Se você tem passado dias e até semanas sem receber visitas e isso pode ser sinal de que a solidão pode estar batendo a sua porta e quase entrando em sua vida, sem sua autorização. Mas o que leva alguém a viver uma solidão? Alguns fazem a opção de não se abrir ao próximo, não se dizer e nem mesmo querer conhecer a história do outro. Outros são simplesmente esquecidos, talvez pelo avançar da idade, ou pela falta de recursos para promover almoços, jantares, lanches, etc. Não tem como ser hipócrita nessa hora, pois a maioria dos “amigos” desaparecem na hora de uma enfermidade, de uma carestia financeira ou do peso da idade nas pernas. Ontem conversava com um amigo, que conseguiu passar dos 80 anos. E mesmo com centenas de “irmãos” sente a dor da solidão. Tudo começou há uns 4 anos, quando uma cirurgia mal-sucedida o deixou impossibilitado de andar com as próprias pernas. Precisava do auxílio de uma cadeira de rodas. Hoje ele conta com um tal de “andador” e uma meia dúzia de fiéis escudeiros, que o amam de verdade e se esforçam para estar sempre junto dele. Mas, pensa num homem de resiliência, repleto de têmpera e de certeza de que está vivendo a vontade de Deus. Ele me dizia que as vezes pensa nos passos de fé que deu nos últimos dez anos, quando deixou sua vida numa grande cidade para viver sua total entrega ao Senhor, numa cidadezinha do interior. E se pergunta: “será que fiz a coisa certa?” Não tenho dúvidas que esse amigo é pra mim um grande presente de Deus, pois me ensina sem usar palavras. Desde o início de nossa amizade, quando ele vivia uma recém viuvez, eu me perguntava, como ele vai aguentar passar por tudo isso? Hoje os “amigos” mais presentes são suas carpas e sua cadela, que como ele estão avançando na idade. Ontem, vi esse amigo, pela primeira vez, pensativo, mas sei que ele ainda tem forças pra continuar a testemunhar nesse mundo. Ao me deitar, fiquei a pensar na nossa conversa e em quanta gente com metade da idade de meu amigo, que desiste fácil dos obstáculos impostos pela solidão. Talvez seja porque ainda não se encontrou com o verdadeiro Criador. E com o tempo corre-se o risco de não notar sequer as riquezas que esse Criador nos proporciona na vida lá fora.. no quinta de casa. Um dia desses, abri a porta da cozinha e quando dei o primeiro passo pros fundos da casa, dei de cara com esse “rapazinho” aí, chamado pelos admiradores de pássaros, de Tiê-Sangue. Não tem como negar que uma visita bela como essa mudou meu dia. Apesar de ser vascaíno, fiquei impactado por aquele rubro-negro a beliscar um pedaço de banana que serviria para alimentar o jabuti do meu filho. E o Tiê-Sangue estava bem acompanhado, de sua digníssima esposa. Os dois são muito diferentes, mas se completam. Nesse contraste de cores entendemos que as diferenças são riquezas. Seguir nosso caminho acompanhado por quem nos completa, até o tempo definido pelo Criador, é maravilhoso. Certamente o casal de Tiê um dia vai também viver a dor da separação imposta pela morte. E aquele que ficar, claro que não irá cantar mais do mesmo jeito que antes, pois sempre irá faltar um pedaço importante da “partitura”. Mas o Tiê que permanecer, vai precisar continuar sua missão de encantar com suas cores, de voar além das matas secas do outono, atrás de alimento, e transformar as manhãs de quem precisa apenas ver sua beleza vermelha e preta, ou laranja e marrom, pra entender que, mesmo se quiséssemos ficar sozinhos, nunca conseguiríamos. Deus sempre tem alguma criatura pra te dizer que Ele estará contigo, por onde quer que andes. Com as próprias pernas, as próprias asas, ou mesmo numa cadeira de rodas.

Deus Abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
@Wallace.Andrade9

 

 

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Arte e Foto: Wallace Andrade

Exercitar a arte que existe em cada um de nós não é algo fácil de se cumprir num dia a dia tão corrido e tão cheio de tarefas. Descobrir que talentos estão processados em nosso DNA e fazer com que eles venham pra fora, requer muito empenho, muito esforço e principalmente muita coragem. É preciso vencer a timidez que nos cerca, as incertezas que assombram nossas capacidades e as críticas que chegam e são capazes de nos alavancar ou nos derrotar pra sempre na trilha que nos propomos a seguir. Antes de saltar o abismo entre a teoria e a prática, nessa arte de viver, é necessário parar e lembrar de onde venho e o que me motivou a chegar aqui. Ser um artista da música, das esculturas, da pintura, do desenho ou da literatura é como reunir os fragmentos recortados ao longo da vida e extrair deles o melhor perfume, a melhor essência daquilo que o criador produziu e instalou em cada um de nós. Fragmentos de uma história iniciada nas primeiras canções que o ouvido captou, nos primeiros bonecos de barro que nasceram entre os pequenos dedos no quintal de terra, nas primeiras “pastilhas coloridas” da aquarela ou tinta guache, na primeira casa com chaminé no cantinho do papel, ou na primeira redação que fomos obrigados a ler em voz alta na frente dos colegas. São como um grande quadro de mosaico em que vamos recolhendo na nossa estrada exclusiva, as raridades em forma de “cacos”. É claro que tem gente que não valoriza os pedaços de alegria e fraternidade, propostos pelo momento, e logo esquece das riquezas achadas no caminho. Afinal os fragmentos da vida são como flores que desabrocham e enchem os olhos de quem as descobre. É claro que tem gente que só fica na beleza e no colorido das pétalas, que ao longo dos dias, se desbotam e despedaçam. Só os mais atentos guardam pra sempre o perfume que ela exalou antes de desaparecer. Os fragmentos da vida são como uma bela canção conhecida e que te leva a cantar com entusiasmo, só pelo fato de lembrar toda a letra e encher o peito pra soltar a voz. Só que os mais sensíveis guardam pra sempre os sorrisos e emoções que os acordes provocaram aos corações. Os fragmentos da vida são como uma grande tempestade que se forma, com vento forte, raios e trovões. Todo mundo corre pra fechar bem as portas e janelas. Desligar os aparelhos eletrônicos e torcer para que ela vá logo embora e pare de causar medo. Só os admiradores de toda a criação são capazes de abrir os olhos com o clarão e assistir ao espetáculo do raio que rasga o céu. Não tenha medo de catar os cacos, de cheirar as flores, de cantar seu canto e admirar os relâmpagos. Não tenha medo de ser aquilo que Deus quer… de colecionar bons amigos, de juntá-los em sua memória e levá-los sempre ao coração. Afinal a vida é feita de fragmentos e todos eles fazem parte de uma única história, que pode ser a sua!

Deus abençoe!

WallaceAndrade
Missionário e Jornalista
Comunidade Canção Nova
@WallaceAndrade9

 

Foto1060Fragilidade na solidez da vida nem sempre significa fraqueza! O que seria desse mundo tão cheio de crueldades e atrocidades, se só tivéssemos olhos para o concreto, o sangrento, o cruel? Sempre que vejo alguém capaz de contradizer os rótulos e idéias pré-definidos da vida e que tem a coragem de expôr sua verdade… Sempre que vejo alguém que é capaz de pensar com os próprios neurônios, mesmo que esteja cercado de recursos eletrônicos…Sempre que vejo alguém que não se permite ser controlado por quem dita moda, jeitos e trejeitos de pensar e agir,… acredito que ainda é possível sentir o perfume da poesia. Falo da poesia que salva os esquecidos, os desatentos, os influenciados e os tentados a seguir a onda da modernidade, sem ao menos calcular onde essa marola vai parar. Quando, em algum momento de nossa vida, somos lançados pra fora do aquário, temos a chance de descobrir que nem por isso vamos morrer por falta de pedrinhas coloridas que decoram o fundo e que nem por isso vamos morrer por falta de água limpinha e filtradinha. Fora do aquário descubro um rio caudaloso e cheio de obstáculos. E mesmo com forte correnteza, terei sempre ajuda de verdade pra nadar contra ela e chegar onde preciso, É claro que a fragilidade passa, desintegra, desaparece muito antes que a solidez, robusta, dura, fria e sem vida. Mas enquanto vive, a fragilidade cumpre o papel de dar cor e perfumar… de dar vida e sentido, onde foi plantada. Enquanto a solidez vai permanecer ali, sempre cinza, sempre dura e sempre sem atrativos, fadada ao abandono, ao limo da chuva e as rachaduras que a falta de flexibilidade e de desprendimento causam. O melhor de tudo é que ao contrário da flor, que nasce frágil e do concreto, que nasce sólido, e morrem do mesmo jeito, eu posso mudar do sólido para o frágil ou do frágil para o sólido. A escolha será sempre minha e as consequências…. também!!!

Deus abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
wallace.andrade@cancaonova.com 

soldado_a_contraluz_by_mithos_2000Is 58, 6-11 «Reparte o teu pão com o faminto»

A Leitura do Livro do Profeta Isaías foi lida por um soldado do Exército, no fim da manhã do dia 25 de agosto de 1984, numa formatura realizada no 56º Batalhão de Infantaria, na cidade de Campos dos Goytacazes-RJ, na região Norte Fluminense. O jovem soldado, foi escalado para a missão, momentos antes do início da Santa Missa campal. Ali estavam a mãe dele, a irmã, o namorado da irmã, o irmão de sua namorada e claro sua futura esposa, toda orgulhosa de vê-lo com farda de gala e diante da estante litúrgica, pronunciando as seguintes palavras de Is 58, 6-11: “Eis o que diz o Senhor Deus: Não será este porventura o jejum que Me agrada: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante? Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: ‘Estou aqui’. Se tirares do meio de ti toda a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, brilhará na escuridão a tua luz e a tua noite será como o meio-dia. O Senhor será sempre o teu guia e saciará a tua alma nos lugares desertos. Dará vigor aos teus ossos e tu serás como o jardim bem regado, como nascente cujas águas nunca secam. Palavras da Salvação!” .. O curioso é que até começar a leitura sagrada, o fuzileiro, que estava no quartel há apenas sete meses, já tinha todos os planos arquitetados em seu coração. Ele queria seguir a carreira militar e casar-se com sua primeira namorada, que estava ali assistindo a cerimônia do Dia do Soldado. Só que ao ler os versículos do profeta Isaías, algo se quebrou dentro do infante. E ao terminar a formatura, já na confraternização com seus familiares e amigos do batalhão, o soldado 464 (número de guerra), sabia que não era ali o seu lugar. E precisou de coragem e personalidade de militar para falar isso para sua jovem pretendente. Ali, entre os arvoredos do bosque da Companhia de Fuzileiros, ele falou que não seria mais militar e que queria trabalhar com microfones e leituras. A namorada ficou pasma. Afinal ela também já sonhava com o futuro marido, a vida conjugal numa vila militar. E o rapaz, que tinha acabado de deixar a adolescência, ainda precisaria voltar pra vida fora do quartel, retomar os estudos, interrompido por causa da opção de servir ao Exército Brasileiro. Ele nem tinha percebido naquele dia… mas o Senhor tinha interrompido os sonhos pessoais daquele garoto e semeado em seu coração, sementes de uma vida em Deus, como um comunicador do evangelho através das inúmeras ferramentas que lhe seriam ofertadas. Sete anos depois de deixar o Exército, o ex-fuzileiro se formou em Comunicação Social, especializado em jornalismo. 25 anos depois de proclamar a primeira leitura naquela missa do dia do soldado, o agora jornalista especializado em telejornalismo, se tornou um missionário consagrado à Comunidade Canção Nova, que tem como carisma, evangelizar através dos meios de comunicação. Essa história é real gente…  e só pode ser contada aqui porque aquele jovem, cheio de sonhos e incertezas, foi dócil suficientemente para trocar seus desejos pelos desejos do Senhor. Mesmo sem perceber que estava fazendo isso. E daqueles versículos da leitura de Isaías, uma frase salta ao meus olhos:”O Senhor será sempre o teu guia e saciará a tua alma nos lugares desertos.”..Acredite… creia nisso e não tenha medo de abandonar seus sonhos, se tiver a certeza de que os Sonhos de Deus te convidam para águas mais profundas. Ahh, além de jornalista, o soldado 464 também é casado há 26 anos com aquela que era e sempre será sua primeira e única namorada. Sinal de que ela também mudou seus sonhos e juntos realizam hoje os sonhos do Senhor por esse mundo tão necessitado.

Deus abençoe!
Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
@WallaceAndrade9

IMG_20160605_101719690Primeiro domingo de junho de 2016. Capelinha de Santo Antônio de Caninhas, Canas-SP. O canto de entrada
anuncia que a santa missa começou. No canto do altar a cortinha de pano se abre e os passos experientesIMG_20160605_104411004_HDR abrem espaço para o celebrante. Um jovem senhor de 84IMG_20160605_105118002_HDR anos de vida e 55 de sacerdócio. Padre Mário Bonatti em plena atividade sacerdotal nem precisa de microfone. A potente voz se espalha por todos os cantos da pequena capela. Talvez 15 ou 20 fiéis felizardos têm a graça de participar desse momento tão intimista com Cristo na Eucaristia e com o amor de quem sabe a cor certa pra pintar a própria vida. Enquanto as leituras eram
proferidas, o padre  grifava trechos importantes a serem usados na homilia. Depois de cinco décadas e meia de missas, ele ainda consegue fazer desse “sacrifício” algo único e original que o atualiza todos os dias. Na consagração eucarística, amor e admiração se misturam como raios misericordiosos que brotam do olhar contemplativo do religioso. O zelo com corpo e sangue de Cristo, é o mesmo daquele neo-sacerdote ordenado em Turin, na Itália. E depois de todo o empenho o ponto alto pra quem distribui Jesus na Eucaristia e pra quem recebe de suas mãos o  fragmento que renova a vida e a alegria de ser católico.  As vezes nem chegamos a metade do caminho de nosso ofício e já estamos cansados…esgotados… desbotados com tudo que enfrentamos. Mas olhar o padre Mário com a mesma alegria de quem está começando seu oficio, depois de mais de meio século de sacerdócio, me faz parar e perceber que na vida não é preciso muito detalhe pra
prosseguir no exercício do dom que Deus nos confia. É preciso apenas celebrar, comemorar, festejar a graça de ser e estar ativo… ser e se sentir útil num mundo onde tantos se esforçam pra não viver de esforço. A cultura do menor esforço continua a apagar talentos e provocar trocas desleais, onde se deixa de fazer o que gosta para fazer o que rende mais dinheiro e descanso. E o que será de nós se num futuro bem próximo, faltar disposição sacerdotal para celebrar missas? Faltar inspiração pra catar palavras e sentimentos, formar frases e versos nesta poesia da vida? Afinal a vida sem Deus e sem  poesia será sempre mais fria e vazia. E sem padres e poetas como vão ficar os que ainda querem trilhar o caminho de quem é feliz com o que faz? O dinheiro será sempre uma necessidade, mas nunca será capaz de substituir a felicidade de quem entendeu que “a vida tem a cor que você pinta.”

Deus abençoe!

Wallace Andrade
Comunidade Canção Nova
@WallaceAndrade9