Aprendendo amar as Leis de Deus

Não há lei melhor que a que Deus nos deu. Ele nos criou por amor e para o amor, “para participar de sua vida bem-aventurada” (Cat.§1), nos deu leis sábias e santas para chegarmos a essa felicidade.

Ou será que alguém é melhor do que Deus e pode nos dar leis e preceitos melhor para viver? Não. Ninguém é melhor do que Deus; ninguém é mais sábio, douto e santo do que Ele. E mais, ninguém aceitou enfrentar a cruz para nos salvar da morte eterna.

Por isso, ninguém é feliz se não viver as Suas leis, e a razão é simples: ninguém nos ama mais do que Deus; ele é nosso Criador, e nos conhece como ninguém. Com muita sabedoria e fé disse o Dr. Francis Collin, gerente do Projeto Genoma Humano: “O ateísmo é a mais irracional das opções”.

Todo o longo Salmo 118, o mais longo, proclama a beleza da lei de Deus. São 176 versículos glorificando a lei de Deus. Leia e medite em algumas dessas pérolas:

“Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a lei do Senhor” (v. 1).

“Não serei então confundido, se fixar os olhos nos vossos mandamentos” (v.6)

“Na observância de vossas ordens eu me alegro, muito mais do que em todas as riquezas” (v.14)

“Vossos mandamentos continuam a ser minhas delícias. Eterna é a justiça das Vossas prescrições, dai-me a compreensão delas para que eu viva” (v. 143-144).

“Vossos preceitos são minhas delícias, meus conselheiros são as vossas leis” (v.26).

“Escolhi o caminho da verdade, impus-me os vossos decretos”(v.30).

“O único consolo em minha aflição é que vossa palavra me dá vida” (v.50).

“Mais vale para mim a lei de vossa boca que montes de ouro e prata” (v.72).

“É eterna, Senhor, vossa palavra, tão estável como o céu” (v.89).

“Jamais esquecerei vossos preceitos, porque por eles é que me dais a vida” (v.93).

“Vossos preceitos me fizeram sábio, por isso odeio toda senda iníqua” (v.104).

“Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho” (v.105).

“Muitas lágrimas correram de meus olhos, por não ver observada a vossa lei” (v.136)

“Apesar da angústia e da tribulação que caíram sobre mim, vossos mandamentos continuam a ser minhas delícias” (v.143).

Por tudo isso é que a Carta aos hebreus diz que:

“A palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes, e atinge até à divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4,12). E São Paulo diz:

“Por isso também damos graças sem cessar a Deus porque recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes. Vós a recebestes não como palavra de homens, mas como realmente é: Palavra de Deus, que age eficazmente em vós que crestes” (1 Ts 2,13).

“Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para persuadir, para corrigir e formar na justiça” (2Tm 3,16).

“Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado a minha vontade e cumprido a sua missão” (Is 55,10).

Nosso mundo moderno e auto-suficiente, infelizmente já não precisa mais de Deus; vive como se Deus não existisse, e agora sofre. O Papa Bento XVI disse que o homem moderno construiu um mundo que não tem mais lugar para Deus.

Os homens criaram milhares de leis e muitos códigos de Direito para serem felizes, mas infelizmente não querem obedecer a apenas Dez Mandamentos que o Criador nos deu para nossa felicidade. Se seguissem voluntariamente esses Mandamentos, não seriam necessários tantos códigos de leis e tantos presídios. Mas ninguém pode seguir os Mandamentos de Deus se não amar a Deus.

É a religião que dá base moral a todas as outras atividades. Como disse Dostoiwiski, em “Os Demônios”, “se Deus não existe, então, eu sou deus”. E faço o que eu quero, vivo segundo as “minhas” pobres leis. Esta é hoje a grande ameaça à humanidade: o homem ocupa o lugar de Deus. Como disse João Paulo II; no século XX os falsos profetas se fizeram ouvir.

O “Semanário Litúrgico-catequético” O DOMINGO (assinaturas@paulus.com.br tel. – 11- 3789 4000), de 13-06-2020, trouxe um artigo intitulado ECOLOGIA E MISSÃO, do padre João Batista Libânio, sj, onde exagera no relativismo doutrinário e no sincretismo religioso. Entre outras afirmações vagas e numa critica solerte à evangelização da Igreja no Ocidente, diz que:

“O conceito de vida ampliou-se. Os grandes empreendedores do passado se ofenderiam se lhes dissesemos que batalharam pela morte. “Não”, diriam. “Levamos a vida da fé católica, a vida da cultura ocidental, a vida da tecnologia européia a regiões sem fé, sem cultura, sem tecnologia.”. Eles tinham, porém, uma compreensão restrita da vida, fixada neles mesmos. Desconheciam que a vida se expande de mil maneiras. Vida de Deus existe em todas as religiões. Cultura se constrói em todos os povos. Fabricam-se até mesmo tecnologias na simplicidade de humanos primitivos”.

Ora, dizer que “Vida de Deus existe em todas as religiões”, é lançar joio no trigo puro do Senhor; é um convite terrível para que os católicos se liguem a outras religiões, já que em todas elas existe “Vida de Deus”. No mínimo essa afirmação dá à Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo um sentido relativo; algo dispensável. Se todas as religiões são boas, se em todas elas está a “Vida de Deus”, então, todos os deuses são verdadeiros e todos os credos dessas religiões são válidos e a morte de Cristo foi em vão, o trabalho de evangelização da Igreja é inútil; os mártires morreram e morrem hoje em vão.

Desta forma se nivela Jesus Cristo com Buda, Maomé, Massaharu Tanigushi, Alan Kardec, etc. Se é assim, então, para que 2000 de lutas da Igreja contra as heresias, os 21 Concílios ecumênicos para vencer o arianismo, o pelagianismo, o nestorianismo, o macedonismo, o monofisismo, o monoteletismo, o iconoclasmo, o jansenismo, o protestantismo e outras heresias?

Será que tudo isso foi em vão?; uma perda de tempo da Igreja e dos seus santos Padres, santos e doutores? Não, ao aprovar o Catecismo em 1992, na “Constituição Fidei depósitum” o Papa disse: “Guardar o depósito da fé é a missão que o Senhor confiou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos”. A Igreja sabe que se o sagrado “depósito” (1Tm 6,20) , a “sã doutrina” (1Tm 1, 10; Tt 2, 1), for corrompido, tudo estará perdido. Para S. Paulo, a salvação está na verdade e esta está na Igreja. “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade!” (1Tm 2, 4); mas, “A Igreja é a coluna e fundamento da  verdade” (1Tm 3,15). S. Paulo fala do perigo das “doutrinas estranhas” (1 Tm 1,3); dos “falsos doutores” (1 Tm 4, 1-2).

Sinceramente não podemos ficar calados diante de um absurdo tão grande – infelizmente notado por poucos – temos de protestar, pois, relativizar a salvação que só Jesus tem para nos dar é trair Cristo e a Igreja.

Evangelizar é levar o Evangelho da salvação a todos os povos. A ordem do Senhor é esta: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19-20).

E sabemos que não há salvação fora de Jesus Cristo e da Igreja Católica. São Pedro diz claro:

“Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”. (At 4, 12). São Pedro explica-nos que essa salvação eterna foi conquistada “não  por  bens  perecíveis,  como a prata e o ouro… mas pelo  precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imolado” ( I Pe 1,18).

“Carregou os nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro, para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos curados” (1 Pe 2,24).

Jesus não disse: eu sou “um” caminho, como se houvesse muitos, não. Ele disse:  eu sou “o” Caminho, “a” Vida, “a” Verdade. Fora de Jesus Cristo  não há vida eterna. O nosso Catecismo diz no seu §846 que:

“Fora da Igreja não há salvação”. “Como entender esta afirmação, com freqüência repetida pelos Padres da Igreja? Formulada de maneira positiva, ela significa que toda salvação vem de Cristo-Cabeça através da Igreja que é o seu Corpo: Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, [o Concílio] ensina que esta Igreja peregrina é necessária para a salvação. O único mediador e caminho da salvação é Cristo, que se nos torna presente no seu Corpo, que é a Igreja. Ele, porém, inculcando com palavras expressas a necessidade da fé e do batismo, ao mesmo tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo, como que por uma porta. Por isso não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar, ou então perseverar (LG 14)”.

Fora da Igreja Católica, há sementes de verdade e de bem, que devem ser reconhecidas, como disse o Concílio Vaticano II, mas não a verdade plena, e nem a “plenitude dos meios da salvação”, que só existe na Igreja católica (Unitatis Redintegratio, 3).

No Consistório dos Cardeais, em Roma, de 4 a 6 de abril de 1991, o Cardeal Josef Tomko, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, fez um alerta importante: apresentou uma nova teoria nascida em alguns ambientes teológicos que distingue entre o Cristo cósmico Logos e Jesus Cristo histórico. O Cristo Logos cósmico “estaria presente em todas as religiões do mundo”, não só no Cristianismo, ao passo que o Cristo histórico só no Cristianismo.  Isto leva à conclusão de que não se deveria fazer um esforço missionário de evangelização e catequese dos povos não católicos, mas apenas cuidar da promoção temporal e econômica de todos os povos.

A tese é muito perigosa, pois anula o conceito de verdade e relativiza todas as mensagens religiosas, colocando no mesmo plano o politeísmo, o panteísmo e o monoteísmo, como se todas as religiões fossem boas e igualmente verdadeiras.

Eis um resumo das colocações do Cardeal sobre este perigo:

“As conseqüências sobre a missão são simplesmente devastadoras. A finalidade da evangelização é desviada e reduzida, a necessidade da fé em Jesus Cristo, do batismo e da Igreja, é posta em dúvida.  “Neste contexto do pluralismo religioso – exclama um teólogo indiano – ainda tem sentido proclamar Cristo como o único Nome em que todos os homens encontram a salvação a chamar a fazerem-se discípulos mediante o batismo e a entrar na Igreja”?

A evangelização no sentido global, em que o “novo ponto focal” é a construção do Reino, ou seja, da nova humanidade, consistiria só no diálogo, na inculturação e na libertação. Estranha mas significativamente, é omitido o anúncio ou proclamação; antes, ela é classificada como propaganda ou proselitismo.  A evangelização é reduzida ao diálogo de tipo social ou à promoção econômico-social e à “libertação” das raças com todos os meios, incluída a violência.  Sobre a conversão, um teólogo indiano escreve: “A conversão religiosa é o resultado do jacobinismo ocidental e da sua intolerância … A conversão nasce do sentido de superioridade de uma religião a respeito de outra, enquanto nenhuma religião tem o monopólio da verdade”.

O abandono das estações missionárias, das pregações do Evangelho e da catequese, por parte dos missionários, do clero, das religiosas, e a fuga para obras sociais, como também o contínuo falar em sentido redutivo dos “valores do Reino” (justiça, paz) é um fenômeno difundido na Ásia e propagandeado por alguns centros missionários, também noutros continentes.”

Note que este Jesus histórico teria outras manifestações paralelas e equivalentes. Assim,  o objetivo do catolicismo não seria reunir todos os povos na Igreja fundada por Jesus Cristo, e entregue a Pedro e seus sucessores (cf. Lumen Gentium nº 14; Decreto Ad. Gentes nº 7), mas apenas reunir todos os homens, de qualquer religião, no Reino de Deus. Mas este Reino não seria caracterizado por uma única crença religiosa, um Credo católico, mas, por amor, justiça, paz, bem estar da humanidade, ecologia, libertação dos homens…; logo, o zelo missionário seria condenável como proselitismo e intolerância, e a evangelização se reduziria à promoção econômico-social e à libertação das raças.

Penso que um Semanário “litúrgico-catequético” não é o lugar para se fazer catequese ecológica, social e sincretista, mas de anunciar o “Kerigma”, o grito, de que Jesus Cristo, e só Ele, é o salvador e redentor do  homem.

Em síntese: O episódio da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21) tem sido ultimamente apregoado não como um feito milagroso de Jesus, mas como a simples partilha dos farnéis existentes na multidão. Tal interpretação não somente não corresponde aos dizeres do texto, mas não é aceita pelos bons exegetas em geral. Trata-se de um fato histórico mila­groso, que os evangelistas descrevem como sinal do pão eucarístico e da bonança prometida pelos Profetas para o Reino messiânico.

Na pregação do Evangelho, ouve-se dizer que a multiplicação dos pães não foi um milagre, mas partilha do pão existente no farnel dos ouvintes de Jesus. Visto que tal interpretação tem causado perplexidade, ser-lhe-ão dedicadas as considerações seguintes.

1. Milagre ou partilha?

Antes do mais, é de notar que o episódio foi muito caro aos antigos. Mateus e Marcos o narram duas vezes; cf. Mt 14,13-21; 15, 29-39 e Mc 6, 30-40; 8, 1-18. São Lucas o refere uma só vez; cf. Lc 9, 10-17. São João também; cf. Jo 6,1-13. Os exegetas atualmente julgam que em Mt e Mc há duplicata do relato do fato, embora leves diferenças existam entre a primeira e a segunda narrativas; trata-se de duas tradições a referir o mesmo feito de Jesus.

Pergunta-se agora: que houve realmente no episódio em foco?

A interpretação tradicional e amplamente majoritária afirma ter havido um milagre: com poucos pães e peixes Jesus saciou milhares de homens. Recentemente começou-se a dizer que não houve milagre, mas Jesus orde­nou que os seus ouvintes repartissem entre si as provisões que haviam levado. Tal interpretação carece de fundamento no texto e o violenta, pois o evangelista faz observar que nada havia para comer entre a multidão.

“Chegada a  tarde, aproximaram-se dele os seus discípulos, dizen­do: “O lugar é deserto e a hora já está avançada. Despede as multidões para que vão aos povoados comprar alimento para si”. Mas Jesus lhes disse: “Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ao que os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”.

Jesus então interveio, multiplicando os pães.

O caráter milagroso do episódio é mais realçado na segunda nar­rativa. Com efeito; a secção de Mt 15, 29-39 segue-se a um milagre de Jesus: a cura da filha da mulher cananéia (Mt 15, 21-28) e a uma declaração sobre a atividade taumatúrgica de Jesus:“Vieram até ele numerosas multidões, trazendo coxos, cegos, aleijados, mudos e muitos outros e os puseram a seus pés e ele os curou, de sorte que as multidões ficaram espantadas… E renderam glória ao Deus de Israel” (Mt 15, 29-31).Jesus mesmo diz logo a seguir:“Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer. Não quero despedi-la em jejum, de modo que possa desfalecer pelo caminho”.Na base destas averiguações, não pode restar dúvida de que se trata de um fato histórico e milagroso em Mt 14, 21-32 e paralelos.Vejamos algumas peculiaridades da narrativa.

2.  Particularidades literárias

O relato da multiplicação dos pães nos quatro Evangelhos não pode deixar de lembrar ao leitor certos antecedentes do Antigo Testamento:Em 2Rs 4, 42-44 lê-se o seguinte: “Veio um homem de Baal-Salisa e trouxe para o homem de Deus pão das primícias, vinte pães de cevada e trigo novo em espiga. Eliseu ordenou: “Oferece a essa gente para que coma”. Mas o servo respondeu: “Como hei de servir isso para cem pessoas?”. Ele repetiu: “Oferece a essa gente para que coma, pois assim falou o Senhor: “Comerão e ainda sobrará”. Serviu-lhes, eles comeram e ainda sobrou segundo a palavra do Senhor”.Verifica-se que a estrutura literária é a mesma que em Mt 14, 13-21; são levados a Eliseu alguns pães; o Profeta ordena a seu servo (discípulo) que sacie cem homens; o servo aponta a impossibilidade (como os Apóstolos). Eliseu ignora a objeção e, confiado na Palavra de Deus, manda distribuir o pão. Ficam sobras, como no relato evangélico.Em Ex 16, 1-36 e Nm 11, 4-9 é narrada a entrega do maná ao povo no deserto, entrega à qual Jesus faz alusão ao prometer o pão eucarístico; cf. Jo 6, 49.Tais episódios do Antigo e do Novo Testamento não referem apenas uma refeição humana, mas têm significado transcendental: querem dizer que Deus acompanha, ontem e hoje, seu povo peregrino e lhe oferece os subsídios necessários para que supere os obstáculos da caminhada e chegue certeiramente ao termo almejado, que é a vida eterna.O relato evangélico faz alusões também à Eucaristia, o viático por excelência. AssimMt 14, 15: “Ao entardecer” em grego é a fórmula com que é introduzido o relato da última ceia;Mt 14, 19: “tomou os pães”, “levantou os olhos para o céu”, “abençoou”, “partiu”, “deu aos discípulos” são expressões da última ceia e da posterior celebração eucarística.Mt 14, 20: a grande quantidade de pão assim doada lembra a fartura prometida pelos Profetas para os tempos messiânicos; cf. Os 14, 8; Is 49, 10; 55, 1…O recolher os fragmentos que sobram, é usual na celebração eucarística.Em suma, a ceia de viandantes proporcionada pelo Senhor ao seu povo é prenúncio da ceia plena ou do banquete celeste, símbolo da bem-aventurança definitiva. É neste contexto que há de ser lida a secção de Mt 14, 13-21 e paralelos; na intenção dos evangelistas, ela quer significar o Dom supremo de Deus ao homem, que é o encontro face-a-face na bem-aventurança celeste.

Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”D. Estevão Bettencourt, osbRevista nº 479, Ano 2002, Pág. 191. 

Revista :    PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 533   – Ano : 2006  – Pág. 493

Já consideramos o chamado “Evangelho de Maria” em PR 529 pp. 290ss. Voltamos ao assunto a propósito do livro assim intitulado, que traz o texto de tal apócrifo com os comentários de Jean-Yves Leloup1.
O apócrifo Evangelho de Maria é de origem gnóstica e foi encontrado em nag Hammadi. Propõe em termos vivazes o relacionamento de Maria Madalena com Jesus como o de uma companheira privilegiada em convívio com o seu Amado.
Jean-Yves Leloup não distingue entre apócrifos de origem cristã e apócrifos de origem gnóstica. Por isto equipara uns e outros entre si como fontes fidedignas para reconstituir o surto do Cristianismo. Daí a afirmação:
“Trata-se do Evangelho de Maria, atribuído a Miriam de Magdala, primeira testemunha da ressurreição e, por causa disto, considerada pelo apóstolo João como sendo, bem antes de Paulo e de sua visão a caminho de Damasco, a fundadora do cristianismo” (p. 8).

Tal conclusão é gratuita; resulta de uma interpretação do texto apócrifo tendenciosa ou preconceituosa.
Madalena é quem transmite aos Apóstolos a doutrina que Jesus  lhe comunica:
“Jesus confia-lhe palavras que os outros discípulos ignoram; ela ocupa o lugar deixado vago por Jesus; ela comunica os segredos recebidos e os explica” (p. 11).

Esse papel eminente decorre da intimidade com Jesus de que Madalena gozava:
“Este papel de intermediária entre Jesus e os discípulos repousava sobre a crença na posição de Maria Madalena como companheira de Jesus durante sua vida e primeira testemunha da ressurreição” (p. 11).

Jean-Yves Leloup julga necessário atribuir a Jesus tal familiaridade com Madalena a fim de dissipar o conceito de que a sexualidade humana é pecaminosa. Se Jesus a vivenciou, como diz Leloup, não há por que a estigmatizar como algo de mau, embora este gesto liberal custe algum esforço ao cristão dado ao apreço da castidade e da vida uma e indivisa.

Pergunta-se: Que dizer?

Repita-se aqui o que foi dito neste fascículo à guisa do comentário do Evangelho de Felipe. Sejam enfatizados, porém, os três seguintes pontos:
1) Os Evangelhos gnósticos não procedem de fonte cristã, não representam o pensamento das primeiras gerações cristãs, datam do século II e provêm de escolas dualistas como foram as de Valentim, Basílides, Marcião. Por conseguinte não podem ser justapostos aos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que no século I procedem da genuína fonte “Apóstolos-Jesus”. Em conseqüência dir-se-á: Não podemos procurar reconstituir as origens do Cristianismo consultando os apócrifos gnósticos.

2) As teses que tais escritos propõem não tem respaldo nem em textos anteriores nem na literatura cristã posterior. Com efeito; nenhum escritor da história do Cristianismo conhece o pretenso conúbio de Jesus nem o primado atribuído a Madalena. Não se diga que a Igreja ocultou essas proposições em favor do machismo eclesiástico. A mentira que a Igreja teria assim favorecido, teria pernas curtas, como toda mentira, segundo a sabedoria popular.

3) Distingamos entre sexualidade e genitalidade. Todo ser humano é sexuado (e Jesus o foi certamente), mas não é necessariamente genitor ou genitora. Jesus não se casou porque veio trazer ao mundo o início do Reino de Deus, no qual não há casamento, pois “todos serão como os anjos de Deus” (Mt 22, 23-33).
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1 Ed. Vozes, Petrópolis 2006, 188pp.

Revista : PERGUNTE E RESPONDEREMOS
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 533 – Ano : 2006 – Pág. 488

Em síntese: O Evangelho de Felipe, apócrifo de origem gnóstica, foi recentemente publicado em português com os comentários de Jean Yves Leloup. Este autor endossa a tese segundo a qual Jesus se casou com Maria Madalena, não levando em conta o caráter não cristão do texto gnóstico; este é de data tardia (século II) e recorre ao pseudônimo do Apóstolo São Filipe. Não há um vestígio de tal casamento em toda a tradição cristã – o que já seria suficiente para lançar suspeita sobre a veracidade da hipótese apresentada por Leloup.

Foi publicado em português o texto do apócrifo gnóstico intitulado “O Evangelho de Felipe”1 acompanhado de comentários de Jean-Yves Leloup. Tal apócrifo tem sido freqüentemente citado como portador de notícias que a Igreja subtraiu ao conhecimento do público, mas que seriam verídicas. – Em vista da importância de tal escrito no debate teológico, será, a seguir, explanado, levando-se em conta as ponderações de Leloup.

1.    O Evangelho de Felipe: origem

Na década de 1940 foi encontrado em nag Hammadi (Egito) um papiro, escrito em língua copta e intitulado “O Evangelho de Felipe”. Pertence a um acervo de escritos de origem gnóstica ou não cristã. Terá sido escondido este texto num recanto de Nag Hammadi por monges que o queriam salvar da destruição que a Igreja oficial lhe infligiria se o tivesse em mãos; terá sido um escrito proibido, porque dá notícia de um presumido casamento de Jesus com Maria Madalena, notícia esta envolvida em considerações “místicas” sobre a união conjugal.

“Pode ter acontecido que estes textos se encontrassem ameaçados não só pela ortodoxia…, mas talvez também pelos monofisitas, chocados por verem certos detalhes lembrar de forma tão explícita o realismo da encarnação do Verbo. O corpo que falava era também um corpo que amava, e amava não de maneira platônica ou grega, mas com toda a presença sensual e psíquica do humano bíblico” (ob. Cit., p. 11).

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1 O Evangelho de Felipe. Traduzido e comentado por Jean-Yves Leloup. – Ed. Vozes, Petrópolis 2006, 183 pp.

Comentaremos oportunamente esta tese de Leloup.

O manuscrito do Evangelho de Felipe assim descoberto consta de 150 páginas, cada qual com trinta e três e trinta e sete linhas. O texto em pauta deve datar do início do século IV; é uma tradução copta do original grego, que pode ter sido redigido por volta de 150. Vem a ser uma compilação de sentenças atribuídas a Jesus em estilo sibilino ou obscuro, que se presta a mais de uma interpretação.

2.    O Evangelho de Felipe:  conteúdo

Observa Leloup: “Os temas propostos por esse florilégio ou esse colar de pérolas, que é o Evangelho de Felipe, são numerosos. Cada lógion (sentença), como cada pérola do colar, pode ser uma fonte de luz e exigiria um longo comentário” (ob. cit., p. 21). O comentador realça os três seguintes tópicos:

2.1.    Íntimo relacionamento de Jesus com Maria Madalena

A sentença 55 é assim concebida:

“A companheira do Filho é Miryam de Magdala. O Mestre amava Miryam mais que a todos os discípulos e beijava-a freqüentemente na boca.
Os discípulos, vendo-o amar dessa forma Miryam, disseram-lhe: “Por que a amas mais que a todos nós?” O Mestre lhes respondeu: “Por que pensam que não os amo tanto quanto a ela?”
O pseudo-Felipe exalta a união conjugal como algo de sagrado e, por isto, compatível com a dignidade do Mestre:
“O quarto nupcial é o Santo dos Santos… Esta libertação se manifesta no quarto nupcial… Aqueles que verdadeiramente oram em Jerusalém, tu os encontrarás somente no Santo dos Santos… no quarto nupcial” (lógion 76).

Este é o tópico que mais interessa aos estudiosos do apócrifo em questão.

2.2.    Ressurreição espiritual

Em linguagem obscura Leloup parece negar a realidade da ressurreição corporal de Jesus, admitindo apenas a ressurreição espiritual. Assim é interpretado o lógion 21:

“Aqueles que afirmam que o Senhor morreu primeiro e que depois ressuscitou se enganam pois primeiro Ele ressuscitou e em seguida morreu. Se alguém, antes de tudo, não ressuscita, não pode senão morrer. Se já ressuscitou, vive como Deus vivo”.

Esta proposição condiz com o dualismo gnóstico, que julga ser a matéria má e o espírito bom ontologicamente ou por sua própria natureza.

2.3.    Não-dualidade

Por não-dualidade Leloup entende não haver distinção nítida entre o bem e o mal. “É, sem dúvida, imprudente delimitarmos com muita precisão os territórios do bem e do mal; um não funciona sem o outro, como o dia não existe sem à noite; isto nos conduz também à parábola do joio e do trigo: arrancar um é destruir o outro” (ob. cit., p. 21s). Tal afirmação é depreendida do seguinte lógion:

“Luz e trevas, vida e morte, direita e esquerda são irmãos e irmãs. Seão inseparáveis. Por isto a bondade não é apenas boa, a violência violenta, a vida apenas vivificante, a morte apenas mortal” (lógion 10).

Na verdade, dever-se-ia dizer: o bem e o mal, as trevas e a luz, à direita e a esquerda… são distintos entre si, mas caminham conjuntamente na mesma estrada. Convém recordar a terminologia precisa:

Dualismo: dois princípios antagônicos entre si; o corpo seria mau, o espírito seria bom. Tal concepção não é cristã.
Dualidade: dois princípios distintos um do outro, mas não antagônicos e, sim, complementares; tal é o caso de homem e mulher, são distintos um do outro e se complementam mutuamente.
Monismo: um só princípio.

Pergunta-se agora:

3.    Que dizer?

O Evangelho de Felipe é um texto difícil ou obscuro, prestando-se a diversas interpretações. O seu comentador Jean-Yves Leloup também se ressente da falta de clareza em suas páginas. Como quer que seja, tal apócrifo transmite uma nítida concepção: Jesus teve relacionamento íntimo com Maria Madalena, ficando insinuado que se casaram. É este o ponto que nos interesse considerar mais atentamente:
Começamos por observar que há dois tipos de apócrifos: os de origem cristã e os de origem gnóstica.
Os de origem cristã são o eco daquilo que as comunidades cristãs pensavam desde os inícios da história da Igreja. Apresentam um Jesus taumaturgo e maravilhoso, completando a seu modo o teor dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Não referem especial relacionamento de Jesus com Madalena. Nesses apócrifos se encontram dados que a tradição cristã aceitou como verídicos (ou, ao menos, verossímeis os nomes dos genitores de Maria SSma. (Joaquim e Ana), a apresentação de Maria no Templo aos três anos de idade, o nascimento de Jesus numa gruta entre o boi e o burro, os nomes dos três magos tidos como reis (Gaspar, Belchior e Baltasar), os nomes dos dois ladrões (Dimas e Gesta), o nome do soldado que feriu o lado de Jesus com a lança (Longino), o episódio de Verônica, que enxugou o rosto ensangüentado de Jesus…
Os apócrifos de origem gnóstica não procedem do tronco cristão como os anteriores, mas de premissas de escolas dualistas que floresceram nos séculos II e III e quiseram apresentar suas concepções sob a forma de textos bíblicos como se fossem autenticamente cristãs. Essa literatura é muito complexa: assim como ela refere à intimidade de Jesus com Madalena, refere também a aversão às mulheres, que se deveriam tornar homens para salvar. Com efeito: em Nag Hammadi, no mesmo lote de manuscritos que continham o  Evangelho de Felipe, achava-se também o Evangelho de Tomé, que se encerra com o seguinte lógion:

“Simão Pedro disse a eles: “Maria deveria deixar-nos, pois as mulheres não são dignas da vida”.
Jesus respondeu: “Eu a guiarei para fazer dela um homem, de modo que também ela possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vocês, homens. Pois toda mulher que se tornar homem entrará no reino do céu”. (lógion 114).

Percebe-se assim a contradição dentro do próprio setor gnóstico: ora Maria Madalena é estimada como mulher “companheira” de Jesus, ora é rejeitada no que ela tem de feminino e transformada em homem. Tal contradição desqualifica a tese do casamento de Jesus.

De resto, em nenhum documento da história do Cristianismo aparece vestígio dessa pretensa união conjugal do Mestre Divino. Se tal união fosse uma realidade histórica, não teria permanecido vinte séculos oculta pela prepotência da Igreja ciosa de dominar, pois “a mentira tem pernas curtas” como se diz em linguagem popular. A Igreja não tem medo da verdade.

Notemos outrossim que, ao morrer, Jesus toma providências em relação à sua Mãe, mas não parece estar preocupado com o futuro de Maria Madalena – o que não seria compreensível se houvesse íntimo relacionamento entre o Senhor e Madalena.

Pergunta-se então: Por que devia Jesus permanecer celibatário?

- Jesus veio anunciar a entrada do Reino de Deus no tempo dos homens (cf. Mc 1,14). Começou aqui na terra o Definitivo com toda a riqueza de seus dons. A consciência disto levou os cristãos desde a primeira geração a abraçar a vida uma ou indivisa para se dedicarem totalmente ao Eterno Presente; cf. 1Cor 7, 25-35. O próprio Jesus nos diz que no Reino de Deus consumado não haverá casamento, mas serão todos como os anjos de Deus (Mt 22,23-33). Sendo assim, Jesus, como arauto desse Reino, devia ser o primeiro a abraçar a vida uma ou indivisa. O celibato é o testemunho de que a sede de vida e felicidade do ser humano pode ser satisfeita com bens invisíveis e com a renúncia aos valores passageiros e, por vezes, ilusórios deste mundo. Jesus não foi menos homem pelo fato de não se casar; teve os nobres sentimentos de um coração humano; estes, porém, eram dirigidos para além dos bens materiais e visíveis. Muito sabiamente escreveu Saint-Exupéry: “O essencial é invisível”. O celibatário acima, mas ama segundo os parâmetros do Definitivo e Absoluto. – É isto que compete dizer a Jean-Yves Leloup.