito; nenhum escritor da história do Cristianismo conhece o pretenso conúbio de Jesus nem o primado atribuído a Madalena. Não se diga que a Igreja ocultou essas proposições em favor do machismo eclesiástico. A mentira que a Igreja teria assim favorecido, teria pernas curtas, como toda mentira, segundo a sabedoria popular.

3) Distingamos entre sexualidade e genitalidade. Todo ser humano é sexuado (e Jesus o foi certamente), mas não é necessariamente genitor ou genitora. Jesus não se casou porque veio trazer ao mundo o início do Reino de Deus, no qual não há casamento, pois “todos serão como os anjos de Deus” (Mt 22, 23-33).
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1 Ed. Vozes, Petrópolis 2006, 188pp.

O Evangelho de Felipe

Filed under: Evangelhos — Prof. Felipe Aquino at 12:45 pm on Monday, May 19, 2008

Revista : PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 533 - Ano : 2006 - Pág. 488

Em síntese: O Evangelho de Felipe, apócrifo de origem gnóstica, foi recentemente publicado em português com os comentários de Jean Yves Leloup. Este autor endossa a tese segundo a qual Jesus se casou com Maria Madalena, não levando em conta o caráter não cristão do texto gnóstico; este é de data tardia (século II) e recorre ao pseudônimo do Apóstolo São Filipe. Não há um vestígio de tal casamento em toda a tradição cristã – o que já seria suficiente para lançar suspeita sobre a veracidade da hipótese apresentada por Leloup.

Foi publicado em português o texto do apócrifo gnóstico intitulado “O Evangelho de Felipe”1 acompanhado de comentários de Jean-Yves Leloup. Tal apócrifo tem sido freqüentemente citado como portador de notícias que a Igreja subtraiu ao conhecimento do público, mas que seriam verídicas. – Em vista da importância de tal escrito no debate teológico, será, a seguir, explanado, levando-se em conta as ponderações de Leloup.

1.    O Evangelho de Felipe: origem

Na década de 1940 foi encontrado em nag Hammadi (Egito) um papiro, escrito em língua copta e intitulado “O Evangelho de Felipe”. Pertence a um acervo de escritos de origem gnóstica ou não cristã. Terá sido escondido este texto num recanto de Nag Hammadi por monges que o queriam salvar da destruição que a Igreja oficial lhe infligiria se o tivesse em mãos; terá sido um escrito proibido, porque dá notícia de um presumido casamento de Jesus com Maria Madalena, notícia esta envolvida em considerações “místicas” sobre a união conjugal.

“Pode ter acontecido que estes textos se encontrassem ameaçados não só pela ortodoxia…, mas talvez também pelos monofisitas, chocados por verem certos detalhes lembrar de forma tão explícita o realismo da encarnação do Verbo. O corpo que falava era também um corpo que amava, e amava não de maneira platônica ou grega, mas com toda a presença sensual e psíquica do humano bíblico” (ob. Cit., p. 11).

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1 O Evangelho de Felipe. Traduzido e comentado por Jean-Yves Leloup. – Ed. Vozes, Petrópolis 2006, 183 pp.

Comentaremos oportunamente esta tese de Leloup.

O manuscrito do Evangelho de Felipe assim descoberto consta de 150 páginas, cada qual com trinta e três e trinta e sete linhas. O texto em pauta deve datar do início do século IV; é uma tradução copta do original grego, que pode ter sido redigido por volta de 150. Vem a ser uma compilação de sentenças atribuídas a Jesus em estilo sibilino ou obscuro, que se presta a mais de uma interpretação.

2.    O Evangelho de Felipe:  conteúdo

Observa Leloup: “Os temas propostos por esse florilégio ou esse colar de pérolas, que é o Evangelho de Felipe, são numerosos. Cada lógion (sentença), como cada pérola do colar, pode ser uma fonte de luz e exigiria um longo comentário” (ob. cit., p. 21). O comentador realça os três seguintes tópicos:

2.1.    Íntimo relacionamento de Jesus com Maria Madalena

A sentença 55 é assim concebida:

“A companheira do Filho é Miryam de Magdala. O Mestre amava Miryam mais que a todos os discípulos e beijava-a freqüentemente na boca.
Os discípulos, vendo-o amar dessa forma Miryam, disseram-lhe: “Por que a amas mais que a todos nós?” O Mestre lhes respondeu: “Por que pensam que não os amo tanto quanto a ela?”
O pseudo-Felipe exalta a união conjugal como algo de sagrado e, por isto, compatível com a dignidade do Mestre:
“O quarto nupcial é o Santo dos Santos… Esta libertação se manifesta no quarto nupcial… Aqueles que verdadeiramente oram em Jerusalém, tu os encontrarás somente no Santo dos Santos… no quarto nupcial” (lógion 76).

Este é o tópico que mais interessa aos estudiosos do apócrifo em questão.

2.2.    Ressurreição espiritual

Em linguagem obscura Leloup parece negar a realidade da ressurreição corporal de Jesus, admitindo apenas a ressurreição espiritual. Assim é interpretado o lógion 21:

“Aqueles que afirmam que o Senhor morreu primeiro e que depois ressuscitou se enganam pois primeiro Ele ressuscitou e em seguida morreu. Se alguém, antes de tudo, não ressuscita, não pode senão morrer. Se já ressuscitou, vive como Deus vivo”.

Esta proposição condiz com o dualismo gnóstico, que julga ser a matéria má e o espírito bom ontologicamente ou por sua própria natureza.

2.3.    Não-dualidade

Por não-dualidade Leloup entende não haver distinção nítida entre o bem e o mal. “É, sem dúvida, imprudente delimitarmos com muita precisão os territórios do bem e do mal; um não funciona sem o outro, como o dia não existe sem à noite; isto nos conduz também à parábola do joio e do trigo: arrancar um é destruir o outro” (ob. cit., p. 21s). Tal afirmação é depreendida do seguinte lógion:

“Luz e trevas, vida e morte, direita e esquerda são irmãos e irmãs. Seão inseparáveis. Por isto a bondade não é apenas boa, a violência violenta, a vida apenas vivificante, a morte apenas mortal” (lógion 10).

Na verdade, dever-se-ia dizer: o bem e o mal, as trevas e a luz, à direita e a esquerda… são distintos entre si, mas caminham conjuntamente na mesma estrada. Convém recordar a terminologia precisa:

Dualismo: dois princípios antagônicos entre si; o corpo seria mau, o espírito seria bom. Tal concepção não é cristã.
Dualidade: dois princípios distintos um do outro, mas não antagônicos e, sim, complementares; tal é o caso de homem e mulher, são distintos um do outro e se complementam mutuamente.
Monismo: um só princípio.

Pergunta-se agora:

3.    Que dizer?

O Evangelho de Felipe é um texto difícil ou obscuro, prestando-se a diversas interpretações. O seu comentador Jean-Yves Leloup também se ressente da falta de clareza em suas páginas. Como quer que seja, tal apócrifo transmite uma nítida concepção: Jesus teve relacionamento íntimo com Maria Madalena, ficando insinuado que se casaram. É este o ponto que nos interesse considerar mais atentamente:
Começamos por observar que há dois tipos de apócrifos: os de origem cristã e os de origem gnóstica.
Os de origem cristã são o eco daquilo que as comunidades cristãs pensavam desde os inícios da história da Igreja. Apresentam um Jesus taumaturgo e maravilhoso, completando a seu modo o teor dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Não referem especial relacionamento de Jesus com Madalena. Nesses apócrifos se encontram dados que a tradição cristã aceitou como verídicos (ou, ao menos, verossímeis os nomes dos genitores de Maria SSma. (Joaquim e Ana), a apresentação de Maria no Templo aos três anos de idade, o nascimento de Jesus numa gruta entre o boi e o burro, os nomes dos três magos tidos como reis (Gaspar, Belchior e Baltasar), os nomes dos dois ladrões (Dimas e Gesta), o nome do soldado que feriu o lado de Jesus com a lança (Longino), o episódio de Verônica, que enxugou o rosto ensangüentado de Jesus…
Os apócrifos de origem gnóstica não procedem do tronco cristão como os anteriores, mas de premissas de escolas dualistas que floresceram nos séculos II e III e quiseram apresentar suas concepções sob a forma de textos bíblicos como se fossem autenticamente cristãs. Essa literatura é muito complexa: assim como ela refere à intimidade de Jesus com Madalena, refere também a aversão às mulheres, que se deveriam tornar homens para salvar. Com efeito: em Nag Hammadi, no mesmo lote de manuscritos que continham o  Evangelho de Felipe, achava-se também o Evangelho de Tomé, que se encerra com o seguinte lógion:

“Simão Pedro disse a eles: “Maria deveria deixar-nos, pois as mulheres não são dignas da vida”.
Jesus respondeu: “Eu a guiarei para fazer dela um homem, de modo que também ela possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vocês, homens. Pois toda mulher que se tornar homem entrará no reino do céu”. (lógion 114).

Percebe-se assim a contradição dentro do próprio setor gnóstico: ora Maria Madalena é estimada como mulher “companheira” de Jesus, ora é rejeitada no que ela tem de feminino e transformada em homem. Tal contradição desqualifica a tese do casamento de Jesus.

De resto, em nenhum documento da história do Cristianismo aparece vestígio dessa pretensa união conjugal do Mestre Divino. Se tal união fosse uma realidade histórica, não teria permanecido vinte séculos oculta pela prepotência da Igreja ciosa de dominar, pois “a mentira tem pernas curtas” como se diz em linguagem popular. A Igreja não tem medo da verdade.

Notemos outrossim que, ao morrer, Jesus toma providências em relação à sua Mãe, mas não parece estar preocupado com o futuro de Maria Madalena – o que não seria compreensível se houvesse íntimo relacionamento entre o Senhor e Madalena.

Pergunta-se então: Por que devia Jesus permanecer celibatário?

- Jesus veio anunciar a entrada do Reino de Deus no tempo dos homens (cf. Mc 1,14). Começou aqui na terra o Definitivo com toda a riqueza de seus dons. A consciência disto levou os cristãos desde a primeira geração a abraçar a vida uma ou indivisa para se dedicarem totalmente ao Eterno Presente; cf. 1Cor 7, 25-35. O próprio Jesus nos diz que no Reino de Deus consumado não haverá casamento, mas serão todos como os anjos de Deus (Mt 22,23-33). Sendo assim, Jesus, como arauto desse Reino, devia ser o primeiro a abraçar a vida uma ou indivisa. O celibato é o testemunho de que a sede de vida e felicidade do ser humano pode ser satisfeita com bens invisíveis e com a renúncia aos valores passageiros e, por vezes, ilusórios deste mundo. Jesus não foi menos homem pelo fato de não se casar; teve os nobres sentimentos de um coração humano; estes, porém, eram dirigidos para além dos bens materiais e visíveis. Muito sabiamente escreveu Saint-Exupéry: “O essencial é invisível”. O celibatário acima, mas ama segundo os parâmetros do Definitivo e Absoluto. – É isto que compete dizer a Jean-Yves Leloup.

Os Evangelhos são de fato históricos?

Filed under: Evangelhos, Biblia — Prof. Felipe Aquino at 3:25 pm on Wednesday, April 9, 2008

 

O Catecismo da Igreja afirma com segurança: “A Igreja defende firmemente que os quatro Evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente aquilo que Jesus, Filho de Deus, ao viver entre os homens, realmente fez e ensinou para a eterna salvação deles, até ao dia que foi elevado” (§ 126; Dei Verbum 19). 

Como já vimos há mais de 5000 manuscritos (cópias) do texto original grego do Novo Testamento, comprovados como autênticos pelos especialistas. São 81 papiros; 266 códices maiúsculos; 2754 códices minúsculos e 2135 lecionários. Os papiros são os mais antigos testemunhos do texto do Novo Testamento. Estão nos EUA, na Itália, Áustria, Paris, Londres, Moscou, Alemanha… e datam do dos séculos II a VI. Existem 76 papiros do texto original do Novo Testamento. Acham-se ainda em Leningrado (p11, p68), no Cairo (p15, p16), em Oxford (p19), em Cambridge (p27), em Heidelberg (p40), em Nova York (p59, p60, p61), em Gênova (p72, p74, p75),… Desses papiros alguns são do ano 200. É, por exemplo, do ano 200 aproximadamente, o papiro 67, guardado em Barcelona.  

O valor de tais testemunhas ainda se torna mais evidente se se considera o estado de conservação das obras dos autores clássicos. Destas se possui às vezes um só manuscrito (ao passo que dos Evangelhos existem mais de cinco mil). Além disso, o autor que melhor se pode conhecer é Virgílio († 19 a. C.); no entanto há  um intervalo de 350 anos entre a morte deste poeta e o mais antigo manuscrito do mesmo hoje conservado. Para Tito Lívio († 17 d. C.), o intervalo corresponde é de 500 anos; para Horácio († 18 a. C.), é de 900 anos; para Júlio César (†  44 a. C.) e Cornélio Nepos († 32 a. C.), 1200 anos; para Platão († 347 a. C.) e Tucídides (†  395 a. C.), 1300 anos; para Eurípides (†  407/6 a. C.), 1600 anos! 

Vemos,  então, que a transmissão desses clássicos antigos, gregos e latinos, tão usados pela humanidade, com total credibilidade, tiveram uma transmissão muito mais precária do que o Novo Testamento, com os seus mais de 5000 manuscritos, muito mais próximos de seus originais. Se a humanidade não põe em dúvida a autenticidade desses textos latinos e gregos, então, jamais poderá questionar a autenticidade do Novo Testamento. 

As fontes dos primeiros séculos confirmam a autenticidade do Novo Testamento. Vejamos apenas uns poucos exemplos. Atente bem para as datas.  

Evangelho de Mateus - No ano 130, Bispo Pápias, de Hierápolis na Frígia, região da Ásia Menor, que foi uma das primeiras a ser evangelizada pelos Apóstolos, fala do Evangelho de São Mateus dizendo: “Mateus, por sua parte, pôs em ordem os dizeres na língua hebraica, e cada um depois os traduziu como pode” (Eusébio,  História da Igreja III, 39,16). 

Quem escreveu essas palavras foi o bispo Eusébio, de Cesaréia na Palestina, quando por volta do ano 300 escreveu a primeira história da Igreja. Ele dá o testemunho histórico de Pápias. Note que Pápias nasceu no primeiro século, isto é, no tempo dos próprios Apóstolos; S. João ainda era vivo. Portanto este testemunho é inequívoco.  

Outro testemunho importante sobre o Evangelho de Mateus é dado por Santo Irineu (†200), do segundo século. Ele foi discípulo do grande bispo S. Policarpo de Esmirna, que foi discípulo de S. João evangelista.  S. Irineu na sua obra contra os hereges gnósticos, também fala do Evangelho de Mateus, dizendo:  “Mateus compôs o Evangelho para os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja.” (Adv. Haereses II, 1,1). 

Evangelho de São Marcos - É também o Bispo de Hierápolis, Pápias (†130) que dá o primeiro testemunho do Evangelho de Marcos, conforme escreve Eusébio: “Marcos, intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, mas sem ordem, tudo aquilo que recordava das palavras e das ações do Senhor; não tinha ouvido nem seguido o Senhor, mas, mais tarde…., Pedro. Ora, como Pedro ensinava, adaptando-se às várias necessidades dos ouvintes, sem se preocupar em oferecer composição ordenada das sentenças do Senhor, Marcos não nos enganou escrevendo conforme recordava; tinha somente esta preocupação, nada negligenciar do que tinha ouvido, e nada dizer de falso” (Eusébio, História da Igreja, III, 39,15). 

Evangelho de São Lucas - O Prólogo do Evangelho de S. Lucas, usado comumente no século II, dava testemunho deste Evangelho, ao dizer: “Lucas foi sírio de Antioquia, de profissão médica, discípulo dos apóstolos, mais tarde seguiu Paulo até a confissão (martírio) deste, servindo irrepreensivelmente o Senhor. Nunca teve esposa nem filhos; com oitenta e quatro anos morreu na Bitínia, cheio do Espírito Santo. Já tendo sido escritos os evangelhos de Mateus, na Bitínia, e de Marcos, na Itália, impelido pelo Espírito Santo, redigiu este Evangelho nas regiões da Acaia, dando a saber logo no início que os outros Evangelhos já haviam sido escritos.” 

Evangelho de São João – é Santo Ireneu (†202) que dá o seu testemunho: “Enfim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que reclinou sobre o seu peito, publicou também o Evangelho quando de sua estadia em Éfeso. Ora, todos esses homens legaram a seguinte doutrina: … Quem não lhes dá assentimento despreza os que tiveram parte com o Senhor, despreza o próprio Senhor, despreza enfim o Pai; e assim se condena a si mesmo, pois resiste e se opõe à sua salvação – e é o que fazem todos os hereges”. (Contra as heresias) 

É por isso que a Igreja, com toda a sua seriedade, e fazendo uso da ciência, depois de examinar todas as coisas, com todo o rigor que lhe é peculiar, não tem dúvida de nos apresentar os Evangelhos como rigorosamente históricos. A Constituição Apostólica Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, diz: “A santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, tem como sagrados e canônicos os livros completos tanto do Antigo como do Novo Testamento, com todas as suas partes, porque, escritos  sob a inspiração do Espírito Santo, eles têm Deus como Autor e nesta sua qualidade foram confiados à Igreja” (DV,11). 

Outros estudos mais recentes confirmaram a autenticidade dos Evangelhos, especialmente com as descobertas dos manuscritos de Qumran, na Palestina, próximo do Mar Morto, no ano 1949. Ai foram encontrados cópias da Bíblia, do século primeiro, inclusive pequeno fragmento do Evangelho de S. Marcos; o que mostra que eles foram escritos antes do ano 70, já que foi nesta data que os monges essênios esconderam os textos bíblicos nas grutas.  

Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br